Projecto cultural
Entrevista

D. Gianfranco Ravasi: Quero que os grandes artistas voltem a olhar para os temas religiosos

É o ministro do Vaticano para a Cultura. O arcebispo Gianfranco Ravasi, de 65 anos, biblista, está preocupado em pôr em diálogo a ciência e a fé, diz que a única voz em defesa dos que chegam à Europa é a das igrejas cristãs. E que a Igreja precisa de uma linguagem mais imediata, quase súbita. Da centena e meia de livros que já publicou, há dois títulos publicados em português: A Bíblia - Resposta às Perguntas Mais Provocadoras (ed. Paulus) e Via Sacra no Coliseu (Paulinas). Na sua passagem por Portugal deu esta entrevista ao Público.

 

São João Damasceno dizia: "Se encontrares um pagão, leva-o a uma igreja ornamentada para ver os ícones, a pintura, para mostrar a fé". Hoje já não se pode fazer isto?

Pode fazer-se ainda, apenas na base do passado. O grande património da tradição artística ocidental é expressão, sobretudo, da fé e da Bíblia. No coração das cidades de Portugal está sempre a catedral e museus feitos com obras e peças de temas religiosos.
Foi na questão do presente que eu quis começar a intervir. Não tanto para adoptar formas artísticas de artesanato, que têm a sua dignidade, e construir uma nova linguagem sobre essas artes menores. Quero que a grande arte e os grandes artistas, nomes fundamentais da arte contemporânea que não se interessam por temas religiosos, voltem de novo a olhar para lá da fronteira. Será um benefício para nós, mas também para eles, porque perderam grandes temas, grandes símbolos, grandes narrativas. Não se preocupam senão com interpretar o real, tantas vezes esgotado ou, pelo menos, ligado sobretudo à exterioridade ou à ausência das grandes perguntas.

 

E uma realidade feia, por vezes?

Sim, por vezes, com a violência, a ruptura ou mesmo a pura materialidade e o realismo. Por isso será também um serviço que lhes faremos.

 

Mas há muita gente na Igreja que vê a arte contemporânea como algo estranho, feio, escandaloso, mesmo obsceno...

É verdade. Precisamente por isso, é necessário começar uma viagem, que será longa, para tentar tecer de novo o diálogo, depois do divórcio que houve com os artistas. Mas também para fazer compreender ao fiel que entra numa igreja a necessidade de uma nova linguagem, que não é apenas a do artesanato, de pinturas modestas de artistas locais, mas que é também a tentativa de fazer alguma coisa que fique na história.
Isto acontece já na arquitectura, com igrejas feitas por grandes arquitectos - algumas mesmo belas igrejas. Inicialmente, os fiéis têm perante elas alguma estranheza, mas depois, progressivamente, entram e percebem a beleza de uma igreja feita por Álvaro Siza, Richard Meier, Mario Botta, Renzo Piano, Tadao Ando.

 

Falta a música, a pintura...

Sim, faltam as artes, a escultura, um pouco a literatura...

 

A experimentação na arte contemporânea não é, então, estranha?

Não. Fazer obras para o culto obriga a ter em conta o contexto. Começaremos com obras não necessariamente já litúrgicas, mas que sejam obras espirituais.

 

De reflexão humana?

Sim, sobre os grandes símbolos e grandes temas. Penso escolher, com uma comissão criada para o efeito, artistas que tenham já alguma sensibilidade. Alguns nomes em que penso: Bill Viola, dos Estados Unidos, Anish Kapoor, da Índia, Cunnellis, da Europa, artistas de grande nível e que têm já dentro de si o desejo de interrogar-se, mas que não afrontaram ainda temas estritamente religiosos.

 

Goethe dizia que o cristianismo é a língua materna da Europa. O que queria a Igreja com o debate sobre a questão de Deus no Tratado Constitucional europeu?

Há uma consideração que, para mim, justificaria, de um ponto de vista laico, a menção às raízes cristãs: se virmos a arte de quase dois mil anos, três quartos estão impregnados de elementos ligados à cristandade. É verdade que, para o direito, há o influxo do mundo romano, para a filosofia há o contributo do mundo grego, e houve também o influxo do iluminismo e do socialismo. Houve outros, mas não há dúvida de que o cristianismo é a língua materna da Europa.
Nieztsche dizia: "Inexoravelmente, mesmo sendo contra, os Salmos, para mim, são a pátria. Petrarca é terra estrangeira".

 

Mas o debate não ficou por aí...

Não, houve uma outra dimensão, que criou dificuldades: a de reconhecer que a cultura cristã também incidiu na formação do homem europeu, mesmo do ponto de vista ético e social. Isto não foi aceite, por se pensar que se iria afirmar uma primazia da religião sobre a política.
Mas tomemos o exemplo do Decálogo: é um texto de moral religiosa, que exprime de modo iluminado a antropologia do Ocidente, quase a lei natural. Não se pode dizer que a Bíblia e o Evangelho, com o tema do amor, sejam categorias que não tenham influído e não continuem a influir positivamente na sociedade contemporânea.
Creio que se deve reconhecer que, social e moralmente, o «ethos» europeu tem esta presença que deve ser legitimamente afirmada. Tanto que algumas categorias que estavam em discussão eram de matriz cristã: a liberdade, a dignidade da pessoa, a paz.

 

Não se tratava de, em nome do cristianismo, recusar o outro - por exemplo, o islão?

Não. Esse é um outro aspecto. A característica das grandes culturas não é a de criar um mínimo denominador comum - ou seja, escolher o mínimo para nos pormos de acordo - que leva, no final, a que não haja cultura.
A grandeza da cultura não está no duelo, mas na identificação. Na música existe o dueto, feito por um soprano e um baixo. O soprano não deve imitar o baixo, nem este o soprano. Cada um deve ter a sua voz e a própria identidade. Senão, não há harmonia. Chegaremos a uma Europa que terá identidades diferentes, na diversidade.

 

Mas é hoje, ainda, uma Europa que fecha portas ao estrangeiro...

Esse é o drama: continuando a renegar algumas identidades religiosas (sem esquecer os erros que o cristianismo fez, do ponto de vista histórico), ficará mais bárbara. Tanto assim que a única voz em defesa do acolhimento é a das igrejas cristãs. Um pouco mais de cristianismo tornará [a Europa] mais cívica ao nível dos valores.

 

Uma das prioridades do Conselho Pontifício para a Cultura é o diálogo entre fé e ciência. Há a ideia de que a Igreja está sempre contra o progresso científico: Galileu, Darwin, agora a bioética...

São ideias que é preciso eliminar. Claro que houve culpas [da Igreja], mesmo se, por exemplo Galileu não foi condenado, porque o tribunal não se pôs de acordo e o Papa não assinou a sentença. A condenação de Galileu nunca existiu, do ponto de vista formal, ele nunca esteve na prisão, viveu sempre em sua casa e continuou a sua pesquisa. Mas Galileu tinha razão e abalara as concepções dos teólogos de Roma.
Não se deve temer restabelecer o confronto, mesmo que seja duro. Mas restabelecê-lo com rigor, guardando cada um a sua própria fronteira. Chegaremos ao ponto de cada lado ser capaz de fazer a sua análise sem ter a ilusão de querer ser o único a interpretar o homem de modo absoluto e total.

 

Há diferentes visões do homem?

Deve estar-se pronto a reconhecer que uma visão total do homem é também própria da filosofia (não necessariamente da filosofia cristã), da teologia, da antropologia cultural, da psicologia, da sociologia, de outras ciências humanas. E também é próprio da fé.
Esse deveria ser o primeiro resultado: fazer com que cada um escute o outro, sem tentar anular o outro ou ironizar sobre ele. Há vários olhares, que têm o mesmo direito a ser escutados. Faremos um grande congresso sobre a evolução, precisamente para demonstrar como se deve dialogar.

 

Uma das questões que refere com insistência é a da linguagem. Como pode a Igreja falar da mensagem cristã neste tempo vertiginoso?

É preciso ter confiança no homem. Pascal dizia que o homem supera infinitamente o homem. A cultura contemporânea procura contentar-se com o mínimo. O nosso objectivo é, pelo contrário, levar o homem a fazer a si mesmo as grandes perguntas, a interrogar-se sobre a vida e a morte, o bem e o mal, a outra vida, a dor e o amor, o verdadeiro e o falso, a justiça.
Para isto, não podemos usar apenas a velha linguagem. Devemos manter o património, claro, porque é o que possibilita o aprofundamento. Mas, para permitir a dúvida e a pergunta, precisamos de uma linguagem que seja mais imediata, quase súbita. Daí a importância de uma nova gramática da comunicação, que tenha em conta as novas linguagens para levar a pessoa a um nível mais elevado.
Não importa que depois não haja resposta, mas é uma desgraça se uma pessoa não se interroga nunca sobre a vida.

 

Já se referiu a livros contemporâneos sobre o ateísmo como "livretos", por comparação a Nietzsche. Como fala hoje a Igreja com o ateísmo?

Esse é um problema grave. Falar com o autêntico ateísmo é uma tarefa difícil. Verdadeiros ateus como Nietzsche são pouquíssimos. Refiro-me aos que propõem uma visão do mundo e da vida realmente alternativa.
[Muitos dos actualmente mais conhecidos] procuram sempre uma frase ou a Bíblia lida de modo fundamentalista, para dizer que ainda acreditamos nestas coisas, sem se esforçarem em fazer hermenêutica. Diria que os últimos ateus foram os grandes pensadores marxistas e liberais...

 

Ernst Bloch...?

Bloch, sim. Penso também em alguns como [Jean-Paul] Sartre, [Albert] Camus ou grandes espíritos laicos em Itália como Norberto Bobbio. Eram grandes laicos que se batiam contra o poder clerical, mas que tinham grandes visões.
Os de agora são ateus que reflectem o clima do ateísmo actual, da indiferença. Tivemos a sociedade com Deus, depois a sociedade contra Deus, agora a sociedade sem Deus. É um problema, mesmo para alguns crentes, que acreditam em Deus mas para os quais acreditar ou não não faz variar muito.
Dialogar com esses grandes pensadores constrangia-nos a reflectir e a reconstruir a nossa própria visão. Com os actuais, é um jogo de pergunta-resposta, em que se responde de maneira apologética.

 

No Génesis, diz-se que Deus criou o homem à sua imagem, criando-o homem e mulher. Não há um problema de falta de fidelidade da Igreja a esta palavra, em relação ao papel da mulher?

João Paulo II afirmou que é preciso reencontrar o papel da mulher, recordando que a presença feminina é seguramente mais activa que a do homem. É preciso recolocar o problema.
Deve ter-se em conta que não se deve resolver o problema necessariamente de modo clerical. O referente principal na Igreja não é o padre, é o baptizado. Se nos reportarmos a essa centralidade, na pluralidade das expressões, é preciso dar à mulher uma função de relevo. Será um exercício laborioso, num caminho ainda longo, por parte do clero, das mulheres, dos homens e da comunidade eclesial.

Entrevista conduzida por António Marujo

in Público, 04.09.2008

05.09.2008

 

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

D. Gianfranco Ravasi







































































































































































































































































Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada