Pedras angulares
Evocação

A fé de D. Helder Camara (2)

A 7 de Fevereiro de 2009 passam cem anos
sobre o nascimento de D. Helder Camara (1909-1999)

A Igreja

Por que se fala sempre de prática religiosa
e nunca de prática evangélica, feita de amor e de coragem,
de serviço aos outros?
E tarefa das comunidades cristãs
fazer que andem juntas prática evangélica e prática religiosa
até se tornarem uma só e mesma coisa,
como na tarde da Quinta-Feira Santa.

Fala-se muito de crise de autoridade na Igreja,
e mesmo de crise de fé.
Minha experiência pessoal permite-me afirmar
que há uma crise de autoridade, sobretudo
quando as autoridades não têm a coragem de aceitar as consequências
das opções que estudaram, deliberaram, votaram e assinaram.

O moralismo e o jurisdicismo fizeram muito mal à Igreja.
São gravemente responsáveis pela partida de muitos,
pela indiferença de um número ainda maior de outros,
e pela falta de interesse dos que
poderiam olhar a Igreja com simpatia
mas são tomados de desânimo diante do nosso farisaísmo.

Se não estou enganado
nós, homens de Igreja, deveríamos realizar dentro dela
aquelas mudanças que exigimos da sociedade.

Nós, os excelentíssimos,
estamos necessitados de uma excelentíssima reforma!
Basta! de uma Igreja que quer ser servida;
que exige ser sempre a primeira;
que não tem o realismo e a humildade de aceitar a condição
do pluralismo religioso...

Jesus diz que ele é a porta do aprisco, do cercado.
Então, por que temos a tão frequente tentação
de sermos nós mesmos a porta?
É preciso que se passe por nossa porta,
nossas definições, nossa maneira de falar!
Mas, não! Cristo basta! Basta uma porta, Cristo!

Ah! quando chegaremos a ajudar a Igreja de Cristo a libertar-se...
Pois, para ajudar na libertação do mundo,
é preciso ajudar a libertar o papa, a libertar os bispos, a libertar os cristãos...

 

Crentes e não crentes

Os que não crêem têm em comum com os que crêem
que o Senhor acredita neles.

Será a surpresa de cristãos e de católicos
quando virem que não entrarão sozinhos
na casa do Pai...
Porque o coração do Pai
é muito maior que os registos de todas nossas paróquias,
e que o Espírito do Pai
sopra por toda parte,
mesmo lá aonde os missionários ainda não aportaram!

Vocês sabem, não existe um pensamento humano
que não contenha uma parte ao menos da verdade,
uma parcela do pensamento do Criador.

Não, a partilha da esperança
não exige a partilha da fé.
Simplesmente, os crentes
têm mais responsabilidade.

Foto
D. Helder Camara com a irmã Nair (1998)

 

A justiça e a religião

A religião anunciada a homens sem liberdade
se torna necessariamente uma religião fatalista e mágica.

Porque a fome, a miséria,
são consequências das estruturas de injustiça,
o Senhor exige de nós a denúncia das injustiças.
Isso faz parte do anúncio da palavra.

Se a política consiste em fazer que os direitos humanos fundamentais
sejam reconhecidos por todos,
esta política é não somente um direito
mas um dever para a Igreja.

Estou convencido de que
se a caridade consiste, hoje em dia, em ajudar a fazer a justiça,
a grande pobreza é sofrer com o trabalho para a justiça.

Ah! é tão fácil dar,
quero dizer: dar, como uma árvore dá sombra,
do alto de sua grandeza!
Mas, como é difícil dar
sem humilhar, como um irmão que apenas cumpre o seu dever,
que partilha com seus irmãos
o que pertence também a eles.

É preciso viver a religião
e não somente representá-la.

Sempre e em todo lugar do mundo,
se se procura viver verdadeiramente o Evangelho
corre-se o risco de dissabores.

 

O pecado e a oração

Com muita frequência falamos em pecados,
mas prefiro falar em fraquezas.
Quanto mais se conhecem as pessoas por dentro,
melhor se percebe que existe bem mais fraqueza
do que malignidade.

Deus está em toda parte.
Dia e noite, estamos mergulhados no Senhor.
Andamos, falamos, vivemos,
sempre nele.
E Deus está dentro de nós.
Como é bonito olhar a natureza toda inteira
com o Criador que está dentro de nós!

Se Deus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente Pai,
que necessidade tem de nossas preces?
Não é porque rezamos menos
que ele será menos Deus, menos Pai, menos perfeito!
Nós é que temos necessidade de rezar,
porque se não mergulhamos no Senhor,
esquecemos nosso próximo
e nos tornamos então tão inumanos...

Digo a vocês: o ideal é ter as mãos de Marta e o coração de Maria.

O importante não é fazer o impossível para parar o tempo,
mas aproveitar o tempo
para transformá-lo em eternidade.

Como chegará minha irmã, a morte? A ideia que mais me custa aceitar, mas que aceito, é a de que meu corpo sobreviva a meu espírito... Mesmo esta maneira de terminar os meus dias, de antemão, eu a aceito...

 

Artigo relacionado:

A fé de D. Helder Camara (1)

D. Helder Camara

in Helder, o Dom, Editora Vozes

04.02.2009

 

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