
O amor a si mesmo plenamente se basta
O amor a si mesmo plenamente se basta; quando entra em nós, envolve nele todos os outros sentimentos. A alma que ama, ama e nada sabe de outras coisas.
Muitas vezes li que Deus é Caridade, nunca li que fosse honra ou dignidade. Não que Deus desdenhe a honra ou respeito; quer ser temido como soberano, honrado como pai, amado como esposo. Mas qual destes sentimentos domina os outros? O amor. O temor e a honra são despidos de graça e rejeitados por Deus se não forem adoçados pelo mel do amor. Pelo contrário, o amor basta-se, por si mesmo e em si mesmo é agradável, é para si mesmo o próprio mérito, é para si mesmo a própria recompensa.
O amor não procura fora de si a sua razão de ser e o seu fim. O fruto do amor é o amor; amo porque amo, amo para amar. Muito grande coisa é o amor! De todos os movimentos de alma, é o único pelo qual a criatura pode, por assim dizer, agir a par do Criador. Se Deus se irrita contra mim, acaso posso eu responder-lhe por ira semelhante? Se Ele me julga, acaso posso eu julgá-lo? Quando ordena, é preciso que eu obedeça e não tenho, por meu lado, nenhum direito de exigir dEle obediência.
Vede como tudo doutro modo se passa quando se trata do amor. Quando Deus ama, mais não quer que uma só coisa: ser amado; só ama para que O amem, sabendo que o amor tornará felizes todos os que O amarem.
S. Bernardo
Sermones in Cantica, 83, 3-4, P.L. CLXXXIII, 1182-1183
03.09.2008
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