
O preço da alma
Toma o demónio pela mão a Cristo, leva-o a um monte mais alto que essas nuvens, mostra-lhe dali os reinos, as cidades, as cortes de todo o mundo e as suas grandezas, e diz-lhe desta maneira, Haec omnia tibi dabo si cadens adoraveris me. Tudo isto te darei, se dobrando o joelho me adorares. Há tal proposta? Vem cá, demónio, sabes o que dizes, ou o que fazes? É possível que prometa o demónio um mundo por uma só adoração? É possível que ofereça um mundo por um só pecado? É possível que não lhe pareça muito ao demónio dar um mundo só por uma alma? Não; porque a conhece; e só quem conhece as coisas, as sabe avaliar. Nós os homens, como nos governamos pelos sentidos corporais e a nossa alma é espiritual, não a conhecemos, e como não a conhecemos, não a estimamos, e por isso a damos tão barata. Porém o demónio, como é espírito, e a nossa alma também espírito, conhece muito bem o que ela é, e como a conhece, estima-a tanto, que do primeiro lanço oferece por uma alma o mundo todo; porque vale mais uma alma, que todo o mundo. Vede se as tentações do demónio que nos servem de ruína, nos podem servir de exemplo. Aprendamos sequer do demónio a avaliar e a estimar nossas almas. Fique-nos, cristãos, que vale mais esta alma que todo o mundo. E é tão manifesta verdade esta, que até o demónio, inimigo capital das almas, a não pôde negar.
As coisas estimam-se e avaliam-se pelo que custam. Que lhe custou a Cristo uma alma, e que lhe custou o mundo? O mundo custou-lhe uma palavra: Ipse dixit, et facta sunt; uma alma custou-lhe a vida e o sangue todo. Pois se o mundo custa uma só palavra de Deus e a alma custa todo o sangue de Deus, julgai se vale mais uma alma, que todo o mundo. Assim o julga Cristo, e assim o não pode deixar de confessar o mesmo demónio. E só nós somos tão baixos estimadores de nossas almas, que lhas vendemos pelo preço que vós sabeis...

Duccio di Buoninsegna (c. 1308-1311)
... Todas as coisas deste mundo têm outra, por que se possam trocar. O descanso pela fazenda, a fazenda pela vida, a vida pela honra, a honra pela alma; só a alma não tem por que se possa trocar. E sendo que não há no mundo coisa tão grande, por que se possa trocar a alma, não há coisa no mundo tão pequena e tão vil, por que a não troquemos e a não demos. Ouvi uma verdade de Séneca, que por ser de um gentio folgo de a repetir muitas vezes: Nihil est homini se ipso vilius: não há coisa para conosco mais vil que nós mesmos. Revolvei a vossa casa, buscai a coisa mais vil de toda ela, e achareis que é vossa própria alma. Provo. Se vos querem comprar a casa, o canavial, o escravo ou o cavalo, não lhe pondes um preço muito levantado e não o vendeis muito bem vendido? Pois se a vossa casa, e tudo o que nela tendes, o não quereis dar, senão pelo que vale, a vossa alma, que vale mais que o mundo todo, que custou tanto como o sangue de Jesus Cristo, porque a haveis de vender tão vil e tão baixamente?
Padre António Vieira
27.02.2009
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