
Santo Ireneu
Ireneu é originário da Ásia Menor, onde nasceu por volta de 140-160, provavelmente em Esmirna, pois na sua carta ao presbítero romano Florino diz ter escutado na primeira juventude os sermões do bispo Policarpo de Esmirna. Por razões que desconhecemos, deixou a Ásia Menor e foi para as Gálias. No ano 177, na perseguição de Marco Aurélio, e na qualidade de presbítero de Lião (Lyon), foi enviado pelos mártires daquela cidade ao Papa Eleutério no papel de mediador, em relação a uma questão referente ao montanismo. Mais tarde, sucedeu ao bispo Fotino. Como bispo de Lyon consagrou-se à evangelização dos Celtas; combateu particularmente a falsa gnose. Em 190 voltou a Roma quando o Papa Vítor quis impor o costume pascal admitido pelas igrejas de Roma e lançou a excomunhão sobre os bispos da Ásia Menor. Consequentemente, Ireneu exortou o Papa e os bispos à reconciliação. E além destas informações nada mais se sabe sobre o resto da sua vida.
Personalidade e importância
Ireneu é um testemunho fundamental não só do seu século, mas da genuína tradição da Igreja. Depois de Agostinho, é o segundo autor mais citado nos documentos do Vaticano II.
Ele é o último “apostólico” e o primeiro teólogo, surgindo como ponte entre a idade apostólica e sub-apostólica e a Igreja implantada já nas grandes cidades do império. É ainda um homem “apostólico”, na medida em que respirou do mesmo ambiente de Policarpo e outros presbíteros, discípulos dos apóstolos.
Ireneu é um homem de Igreja, mais que um teórico. É um pastor equilibrado, amante da paz e integridade doutrinal e eclesial. Não escreve movido por um interesse científico, mas por intuito pastoral e prático: defender a verdade revelada contra as deformações dos hereges, expondo-a com clareza, coerência e profundidade. Pode com justiça afirmar-se que Ireneu “matou o gnosticismo e fundou a teologia cristã”.
É um operador de paz e o pioneiro do diálogo ecuménico. Assim o apresenta Eusébio, ao recordar o seu papel mediador entre o papa Victor (190-191) e os bispos asiáticos, já ameaçados de excomunhão, por não acatarem a tradição romana relativa à data da celebração pascal. Em tal contexto, Ireneu escreveu uma carta ao Papa Victor, em nome das Igrejas da Gália, na qual “respeitosamente o exortava, com muitas razões, a não excomungar inteiras Igrejas de Deus, porque fiéis a uma antiga tradição” (HE V,24,11). Ireneu (nomen est omen) conseguiu, com a sua sabedoria e mansidão, estabelecer a paz entre os contendentes: “Ireneu mereceu o seu nome de ‘pacífico’, tendo sido um verdadeiro pacificador” (HE V,24,18).
Na sua época, a Igreja já tem a consciência clara de que a revelação divina se completou em Cristo e foi entregue à Igreja para que esta a comunicasse às nações. Esta obra de propaganda missionária está já avançada, como o demonstram a sua própria vida e obra, a qual se refere à “tradição dos apóstolos manifesta em todo o mundo” (Adv. haer. III,3,1).
Nesta época de grande vitalidade cristã e missionária surgem novas questões que nem os Padres apostólicos nem os apologistas se tinham colocado:
- Onde se encontra realmente a Revelação divina, já que circulam múltiplos escritos entre as comunidades: quais os válidos para todos e normativos para a Igreja?
- Uma vez respondida esta questão, uma outra emerge: como interpretar correctamente esses documentos, já que há grupos, sobretudo os gnósticos, que interpretam as fontes ao seu modo?
- Se é à Igreja que compete tal interpretação, e perante as divergências entre as diversas Igrejas e movimentos heterodoxos, qual Igreja detém legitimamente estes textos e quais os critérios para uma interpretação correcta?
- Outro problema que continua em aberto dizia respeito à relação com os judeus e os pagãos, uma vez que ambos são reconhecidos como destinatários do Evangelho. Que posição tomar quanto às Escrituras dos judeus, e quanto à cultura e religião gregas?
A obra de Ireneu insere-se neste quadro de desafios colocados à Igreja cada vez mais inserida no Império. As respostas que deu permanecerão normativas para o futuro da Igreja, nomeadamente:
- Contribuindo para a fixação do cânon das Escrituras;
- Amadurecendo e consolidado os princípios da leitura cristã do AT;
- Desenvolvendo alguns princípios de compreensão da Revelação Divina: noção de “economia”, de “pedagogia-habituação”, a história como historia salutis;
- Estabelecendo o princípio da regula fidei: as Escrituras devem ser interpretadas à luz da fé baptismal professada por toda a Igreja;
- Confirmando o princípio da sucessão apostólica ininterrupta como critério eclesial;
- Elaborando e pondo em prática critérios de evangelização, numa dialéctica de aceitação e rejeição dos valores da cultura pré-existente.
Luta anti-herética e defesa da verdadeira gnose
Contra o dualismo (teológico, AT-NT, cósmico, antropológico...) gnóstico, Ireneu não se cansará de defender a unidade de Deus e da sua economia:
“Não indagues sobre o que se situa acima do demiurgo, porque não encontrarás nada. O teu criador é sem limites... não imaginar um outro Pai acima dele” (II,25,4).
“Não existe um outro Deus além daquele que nos criou e modelou, e são sem fundamento as propostas daqueles que dizem que o nosso mundo foi feito através da mediação dos anjos ou qualquer outra potência de um outro Deus” (IV,32,1).
Desta afirmação da unidade de Deus conclui-se a unidade da sua obra salvífica:
"Há um só Deus, um só Verbo, um só Espírito, e uma só salvação para todos os que acreditam nele. Há uma salvação comum e há um só Deus. Um só Filho que cumpre a vontade do Pai e um só género humano no qual se cumprem os mistérios de Deus” (IV,6,7).
A unidade de Deus implica a unidade das Escrituras:
“Através da polifonia das palavras escutaremos em nós um única melodia harmoniosa dirigida a Deus que fez todas as coisas” (II,28,3).
Os gnósticos desenvolveram um conceito de tradição segundo a qual “a verdade é transmitida per vivam vocem”. Por isso, não só rejeitam as Escrituras, como negam a Tradição (III,2,2). Contra estes Ireneu defende que toda a verdade está nas Escrituras e não restam “segredos” por revelar fora delas. Defende por isso as Escrituras que devem ser lidas à luz da Regra de Fé. Tradição e Escritura são, pois, inseparáveis. A norma de fé para os católicos é a doutrina transmitida pelos apóstolos e conservada na Igreja pela sucessão apostólica e episcopal ininterrupta. A Tradição apostólica é o ensino de Cristo recebido pelos apóstolos, ministrado pelos apóstolos e conservado pela Igreja. Daí a importância da sucessão dos bispos:
“O Senhor de todas as coisas deu aos seus apóstolos o poder de anunciar o Evangelho e é por eles que nós conhecemos a verdade, quer dizer, a doutrina do Filho de Deus… Pois não foi por intermédio de outros que nós conhecemos a economia da nossa salvação, mas por aqueles por quem o Evangelho chegou até nós. Este Evangelho foi, primeiramente, pregado por eles e depois transmitido nas Escrituras, para ser fundamento da fé” (III,1,1).
“Nós apelamos a esta tradição que vem dos apóstolos (traditio quae est ab apostolis) e que se conserva na Igreja (in ecclesia custoditur) pelas sucessões (per successiones) dos presbíteros” (II,2,2).
“A tradição dos apóstolos manifesta em toda a parte do mundo, podem vê-la em cada Igreja todos aqueles que desejam ver a verdade, e nós podemos enumerar os bispos estabelecidos pelos apóstolos nas Igrejas e os seus sucessores até nós” (III,3,1).
A regra da fé
A regra da fé («regula fidei») é o cânone imutável da verdade que poderíamos identificar com o magistério vivo da Igreja, que conserva viva, sem alteração e, sob a acção do Espírito, permanente mente jovem e actual o depósito da fé. Ela foi a constante orientadora da obra de Ireneu. Na sua Epídeixis representa assim o cânon ou resumo da fé cristã:
“Eis a regra da nossa fé: Deus Pai, incriado, Criador do universo. Este é o primeiro artigo da nossa fé. O segundo é o Verbo de Deus, Filho de Deus, Jesus Cristo nosso Senhor, que apareceu aos profetas segundo o desígnio de suas profecias e segundo o estado das economias do Pai; por meio d’Ele foi criado o universo. Além disso, no final dos tempos, para recapitular todas as coisas, fez-se homem entre os homens, visível e palpável, para destruir a morte, para manifestar a vida e restabelecer a comunhão entre Deus e o homem e como terceiro artigo, O Espírito Santo pelo qual os profetas profetizaram e os Pais aprenderam o que concerne a Deus e os justos foram conduzidos pelo caminho da justiça e que no final dos tempos foi derramado de uma maneira nova sobre nossa humanidade para renovar o homem em toda a terra na perspectiva de Deus.”
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Fr. Isidro Lamelas, ofm
04.07.2008
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