
Eucaristia e Cultura
Excertos da intervenção do Cardeal Telesphore Toppo, Arcebispo de Ranchi (Índia) no 49.º Congresso Eucarístico Internacional. O título da intervenção foi “Eucaristia e Missão”.
A Missão da Igreja e o pluralismo religioso
Um dos mais surpreendentes fenómenos no mundo actual é o crescimento e o reflorescimento de outras religiões mundiais. De forma inesperada, elas vieram para o centro do palco: Islão, Budismo, Hinduísmo, Judaísmo e Cristianismo e, com mais energia, os 400 milhões de fortes grupos Pentecostais. É claro para todos que a Igreja tem de passar por uma mudança completa na sua atitude para com elas, que uma nova abordagem é necessária. Se, no passado – até ao Concílio Vaticano II (1962-1965) – ela os considerava frequentemente numa perspectiva negativa, hoje ela é chamada pelo Espírito a construir uma relação de diálogo com elas. o diálogo inter-religioso tornou-se parte essencial da sua missão de evangelização no mundo moderno.
A Igreja tem de partilhar a sua própria rica experiência de Deus em Cristo, de preferência a assumir uma aproximação doutrinal negativa a essas religiões. A experiência de Cristo na Eucaristia, que congrega todos o spovos do mundo numa grande família através do seu amor, é um factor muito importante na sua missão no contexto multi-religioso no mundo. É Jesus na Eucaristia que nos ensina as verdadeiras lições do diálogo e da comunhão, lições que por vezes aprendemos devagar.
Missão da Igreja e o mundo multi-cultural
Cristo veio reunir todas as nações do mundo no Reino de Deus, e a missão da Igreja é continuar esta tarefa até ao fim da história, quando Cristo vier de novo na glória para finalmente concretizar este projecto. Deus dotou cada povo com os seus dons. Cada povo, cada nação, tem a sua própria maneira de expressar o dom divino da vida e da existência. A Igreja, seguindo as pegadas do seu Senhor e Mestre, empenha-se arduamente em eliminar do mundo todo o tipo de discriminação entre os povos e procura criar comunhão entre todos, como está sugerido no livro do Apocalipse (Ap 21, 1-7).
A experiência eucarística habilita a Igreja para ver a presença de Deus em todas as realidades temporais. A vida de partilha, na qual a Eucaristia inicia o Povo de Deus, abre novos horizontes e facilita a construção de uma comunidade humana na qual a rivalidade e a discriminação não têm lugar.
Conclusão
A Eucaristia tem a força que pode desafiar qualquer situação que seja oposta ao Reino de Deus. Jesus enfrentou a morte e inaugurou o novo Reino de Deus através da sua ressurreição. A primitiva comunidade cristã encontrou a sua genuína identidade e a sua força para dar testemunho do Evangelho, na sua reunião eucarística. Assim eles eram capazes de enfrentar os desafios do mais poderoso império que se opunha à proposta cristã.
Tomemos a resolução de fazer da Eucaristia a força para a construção das nossas paróquias e das nossas pequenas comunidades cristãs. Se isto for sistematicamente feito, tanto pelos pastores através da sua animação, como pelos fiéis através do seu envolvimento nas celebrações dominicais, as nossas comunidades cristãs farão com que se erga uma nova sociedade nos seus territórios paroquiais. A nova sociedade de que necessitamos não é uma mera estrutura industrial ou tecnológica social avançada; mas é uma sociedade em que nos aceitemos uns aos outros, nos amemos uns aos outros e a partilha mútua se torne a lei e o estilo de vida. Só os cristãos que fazem a experiência, semana após semana, do dom de amor incondicional de Jesus Cristo na celebração eucarística, podem fazer isto.
Oxalá as nossas paróquias, transformadas pela Eucaristia, possam tornar-se fermento no meio do mundo, anunciando a nova sociedade, livre da opressão, da corrupção, da discriminação, da exploração e da pobreza, e possam encher-se com os frutos do amor mútuo, da mútua aceitação e da mútua partilha.
“O que dá aos cristãos a sua identidade e os faz diferentes de outros povos é a memória e a espera de Jesus Cristo. As memórias e esperanças do Povo de Deus, peregrino no tempo e no espaço, dão-lhes a sua identidade única e o seu especial carácter, protegendo-os sempre e em toda a parte dos perigos da dissolução e da perda de identidade. Através da memória e espera de Jesus Cristo partilhadas, o Povo de Deus conhece, pela fé, verdades e realidades que outros povos não conhecem, que não poderão jamais compreender, acerca do significado da existência e da história humana” (Comissão Teológica Internacional).
Na verdade, Cristo transformou a refeição pascal no centro da vida cristã, na experiência da presença de Cristo ressuscitado no meio do Seu Povo. A Eucaristia não é a mera recordação de um acontecimento passado; mas é, ante, a nossa participação no acontecimento da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo e a afirmação da nossa esperança de que Ele virá outra vez na glória. Esforcemo-nos por dar testemunho desta realidade, que é a nossa missão no mundo de hoje.
Card. Telesphore Toppo, Arcebispo de Ranchi (Índia)
49.º Congresso Eucarístico Internacional, Québec (Canadá), 20.06.2008
in Lumen (Julho/Agosto 2008)
08.09.2008
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