
Os 150 anos de Lourdes e a presença da Igreja no mundo das artes: apostas e projectos
Este ano celebra-se o 150.º aniversário das aparições da Virgem à pequena Bernardette Soubirous. Nesse contexto o Papa irá a França, visitando Paris, de 12 a 13 de Setembro, e depois Lourdes e a gruta de Massabielle.
Coincidindo com as celebrações, aumenta o número de peregrinos que vão ao Santuário e multiplicam-se os eventos comemorativos, como o Congresso Internacional “As peregrinações: itinerários históricos, itinerários de fé e itinerários geográficos”, que acontecerá em Roma de 17 a 19 de Setembro.
Para saber mais sobre as iniciativas em curso e para uma análise do “fenómeno” de Lourdes e do seu valor para os crentes e para a Igreja, a Agência Zenit entrevistou D. Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura e da Comissão Pontifícia dos Bens Culturais.
Este ano festejam-se os 150 anos das aparições de Lourdes. Quais são as iniciativas mais importantes?
Deve-se dizer que nós, estritamente falando, não podemos cobrir o que fazem outros dicastérios vaticanos, que num evento deste género investem muito mais, porque faz parte de sua missão.
Queria assinalar apenas dois elementos que são característicos de nosso Dicastério e que me permitem talvez falar também de outra das actividades que o Conselho Pontifício da Cultura realiza. Por um lado o Legado Pontifício para estas celebrações é o meu predecessor, o Cardeal Paul Poupard; portanto temos em certo sentido, simbolicamente, a nossa presença através dele, que foi a pessoa fundamental na constituição deste Dicastério.
Há uma segunda consideração que quero fazer, ainda que não esteja directamente relacionada com este evento de Lourdes. Nós, através de um departamento nosso, e através de outro Dicastério a que presido, que é a Comissão Pontifícia dos Bens Culturais, interessamo-nos muito pela arte. E a arte naturalmente tem um horizonte muito amplo, pensemos, por exemplo, no que é a iconografia.
Penso que se poderá, dentro deste âmbito, favorecer cada vez mais uma arte sacra que tenha em si uma componente importante que, sabemos, é a componente mariana; pensemos o que é na história da arte a figura de Maria.
Nessa linha há projectos específicos?
Sim. Queria sobretudo recordar uma ideia que em certo sentido lancei, ainda que não como Conselho Pontifício da Cultura, mas como Comissão Pontifícia dos Bens Culturais: a provável presença, não directa mas paralela, na Bienal de Veneza do próximo ano.
Esta presença da Santa Sé, que eu queria concretizar, tem o objectivo de favorecer uma nova arte que tenha em conta também os grandes motivos religiosos, inclusive o motivo mariano, e não só.
Porque o diálogo com a arquitectura existe: as igrejas modernas são construídas efectivamente por grandes arquitectos internacionais, como Renzo Piano, Mario Botta, Kenzo Tange, Tadao Ando, Álvaro Siza e outros.
Mas estas igrejas por dentro ou estão desnudas, porque têm só a arquitectura da luz, ou têm imagens de mau gosto, ou têm só a presença do artesanato, e não ao contrário, como sucedia no passado com as grandes obras de arte. Pensemos nas grandes igrejas do século XVI, da arte barroca, que tinham em si a maravilha da arquitectura, mas também a presença de artistas como Bernini, por exemplo, ou Tiziano, Veronese. Pensemos nas grandes igrejas venezianas, que presenças altíssimas têm desde o ponto de vista da história da arte.
Eu queria, através desta experiência que queremos realizar com a Bienal de Veneza, chamar os grandes artistas contemporâneos. Digo só alguns nomes, por exemplo, nos Estados Unidos, Bill Viola, Anish Kapoor, pela Índia e, pela Europa, Jannis Kounellis. Grandes artistas que voltam a representar as grandes imagens religiosas, criando também um interesse por parte das autoridades eclesiais, para que voltem a propor as grandes obras dentro das suas igrejas.
Outro capítulo importante poderá ser também o da cinematografia, de modo a que volte a ser viva. Uma cinematografia que proponha não documentários de baixa qualidade, mas, por exemplo, o grande cinema, com as grandes perguntas. Pensemos em nomes como Bergman, Bresson, Dreyer, ou inclusive mais próximo a nós, Olmi, o próprio Rossellini, que se havia interessado por estes temas.
Como Conselho Pontifício da Cultura estimulamos, constituímos e favorecemos uma escola que leva o título «Filmar o invisível», que está actualmente em Guadalajara, México, e que suscitou em seguida o interesse da Academia de Cinema de Nova York e dos Estúdios Universal de Los Angeles; com ambos estamos agora em colaboração. O que quer dizer que a proposta de uma filmografia implica suscitar interesses muitos maiores do que se imagina.
Talvez a arte possa ser o modo de voltar a propor a figura de Maria, mas também a figura das grandes imagens e dos grandes personagens, a partir de Cristo naturalmente, da tradição cristã.
Qual é a especificidade de Lourdes e por que ainda hoje continua sendo tão importante para os crentes?
Penso na devoção mariana, que, sabemos, é uma das componentes características da tradição, não só católica; pensemos no mundo ortodoxo, ou também em Lutero, que escreveu um Magnificat de grande intensidade, e falava com muita frequência a respeito da “doce mãe de Cristo”.
Mais além disso, do elemento estritamente religioso, imediato, ligado à figura da Virgem, devemos dizer da esperança que ao final o peregrino tem (também às vezes uma esperança de cura). Penso que um componente importante é o tema da espiritualidade e da religiosidade.
Por isso, Lourdes, mais que outros lugares não certos de aparições mais clamorosas, baseados mais em ideias quase sensacionalistas, é, ao contrário, o retorno à consciência, à espiritualidade, à liturgia, à conversão. De facto, penso que as grandes celebrações litúrgicas de Lourdes são celebrações exemplares, tanto pela música, como pelos cantos e a participação.
Talvez os santuários devam converter-se num grande lugar de exemplaridade da vida de fé, um grande lugar no qual se anuncia a fé. E talvez a presença tão numerosa e variada de peregrinos possa chegar a ser um elemento que os faça voltar para as suas terras com uma carga interior mais viva.
Adapt.: rm
01.09.2008
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