Prémio de Cultura «Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes» - 2011
O prémio foi entregue no dia 17 de junho, em Fátima, durante a 7.ª Jornada da Pastoral da Cultura.
Palavra de D. Manuel Clemente na entrega do Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes 2011 a Eurico Carrapatoso
Não faltam a Carrapatoso os créditos do seu ofício, a formação superior e erudita, o reconhecimento nacional e internacional. Mas tudo isto não chegaria a ser propriamente "cultura". Esta requer densidade humana, correspondência alargada, investigação que avance e faça avançar, que puxe e não descole inteiramente. Onde nos reconheçamos, mesmo que nos descubramos mais além, pela mão dum navegador primeiro, corno aqueles que Sophia poetizava assim: "navegavam com o mapa que faziam". Para avançarmos todos.
A música de Deus
A Igreja Portuguesa premeia um maravilhoso criador contemporâneo, o compositor Eurico Carrapatoso, que tem assinado um reportório de invulgar qualidade, num país como o nosso que valoriza ainda pouco o grande contributo cultural e humano que as artes, e nomeadamente as artes musicais, representam. É de toda a justiça iluminar um percurso que, além do mais, sempre tem tentado um diálogo com o nosso cancioneiro tradicional e tem procurado, de forma inspirada, a voz de poetas emblemáticos Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner ou António Manuel Pires Cabral.
Igreja Católica distingue compositor Eurico Carrapatoso com prémio "Árvore da Vida"
É uma distinção que prezo especialmente, pois consagra, de qualquer forma, a dimensão do insondável que eu sempre desejei, certamente, e seguramente, tentei, inocular naquilo que penso, que invento, que faço e que escrevo», realça Eurico Carrapatoso.
Justificação do Júri - Texto integral
Mas não apenas a tradição musical é revisitada por esta obra singular: o diálogo que tem sabido manter com autores do nosso cânone literário (de Bernardo Soares a Sophia de Mello Breyner Andresen, de Manuel Teixeira Gomes a Matilde Rosa Araújo, Alice Vieira, A.M. Pires Cabral, entre outros) e, curiosamente, com a própria paisagem, tanto a geográfica como aquela mental, do nosso território, fazem dela uma preciosa e inspirada meditação sobre Portugal e o nosso destino comum.
Entrevista: Eurico Carrapatoso e o insondável
Poder-se-ia dizer que a música parte de ideias simples, de processos técnicos claros. A gramática é transparente. A concepção não pretende ser alta como o Everest. Nem sequer como a Serra da Estrela. Chega-lhe bem ter a altitude da minha amada Serra de Bornes: mais pequena, mas minha. Mais do que no tempo-curto das paixões humanas, tentei lançar estas minhas obras no tempo-longo, naquele tempo que emana do abismo dantesco sobre o Douro no Penedo Durão, perto de Freixo de Espada à Cinta, ou que ressalta dos magalitos do Cromeleque dos Almendres, ali ao pé de Évora, que estão no mesmo sítio há quatro milénios e lá permanecerão outros tantos.

Eurico Carrapatoso
Foto: João Tuna







