Pedras angulares
Unidade

Esta é a hora da Igreja

Esta é a hora da Igreja. O mundo de hoje - uno e que tende a unificar-se - precisa de um laço, de um vinculo para que a unidade conquistada subsista, para que a unificação se complete. E só a Igreja pode constituir esse laço, esse vínculo, Nenhuma outra força, nenhuma outra ideologia, nenhuma outra religião estão ou estarão à altura de tão primacial função - é lícito afirmá-lo sem qualquer espécie de partidarismo...

De facto, esta unidade ou se realizará no amor ou não passará, como tantas outras, de um vocábulo fértil em equívocos trágicos. A Igreja não pode ser para os homens, apesar da nossa indignidade, uma causa de universal decepção. Nestas condições, quem não vê que aos cristãos deste começo da Idade atómica, se lhes exige maior poder de acolhimento e desprendimento, maior receptividade ao Outro e maior doação ao Outro que noutras eras?

Esta é a hora da Igreja. Neste mundo em transformação, neste mundo em que as imagens e a realidade que as imagens reproduzem mudam com assombrosa rapidez, é necessário que exista um órgão Vivo para assegurar a continuidade, para conservar aquilo que foi sempre o eterno no homem - e o transmitir, íntegro, aos séculos sucessivos, E buscando, mesmo só à luz da pura observação, não se nos depara outro órgão melhor que a Igreja, a um tempo tão enraízadamente tradicional e tão profundamente actual, com tamanha força de conservação e tamanho poder de adaptação e assimilação...

Esta é a hora da Igreja. Vivemos no crepúsculo de um mundo dessacralizado, profanizado, de um mundo em vias de liquidação e que, talvez por isso, se dessacraliza mais ainda. Simultaneamente, sentimos anunciar-se a aurora de um outro mundo diferente. Ora neste tempo intervalar - tempo de crise no significado mais original de acção descriminadora de valores - as circunstâncias exigem um valor pessoal irrecusável: intensidade de vida sobrenatural vivida, cultura ampla e sólida, competência profissional, energia de decisão, iniciativa criadora, Só assim as trevas poderão ser iluminadas, só assim se poderá agir junto da frouxa vontade dos homens, só assim se poderá contribuir eficientemente para a modificação das estruturas.

P. Manuel Antunes

in Do Espírito e do Tempo

30.01.2009

 

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