Pedras angulares

Eis o tempo favorável

Somos como um mau inquilino que se tem por caridade numa casa que lhe não pertence, que ele não construiu nem pagou, que se oculta e que mesmo por momentos não quer receber o seu legítimo dono. Enfim, estamos sós numa noite de tempestade nesta nossa casa solitária e desolada e eis que, de repente, alguém bate! Não é a porta vulgar, é esta porta que julgávamos condenada para sempre, mas não há engano, tocam mesmo, tocaram! Tocaram em nós, bateram-nos e isso fez-nos mal.

Quem tocou? Foi aquele que vem como um ladrão no meio da noite. Aquele do qual foi escrito: Eis o Esposo que vem, sai ao seu encontro! E nós ouvimos, palpitando. Provavelmente só tocará uma vez. Talvez se atire contra a porta toda a noite, como muitas vezes ouvimos até de manhã o postigo que não deixa de bater. Mas é tão difícil levantarmo-nos e tirar os taipais a essa velha porta! Mas ela está presa com dois ferrolhos, um do que é móvel e o outro do que é inerte: um chama-se mau hábito e o outro má vontade. Quanto à fechadura, é o nosso segredo pessoal. A chave perdeu-se. Será preciso óleo para fazê-la andar. E depois, o que sucederia se se abrisse a porta? A noite, o grande vento primitivo que sopra sobre as Águas, alguém que não se vê mas que nos permitiria estar mais agradavelmente em casa. Espírito de Deus, não entres, tenho medo das correntes de ar!

E todavia tocaram! Mas como? Nas nossas afeições, na nossa fortuna, na nossa carne. Deus não toca apenas, empurra. Às vezes um empurrão violento, uma prova a fundo da nossa resistência, outras vezes uma pressão insistente, penosa, contínua. Mas ele não só empurra, como bate (pulso, pulsação) tal como as artérias à volta duma ferida contusa. Ele toca com um desses toques súbitos que fazem parar o coração. Ou simplesmente mistura-se a cada um dos batimentos deste coração que ele fez e que não deixa de ir fazendo. Ele não deixa de nos auscultar. E sempre, por toda a parte, encontra esta parede dura e inerte. Ah, Senhor, vamos tentar abrir-Te, sabemos quanto Te custa bater assim.

Paul Claudel

26.02.2009

 

Subscreva

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

Porta
Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada