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Pentecostais, carismáticos e evangélicos: Papa faz “mea culpa” e apela à aproximação

O constante crescimento destas novas expressões de vida cristã [pentecostais, carismáticos, evangélicos] representa um fenómeno muito significativo, que não pode ser negligenciado. As formas concretas das comunidades inspiradas nesses movimentos estão muitas vezes ligadas ao contexto particular geográfico, cultural e social em que se desenvolvem, e por isso esta minha breve reflexão não terá presente situações individuais, mas referir-se-á à totalidade do fenómeno.

Antes de tudo, temos o dever de discernir e reconhecer a presença do Espírito Santo nessas comunidades, procurando construir com elas laços de autêntica fraternidade. Isso será possível multiplicando as ocasiões de encontro e superando a recíproca desconfiança, motivada muitas vezes pela ignorância ou pela falta de compreensão.

E eu gostaria de vos oferecer uma experiência pessoal e fazer um “mea culpa”. Quando era [superior] provincial [da Companhia de Jesus, na Argentina], proibi aos Jesuítas entrar em relações com essas pessoas – com o Renovamento Católico – e disse que, mais do que uma reunião de oração, parecia uma “escola de samba”. Depois pedi desculpa, e como bispo tive uma bela relação com eles, com a missa na catedral… Mas é preciso um caminho para compreender.



O facto de não poucos fiéis católicos serem atraídos por estas comunidades é motivo de atrito, mas pode tornar-se, da nossa parte, motivo de exame pessoal e renovação pastoral



Entre as várias atividades partilháveis estão a oração, a escuta da Palavra de Deus, o serviço aos carenciados, o anúncio do Evangelho, a defesa da dignidade da pessoa e da vida humana.

Numa fraterna frequência recíproca, nós, católicos, poderemos aprender a apreciar a experiência de muitas comunidades que, muitas vezes de maneiras diferentes daquelas a que estamos habituados, vivem a sua fé, dão louvor a Deus e testemunham o Evangelho da caridade.

Ao mesmo tempo, serão ajudadas a ultrapassar preconceitos sobre a Igreja católica e a reconhecer que no tesouro inestimável da tradição, recebida dos apóstolos e guardada ao longo da história, o Espírito Santo não se extinguiu ou foi sufocado, mas continua a operar eficazmente.

Estou consciente de que, em muitos casos, as relações entre católicos e pentecostais, carismáticos e evangélicos não são fáceis. O repentino aparecimento de novas comunidades, ligadas à personalidade de alguns pregadores, contrasta fortemente com os princípios e a experiência eclesiológicas das Igrejas históricas e pode ocultar a insídia de ser-se transportado pelas ondas emocionais do momento ou de delimitar a experiência de fé em ambientes protegidos e seguros. O facto de não poucos fiéis católicos serem atraídos por estas comunidades é motivo de atrito, mas pode tornar-se, da nossa parte, motivo de exame pessoal e renovação pastoral.


O Espírito Santo é sempre novidade. Sempre. E temos de nos habituar. É novidade que nos faz compreender as coisas mais profundamente, com mais luz, e faz-nos mudar muitos hábitos, inclusive hábitos disciplinares



Com efeito, muitas são as comunidades que, inspiradas nesses movimentos, vivem autênticas experiências cristãs em contacto com a Palavra de Deus e na docilidade à ação do Espírito, que conduz a amar, testemunhar e servir. Mesmo essas comunidades, como ensinou o Concílio Vaticano II, não são, de maneira nenhuma, privadas de significado e valor no mistério da salvação.

Os católicos podem acolher essas riquezas que, sob a orientação do Espírito Santo, contribuem não pouco para o cumprimento da missão de anunciar o Evangelho até aos confins da Terra.

Efetivamente, a Igreja cresce na fidelidade ao Espírito Santo quanto mais aprende a não o domesticar, mas a acolher sem medo e ao mesmo tempo com sério discernimento a sua fresca novidade.

O Espírito Santo é sempre novidade. Sempre. E temos de nos habituar. É novidade que nos faz compreender as coisas mais profundamente, com mais luz, e faz-nos mudar muitos hábitos, inclusive hábitos disciplinares. Mas Ele é o Senhor da novidade. Jesus disse-nos que Ele ensinar-nos-á; recordar-nos-á aquilo que Ele nos ensinou, e depois ensinar-nos-á. Temos de estar abertos a isto.

Portanto é preciso evitar permanecer em posições estáticas e imutáveis, para abraçar o risco de aventurar-se na promoção da unidade: com fiel obediência eclesial e sem extinguir o Espírito. É o Espírito que cria e recria a novidade da vida cristã, e é o mesmo Espírito a reconduzir todos à unidade verdadeira, que não é uniformidade.

Por isso, abertura de coração, procura da comunhão e discernimento atento são as atitudes que devem caracterizar, segundo o Espírito, as nossas relações.


 

Papa Francisco
Excertos do discurso aos participantes na assembleia plenária do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos
Vaticano, 28.9.2018
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 28.09.2018

 

 
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