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Quaresma

Acompanhar o recolhimento de Sábado Santo com a arte contemporânea: cinema

 

 

 

 

Acompanhar o recolhimento de Sábado Santo com a arte contemporânea: escultura

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O proprietário de um velho convento em Bonnieux, no Luberon, convidou a artista Louise Bourgeois (1911-2010) a conceber um conjunto de obras para a capela desse convento.

As peças foram instaladas em 2001, quando Bourgeois tinha já 90 anos. A capela viria a ser inaugurada em 2004.

Uma pia baptismal, um confessionário, uma virgem com o menino e uma cruz alteraram definitivamente o antigo Convento d´Ô.

No espaço esvaziado do altar, a artista colocou uma cruz de ferro negro, simples e directa. Um barra vertical minimal, onde pousa um braço horizontal que apresenta nas extremidades duas mãos: uma fechada, outra aberta. O sofrimento carnal, de um lado; a abertura e a dádiva, do outro. A tensão iniludível entre a dor e a entrega, o sofrimento e o amor, o sacrifício e o dom. A Luta é, dizia Miguel de Unamuno, a essência do cristianismo. Entre corpo e espírito, fragilidade e força, peso e leveza, oração e acção... Experiência permanente de tensão. 

Diante desta cruz enfrentamos o paradoxal e obscuro silêncio da Palavra luminosa - e que mesmo no silêncio não deixa de ecoar como Palavra.

O evangelho de Mateus conta que nessa sexta-feira, desde o meio-dia até às três da tarde houve escuridão sobre toda a terra. Pelas três da tarde, Jesus deu um forte grito: «Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?» - e a seguir suspirou pela última vez e morreu. 

(...)

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Paulo Pires do Vale
Curador. Professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e da Escola Superior de Educação Maria Ulrich

 

 

Acompanhar o recolhimento de Sábado Santo com a arte contemporânea: música

 

 

 

 

Sexta-feira Santa

A Semana Santa coloca-nos perante a cruz de Jesus, que provoca necessariamente uma reflexão sobre a nossa cruz e a cruz do mundo. Mas antes de ter sido entendida como lugar de salvação e redenção, ela foi experimentada como sinal de fracasso. A meditação bíblica que propomos baseia-se na disponibilidade de Pedro para seguir Jesus até à morte, intenção que esqueceria horas depois ao negar que o conhecia.

 

 

Quinta-feira Santa

Depois de sair para o monte das Oliveiras com os discípulos, Jesus afasta-se para rezar.

Aproxima-se a hora da cruz, e ele pressente-a: «Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua.»

Depois da angústia regressa para junto dos apóstolos, que encontra a dormir. Então, avisa-os: «Levantar-vos e orai, para que não entreis em tentação».

De que tentação se fala aqui? Não é certamente, o impulso para o mal, mas sim algo de muito subtil e dramaticamente mais perigoso: fugir das próprias responsabilidades; o medo de decidir-se; o medo de afrontar a realidade que nos exige uma decisão pessoal; a tentação de fugir dos problemas da vida, de fechar os olhos, esconder-se e de não sentir para não ser levado a agir.

 

 

 

Quarta-feira da Semana Santa

«A madre Sara disse: ‘se rezo a Deus para que todos estejam contentes comigo, acabarei a fazer penitência à porta de cada um. Rezarei antes para que o meu coração seja puro com  todos’.»

«Pai Antão dizia: ‘Retirai as tentações, e nunguém se salvará!’»

«Alguém perguntou ao Pai António: ‘que devo fazer para agradar a Deus?’ E o ancião respondeu: ‘Faz o que te digo: para onde quer que vás, tem sempre Deus diante de teus olhos; em tudo o que fizeres ou disseres, tem ptesente as Escrituras; mores onde morares, não fujas.»

«Isac, o Siro, dizia: “Alegra-te com os que estão alegres, e chora com os que choram. É este o sinal da pureza: sofrer com os que sofrem, estar de luto com os pecadores, alegrar-se com os que se arrependem; tornar-se amigo de todos os homens, não permanecer só com os próprios pensamentos. Participa das desgraças dos outros, mas permanece distante de todos com o corpo. Não vigiar nem acusar ninguém pelo seu comportamento, ainda que se tratasse da pessoa mais malvada. Estende a tua túnica sobre quem pecou e, se não podes carregar o seu pecado para receber a vergonha e o castigo em sua vez, sê ao menos paciente e não o desprezes."».

«Um irmão pecou com o pensamento. Mais tarde, durante a reunião dos monges para tratar deste caso específico, foi chamado aba Moisés que se recusou a comparecer. Então o presbíterio mandou alguém a dizer-lhe: ‘Vem, o povo espera-te!’. O asceta pegou então numa cesta que encheu de areia e pôs-se a caminho para o local da reunião. Aos que, vindo para o saudar, lhe perguntavam o sentido de tal gesto, ele respondeu: ‘os meus pecados caem como a areia detrás de mim e não os vejo. Que venho então eu aqui fazer para criticar os pecados de outros?»

«Disse ainda outro Ancião: ‘é coisa boa comer carne e beber vinho, e não comer com a maledicência as carnes dos irmãos.”»

«Quanto mais o homem está unido ao próximo, tanto mais está unido a Deus. Escutai, por favor, esta comparação que eu aprendi de nossos pais. Imaginai que existe uma roda na terra bem impressa em forma redonda com um eixo ao centro que é o seu ponto central da roda. Escutai agora o que vos digo. Imaginais que o círculo é o mundo e que o centro é Deus. E que os raios que iniciam na roda do círculo e vão em direção ao centro são os caminhos e modos de vida dos homens. De modo que os santos que desejam aproximar-se de Deus caminham para o interior desses raios, aproximando-se de Deus, ficando mais próximos uns dos outros segundo o grau da sua aproximação; e quanto mais se aproximam de Deus mais eles se aproximam uns dos outros e quanto mais se aproximam uns dos outros, tanto mais se aproximam de Deus. O mesmo sucede quando se afastam: quanto mais se afastam do centro, mais se afastam de Deus e uns dos outros. Tal é a natureza da caridade: à medida que nos distanciamos e não amamos Deus também nos afastamos do nosso próximo. E, pelo contrário, na medida em que amamos Deus, aproximando-nos d’Ele pela caridade, ficaremos unidos pela caridade ao próximo e a Deus» (Abade Doreteu).

Seleção e tradução: Fr. Isidro Lamelas, OFM, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Segunda-feira da Semana Santa

 

 

 

Domingo da semana V

A verdadeira oração brota da profundidade

Durante anos, pensámos que a oração era o termo de certos esforços de reflexão ou de meditação sobre Deus. À força de pensar em Deus ou de ter piedosos sentimentos a seu respeito, poderíamos ser levados a falar-lhe ou a pedir-lhe qualquer coisa. Este esforço racional não é totalmente inútil, mas não deixa de ser superficial, porque não atinge a profundidade do coração, e arrisca-se a ficar no exterior da verdadeira oração.

Acontece o mesmo com o papel da vontade na oração. Talvez pensemos que é preciso fazer um esforço para afastar toda e qualquer distração e nos fazer voltar à lembrança de Deus. Mas no limiar da oração, esse esforço, mesmo intenso e prolongado, não vai longe, porque ignora o verdadeiro dinamismo do desejo que toda a vida de oração subentende e que primeiro se exprime pelo grito ou invocação. Além disso, um tal esforço não se dá sem uma certa crispação, muito prejudicial à oração.

Assim, para rezar de verdade com todo o nosso ser, não podemos deixar de passar aí, onde nos espera a única fonte de oração, isto é, a ferida na anca ou o aguilhão na carne. Aquele que encontrou a sua angústia mais secreta e a sua fraqueza mais escondida, como pérola digna de todas as buscas, descobriu ao mesmo tempo a fonte da verdadeira oração. É preciso que os livros sobre oração, os métodos e as técnicas mais belas não nos impeçam de tomar o verdadeiro caminho, lá, onde a oração brota, e já atua no nosso coração.

E esse caminho vai dar necessariamente à nossa radical pobreza, a esse local onde em nós ressoa "o grito primordial das nossas origens carnais" (D. André Louf). Nesse sentido, a oração não se encontra no termo duma reflexão ou dum sentimento, mas brota do mais profundo do nosso ser, como um grito. A criança grita, quando sofre ou quando tem fome, e o seu grito não é só a expressão da sua angústia, mas o sinal da sua esperança porque, para lá da sua confusão, apercebe-se da presença da mãe que lhe vai responder.

Duma forma ainda mais profunda e inconsciente, a criança exprime-se nesse grito. Um místico muçulmano diz que a vida do homem começa pelo grito visceral da criança que grita a sua angústia ao sair do seio materno e conquista a vida roçando pela morte. E acrescenta que no outro extremo da sua existência, acaba o percurso terrestre com um último grito que exala o seu derradeiro sopro de vida. Uma anciã dizia-me um dia que o grito de Jesus na Cruz não cessava de retinir no seu coração, e que era a fonte de toda a sua oração. Assim, a vida do homem começa e acaba com um grito visceral de que não tem consciência, mas que permanece inscrito nas profundidades inconscientes. Quando a criança ainda não sabe falar, tenta entrar em comunicação com quem a rodeia pelo grito, e quando o ancião já não puder falar, pedirá socorro, gemendo devagarinho.

O adulto talvez já não tenha consciência disso, mas guarda esse grito primordial escondido nas camadas mais inconscientes do seu ser. Na fratura das grandes dores e das grandes alegrias, no coração das mais dolorosas crises, as vibrações desse grito repercutem-se por todo o corpo e no coração. Quem dentre nós não terá feito a experiência duma libertação psicológica, quando consegue gritar e chorar toda a sua amargura? Infelizmente, estamos numa civilização em que aprendemos a estancar as lágrimas, em que já não se ousa gritar e talvez seja por isso que hoje há tanta violência.

Feliz o homem que ousa gritar o seu sofrimento aos seus irmãos e que ousa chorar, como Job, diante da face de Deus. Viverá muito tempo gritando e rezará também gritando. Mas é preciso reconhecer que há homens que não querem, que não sabem gritar, e no entanto, trazem bem no fundo de si próprios um grito escondido na sua memória genética. Como descobrir esse grito? E tendo-o descoberto, como soltá-lo, libertá-lo, para o exprimir diante de Deus?

Para libertar esse grito não é preciso passar pela análise psicológica - embora esta possa ser uma ajuda preciosa para nos ajudar a chegar a essas profundidades; basta, diz ainda André Louf, estar um pouco à escuta de si, para detetar algo desse grito primordial, de que certas vibrações se repercutem na nossa consciência. Não é preciso ir buscar esse grito muito longe, porque ele aflora um pouco por toda a parte, nas circunstâncias mais humildes da nossa vida.

Quantas vezes não nos sentimos tentados a gritar perante uma contrariedade ou, de modo mais profundo, perante um sentimento de cólera, de ciúme face a alguém que nos irrita? No plano meramente físico não nos acontece suspirar de angústia ou de alívio perante uma dificuldade encontrada e ultrapassada, simples opressão do peito que se liberta com uma expiração? Um amigo dizia-me um dia que se sentia feliz ao ouvir suspirar o irmão durante a oração, porque assim tinha a impressão de não ser só ele a sofrer. Esses gritos ou suspiros são ecos muito fracos dum mal-estar mais profundo. Quem suspeitará que o aflorar duma nuvem de tristeza espalhada nas mais secretas camadas do inconsciente, pode trair a aspiração mais profunda do coração?

É preciso reconhecer que não fomos educados para acolher esses movimentos, e que, pelo contrário, nos ensinaram a reprimi-los, a guardá-los, o que provoca, certamente, falta de coragem e inquietação. Não será mais prudente aceitar-se com doçura e humor, acolher esses movimentos bruscos na sua banalidade e na sua mesquinhez e dizê-los a si mesmo? Se os soubermos exprimir pela linguagem, eles eliminarão a tensão interior, e sentir-nos-emos aliviados. Então, poderemos exalar essa humilde dor, muito docemente, perante o Senhor.

Acontece o mesmo com os maiores sofrimentos, as provações dolorosas, as grandes tentações que nos revelam as feridas mais radicais. Atingem-nos a uma tal profundidade, que nos arrancam das entranhas gritos que se assemelham às blasfémias de Job. Em certos momentos, o grito é tão doloroso que obscurece a imagem de Deus, perante quem gritou.

Então, é bom pormo-nos na pele de Job ou de Cristo na cruz, no momento em que Ele grita: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?" e em que exala perante o Pai o exorbitante grito do seu sofrimento. Nos salmos, Deus como que inventou esses gritos e os pôs à nossa disposição, para permitir que lhe gritemos o escândalo do nosso sofrimento. Mas é preciso reanimar incessantemente o grito das nossas orações e joeirá-las com a Palavra de Deus, para que as purifique e descubra nelas o grito profundo, no meio dos barulhos superficiais que o rodeiam. Uma educadora dizia-me com humor que quando uma jovem lhe vinha dizer que não podia mais, aconselhava-a a refletir sobre os primeiros versículos do Salmo 68 :

"Salvai-me, ó Deus, porque as águas quase me submergem".

 

Um grito que nos vem das entranhas

Em vez de nos deixarmos ofuscar por esses gritos que ressoam como desafios, aceitemos dizer como aquele velho monge: «Encontro-me no lamaçal e enterro-me até ao pescoço, clamando perante Deus: "Eleison, tem piedade de mim"» (Abba Paul). No princípio, os nossos gritos não atingem imediatamente essa profundidade, mas cada um deles cava progressivamente o solo do nosso coração e consegue uma passagem para libertar a fonte da verdadeira oração.

Estou convencido de que a razão fundamental para rezarmos tão pouco e tão mal, é precisamente esta falta de profundidade; rezamos com indiferença, ou com a nossa inteligência ou a nossa vontade, mas não com o mais profundo do coração. Não comprometemos o nosso ser profundo.

Bernanos dizia-se persuadido que «muitos homens não empenham nunca o seu ser, a sua sinceridade profunda. Vivem à superfície deles mesmos: e o solo humano é tão rico que essa leve camada superficial basta para uma fraca colheita, que lhes dá a ilusão dum destino autêntico. Diz-se com pavor que homens sem número nascem e morrem, sem se terem uma única vez servido da sua alma, servido realmente da sua alma, nem que fosse para ofender a Deus ... A condenação não será a de descobrir muito tarde, demasiado tarde, depois da morte, uma alma absolutamente inutilizada, ainda dobrada cuidadosamente em quatro e estragada, como certas sedas, por falta de uso?».

Se a nossa oração não se reveste destas formas violentas e fica no tom discreto dum pedido bem educado, não é porque a santidade de Deus nos intimide, é apenas porque nós não conhecemos realmente nem as profundidades da miséria do homem, nem as do coração de Deus. Se descêssemos suficientemente, descobriríamos a nossa carência de ser, própria da criatura. E reconhecer essa distância já é uma súplica: a súplica do ser dependente, que deseja receber-se do Outro e grita por ser mais. O termo exprime bem tudo isso, pois oração faz referência a "precare", que quer dizer suplicar.

Mesmo fora do mundo da fé, encontramos esta súplica, este pedido que espera ser ouvido. Cada um dirige constantemente esta oração de petição a si mesmo, aos outros e a Deus, caso tenha fé; mas será incapaz de rezar a Deus se não souber rezar ao homem. Pensemos no pedido que fazemos ao nosso maior amigo, para que queira conceder-nos a sua ternura e amizade, dizendo-lhe espontaneamente: "Peço-te". E para dizer isto, é absolutamente preciso ter consciência que somos pobres e que sem esta amizade não podemos viver.

Também aqui, aqueles que conhecem o verdadeiro mistério do amor são raros, porque poucos homens aceitam descer a este nível de profundidade, onde se sente uma fome insaciável e uma sede eterna. A experiência do amor a este nível de profundidade é rara, tão rara como o génio, diz Garaudy: «Num milénio não há, provavelmente, muitos mais casais autênticos do que Shakespeare's ou Beethoven's». Pode-se dizer pouco mais ou menos a mesma coisa dos homens de oração, porque há muito... muito poucos. Santo Isaac, o Sírio, dizia que existia um em toda uma geração.

Voltemos um pouco à oração que dirigimos a nós próprios. Compreendi-a muito melhor ao ler Romain- Rolland. O seu herói, Jean Christophe, depois de ter esgotado todos os meios de se explorar a si próprio, mesmo a música, continua ainda insatisfeito. Sente necessidade de ir mais longe, o desejo de rezar. Mas como poderia ele rezar, interroga Romain-Rolland, se não acreditava em Deus. No entanto, precisava de rezar, precisava de se rezar. Rezar-se é, então, perguntar-se a si mesmo, na esperança de penetrar na fonte do próprio ser. Assim, a oração a si é desejo de si. A grandeza do homem é ser capaz de se interrogar e de rezar. A interrogação é intelectual e a oração espiritual.

A oração a si é o desejo de chegar ao fundo do próprio ser, quer dizer à raiz da sua liberdade. Kierkegaard não hesitava em afirmar que o fim da oração não era dobrar a vontade de Deus, mas cavar cada vez mais o coração do homem, a fim de o abrir ao que Deus quer dar-lhe. Isaías diz que Yahvé cava nele cada manhã um ouvido capaz de O escutar. Rezar, tal como amar, é estar desperto, abrir-se ao acolhimento e ao dom de si.

No Evangelho, ao pé de Jesus, os cegos e os enfermos não têm medo de gritar, porque conhecem a profundidade do seu mal e precisam de atrair a sua atenção a todo o custo. Não podem contar com mais ninguém senão consigo. É também desta maneira que se devem rezar os salmos, não podemos limitar-nos a repetir calmamente esses gritos de apelo e petição. É preciso cavar fundo e extrair de si um grito parecido ao terror dum afogado, perante o poder do mal submergindo o mundo; grito de terror do desgraçado pedindo ajuda, grito de dor perante as devastações do pecado em nós e à nossa volta. Um tal grito de súplica não falha nunca o seu alvo, como uma flecha, transpassa o coração de Deus e liberta a sua misericórdia.

«Eu vi a miséria do meu povo no Egito e bem assim tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus opressores. Estou decidido a libertá-lo» (Ex 3, 7-8).

Enquanto esse grito não sair do nosso coração, a nossa oração não é mais do que uma piedosa ocupação e não devemos admirar-nos que Deus não a tome a sério, enquanto ela permanecer tão superficial. Para evocar esse grito, Paulo fala-nos de gemidos, e pensa-se nos gritos do recém-nascido ou do agonizante que deixa escapar docemente a sua queixa como um último pedido de socorro. Um místico muçulmano diz que o primeiro e o último grito do homem formam o Nome de Deus.

 

Nunca chegamos suficientemente ao fundo

A verdadeira oração surge das profundidades do nosso coração, mas atenção, essas profundidades não são apenas os espaços misteriosos, e no entanto familiares, do nosso próprio eu psicológico, as zonas onde nos sentimos ainda em casa. É preciso sem dúvida ir até ao fundo do nosso abismo de trevas para distinguir a pequena estrela que aí brilha, mas nessas profundidades há um para além do sofrimento. À força de cavar o nosso sofrimento, chega um momento em que ele atinge o paroxismo, e então explode a alegria. Não conheço melhor. imagem para o fazer compreender do que o ícone da Virgem da ternura de Wladimir. Para além do rosto de Maria que nos olha, pressente-se, nas profundidades do seu coração, que um abismo de tristeza se mistura com um abismo de alegria, e ambos se fundem nela, o que se reflete no seu rosto por uma ternura grave e alegre.

Parece que a imagem das vagas utilizada pelos salmos nos pode fazer agarrar, tanto quanto um símbolo o pode fazer, esse para além das profundidades psicológicas do homem. Essas profundidades são-nos desconhecidas e hostis porque nos confrontam com inimigos terríveis. A imagem evocada é a do mar submergindo as suas vítimas, do abismo não apenas aberto à nossa frente, mas já fechado sobre nós. O homem tem a impressão de naufragar e cair nos abismos. Nada mais há a que se possa agarrar, nenhum ponto fixo na sua vida. O universo parece apenas um poder sinistro e monstruoso; à sua volta apagou-se toda a claridade, toda a amizade lhe fugiu.

É uma provação temível, no entanto é necessária e salutar para aquele que se quer deixar procurar por Deus. E regressamos a uma conclusão da alínea precedente: não nos apossamos de Deus, deixamo-nos encontrar por Ele. A melhor forma de nos assemelharmos a Deus é deixarmo-nos devorar por Ele. No princípio da vida espiritual procura-se sobretudo amar a Deus; no termo, compreende-se que basta deixarmo-nos amar por Ele.

Já não se trata de conduzirmos o nosso barco, mas de descobrir que existe um piloto - o Espírito Santo - e que é preciso entregar-lhe o leme e as alavancas de comando. Poderíamos perguntar: o que seria uma vida em que a obediência ao Espírito fosse total? É muito mais profundo do que caminhar para Deus, é uma dissolução da nossa vontade na sua; numa palavra, é o que os padres espirituais chamam o abandono.

Mas nós não suspeitamos até que ponto somos orgulhosos, nem do nosso desejo de construirmos nós próprios a nossa santidade. É preciso escolher: confiar-se unicamente a Deus ou fiar-se em si, nos seus méritos, nas suas qualidades e no seu meio ambiente. Queremos controlar nós mesmos o nosso crescimento no amor. Mas nisso Deus não pode transigir, sentimo-lo claramente no Evangelho, onde Cristo se opõe ferozmente aos fariseus, porque eles não querem confiar unicamente n'Ele ; são duas "religiões" que se confrontam. Só os pecadores, que são impelidos a tudo esperar da Misericórdia de Deus - ou as crianças - podem entrar no Reino.

Assim, pouco a pouco, Deus faz-nos tomar consciência do abismo no qual estamos fechados. E a imagem das vagas que nos afogam e nos levam à asfixia é um sinal dessa miséria total, dessa negra angústia em que o pecado mergulhou tão profundamente a humanidade. Nós não gostamos de pensar nisso, mas há no mundo, e bem perto de nós, infelizes esmagados pela miséria, sem esperança de nunca dela sair. Há, sobretudo, em nós um pobre que não pode mais e que clama por Deus. É o efeito do pecado, e é a imagem do que o pecado faz à humanidade. Deus leva-nos progressivamente, no decorrer da nossa história, a experimentar esse abismo onde o nosso orgulho e o pecado nos fecharam. Com uma insistência que por vezes nos aborrece, os salmos impõem-nos imagens sinistras e cruéis; saibamos olhá-las e acolhê-las porque elas refletem a nossa própria situação.

 

Nas fronteiras da nossa fé consciente

Os salmos utilizam a imagem das profundidades do oceano, mas também se podia evocar o cativeiro de Babilónia ou o deserto. O essencial é fazer-nos experimentar que doravante Deus é o nosso único rochedo, que é inútil apoiarmo-nos em alianças estrangeiras ou nas rédeas dos cavalos. Então, entramos no deserto, no limite da fé pessoal, na fronteira de nós próprios, aí onde os movimentos dos espíritos começam a lançar a confusão. Por isso, a pessoa que entra nessas profundidades deve poder ir com confiança até ao limite da sua fé consciente, com Deus que a conduz, para lá da sua experiência, da descrença a uma fé profunda.

É a provação da fé por excelência, em que todos os nossos apoios humanos se desvanecem um após outro; mas cada vez que Deus larga as amarras, dá-nos um pouco mais de confiança para enfrentar a tempestade. A única coisa que Deus espera de nós, não é o heroísmo, é o ardente desejo d'Ele somente, que se exprime pela oração. Esse desejo, essa aspiração constituem o primeiro convite e a iniciativa de Deus a caminhar para uma nova vida.

É essa oração de desejo que nos sustenta, quando sentimos os nossos limites no processo de morte e ressurreição. É preciso, então, termos a capacidade de explorar essas regiões tenebrosas, e de viver na fronteira de nós mesmos, naquele nível em que Deus nos chama continuamente para junto d'Ele, numa conversão contínua. Esse limite é também o ponto de encontro em que o espírito do mal tenta contrariar a obra de Deus. Nos salmos, esse combate é simbolizado por numerosos inimigos ou animais perigosos que atacam a vida do homem. (...)

«Nós nunca estamos suficientemente no fundo. Uma oração que vem de profundis é ouvida, imediatamente; ela brota da profundidade da nossa desventura. É por isso que Deus aí nos leva, porque deseja atender-nos. Todos temos a nossa ferida interior, como Jacob: essa ferida é o meio providencial de que Deus se quer servir para nos acolher ... mas nós não nos sabemos servir dela:

"Se pedirdes em meu Nome
Obtereis tudo o que pedirdes
Vós ainda não pediste nada em meu Nome".

A oração cava em nós um verdadeiro grito que não consegue sair mas que acabará por brotar um dia. Nesse dia, obteremos tudo. Não há outra maneira nem outro programa. Deus quer que demos fruto: para frutificar e para que o nosso fruto permaneça, não há mais nada a fazer».

Esta transcrição omite as notas de rodapé.

Jean Lafrance, O poder da oração, Editorial A.O., 1992, pp. 28-39, 41
Seleção de Teresa Messias, professora na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Sábado da semana V

 

 

 

Sexta-feira da semana V

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Rui Chafes,
Mundo cego, Paredes, 2012
Ferro pintado.

Uma escultura que se esconde. Que revela escondendo. Que se apresenta como nuvem de fumo negro que rasga a terra em direção ao alto. Supreende-nos imediatamente a estranha contradição do material que se nega, o ferro que parece recusar o poder da gravidade e do seu peso, transformando-se em fumo imaterial. Ao aproximarmo-nos dela percebemos que vem de longe, de muito longe. Abre uma brecha de escuridão em direção a um abismo. Rasga uma fenda no mundo. O que vemos dela é apenas uma parte, uma pequena parte, porque ela está enterrada - e essa posição é-lhe fundamental. É constituída não apenas pelo ferro, mas por essa escuridão aberta - uma obscuridade que é o subsolo inacessível de toda a obra.

(Ao ver esta escultura, em Paredes, no relvado Frente à Igreja Paroquial, lembrei-me do início do Salmo 129, De profundis:

Do profundo abismo clamo por Vós, Senhor,
Senhor, escutai a minha voz.
Estejam os vossos ouvidos atentos
à voz da minha súplica.)

Esta escultura aponta, desde o título, uma descida ao inferno. Mundo cego, assim lhe chamou Rui Chafes, remetendo para a expressão com que Dante caracterizou o Inferno a que desce pela mão de Virgílio: o “cego mundo”. O ínicio de uma viagem que o levou ao Paraíso.

Os gregos narraram uma outra descida aos Infernos, à escuridão onde não brilha a luz do sol: a de Orfeu em busca de Eurídice, para a resgatar do reino dos mortos. Mas Orfeu, o príncipe dos poetas, que a todos convenceu com o poder da sua voz e poesia, não conseguiu vencer-se a si mesmo: enquanto subia em direção à luz, voltou-se para olhar para a amada, que seguia atrás de si - gesto proibido pelos deuses e, por isso, perdeu Eurídice para sempre. Uma segunda morte.

Onde Orfeu fracassou, Cristo surge como vencedor – libertando-se a si e à humanidade inteira do poder da morte. Não da morte, mas do seu poder agrilhoante. Não da experiência da morte, mas da impotência que ela impõe. A Páscoa é esse movimento duplo de descida e subsequente subida e libertação. É preciso conhecer a morte e a escuridão, experimentá-las, atravessá-las, para aí fazer explodir a mais esplendorosa luz. Passagem. Fraqueza que se torna força – e o título de uma exposição de desenhos recentes de Chafes foi Inferno (a minha fraqueza é muito forte).

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Paulo Pires do Vale
Curador. Professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e da Escola Superior de Educação Maria Ulrich

 

 

Quinta-feira da semana V

Este ano, minha querida Madre, Deus concedeu-me a graça de compreender o que é a caridade. Dantes compreendia-o, é verdade, mas de uma maneira imperfeita. Não tinha aprofundado estas palavras de Jesus: «O segundo mandamento é semelhante ao primeiro: Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Aplicava-me, sobretudo a amar a Deus, e foi amando-O que compreendi que o meu amor não se devia traduzir só em palavras, porque: «Não são aqueles que dizem: Senhor, Senhor, que entrarão no reino dos Céus, mas aqueles que fazem a vontade de Deus». Jesus deu a conhecer esta vontade diversas vezes; deveria dizer, quase em cada página do Evangelho. Mas na última Ceia, quando sabe que o coração dos seus discípulos se abrasa num amor mais ardente para com Ele, que acaba de Se lhes dar no inefável mistério da Eucaristia, este benigno Salvador, quer dar-lhes um mandamento novo. Diz-lhes com uma ternura inexprimível: «Dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros, e que assim como Eu vos amei, vós também vos ameis uns aos outros. O sinal pelo qual todos conhecerão que sois meus discípulos, é amar-vos mutuamente».

Como amou Jesus os seus discípulos, e porque os amou? Ah! não eram as qualidades naturais deles que O podiam atrair; havia entre eles e Ele uma distância infinita: Ele era a Ciência, a Sabedoria eterna; eles eram pobres pescadores, ignorantes e cheios de pensamentos terrestres. Apesar disso, Jesus chama-lhes seus amigos, seus irmãos. Quer vê-los reinar com Ele no reino de seu Pai, e para lhes abrir esse reino quer morrer numa cruz, pois disse: «Não há maior amor do que dar a vida por aqueles que se ama».

Caríssima Madre, ao meditar estas palavras de Jesus, compreendi quanto era imperfeito o meu amor para com as minhas Irmãs; vi que não as amava como Deus as ama. Ah! compreendo agora que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não se escandalizar com as suas fraquezas, em edificar-se com os mais pequenos atos de virtude que se lhes vir praticar; mas compreendi, sobretudo, que a caridade não deve ficar encerrada no fundo do coração: «Ninguém, disse Jesus, acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas coloca-a sobre o candelabro para alumiar todos os que estão em casa». Creio que essa luz representa a caridade, que deve iluminar e alegrar, não só os que são mais queridos, mas todos aqueles que estão em casa, sem excetuar ninguém.

Quando o Senhor ordenara ao seu povo que amasse o seu próximo como a si mesmo, não tinha ainda vindo à terra. Por isso, sabendo em que grau se ama a própria pessoa, não podia pedir às suas criaturas um amor maior para com o próximo. Mas quando Jesus deu aos Apóstolos um mandamento novo, o seu mandamento, como diz mais adiante, não fala já de amar o próximo como a si mesmo, mas de o amar como Ele, Jesus, o amou, como o amará até à consumação dos séculos...

Ah, Senhor! eu sei que não mandais nada que seja impossível, conheceis melhor do que eu a minha fraqueza, a minha imperfeição, sabeis bem que nunca poderia amar as minhas Irmãs como Vós as amais, se Vós mesmo, ó meu Jesus, não as amásseis também em mim. Foi porque me queríeis conceder esta graça que ditastes um mandamento novo. - Oh! como gosto dele, já que me dá a certeza de que a vossa vontade é amardes em mim todos aqueles a quem me mandais amar! ...

Sim, eu sinto que quando sou caridosa, é só Jesus que age em mim; quanto mais estiver unida a Ele, tanto mais amo também as minhas Irmãs. Quando quero fazer crescer em mim este amor, sobretudo quando o demónio procura pôr-me diante dos olhos da alma os defeitos de tal ou tal Irmã que me é menos simpática, apresso-me a procurar as suas virtudes, os seus bons desejos, digo para comigo que se a vi cair uma vez, pode muito bem ter alcançado um grande número de vitórias que esconde por humildade, e que mesmo o que me parece uma falta, pode muito bem ser, por causa da intenção, um ato de virtude. Não me custa persuadir-me disso, pois um dia fiz uma pequena experiência que me provou que nunca se deve julgar. - Foi durante um recreio; a porteira tocou duas vezes, era preciso ir abrir o portão dos operários para meterem dentro árvores destinadas ao presépio. O recreio não estava animado, pois vós não estáveis lá, minha querida Madre; portanto, pensei que, se me mandassem servir de terceira, ficaria muito contente. Precisamente a Madre Sub-prioresa disse-me que fosse eu, ou então a Irmã que estava ao meu lado. Comecei logo a tirar avental, mas bastante devagar, para que a minha companheira tirasse o dela antes de mim, pois pensava ser-lhe agradável, deixando-a fazer de terceira. A Irmã que substituía a ecónoma olhava para nós a rir, e, vendo que eu tinha sido a última a levantar-me, disse-me: Ah! bem me parecia que não éreis vós que ganharíeis uma pérola para a vossa coroa, com todos esses vagares...

Com toda a certeza, toda a Comunidade pensou que eu agira naturalmente, e não conseguiria dizer o bem que uma coisa tão pequena fez à minha alma, e me tornou indulgente para com as fraquezas das outras. Isso impede-me também de ter vaidade quando sou julgada favoravelmente, pois digo assim para comigo: «Já que tomam os meus pequenos atos de virtude por imperfeições, podem também enganar-se tomando por virtude aquilo que é somente imperfeição». Então digo com S. Paulo: «Pouco me importa ser julgada por um tribunal humano. Nem me julgo a mim mesma, quem me julga é o Senhor». E assim, para que este julgamento me seja favorável, ou antes, para não ser sequer julgada, quero ter sempre pensamentos caridosos, pois Jesus disse: «Não julgueis, e não sereis julgados».

Minha Madre, ao lerdes o que acabo de escrever, poderíeis pensar que a prática da caridade não me é difícil. É verdade. De há alguns meses para cá já não tenho que combater para praticar esta bela virtude; não quero dizer com isto que nunca me aconteça cometer faltas, ah! sou demasiado imperfeita para tal, mas não me custa muito levantar-me quando caí, pois houve um certo combate em que consegui a vitória; por isso, a milícia celeste vem agora em meu socorro, pois não pode consentir em ver-me vencida, depois de ter saído vencedora na gloriosa guerra que vou tentar descrever.

Há na Comunidade uma Irmã que tem o condão de me desagradar em todas as coisas: as suas maneiras, as suas palavras, o seu caráter, pareciam-me muito desagradáveis. Apesar de tudo, é uma santa religiosa, que deve ser muito agradável a Deus; por isso, não querendo ceder à antipatia natural que sentia, disse comigo que a caridade não devia consistir nos sentimentos, mas nas obras. Então apliquei-me a fazer por essa Irmã o que faria pela pessoa que mais amo. Cada vez que a encontrava, rezava por ela a Deus, oferecendo-Lhe todas as suas virtudes e os seus méritos. Estava certa de que isso agradava a Jesus, pois não há artista que não goste de receber louvores pelas suas obras, e Jesus, o Artista das almas, fica contente quando não nos detemos no exterior, mas, penetrando até ao santuário íntimo que escolheu para sua morada, lhe admiramos a beleza. Não me contentava com rezar muito pela Irmã que me proporcionava tantos combates; procurava prestar-lhe todos os serviços possíveis e, quando tinha a tentação de lhe responder de uma maneira desagradável, contentava-me com dar-lhe o meu sorriso, e procurava desviar a conversa, pois a Imitação de Cristo diz: Vale mais deixar cada um com a sua opinião do que deter-se a discutir.

Muitas vezes também, quando não estava no recreio (quero dizer, durante as horas de trabalho), tendo alguns contactos de ofício com esta Irmã, quando os meus combates eram muito violentos, fugia como um desertor. Como ela ignorava absolutamente o que eu sentia por ela, nunca suspeitou dos motivos da minha conduta, e continua persuadida de que o seu caráter me é agradável. Um dia, no recreio, disse-me mais ou menos estas palavras, com um ar muito contente: «Poderíeis dizer-me, minha Irmã Teresa do Menino Jesus, o que tanto vos atrai em mim, cada vez que olhais para mim vejo-vos sorrir?» Ah! o que me atraía era Jesus escondido no fundo da sua alma ... Jesus, que torna doce o que há de mais amargo. Respondi-lhe que sorria porque ficava contente de a ver (claro que não acrescentei que era sob o ponto de vista espiritual).

Minha caríssima Madre, já vo-lo disse, o meu último recurso para não ser vencida nos combates é a deserção. Já durante o noviciado o empregava, e sempre me deu bom resultado. Vou contar-vos um exemplo, minha Madre, que creio que vos fará sorrir. Durante uma das vossas bronquites, vim uma manhã, muito de mansinho, pôr na vossa cela as chaves da grade da comunhão, pois era sacristão Na verdade, não estava aborrecida por ter essa ocasião de vos ver, estava até muito contente, mas esforçava-me por não o dar a entender. Uma Irmã, animada dum santo zelo, e que no entanto me amava muito, vendo-me entrar na vossa cela, minha Madre, pensou que eu vos ia acordar. Quis tirar-me as chaves, mas eu era astuta demais para lhas dar e ceder os meus direitos. Disse-lhe o mais delicadamente possível que desejava tanto como ela não vos acordar, e que me pertencia a mim entregar as chaves... Compreendo agora que teria sido muito mais perfeito ceder a essa Irmã, nova, é verdade, mas enfim, mais antiga do que eu. Não o compreendia então, por isso, querendo a todo o custo entrar atrás dela, apesar de ela empurrar a porta para não me deixar passar, não tardou que a desgraça que ambas temíamos acontecesse: o barulho que fazíamos fez-vos acordar... Então, minha Madre, tudo recaiu sobre mim: a pobre Irmã, a quem eu resistira, pôs-se a declamar todo um discurso, cujo conteúdo era o seguinte: «Foi a Irmã Teresa do Menino Jesus que fez barulho... Meu Deus, como ela é insuportável...» etc. Eu, que sentia exatamente o contrário, tinha bastante vontade de me defender; felizmente, ocorreu-me uma ideia luminosa: disse comigo que com certeza, se me começasse a justificar, não conseguiria conservar a paz na minha alma; sentia também que não tinha virtude bastante para me deixar acusar sem dizer nada; a minha única tábua de salvação era, portanto, a fuga. Dito e feito. Saí pela calada, deixando a Irmã continuar o seu discurso, que se parecia com as imprecações de Camilo contra Roma. O meu coração batia com tanta força que me foi impossível ir longe, e sentei-me na escada para gozar em paz os frutos da minha vitória. Não havia nisso valentia, não achais, minha querida Madre? Mas apesar disso, creio que vale mais não se expor ao combate quando a derrota é certa. Ai de mim! quando me recordo do tempo do meu noviciado, vejo bem quanto era imperfeita... Sofria por tão pouco, que agora rio-me disso. Ah! como o Senhor é bom por ter feito crescer a minha alma, por lhe ter dado asas ... Todos os laços dos caçadores não seriam capazes de me assustar, porque: «É em vão que se arma o laço diante dos olhos daqueles que têm asas» (Prov.). Mais tarde, sem dúvida, o tempo em que estou vai-me parecer ainda cheio de imperfeições, mas agora já não me admiro nada, não tenho desgosto por ver que sou a própria fraqueza, pelo contrário, é nela que me glorio, e conto descobrir em mim todos os dias novas imperfeições. Lembrando-me de que a Caridade cobre a multidão dos pecados, bebo nessa mina abundante que Jesus abriu na minha frente. No Evangelho, o Senhor explica em que consiste o seu mandamento novo. Diz em S. Mateus: «Ouvistes que foi dito: amareis o vosso amigo e odiareis o vosso inimigo. Mas eu digo-vos: amai os vossos inimigos, rezai por aqueles que vos perseguem». Sem dúvida, no Carmelo não se encontram inimigos, mas enfim, há simpatias, sente-se atração por uma Irmã, ao passo que outra nos faria dar uma grande volta para evitar encontrá-la; assim, mesmo sem o saber, ela torna-se objeto de perseguição. Pois bem! Jesus diz-me que esta Irmã, é preciso amá-la, que é preciso rezar por ela, mesmo que o seu comportamento me levasse a pensar que ela não me ama; «Se amais aqueles que vos amam, que reconhecimento haveis de ter? Pois também os pecadores amam aqueles que os amam» (S. Lucas, VI). E não basta amar, é preciso prová-lo. Fica-se naturalmente contente por dar um presente a um amigo; gosta-se sobretudo de fazer surpresas, mas isso de modo algum é caridade, pois os pecadores também o fazem. Eis o que Jesus me ensina ainda: «Dai a todo aquele que vos pede; e se tomarem o que vos pertence, não o reclameis». Dar a todas as que pedem é menos agradável que oferecer por si mesma, pelo impulso do seu coração; ainda quando pedem com delicadeza, não custa dar, mas, se por infelicidade, não empregam palavras bastante delicadas, logo a alma se revolta, se não estiver fortalecida na caridade. Arranja mil razões para recusar o que se lhe pede, e só depois de ter convencido a que pede da sua indelicadeza, é que, por fim, lhe dá por favor o que reclama, ou lhe presta um pequeno serviço que teria levado vinte vezes menos tempo a realizar do que foi preciso para fazer valer direitos imaginários. Se é difícil dar a todo aquele que pede, ainda o é mais deixar tomar o que nos pertence sem o reclamar. Oh, minha Madre! digo que é difícil, deveria dizer antes que isso parece difícil, pois o jugo do Senhor é suave e leve; quando se aceita sente-se logo a sua suavidade, e exclama-se com o salmista: «Corri pelo caminho dos vossos mandamentos, desde que dilatastes o meu coração». Só a caridade me pode dilatar o coração. Ó Jesus! desde que esta ditosa chama o consome, corro com alegria pelo caminho do vosso mandamento novo... Quero correr por ele até ao dia bem-aventurado em que, juntando-me ao cortejo virginal, poderei seguir-Vos nos espaços infinitos, cantando o vosso cântico novo, que deve ser o do Amor.

Esta transcrição omite as notas de rodapé.

Santa Teresa do Menino Jesus, Obras Completas, Edições Carmelo, 1996, pp. 256-263
Seleção de Teresa Messias, professora na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Quarta-feira da semana V

A alegria na frugalidade

No contexto da crise económica que vivemos, têm ganhado visibilidade as teses do economista francês (também filósofo, antropólogo, sociólogo e professor na Universidade de Paris-Sud) Serge Latouche. Defende o decrescimento e um decrescimento feliz. A proposta é curiosa e, também, controversa. Diz que a ideologia do crescimento (que está na base da sociedade de consumo), ainda que este seja adjetivado de sustentável, é irrealista. Os recursos naturais são limitados e estamos claramente a consumir a um ritmo superior às suas possibilidades. «Um crescimento infinito é incompatível com um mundo finito.» Diz que o crescimento não produz só bens, mas também necessidades. E que uma das suas contradições é que não os produz ao mesmo ritmo. O que origina uma «pauperização psicológica» ou, dito de outro modo: um estado de insatisfação generalizado. O que o leva a concluir que uma sociedade de crescimento não é uma sociedade da abundância, no seu sentido mais amplo. Como alternativa, propõe uma «abundância na frugalidade». Atreve-se mesmo a redefinir a felicidade como «abundância frugal numa sociedade solidária». O que pressuporia sair do círculo infernal da criação ilimitada de necessidades e de produtos, e da crescente frustração que ele gera. Diz que o PIB (Produto Interno Bruto), enquanto indicador central do ponto de vista económico, «mede tudo, menos o que faz com que a vida valha a pena de ser vivida». Segundo Latouche, a proposta do decrescimento é a «da autolimitação e simplicidade voluntárias, da abundância frugal, da reabilitação do espírito da doação e da pro­moção da convivialidade». Importa registar esta proposta, ainda que em traços muito breves, pela sua ressonância evangélica. Vinda do mundo da economia, é interessante verificar a sua proximidade com uma reflexão sobre o jejum, no âmbito da espiritualidade, salientando valores como a frugalidade, a simplicidade, a importância do dom e de uma vida partilhada.

Há toda uma arte de saber fazer festa com uma grande simplicidade de recursos. Existem famílias e outras comunidades que estão muito treinadas nesta arte. E o que impressiona é a alegria que testemunham. Tudo ganha outra intensidade quando os recursos para a festa não vêm tanto do exterior, mas são fruto da convocação do que há de melhor em cada um de nós. Amplia-se o espaço para a criatividade, para a espontaneidade e para a manifestação dos afetos. Importa romper com a lógica de que a alegria está no consumo e na apropriação. Não será legítimo esperar das comunidades cristãs o testemunho da alegria numa vida frugal que se traduza numa efetiva prática da solidariedade?

Onde está o segredo que nos permite o desapego face à posse? Há um conto de Anthony de Mello em que vale a pena meditar:

«Um monge mendicante, numa das suas viagens, encontrou uma pedra preciosa, e guardou-a na sua bolsa. Um dia, encontrou-se com um peregrino e, ao abrir a sua bolsa, para partilhar com ele as suas provisões, o peregrino viu a joia e pediu-lha. O monge, sem mais, deu-lha. O peregrino agradeceu-lhe e foi-se embora cheio de alegria com aquele presente inesperado, pensando para si que a pedra preciosa bastaria para lhe dar riqueza e segurança para o resto dos dias da sua vida. No entanto, poucos dias depois, voltou à procura do monge mendicante. Ao encontrá-lo, devolveu-lhe a joia e suplicou-lhe: Agora peço-te que me dês algo que tem muito mais valor do que esta joia, tão valiosa como é. Dá-me, por favor, o que te permitiu dar-ma a mim.»

Este é um conto sobre viagens. O monge e o peregrino que vivem em viagem, e dentro dessa viagem vivem outras viagens que escapam ao registo da cartografia. Há uma intensa itinerância presente na vida destes homens. Uma itinerância vivida no oculto - uma procura interior. O peregrino faz dois pedidos ao monge: um realizável (o monge dá-lhe a joia) e outro impossível (o que lhe permitiu dar-lha). Impossível, mas cheio de futuro. Existem desejos que, quando somos capazes de os nomear, já são sinal de que estamos a caminho. A alegria pela posse da pedra preciosa, que parecia ser a grande solução para a vida, foi efémera. Os peregrinos também conhecem os passos errantes. Agarrar o que nos é exterior pode seduzir-nos e fazer-nos esquecer que estamos feitos para as longas maturações. É tão importante ser capaz de abandonar o que é falso e de continuar na busca do que intuímos como verdadeiro.

O que tornou possível o gesto de desprendimento do monge ao dar a joia ao peregrino? Que segredo guarda este gesto? Qual a fonte de tanta liberdade? Sendo mendicante, sabe viver quando tem e quando não tem. Conhece o frio da penúria e o calor da abundância. Intui-se uma longa travessia que o conduziu ao abandono de si próprio, a um despossuir-se, onde encontrou repouso para o seu coração. Nele, tudo é passagem. Tudo flui. Nada agarra nem nada o prende. É como o vento. Deixa-se ir. Descobriu o sabor da paz - essa paz que é o grande dom de uma confiança incondicional. Esse é o seu único tesouro. Só os pobres, porque nada reservam para si, guardam os grandes tesouros da humanidade.

Carlos Maria Antunes
In Só o pobre se faz pão, ed. Paulinas

 

 

Terça-feira da semana V

«Ponhamos nossas delícias nas obras de piedade, saciemo-nos destes alimentos que nos nutrem para a eternidade.

Alegramo-nos com as refeições dos pobres, sustentados à nossa custa. Seja nossa alegria vestir aqueles cuja nudez cobrimos com as roupas indispensáveis. Atinjam nossos sentimentos humanos as doenças dos acamados, as fraquezas dos débeis, as tribulações dos exilados, o abandono dos órfãos, o luto das viúvas desoladas.

Não existe pessoa alguma que não possa de certo modo participar da benevolência que presta tais socorros. Nunca são parcos demais os recursos para aquele que é, de fato, magnânimo, e a medida da comiseração e da piedade não depende da quantidade das riquezas.

A opulência de boa vontade jamais carece de mérito, mesmo se os meios são escassos. Os donativos dos ricos são amplos; menores, os daqueles que têm fortuna mediana, mas o efeito das obras não difere se idêntico for o afeto dos que as praticam. Nesta oportunidade, caríssimos, de exercermos as virtudes, existem outras coroas, não provenientes dos gastos dos depósitos, nem da diminuição do dinheiro.

Trata-se de repelir a luxúria, de renunciar à embriaguez, de domar a concupiscência carnal conforme as leis da castidade, de transformar o ódio em amor, de converter as inimizades em paz, de extinguir a ira pela tranquilidade, de perdoar a ofensa pela mansidão».

S. Leão Magno (séc. V)
Seleção e tradução: Fr. Isidro Lamelas, OFM, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Segunda-feira da semana V

O compositor João Madureira apresenta a peça "Proverb", de Steve Reich (1936), criada em 1995 para três sopranos, dois tenores, dois vibrafones e dois órgãos elétricos.

 

 

 

Domingo da semana V

O maior desejo de Jesus é que tenhamos um coração alegre e que ninguém possa arrebatar-nos essa alegria (Jo 16, 22). É essa, precisamente, a intenção da oração de súplica: «Até agora não pedistes nada em meu nome: pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa» (Jo 16,24). É também a razão da vinda de Jesus. Vem para trazer a vida e a alegria: «Eu vim para que as ovelhas tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10). (...)

A tristeza, ou a penitência que a exprime, é sinal de que Jesus não está ou deixou de estar presente. É por isso que Jesus deixa de jejuar depois da Ressurreição, como atestam os relatos da Ressurreição: impressiona verificar como o pão é partido e comido, uma e outra vez (Lc 24, 30.35; Jo 9, 13). O Esposo regressou e o discípulo de Jesus tem, por isso, o direito de receber, neste mundo, o cêntuplo prometido (Mc 10, 30). E porque não?! De acordo com as palavras de Jesus, os nossos nomes estão inscritos no céu, para nossa maior alegria (Lc 10, 20).

A pergunta, no entanto, deve ser feita - mesmo que quiséssemos evitá-la, ela impor-se-ia, inevitavelmente: Donde vem essa alegria? Que ligação existe entre ela e a alegria que o mundo pode dar? É difícil responder, se ainda não experimentámos a alegria dada por Jesus. Por isso, as opiniões são bastante divergentes, mesmo entre os teólogos de profissão, Uns insistem no facto de que a alegria deste mundo é já um reflexo e um gosto antecipado da alegria futura do Reino. Querem dizer com isto que a alegria deste mundo não pode ser ignorada e que tem a sua importância. Contém já a alegria futura. Outros, pelo contrário, põem o acento na necessidade de renunciar às alegrias passageiras deste mundo, de olhos fixos na alegria que há de vir. Encontramos as duas tendências na história da espiritualidade. Alguns insistem na continuidade entre o que agora é e o que será no Além, mas de uma maneira muito melhor; outros sublinham a passagem para a luz e a rutura provocada por essa passagem. Para estes, não existe denominador comum entre a alegria deste mundo e a alegria de Jesus.

Neste campo, nem sempre é preciso chegar a uma síntese teológica perfeitamente satisfatória. Basta saber viver com as nossas alegrias simples e procurar cada vez mais recebê-las das mãos de Jesus e através do Espírito Santo. Se o conseguirmos, qualquer coisa transformará pouco a pouco a nossa alegria, um tanto mundana e egoísta na sua origem. Assim que Jesus entra em cada uma das nossas alegrias, já não podemos senão crescer na alegria. Mesmo que isso raramente aconteça sem ferida ou' laceração': são esses os sinais de uma vida em crescimento e, portanto, também de uma alegria cada vez mais profunda e que se eleva cada vez mais alto.

Esta tensão entre o hoje e o amanhã, o presente e o passado, o que vem e o que fica, também se encontra no Evangelho. Este fala-nos constantemente da alegria.No entanto, não escapamos à sensação de que a alegria atual é sempre limitada e deque tudo tem um fim. A alegria perfeita e completa de que fala Jesus não se identifica com as alegrias do mundo. É como se não pudéssemos passar destas à alegria futura sem que qualquer coisa de perturbador aconteça, mesmo à escala planetária. O Reino de Jesus não é realmente deste mundo (Jo 18, 36), embora a semente já tenha sido semeada e germine de modo misterioso. (...)

A relação entre Jesus e a nossa alegria neste mundo não é fácil de detetar. Se queremos seguir Jesus pelo caminho da sua alegria, sentimos sempre a grande tentação de nos afastarmos dEle e de procurarmos as nossas pequenas alegrias transitórias e limitadas, correndo assim o risco de perdermos para sempre a verdadeira alegria. É como se a alegria de Jesus avançasse em espiral rumo a um ponto central. Supõe-se que nós seguimos a curva dessa espiral tão fielmente quanto possível. Mas, ao mesmo tempo, somos continuamente tentados a esquivar-nos, a sair da espiral e continuar absolutamente sozinhos. Nesse caso, é enorme o risco de nos afastarmos do Reino de Deus, no centro da espiral, e de nos perdermos, temporária ou definitivamente, nas nossas insignificantes alegrias humanas. Aqui surge de novo a questão: devemos, então, renunciar à alegria para seguir Jesus? E, se sim, em que medida? Ou pelo contrário: a penitência e a mortificação não significam passar pelo caminho de Jesus, a fim de alcançar a alegria perfeita, a alegria em plenitude (Jo 15,11)? Assim como existe um amor levado ao extremo, que passa pela morte de Jesus (Jo 13, 1), não poderia haver uma alegria levada ao extremo, através dessa mesma morte e Ressurreição?

Antes de continuarmos; sublinhemos, por um momento, que a alegria verdadeira não é, antes de mais, um sentimento de exaltação. Não convém confundir a alegria corri as suas diversas expressões a todos os níveis: existe o prazer, o conforto, a alegria intelectual e artística, a alegria do trabalho bem feito ou do empreendimento conseguido; há, sobretudo, as. alegrias incontáveis das relações humanas, incluindo a alegria do amor, que deve acompanhar o homem ao longo de toda a sua vida. E, no entanto, todas essas experiências não passam de formas exteriores da alegria. Quanto mais importantes forem essas formas, mais profundas as suas raízes. A alegria verdadeira situa-se a uma grande profundidade, e deveríamos cavar profundamente em nós até fazê-la jorrar. É esse sem dúvida o sentido da expressão que costumamos usar quando queremos exprimir uma grande felicidade: Estou profundamente feliz. É por isso que qualquer. grande felicidade é também silenciosa. Não se pode exprimir. É indizível. Raramente aflora à superfície e nós seríamos incapazes de ostentá-la. Somos habitados por essa alegria na própria raiz do nosso ser.

A alegria é o terreno de cultura onde toda a vida lança raízes para ter condições de existir. Não poderíamos viver sem alegria, ou melhor: não poderíamos sobreviver. A alegria brota mais particularmente em momentos existenciais extraordinários, quando nos é dado fazer a experiência da nossa realidade profunda, da beleza ou da vida. Pensemos na alegria que pode ocasionar uma obra de arte: A thing of beauty is a joy for ever (uma coisa bela é uma alegria perene). No prazer artístico, brota a verdadeira alegria, porque, precisamente, graças à arte, desco brimos melhor o ser das pessoas e das coisas e, de certo modo, tocamo-las. Há nisto qualquer coisa que não podemos observar pela via ordinária dos sentidos. A realidade profunda dos outros é 'algo habitualmente inexprimível. Mas a alegria que experimentamos no contacto com um ser é sempre sinal de que nos é dado comungar profundamente com ele.

Esta alegria vai crescendo à medida que cresce o nosso ser. Porque a alegria é a característica dum ser vivo e em crescimento, dum ser que se desenvolve num «ser-mais». A alegria, portanto, vai sempre ligada à dinâmica das pessoas e das coisas. Contém um ritmo que, para o nosso próprio desenvolvimento, é importante nós abraçarmos. A alegria que jaz na fonte do nosso ser impele-nos, também, cada vez mais longe. É próprio dela
fazer-nos crescer no ser. SÓ a alegria é capaz disso.

Ali, onde a vida está a crescer, brota sempre uma nova alegria. O exemplo mais evidente é a alegria ligada à paternidade e maternidade, a partir da conceção, cujo prazer é sinal duma alegria e dum amor que vêm de algo mais alto do que o humano. Em tudo aquilo em que o homem participa da criação, desponta uma alegria nova e desconhecida. É assim que a alegria também está ligada ao 'processo de crescimento espiritual. Sobretudo quando alguém pode acolher uma vida nova da parte de Deus. É assim a alegria profunda do arrependimento, quando Deus nos recria no seu amor misericordioso. Um dos momentos existenciais mais intensos da nossa vida é, sem dúvida,·quando somos tocados pela graça e pela misericórdia de Deus, a fim de vivermos novamente nEle. É esse, também, o caso da amizade, quando nos sentimos aceites por outro com o nosso ser mais profundo, que ainda se encontra provisoriamente escondido a nossos olhos mas que já é reconhecido pelo amor dum outro. Na verdadeira amizade, o encontro nunca encerra qualquer ameaça. Estamos autorizados a ser plenamente nós mesmos, mais profundamente do que aquilo que se vê por fora. Por isso é que nós dizemos que a amizade «nos faz bem», querendo com isto significar que ela nos sustenta e nos ajuda a desenvolver o melhor de nós mesmos.

A alegria é, pois, uma característica do ser, na medida em que este cresce e alarga as suas fronteiras. De certo modo, a nossa alegria precede sempre um pouco a situação em que nos encontramos presentemente. É um apelo e um desafio. É alegria na medida em que aceitamos estar já situados mais longe, num outro, ou em Deus, mais longe do que onde nos encontramos de momento. Mas à medida que a alegria nos faz entrar na espiral da felicidade, existe também o perigo de nos desviarmos e nos perdermos numa outra felicidade. Encontramos frequentemente, nas pegadas da alegria, encruzilhadas em que há a possibilidade de nos esquivarmos para uma felicidade estreita e limitada, na qual, com o tempo, corremos o risco de nos enredar. Esta alegria imediata não vem necessariamente do maligno. Não. Mas também já não é a nossa alegria habitual, a alegria que responde ao nosso ritmo profundo, neste momento. Embora preciosa, afasta-nos da nossa dinâmica interior. Poderíamos estar mais longe, mais perto. já da alegria absoluta, no centro da espiral. Porque viver é crescer, e crescer sempre mais. Viver é desenvolver-se; uma vida que deixa de se desenvolver já está morta. É por isso que a verdadeira vida exige sempre alguma dilaceração, a fim de entrar num renascimento cada vez mais profundo. Dilaceração que se assemelha às dores e à alegria do parto.

A única ascese que se pode impor à alegria abrange o seu ritmo. É o movimento da espiral que vai abandonando cada vez mais os círculos exteriores, a fim de se dirigir para o seu centro mais íntimo. A ascese da alegria é, portanto, a própria alegria. A verdadeira alegria - como o verdadeiro amor - leva em si a sua própria purificação. Para purificar uma alegria não convém nunca restringi-la desde fora. Basta seguir-lhe as pegadas, abraçar a espiral. Impossível, então, escaparmos à purificação: ela está na própria alegria. Para salvar a verdadeira alegria, precisamos sempre de nos desprender do que não passa de uma sua expressão provisória. Temos de estar dispostos, a cada momento, a abandonar um pobre gozo limitado, para cavarmos até chegarmos a uma alegria mais profunda, até à alegria extrema, que coincide sempre com o amor extremo.

Só se pode falar de ascese ou de penitência tendo em vista a alegria. A penitência nunca deve agredir a nossa alegria, como se toda a alegria devesse ser suspeita e não pudesse ser vivida senão com má consciência; como se toda a alegria tivesse de ser expurgada ou restringida desde fora. A ascese não é mais do que entregar-se à vida verdadeira e à alegria profunda que nos habitam. Nesse sentido, ela não é de modo algum um agere contra, um «agir contra», mas antes um agere secundum, um «agir conforme» à alegria, em harmonia com o nosso ser profundo; ou, se quisermos ainda acentuar a dinâmica particular da alegria, a as­cese não pode ser senão um agere ultra, um «ir mais além», um ultrapassar a alegria provisória e limitada que só foi concedida para ontem e hoje e que amanhã será completamente nova.

É por isso que a verdadeira ascese tem pouco que ver com a força de vontade e não deve nunca levar à crispação. Muito pelo contrário. A ascese é um abandono descontraído e submisso, perante a alegria que nos habita, uma paragem e uma abertura . que permite à vida desenrolar-se sem obstáculo e quase sem dificuldade. É a libertação e o nascimento dum homem novo. A ascese recorda assim surpreendentemente aquilo a que chamam parto sem dor. (...)

Todo o discípulo de Jesus, em quem a vida de Jesus deve crescer constantemente, encontra-se, como esta mulher que dá à luz, entregue à dor e à alegria do crescimento. Vive dessa alegria, isto é, a partir da medida perfeita da estatura adulta de Jesus Cristo, para a qual ele tende. É por isso que a sua ascese é sempre alegre, e a única medida da sua ascese tem de procurar-se na alegria que lhe é dada pelo Espírito Santo. Não diz S. Bento na sua Regra que toda a ascese e mortificação extraordinárias não têm valor senão na medida em que se puderem oferecer a Deus com a alegria que procede do Espírito Santo? (R.B. 49,6). Importa, pois, que todo o discípulo de Jesus abrace a sua alegria. Há duas maneiras de lesar a alegria, ao mesmo tempo que a vida de Deus em si: ou apontando para mais além da alegria que se recebeu efetivamente; ou ficando aquém da alegria que nos está destinada.

No primeiro caso, queremos fazer. um esforço, mesmo privados de alegria. É o exemplo típico de uma má ascese: uma ascese que não é orientada pelo impulso do Espírito Santo, de que a alegria é o fruto sensível. Uma ascese assim resulta nula e não aceite aos olhos de Deus. Não passa de um esforço pagão, na maioria das vezes misturado de presunção e orgulho. Podem detetar-se aqui tendências masoquistas, que encontram a sua satisfação em práticas de penitências suspeitas. Nada disto tem algo a ver com a graça. No melhor dos casos, pode ser indício de boa vontade, que Deus, aliás, não deixa sem recompensa, mas de que não tem em absoluto qualquer necessidade. Uma ascese pagã leva-nos a apontar para além do que nos foi dado como medida da graça na alegria do Espírito. Com o tempo, poderia extinguir essa alegria e embotar perigosamente a nossa sensibilidade espiritual.

Mas acontece mais frequentemente ficarmos aquém da alegria que nos é dada e, com isto, fazermos agravo à graça e à vida de Jesus em nós. Por medo do sofrimento que acompanha sempre todo o processo de crescimento, ficamos apegados à nossa felicidadezinha limitada. Esta pode parecer-se a uma alegria realmente espiritual: alguma consolação na oração, algum sucesso no apostolado. Porque também é possível apegar-se a uma alegria espiritual ao ponto de já não nos permitir avançar rumo a uma alegria mais profunda. Por isso, é bom orar de vez em quando, a fim de descobrirmos em nós essa alegria profunda, ou melhor ainda, para que ela algum dia se apodere de nós. Sempre que a ascese se encontra plenamente em consonância com a alegria, torna-se livre, feliz e irradiante. Já não será preciso, então, apegar-se a qualquer felicidadezinha passageira. A própria alegria de Jesus se apegará a nós e nos levará, através de toda a mortificação, até à ressurreição e à vida nova.

A. Louf, Ao ritmo do Absoluto, A.O., Braga 1999, 125-135
Seleção de Teresa Messias, professora na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Sábado da semana IV

 

 

 

Sexta-feira da semana IV

 

Francis Alÿs
When faith moves mountains [Quando a fé move montanhas], 2002

Perto de Lima, no Peru, 500 jovens voluntários munidos com pás e colocados em linha, lado a lado, avançam por uma montanha de areia acima. O objetivo: deslocar essa duna 10 cm em relação à sua posição original. Mas o que possibilita e o que dá origem tal empresa insensata e inútil?

Num desenho preparatório para esta obra, o artista belga Francis Alÿs escreveu: «máximo esforço, mínimo resultado». Numa sociedade pragmática e preocupada com a produtividade, este trabalho inútil é um contrasenso. Para quê? O lema habitual é «mínimo esforço, máximo resultado». Isso é mais razoável. Mas o que move esta montanha não é a racionalidade nem a sensatez, mas a fé. Um acreditar ser possível contrariar a gravidade que nos empurra para baixo em direção ao visível, utilitário, rasteiro... E o que este esforço forma, aquilo a que dá origem, não é exterior ao próprio esforço.

Os gregos deram uma figuração, um nome e uma estória ao esforço sem resultados e sempre a recomeçar: Sísifo. Albert Camus fez dele o espelho do absurdo da existência humana. Dos nossos gestos repetidos, do esforço inglório sem recompensa, do desejo que é vazio que nenhum objeto desejado consegue colmatar, da experiência de retornarmos ao sopé da montanha – um novo obstáculo - que é preciso vencer... Mas nesta obra de Francis Alÿs, Sísifo não está só: Sísifo é comunidade. E isso faz toda a diferença. O esforço feito em comum cria um espaço e um tempo comuns. O partilhado torna-se obra. A fraternidade forma-se aí.

Este gesto improdutivo, aparentemente inconsequente, revela uma pregnância inesperada: o trabalho feito em conjunto, com um objetivo comum, transforma-se em tempo de convívio, em vida partilhada, em encontro. A insensatez do objetivo a alcançar – mover uma montanha - é o motor de criação de um corpo onde cada membro tem a sua função e trabalha com todos. Em conjunto. Neste processo, a materialidade e a gravidade da montanha – ou se foi muito ou pouco deslocada - torna-se irrelevante diante das consequências da imaterialidade potente da imaginação e do esforço conjugado: mais importante do que a deslocação da montanha, resultado que logo o vento se encarregará de destruir, o que vemos aqui em ação é a criação de uma unidade que congrega a multiplicidade, mas não a destrói. A constituição de uma corrente humana, de um grupo, de uma comunhão. E isto pela força da gratuidade. Da generosidade da escolha, da vontade, de cada um dos participantes.

Improdutivos! - acusarão alguns. Mas nesse gesto inútil – gesto artístico autêntico -, estes voluntários deslocam o horizonte do mundo: substituem o utilitarismo pragmatista e egocêntrico pelo poder do comum. Apresentam o serviço como verdadeiro poder: agir «em prol de» é que nos humaniza. No entanto, percebemos que esta obra não se apresenta como uma reflexão sobre o serviço realizado por um indivíduo consciente de fazer o bem a outro, mantendo ainda uma desigualdade: a desproporção entre aquele que dá e aquele que recebe. Esta ação é uma dádiva de todos com e para todos. É um esforço comunitário com um resultado que ultrapassa o produzido no exterior. Um esforço que é ação, diferente do fazer: mais do que produzir um objeto ou resultado externo, produz aquele que age. Um si que se cria no agir: e tal como acontece com a identidade pessoal, dá-se o mesmo com a comunidade. O que de mais valioso e insubstituível o esforço comum pode criar é precisamente esse comum: a comunidade. (E poucas obras de arte testemunham como esta a experiência da alegria do encontro!)

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Paulo Pires do Vale
Curador. Professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e da Escola Superior de Educação Maria Ulrich

 

 

Quinta-feira da semana IV

«Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes,
convertei-vos ao Senhor, vosso Deus,
porque Ele é clemente e compassivo,
paciente e rico em misericórdia» (Joel 2, 13)

Pouco a pouco acostumámo-nos a ouvir e ver, através dos meios de comunicação, a crónica negra da sociedade contemporânea, apresentada quase com perverso regozijo, e também nos acostumámos a tocá-la e a senti-la em torno de nós e na nossa própria carne.

O drama está na rua, no bairro, na nossa casa e, por que não, no nosso coração. Convivemos com a violência que mata, que destrói famílias, aviva guerras e conflitos em muitos países do mundo. Convivemos com a inveja, o ódio, a calúnia, o mundanismo no nosso coração. 

O sofrimento de inocentes e pacíficos não deixa de nos esbofetear; o desprezo pelos direitos das pessoas e dos povos frágeis não nos são tão distantes; o império do dinheiro com os seus efeitos demoníacos como a droga, a corrupção, o tráfico humano - incluindo crianças – a par da miséria material e moral são moeda corrente.

 A destruição do trabalho digno, a emigrações dolorosas e a falta de futuro unem-se também a esta sinfonia. Os nossos erros e pecados como Igreja também não ficam fora deste panorama.

Os egoísmos mais pessoais justificados, e não por causa disso menores, a falta de valores éticos dentro de uma sociedade que faz metástases nas famílias, na convivência dos bairros, vilas e cidades, falam-nos da nossa limitação, da nossa debilidade, e da nossa incapacidade de transformar esta lista inumerável de realidades destrutivas.

A armadilha da impotência leva-nos a pensar: Será que faz sentido tentar mudar tudo isto?  Podemos fazer algo diante desta situação? Vale a pena tentá-lo se o mundo continua a sua dança carnavalesca disfarçando tudo por um tempo? No entanto, quando a máscara cai, aparece a verdade e, embora para muitos soe anacrónico dizê-lo, reaparece o pecado, que fere a nossa carne com toda a sua força destrutiva, desfigurando os destinos do mundo e da história.

A Quaresma apresenta-se-nos como grito de verdade e de esperança certa que nos responde que sim, que é possível não nos maquilharmos e esboçarmos sorrisos de plástico como se nada se passasse.

Sim, é possível que tudo seja novo e diferente porque Deus continua a ser «rico em bondade e misericórdia, sempre disposto a perdoar», e encoraja-nos a começar uma e outra vez.

Hoje, novamente, somos convidados a empreender um caminho pascal até à Vida, caminho que inclui a cruz e a renúncia; que será incómodo mas não estéril. Somos convidados a reconhecer que algo não está bem em nós mesmos, na sociedade ou na Igreja, a mudar, a fazer uma viragem, a convertermo-nos.

Neste dia, são fortes e desafiadoras as palavras do profeta Joel: «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus». São um convite a todo o povo, ninguém está excluído.

Rasguem o coração e não as roupas de uma penitência artificial sem garantias de futuro.

Rasguem o coração e não as roupas de um jejum formal e de cumprimento que nos continua a manter satisfeitos.

Rasguem o coração e não as roupas de uma oração superficial e egoísta que não chega às entranhas da própria vida para a deixar tocar por Deus.

Rasguem os corações para dizer com o salmista : «pecámos». «A ferida da alma é o pecado: Oh pobre ferido, reconhece o teu Médico! Mostra-lhe as chagas das tuas culpas. E uma vez que ele não são ocultos os nossos pensamentos, faz-lhe sentir o gemido do teu coração. Leva-o à compaixão com as tuas lágrimas, com a tua insistência, importuna-o! Que ouça os teus suspiros, que a tua dor chegue até Ele, de modo que, no fim, possa dizer-te: “O Senhor perdoou o teu pecado”»" (S. Gregório Magno).

Esta é a realidade da nossa condição humana. Esta é a verdade que pode se aproximarmo-nos da autêntica reconciliação… com Deus e com os homens. Não se trata de desacreditar a autoestima mas de penetrar no mais fundo do nosso coração e cuidar do mistério do sofrimento e da dor que nos liga desde há séculos, milhares de anos... desde sempre.

Rasguem os corações para que por essa fenda possamos olharmo-nos de verdade.

Rasguem os corações, abram os vossos corações, porque só num coração rasgado e aberto pode entrar o amor misericordioso do Pai que nos ama e nos cura.

Rasguem os corações diz o profeta, e Paulo pede-nos quase de joelhos "deixai-vos reconciliar com Deus". Mudar o modo de vida é o sinal e fruto deste coração reconciliado por um amor que nos ultrapassa.

Este é o convite, frente a tantas feridas que nos magoam e que nos podem levar à tentação de endurecermos: Rasgai os corações para experimentar na oração silenciosa e serena a suavidade da ternura de Deus.

Rasguem os corações para sentir o eco de tantas vidas rasgadas e que a indiferença não nos deixe inertes.

Rasguem os corações para poder amar com o amor com que somos amados, consolar com o consolo que somos consolados e partilhar o que recebemos.

Este tempo litúrgico que inicia hoje a Igreja não é só para nós mas também para a transformação da nossa família, da nossa comunidade, da nossa Igreja, da nossa pátria, do mundo inteiro.

São 40 dias para que nos convertamos à santidade mesma de Deus; nos convertamos em colaboradores que recebemos a graça e a possibilidade de reconstruir a vida humana para que todo o homem experimente a salvação que Cristo nos ganhou com sua a morte e ressurreição.

Juntamente com a oração e a penitência, como sinal da nossa fé na força da Páscoa que tudo transforma, também nos dispomos a começar como nos outros anos o nosso "Gesto quaresmal solidário”.

Como Igreja em Buenos Aires que marcha rumo à Páscoa e que crê que o Reino de Deus é possível necessitamos que, dos nossos corações rasgados pelo desejo de conversão e pelo amor, brote a graça e o gesto eficaz que alivie a dor de tantos irmãos que caminham ao nosso lado. 

«Nenhum ato de virtude pode ser grande se dele não resulta proveito para os outros… Assim pois, por mais que passes o dia em jejuns, por mais que durmas sobre o chão duro, e comas cinza, e suspires continuamente, se não fazes bem a outros, não fazes nada grande». (São João Crisóstomo)

Este ano da fé que percorremos é também a oportunidade que Deus nos dá para crescer e amadurecer no encontro com o Senhor que se faz visível no rosto sofredor de tantas crianças sem futuro, nas mãos trementes dos idosos esquecidos e nos joelhos vacilantes de tantas famílias que continuam a dar o peito à vida sem encontrar ninguém que as sustenha.

Desejo-vos uma santa da Quaresma, penitencial e fecunda Quaresma e, por favor, peço-vos que rezem por mim. Que Jesus vos abençoe a Virgem Santa vos proteja.

Mensagem quaresmal do cardeal Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco)
Buenos Aires, 13.2.2013, Quarta-feira de Cinzas

 

 

Quarta-feira da semana IV

«Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?"».

A biblista Luísa Almendra comenta uma passagem evangélica que se apropria a este momento da vida da Igreja, em que 115 cardeais começaram a escolher o novo papa, sucessor de S. Pedro.

O apóstolo pescador apela ao conhecimento que Jesus tem da sua amizade (como se lhe dissesse "eu sei que te neguei mas tu também sabes que eu sou deveras teu amigo").

Humanamente Pedro falhou e traiu toda a confiança que o seu mestre havia depositado nele; nos tribunais humanos Pedro mereceria as capas de jornais. Mas Jesus restitui a sua confiança em Pedro através de um interrogatório que não questiona a coerência, o domínio de si ou a prudência, mas o amor.

 

 

 

Terça-feira da semana IV

Não chames ao mundo morada, não lhe dês um nome
pois falhas a tua Primavera
as sugestões atmosféricas tornam as paisagens equívocas
e nunca chegamos a perceber
como avança uma história
ou uma tempestade

Diante da janela iluminada
acredita apenas na duração
do amor

José Tolentino Mendonça
Seleção: José Rui Teixeira, poeta, professor na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Porto

 

 

Segunda-feira da semana IV

 

 

 

IV Domingo da Quaresma

Dentre todos os ensinamentos divinos, devemos explicar de preferência, com a ajuda do Senhor, o que escutamos agora em último lugar: Alegre-se o coração dos que procuram o Senhor (Sl 104,3). Além disso, vem muito a propósito o facto de sentirmos o efeito do jejum nos nossos ventres. Alegrar-se-á o nosso coração, se sentirmos que as nossas mentes passam fome. Quando nos nossos banquetes se servem algumas iguarias saborosas, logo se alegram as fauces dos que procuram o alimento. Quando diante de nós se apresentam quadros de várias cores e agradavelmente pintados, logo se alegram os olhos dos que procuram ver algo estético. Alegram-se os ouvidos dos que procuram a melodia. Alegra-se o olfato dos que procuram os bons odores. Alegre-se o coração dos que procuram o Senhor.

Sem dúvida que cada realidade, que se apresenta diante dos nossos diversos órgãos dos sentidos, deleita cada um dos sentidos. Na verdade, não é o som que deleita o olhar, nem a cor que deleita o ouvido. Ora, para o nosso coração, o Senhor é luz, é voz, é odor e é alimento. E, pelo facto de Ele não ser nada disto, é que Ele é tudo isto. E, pelo facto de Ele ser o criador de tudo isto, é que Ele não é nada disto. Ele é luz para o nosso coração, e por isso lhe dizemos: Na tua luz veremos a luz (Sl 35,10). Ele é som do nosso coração, e por isso lhe dizemos: Far-me-ás ouvir uma palavra de gozo e de alegria (Sl 50,10). É odor para o nosso coração, e é por isso que se diz acerca dele: Nós somos o bom odor de Cristo (2 Cor 2, 15). Mas se vós, por terdes jejuado, andais à procura de alimento, Felizes os que têm fome e sede de justiça Mt 5,6). Ora do próprio Senhor Jesus Cristo se disse que se fez para nós justiça e sabedoria (Cf. 1 Cor 1,30). Eis que o manjar já está preparado. Cristo é justiça e nunca falta. Esse manjar não nos é preparado por nenhum cozinheiro, nem nos é trazido de além-mar por mercadores, como os frutos exóticos. É alimento que pode ser saboreado por todo aquele que tem sãs as fauces do homem interior. É alimento que, referindo-se a si mesmo, diz: Eu sou o pão vivo que desceu do céu (Jo 6,51). É alimento que restabelece e que não se acaba. É alimento que não desaparece, quando se consome. É alimento que sacia os famintos e permanece inteiro. Quando fordes daqui para as vossas mesas, não podereis comer nada assim. Ora, uma vez que viestes para receber este manjar, comei-o bem. Mas quando fordes embora, digeri-o bem. Com efeito, come-o bem e digere-o mal, aquele que ouve a palavra de Deus e não a põe em prática (Cf. Mt 7,26). Na verdade,  a esse não lhe aproveita o suco proveitoso do alimento, mas com a indigestão acaba por vomitar o alimento cru e enjoativo».

Santo Agostinho
Sermão 28
Seleção e tradução: Fr. Isidro Lamelas, OFM, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Sábado da semana III

«Uma igreja. Um pároco. Uma empresa de mudanças. A igreja já não é utilizada, sendo esvaziada de todas as decorações sacras, incluindo o grande crucifixo sobre o altar. Restam apenas os bancos num espaço vazio. O velho padre parece não conseguir resignar-se a este destino e o sacristão apercebe-se disso.

Mas, em pouco tempo, um grande grupo de clandestinos à procura de refúgio entra na igreja e, com os bancos e com cartões, instala aí uma pequena aldeia. O sacerdote vê a sua igreja ganhar de novo vida mas, de fora, os homens da Lei tornam-se ameaçadores» (da sinopse).

"Aldeia de Carão" é um olhar profundo sobre um pároco que redescobre o sentido do mistério e, em particular, as virtudes da caridade.

 

 

Seleção: Margarida Ataíde
Grupo de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

 

 

Sexta-feira da semana III

Doris Salcedo
Plegaria Muda, 2008-2011
Madeira, composto mineral, metal e relva
Dimensões variáveis

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162 esculturas em madeira e terra espalhadas no espaço. Com elas a artista cria percursos labirínticos, becos e clareiras. Cada elemento, individualmente, sugere já uma estranheza interrogante: duas mesas idênticas, uma sobre a outra, tendo entre elas uma camada de terra. A imagem imediata, acentuada pela repetição dos elementos, é sepulcral. Surgem como caixões, campas espalhadas na galeria branca, um inesperado cemitério. O tamanho dessas peças, como afirmou Doris Salcedo (n. 1958), «tem aproximadamente o comprimento e a largura de um caixão normal». O material é também o mesmo: a madeira. Mas aqui, em vez da aparência imediata, ilustrativa e redundante do caixão, deparamos com mesas.

O uso das mesas, com o seu valor simbólico de encontro e de lugar de refeição, de criação de comunidade e de alimentação do corpo, estando vazias de convivas, aumentam a sensação de ausência. Indicia o vazio deixado pelos corpos, o da sua retirada, o da morte. As mesas tornam-se vestígios das vidas que ali já não estão. Memorial. E a camada de terra sobre a mesa parece ser a desse húmus que o corpo é. Pó. O pó que fomos e que seremos – e como percebeu Pe. António Vieira, se fomos pó e seremos pó, somos já pó...

Avançando silenciosamente para essas esculturas – porque é o silêncio que logo nos impõem -, deparamos com o tampo invertido da mesa superior e percebemos com surpresa que é atravessado, aqui e ali, por ervas verdes. Verdadeiras. A vida encontra o seu caminho. Desponta, brota, onde, à primeira vista, só encontrávamos a morte. A madeira não pode conter a sua força. A morte é fecunda. (Mas a vida é frágil. Essas ervas têm de ser cuidadas regularmente, não podem ser negligenciadas. Também elas secarão e outras nascerão...).

Remetendo para uma das muitas histórias de violência do país natal de Doris Salcedo, a Colômbia - onde milhares de jovens foram enganados e mortos por militares, para estes receberam o valor da recompensa governamental fazendo-os passar por guerrilheiros revoltosos - Plegaria Muda é, nas palavras da artista, “uma tentativa de elaboração desse luto, um espaço demarcado pelo limite radical imposto pela morte. Um espaço fora da vida, um lugar à parte, que recorda os nossos mortos. (...) Ao individualizar a experiência traumática através da repetição, espero que esta obra consiga, em alguma medida, evocar e restituir a cada morte a sua verdadeira dimensão, permitindo assim o retorno à esfera do humano destas vidas dessacralizadas. Espero que, apesar de tudo, e mesmo em condições difíceis, a vida prevaleça... como sucede em Plegaria Muda.”

Uma oração muda. Um memorial aos injustamente condenados, aos sem voz, para que não sejam esquecidos. Uma forma silenciosa, mas pregnante, de luto. Manifestação do poder ético da estética.

Na deambulação por entre esta instalação, como não ser implicado e afetado pela violência serena da imagem e a consequente reflexão sobre a finitude, a fragilidade, a nossa própria vulnerabilidade? Mas como não nos alegrarmos também com a surpresa pascal da força renascente da vida?

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Paulo Pires do Vale
Curador. Professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e da Escola Superior de Educação Maria Ulrich
Fotos: Exposição no Centro de Arte Moderna - Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011

 

 

Quinta-feira da semana III

Humildade

Quem ora entende, sem grandes explicações, que a oração pertence à vida, nem pode nunca desligar-se dela. Pelo contrário, quem ora dá rumo à vida; a vida é oração e a oração brota da vida, já que o essencial, na relação com Deus, é uma vida entregue. O «aqui estou» dos profetas, ou o «eis-me aqui» de Maria, são a expressão verbal e orante de uma entrega sem condições. Quando o Senhor chama alguém à relação com Ele, no amor e na fidelidade, não chama a entregas parciais ou temporais. Chama à totalidade, como é próprio de amor total. Atitudes medianas ou ambíguas não são dignas do nosso Deus, nem da vocação a que somos chamados: predestinados para ser imagem idêntica à de seu Filho, somos chamados a coisas grandes, nada menos que a participar plenamente da santidade de Deus. Não é monopólio dos conventos; é a vida dos batizados, em cujo coração depositou o Senhor a vida trinitária, como semente destinada a crescer. «Sereis santos porque eu sou o Senhor» (Lev 11,44).

Ponto claro no caminho espiritual, do passado e do presente, é que para a santidade - a plenitude do amor de Deus em nós - se caminha na humildade, que tentámos descrever como sendo a outra face do amor, o esquecimento de si. O Espírito sopra onde quer e os caminhos são variados; mudam culturas e linguagens, exprimem-se de muitas maneiras os homens e as mulheres de todos os tempos, mas vão bater no mesmo ponto; para viver o tudo há que passar pelo nada. O nada da adoração de si próprio, que torna possível a adoração em espírito e em verdade dos adoradores que o Pai deseja. «Nada, nada, nada», insistem os homens de Deus, sem sombras de niilismo ou pessimismo, porque o outro lado do nada é o Tudo.

Com base na cultura do seu tempo, mestres do passado cultivaram o desprezo de si, como expressão de humildade. São maneiras de falar próprias das antropologias dos tempos, incómodas em mundo que exalta, de todas as maneiras, os valores e a dignidade do homem. A humildade aparece hoje como obra de arte antiga que precisa de restauro, pois a atitude espiritual a que os autores de todos os tempos dão tanta importância - e que se continua a chamar humildade - está no âmago do espírito de Jesus, proclamado nas bem-aventuranças. Não é arcaísmo que se possa deitar fora, nem questão facultativa, acessória ou periférica.

Certas caricaturas que dela se fizeram, ao longo dos tempos, e a identificaram com condições sociais e culturais, ou com atitudes de amorfo ou de invertebrado, desvirtuaram - tiraram a força - à energia da verdade e do amor. Não confundamos o humilde com o parvo que se cala quando tem razão, ou com o tímido que se encolhe quando é agredido. Muito menos com o resignado, perante situações de injustiça pessoal ou coletiva. É verdade que, ao chegar a sua hora e quando «tudo estava consumado», Jesus se entregou, sem resistência, aos verdugos, porque assim era necessário para revelar um amor até ao extremo. Não o fez por fraqueza, mas em plena liberdade, no cumprimento da missão que o Pai lhe confiara. Antes disso, encontramos um Jesus, manso e humilde de coração que desmascara, com frequência, a hipocrisia dos fariseus, denuncia a corrupção dos poderosos, ou expulsa os vendilhões do templo. Encontramo-lo a argumentar e a defender-se perante as ciladas dos inimigos, ou até a derrotá-los com as mesmas armas que eles utilizavam: «De onde provém o batismo de João? Do céu ou dos homens? ... Eles não souberam responder ... » (Mt 21, 25 ss.). E quando, no sermão da montanha, afirma, a certa altura, «se alguém te bater na face direita oferece-lhe também a outra» (Mt 5, 39), não está a proibir a digna oposição aos ataques injustos, ou o combate ao mal no mundo, mas sim a condenar a vingança de quem paga o mal com o mal, ou a proclamar um amor para além do obrigatório: «Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas» (Mt 5, 41). Que o mesmo é dizer: não penses demasiado nos teus direitos e põe-te sempre a favor dos outros. Não chegam as páginas de um livro para continuar a dizer que a humildade, em Jesus, é coluna vertebral da sua vida e missão: o humilde é homem sem medo, porque se esquece de si.

A humildade pode entender-se a partir de vários ângulos, segundo as suas diferentes manifestações. Também se pode entender na raiz e identificá-la com o próprio espírito de Jesus, suporte das bem-aventuranças. Sendo arcaica a palavra, para alguns contemporâneos, não podemos eliminá-la do nosso vocabulário espiritual, sob pena de deitarmos por terra uma atitude básica da espiritualidade cristã. Não havendo outra, para já, que a substitua, é preciso reencontrar-lhe o sentido, apesar das caricaturas acima referidas. A humildade é, no sentido bíblico e no da tradição cristã, atitude eminentemente religiosa que nasce na relação do homem com Deus, e «transforma o pobre em homem de Deus». Diz respeito à relação da criatura perante o Criador e à verdade dessa mesma relação. A humildade, na Bíblia, é atitude da criatura pecadora, diante do Todo-Poderoso, três vezes santo. O humilde reconhece que recebeu de Deus tudo o que é e tudo O que tem; depois de ter feito tudo o que tinha a fazer, o humilde reconhece-se servo inútil, ou seja, não se apropria dos dons de Deus para glória pessoal; o humilde sabe que por si não é nada e abre o coração à graça. Os humildes procuram os interesses dos outros e ocupam o último lugar. Não tocam, por isso, trombeta diante de si, nada fazem para serem vistos pelos homens , nem a sua mão esquerda sabe o que faz a direita. A humildade é suporte da fé. Como consequência, também está na base da relação fraterna.

Israel aprende a humildade de várias maneiras: ao fazer a experiência da omnipotência de Deus que salva o povo, como único Senhor, ao fazer a experiência da pobreza, na provação coletiva das derrotas e do exílio, ou na provação individual da doença e da opressão dos fracos. Essas humilhações levam Israel à consciência da incapacidade radical do homem e da miséria do pecador que se separa de Deus; daí se volta para Deus de coração contrito e humilhado, em humildade feita de dependência total e de docilidade confiante. O «resto» de Israel será humilde e pobre.

O Messias é manso e humilde, e é Messias dos humildes. Não procura a sua glória pessoal; humilha-se ao ponto de lavar os pés aos discípulos; aniquila-se ao fazer-se homem e servo, e ao percorrer um caminho até à morte de cruz.

A humildade é o lado oculto do amor: é preciso seguir o caminho desta humildade nova e da mansidão, para praticar o mandamento novo. Todas as bem-aventuranças são a lei nova do amor, ou a pedagogia dela - o seu lado oculto - e supõem, por isso, uma espiritualidade pascal, de morte e ressurreição. Amar é sair de si; para sair de si é preciso esquecer-se de si. Para caminhar em direção ao «êxtase» (estar fora de si), é preciso um «êxodo» (sair de si). Quer dizer que o espírito de Jesus, que está na base de todas as bem-aventuranças, é o espírito da humildade. Como é a face escondida do amor, também tem uma morte e uma ressurreição. A humildade será, portanto, nesta perspetiva, a capacidade de esquecimento de si - a morte do egoísmo - em função do Outro ou dos outros. Isso é a ressurreição.

Sem ela, seríamos simplesmente pobres, ou mansos, ou misericordiosos, ou tristes... A humildade é atitude próxima da fé, da esperança e da caridade. Podemos colocar o espírito de Jesus - a atitude habitual da sua alma humana, que o leva a nada poder fazer por si próprio se não vir o Pai fazê-lo, a humildade de Jesus - como sustentáculo da sua união permanente com o Pai. O Filho é aquele que está voltado para o seio do Pai, esquecido de si. Está no Pai, conhece o Pai, vive pelo Pai, não tem outro alimento senão fazer a vontade do Pai,  nada faz que o Pai não lhe dê a fazer.

Quem caminha para o «nada», de que nos falam os místicos, aproxima-se de Deus. O espírito de Jesus - a humildade que tentamos descrever - só tem sentido em perspetiva religiosa, pois o nada é espaço do Tudo. Despojar-se ou esvaziar-se é deixar outras esperanças (pontos de apoio ou fundamentos de felicidade), para encontrar a Esperança e colocar em Deus a confiança única e total. Assim eram os pobres de Yavé, os anawin, regressados do cativeiro, despojados de tudo, a quem o sofrimento ensinou a humildade autêntica; esta é sempre acompanhada pelo abandono nas mãos de Deus e leva à certeza de que o Senhor está perto, e não abandona quem n'Ele confia. Ainda que falte tudo.

Da mesma maneira, as bem-aventuranças são sete, oito ou nove situações (podem ser muitas mais) - situações humanas concretas que implicam um comportamento moral - em que o espírito de Jesus se vive, em estreita relação com o amor do Pai, derramado nos corações. Sem elas, o amor não é verdadeiro. Os pobres, os mansos, os misericordiosos, os que têm fome e sede de justiça, são homens modestos que não fazem alarido, que pensam pouco em si próprios e que, por isso mesmo, não têm medo de dar a cara. A humildade é, neles, energia de aceitação de si próprios que lhes dá capacidade de integração de todas as coisas, define a sua personalidade de homens e prepara-os para serem perseguidos por causa da justiça. São homens unificados que não esperam nada de nada e, por isso, podem olhar o mundo pelo prisma de Deus, com olhos de misericórdia, de justiça, de pureza ... Homens que vivem o espírito de Jesus vão reproduzindo neles a Sua imagem.

Na oração, vive-se tudo isto como experiência vital. Se o objetivo da oração é o de buscar e encontrar a Deus, quem ora despoja-se, esvazia-se de si e de todas as coisas, para que Deus seja tudo. Convém notar que o nada de que falamos, e o tudo de Deus em nós, não são realidade feita nem acabada: são caminho no qual se entra e pelo qual se vai. É próprio da alma humilde não se afligir por causa da lentidão com que avança e tudo esperar do Senhor que também não tem pressas. A pedagogia divina adapta-se, misteriosamente, à nossa debilidade, e não se assusta com ela: também se adapta ao ritmo do crescimento humano, que não pode ser mais rápido, em muitos casos, sob pena de se destruir. O jardineiro, que cuida a sua planta, rega-a e poda-a, mas não puxa por ela para a fazer crescer mais depressa. O que o Senhor pede de nós é a fé. Na lentidão, precisamente, se prova a fé, a paciência e a constância. Quem anda em humildade tam­bém não se aflige ao ver a meta ainda longe, nem lhe interessa saber a que distância está dela. O que importa é estar no seu caminho. Jesus é o caminho.

Santa Teresa perguntava-se, um dia, por que razão era o Senhor tão amigo da humildade. E veio-lhe de repente uma luz: «É porque Deus é suprema verdade e que a humildade consiste em caminhar segundo a verdade. Ora é uma grande verdade que nós, por nós mesmos não temos nada de bom... Quem não compreende isto caminha na mentira...».

A humildade verdadeira nasce na contemplação da criação: tudo o que somos, e tudo o que temos de bom, vem de Deus - «todos os bens e dons descem do alto», dizia Santo Inácio; são dados gratuitamente, na criação ou redenção; não são devidos como se a eles houvesse um direito. Conhecê-los e agradecê-los faz parte do caminhar em verdade e do crescer no amor: «Não trate (alguém) de umas humildades que há ... que lhes parece humildade não entender que o Senhor lhes vai dando dons - diz Santa Teresa. Entendamos bem, como é isso, que no-los dá Deus sem nenhum mérito nosso, e agradeçamo-lo a Sua Majestade; porque se não conhecemos que recebemos, não despertamos para amar ... É coisa muito clara que amamos mais a uma pessoa quando muito se recorda as boas obras que nos faz». Aparências de humildade, como toda a aparência, não fazem crescer no amor. São doença do espírito tão grave como a vanglória. Conhecer o que Deus dá - capacidades naturais ou as maravilhas da graça - faz conhecer o seu jeito de amar e desperta o coração para o amor. Conhecer o dom gratuito, acolhê-lo e pô-lo a render, faz «entrar (a pessoa) na alegria do seu Senhor» (Mt 25, 21), e manifesta a glória do Criador. Conhecer os dons, todos os dons, reconhecer neles a santidade de Deus e louvá-lo por eles, faz-nos lembrar, outra vez, a humildade da sua serva que dizia: «O Senhor fez em mim maravilhas, santo é o seu nome» (Lc 1,49).

Apropriar-se dos dons, para fazer deles motivo de glória pessoal (isso é a vaidade), é uma espécie de roubo. Roubo de uma glória que pertence ao Criador. Podemos e devemos entender e sentir que os dons pessoais, e os do mundo inteiro, manifestam a glória do Criador, mas não inverter o sentido das coisas com um retomo da glória sobre si próprio, como se os dons não fossem dons, mas coisa devida. Na raiz do pecado está uma transformação do dom em coisa devida, ou uma apropriação do que se deve acolher: como se um homem, ao conhecer o presente que um amigo lhe vai dar, lho roubasse, substituindo o acolhimento pela apropriação. É a tentação de se apoderar da condição divina quando ela é oferecida, para a ter antes de tempo, autonomamente conquistada. «Sereis como Deus» (Gen 3, 5): para ser como Deus, basta apoderar-se do fruto - por isso é que ele é proibido; é uma pressa de ter, já, uma glória que Deus oferece e que há de amadurecer a seu tempo, reconhecida. Na raiz do pecado há uma falta de paciência que leva a pessoa a querer já, por sua conta, o que lhe há de ser oferecido depois, como dom.

É doentio não ver nem reconhecer os dons de Deus, em si próprio, na Igreja e no mundo, e mais doentio ainda chamar humildade a essa estreiteza de vistas. Referimo-nos a pessoas que se acham sempre infradotadas, no plano da natureza ou da graça, ou veem o mundo com miopia. As causas da doença radicam, muitas vezes, na educação, humana ou religiosa, que deixou confusões de conceitos e atitudes, e medos. A pedagogia não era certamente a da verdade, criadora de liberdade e, por isso, se era muitas vezes convidado a esconder ou ignorar o que era bom, não viesse a vanglória dar cabo de tudo. A humildade verdadeira é outra coisa: é atitude de reconhecimento e acolhimento do dom como dom - a ação de graças é inerente - e atribuição da glória, como manifestação do resplendor divino, ao Criador. A humildade, que consiste em 'caminhar segundo a verdade' é movimento de ida sem volta; o humilde, esquecido de si, procura a glória de Deus, sem retomo. Acolhe o dom e não quer outra coisa senão que a santidade de Deus se manifeste, no dom reconhecido e acolhido.

O vaidoso, pelo contrário, quer a glória para si. A glória de Deus, oferecida como dom, quere-a já, como direito, mas não tem onde ir buscá-la senão à glória dos homens - ao aplauso ou aos louvores que vêm dos outros. No fundo, o vaidoso não aceita a dependência do dom - a glória que vem de Deus - e proclama para si uma glória e uma felicidade autónomas; não espera de Deus o presente - o dom - e apodera-se dele antes do tempo, com os meios que tem à mão: cultiva a própria imagem e a que os outros têm dele, para subir no conceito dos homens. A felicidade ficará por aí, trepidante, à mercê de um conceito que pode mudar com os ventos: o seu fundamento existe agora e pode não existir amanhã. Felicidade inquietante: como se pode ser feliz hoje, com a possibilidade de o não ser amanhã?

Voltamos ao sermão da montanha: «Guardai-vos de fazer as vossas obras diante dos homens para vos tomardes notados por eles ... Quando deres esmola, não permitas que toquem a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas ... a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa» (Mt 6, 1-7). Assim como quem diz: se pões a tua esperança na glória dos homens, tê-la-ás (talvez), mas a tua felicidade ficará por aí. É a tua, exclusivamente tua; apoderaste-te dela. Não faças assim, porque ficas enclausurado, fora da lógica do dom, que é esta: «Quando deres esmola, pelo contrário, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita... » (ib.), para que os teus horizontes se abram à glória que Deus te oferece - «teu Pai que vê no oculto recompensar-te-á» (ib.). Deixa essa glória que não presta - é pequena e passageira, indigna de ti - e abre-te à esperança, no acolhimento do dom de Deus e à glória que Ele te dará: a que virá no fim dos tempos em plenitude e que já te é dada agora, em embrião, destinado a crescer. Não tenhas pressa: ele cresce devagarinho. Na lentidão e na paciência é que se vive a esperança. Aceita a liberdade na dependência, porque essa é a verdade da tua vida: não podes existir e ser feliz na existência, só por ti.

Se se opõe à esperança, a vaidade opõe-se também à fé: «Como podeis acreditar, vós que tirais a glória uns aos outros e não buscais a glória que vem de Deus?» (Jo 5,41-44). A humildade está na base da fé e, portanto, da caridade. Ela é a outra face do amor.

A oração dos humildes

Toda a oração dos humildes é de acolhimento do dom. O dom é a vida de Deus, Deus em pessoa, em três pessoas. É tudo o que a vida de Deus é: amor, alegria e paz. Vida em abundância, que o coração humano não pode suspeitar, mas que vai saboreando quando a acolhe e se entrega. Não imaginemos o dom de Deus com a avareza da nossa pequenez, como coisa que Deus desse com muito regateio, ou com exigências de tal ordem, que lhe tomassem o acesso quase impossível, ao comum dos mortais. Essa era a visão do jansenismo. Não. Deus só pede um coração humilde, capaz de acolhimento. A sua grande alegria é a de se comunicar por inteiro. As suas delícias encontra-as junto dos homens"; a sua morada é o coração humanol82; o que Ele dá é nascente da água que jorra para a vida eterna. Em oração - e fora dela, se a vida é toda oração - o humilde é recetáculo dessa torrente; fica, apenas, abismado e reconhecido, contente por dar ao Senhor a alegria de dar.

Fica inundado, em profunda paz, aquela que Jesus dá. Paz como ausência de medos e inquietações, e paz como harmonia que vem de Deus, inexplicável em termos de linguagem, destinada a crescer em tons e matizes cada vez mais profundos, com a certeza inabalável de que nada, nem ninguém, a poderá roubar, nem a morte, nem a vida, nem os principados nem as potestades ... Nem a própria fragilidade: «Esta é humildade falsa que o demónio inventava para desassossegar-me e experimentar se pode trazer a alma ao desespero ... A humildade verdadeira ... não vem com alvoroço, nem desassossega a alma, nem obscurece, nem dá secura, antes a regala com quietude, com suavidade, com luz». Paz que aumenta de grau com novidade, a ponto de se imaginar, em cada um desses momentos, que os anteriores não eram paz, e de encontrar em cada um, nova luz, que se adentra sempre mais longe.

Luís Rocha e Melo, SJ
In Se tu soubesses o dom de Deus, Editorial A.O., Braga, 1999, pp. 76-87
Esta transcrição omite as notas de rodapé

Seleção de Teresa Messias, professora na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Quarta-feira da semana III

Mística da compaixão

Não podemos ser indiferentes à sorte do mundo. A implicação com a construção de um mundo mais justo só é efetivamente real quando nasce de uma experiência de aproximação à realidade do outro, privilegiando aquele que sofre. «A atenção especial de Jesus, de certo modo o seu primeiro olhar, não se dirigiu ao pecado dos outros, mas ao seu sofrimento. Esta sensibilidade radical ao sofrimento alheio caracteriza o seu modo novo de viver. Ela nada tem a ver com uma atitude dolorista, nada tem a ver com um desgraçado culto do sofrimento. Ela é sobretudo a expressão totalmente não sentimental daquele amor que Jesus tinha em mente, quando - aliás totalmente na tendência da herança judaica - falou da unidade indissolúvel do amor de Deus e do amor do próximo: a paixão por Deus enquanto compaixão, mística da compaixão» (J, Baptist-Metz).

É possível que um dos maiores contributos do Cristianismo para a experiência religiosa da humanidade seja a revelação de um Deus quenótico: «Ele [Cristo Jesus], que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz» (FI 2,6-8). Esta perda de «poder» possibilita a proximidade com o outro, até ao ponto de tornar-se naquilo que o outro é. Em Jesus, a essência do Ser é dar-se. Somos sempre com os outros e para os outros.

Há um outro texto bíblico que impressiona pela total identificação de Jesus com o mais pobre. É apresentado como uma profecia do «juízo final», no qual se manifesta como decisiva a nossa relação com o pobre: «Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me de vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo. ( ... ) Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mr 25,34-35.40).

Este texto pode ser uma belíssima síntese do Cristianismo: é sempre pela mão do outro que somos conduzidos à visão de Deus. E mais importante que uma mão que se estende para pedir ou para dar alguma coisa, é a possibilidade de aceitar fazer história em conjunto, de permitir que o outro me desinstale do meu mundo programado, porque sem o inesperado que o outro é para mim, facilmente transformo Deus num ídolo moldado pela minha estreita expectativa. O outro, quando acolhido, é sempre possibilidade de um êxodo. A experiência da salvação é esta circulação da vida corpo a corpo, rosto no rosto. No olhar do outro adivinha-se um caminho a percorrer. «A compaixão exige a preparação para uma mudança do olhar, aquela mudança do olhar que as tradições bíblicas (e especialmente também as histórias de Jesus) constantemente convidam, concretamente para nos vermos e avaliarmos sempre a nós mesmos com os olhos dos outros, sobretudo dos outros que sofrem e são ameaçados e para dedicarmos a esse olhar pelo menos um pouco mais de tempo do que os reflexos espontâneos da nossa auto afirmação conseguem permitir» (J. Baptist-Metz).

O pobre não me pede só o pão, pede-me a vida. E o que seria de mim sem os que me pedem a vida? Somos todos pobres - na diversidade das expressões da pobreza - e não vivemos das sobras uns dos outros, vivemos da vida uns dos outros, com as suas misérias e com as suas grandezas. A compaixão não é possível a partir de um olhar desnivelado. É sempre a minha dor que acolhe a dor do outro, é sempre a minha fome que acolhe a fome do outro. O jejum é um instrumento que possibilita a manifestação do que está dentro de mim e que tantas vezes quero esconder ou, simplesmente, não sou capaz de ver. Há um vazio em todos nós e é precisamente esse vazio, quando reconhecido, que se pode constituir em espaço privilegiado para o acolhimento do outro. O jejum põe-nos em contacto com esse vazio. É por esta razão que o jejum faz de nós pão para os outros. E o outro, quando acolhido, não é ele também o pão que procuramos?

Jesus diz: «Eu sou o pão da vida, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei de dar é a minha carne, pela vida do mundo» ao 6,51). Estas palavras provocam escândalo entre os judeus, que perguntavam, perplexos, como tal coisa seria possível: «Comer a sua carne?!» E Jesus continua: «Se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. (. .. ) Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim» (vv, 53.56-57). Conhecemos bem a ressonância eucarística destas palavras. Haverá expressão mais autêntica da compaixão do que entender a própria vida como alimento para o outro? E o alimento que Jesus oferece não é um «objeto» que pontualmente sacia a fome; Jesus oferece-se como morada; faz-se casa onde podemos habitar. O seu pão é uma vida que se dá como acolhimento para a nossa vida inteira, para a nossa história, seja ela qual for. Viverás por mim. Morarei em ti e tu em mim. Já nos demos conta da dimensão do dom que Jesus é para cada um de nós?

«Quem comer deste pão viverá eternamente.» O que é a eternidade senão ser um com Ele, e nele com o Pai? Ele vem do Pai e ao Pai nos conduz. Jesus não se coloca no centro: diz-se descido do Céu e que é pelo Pai que vive. Há nele uma itinerância que une Céu e Terra. Morar nele é habitar nesta viagem. Nele somos, também nós, pão para a vida do mundo.

É necessário que se desmoronem as muralhas da autossuficiência para que possamos descobrir que somos dom e graça, que somos pão descido do céu. Só o coração pode reconhecer com gratidão o dom que somos e este é o alimento que efetivamente nos sacia, que rompe com a espiral devoradora das necessidades e que faz da nossa vida alimento para a vida do mundo. Importa que nos adentremos até onde somos permanentemente recebidos como dom: até ao nosso coração. Diz São Isaac, o Sírio:«Esforça-te por entrar no tesouro do teu coração e verás o tesouro do Céu. Pois um e outro são uma mesma coisa. Considera que os dois têm a mesma entrada.» Só a partir do coração - o nosso céu - poderemos acolher como nossa a afirmação de Jesus: «Eu sou o pão vivo descido do céu ... e o pão que eu darei é a mina carne para a vida do rnundo.» O que seduz em Jesus é esta economia do dom que preside à sua vida e que a Eucaristia faz presente. Ele sabe-se permanentemente recebido e, por isso, é livre para se entregar totalmente. Existem tantas vidas que são sacramento do pão partilhado: pão para outros e pão com outros, a começar por quem está ao seu lado e com quem se partilha o quotidiano. Quem se reconhece dom, faz-se dom, e este é o pão da nossa alegria. A lógica do dom que define a vida de Jesus é onde também o nosso desejo se consuma, onde atinge a plenitude. Há uma arte de viver em conjunto que o pão partilhado nos ensina. É uma arte frágil, delicada, onde todos somos principiantes, só possível a partir da consciência de que cada ser humano, sem nenhuma exceção, é uma dádiva para a vida do mundo. E isto, só o coração o vê e é preciso atualizá-lo em cada dia.

Carlos Maria Antunes
In Só o pobre se faz pão, ed. Paulinas

 

 

Terça-feira da semana III

Devo ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Devo ser o último degrau na escada de Jacob
E o último sonho nele
Devo ser-lhe a última dor no quadril.
Devo ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Devo ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.

Daniel Faria
Seleção: José Rui Teixeira, poeta, professor na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Porto

 

 

Segunda-feira da semana III

 

 

 

III Domingo da Quaresma

No Amor de Deus e no amor do próximo, caríssimos, consiste a força e a sabedoria da fé cristã. Não falta a dever algum da caridade quem se preocupa em cultuar ao Senhor e em ajudar o próximo. A união destas duas afeições deve ser realizada em todas as ocasiões e progredir sempre, mas agora precisa ser amplamente incrementada.

Que os quarenta dias de jejuns precedentes à festa pascal toquem o ouvido interior do coração, como se fossem a voz de João Batista, a repetir as palavras do profeta Isaías: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas (Is 40,3; Lc 3,4). Quer pensemos na parte do povo já na arena do certame evangélico e que incessantemente tende à palma pela corrida no estádio espiritual, quer se trate da segunda parte que, cônscia de pecados mortais, apressa-se pelo auxílio da reconciliação para o perdão; seja ainda a outra que vai ser regenerada pelo batismo do Espírito Santo e deseja despojar-se do velho Adão para se revestir da novidade de Cristo, a todas, de maneira apta e útil se proclama: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas (Lc 3,4). Quais, porém, sejam esses caminhos do Senhor, quais as veredas, aprendamo-lo da exortação do mesmo pregador que, prometendo a operação e os dons da graça divina, revelava os efeitos das transformações futuras, acrescentando a sentença da palavra do profeta: Que todo vale seja entulhado, que toda montanha e colina sejam abaixadas; que os cimos sejam aplainados, que as escarpas sejam niveladas! (Is 40,4). O vale significa a mansidão dos humildes, o monte e a colina indicam a exaltação dos soberbos. Mas, como disse a Verdade, se todo aquele que se exaltar, será humilhado; e todo aquele que se humilhar, será exaltado (Lc 14,11; 17,14), com razão, anuncia-se aos vaies a aterragem e aos montes, a depressão. Assim, a estrada plana não ocasionará tropeço, e o caminho reto não causará desvios. Embora, pois, seja estreito e apertado o caminho da vida (Mt 7,14), avança por ele sem dificuldade quem é corroborado pela verdade e a piedade. Terá prazer em caminhar se a estrada estiver bem calçada com as pedras das virtudes e não ceder devido à areia dos vícios.

Mas, para sabermos com maior exatidão quais os caminhos por onde haveremos de tender às promessas de Deus, ouçamos o ensinamento do profeta David: Todos os caminhos do Senhor são graça e fidelidade (Sl 24,10). A vida dos fiéis tem por norma o exemplo das obras divinas. Com razão, exige Deus imitação da parte dos seus, criados à sua imagem e semelhança. Não tomaremos posse, em verdade, da dignidade desta glória a não ser que em nós se encontrem a misericórdia e a verdade. Foi por elas que o Senhor veio até os que queria salvar, por elas também devem os salvos apressar-se ao encontro de quem salva. A misericórdia de Deus fez-nos misericordiosos, e a sua verdade, verdadeiros. Pois, como a alma justa caminha pela via da verdade, a alma bondosa avança pela estrada da misericórdia. Estes caminhos jamais se dividem, como se estes bens pudessem ser buscados através de sendas diversas; ou uma coisa seja crescer em misericórdia e outra progredir por meio da verdade. Quem é estranho à verdade não é misericordioso; nem é capaz de justiça quem for estranho à piedade. Não possui nem uma, nem outra, quem não estiver enriquecido de ambas.

A caridade é a força da fé, e a fé a fortaleza da caridade. Só é verdadeiro o nome e genuíno o fruto das duas, se permanecer indissolúvel a união de ambas. Onde não estiverem juntas, de lá simultaneamente se ausentam, porque são uma para a outra auxílio e luz, até que o anelo da fé se consuma na remuneração da visão, seja imutavelmente visto e amado o que agora sem a fé não é amado, e sem o amor não é crido. Uma vez que afirma o Apóstolo: estar circuncidado ou incircunciso de nada vale em Jesus Cristo, mas sim a fé que age pela caridade (Gl 5,6), apliquemo-nos simultânea econjuntamente à fé e à caridade. Duas asas, pois, para um vôo muito eficaz, por meio do qual a mente pura se eleva a merecer a Deus, e a vê-lo a fim de que o peso das preocupações carnais não a faça abaixar. Aquele que afirma: Sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11,6) também assevera: Mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada (1Cor 13,2). Quem quiser prestar os obséquios devidos aos divinos mistérios dos sacramentos pascais, anele com maior ardor por estas duas coisas, nas quais se concentra o ensinamento acerca de todos os preceitos, e que transformam cada fiel num sacrifício a Deus e em templo de Deus. Persista a fé em esperar o que crê, persista a caridade em impetrar o que ama; as duas coisas são peculiares a quem ama, ambas caracterizam a quem crê. Unamo-nos pela imitação da piedade àquele ao qual nos submetemos por assentimento da inteligência. É palavra de Deus: Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo (Lv 19,2) e é palavra do Senhor: Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36).

S. Gregório Magno (c. 540-604)
Sermão 36
Seleção e tradução: Fr. Isidro Lamelas, OFM, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Sábado da semana II

«Uma obra magnífica, um momento único de meditação, um mergulho no coração do mistério dos Cartuxos» (La Croix). «É preciso entrar no filme como se se recolhe em oração. As imagens conduzem-nos a uma misteriosa peregrinação interior» (Panorama). «Uma viagem à fronteira do absoluto. Das celas à capela, dos trabalhos quotidianos aos serviços, o realizador entra na intimidade dos solitários de Deus» (Pélerin). "O grande silêncio", que desvela «um nada onde tudo se pode revelar», é o terceiro filme que Margarida Ataíde propõe para esta Quaresma.

 

 

 

 

Sexta-feira da semana II

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Londres, Trafalgar Square. Um dos quatro plintos que delimitam os cantos desta praça, construído em 1841 para suportar uma estátua equestre, ficou vazio por falta de verbas para construir a escultura, e assim permaneceu durante mais de um século. Em 1998 a Royal Society for the Encouragement of Arts, Manufatures and Commerce resolveu aproveitar esse “Quarto plinto” para expor temporariamente obras encomendadas a diversos artistas. O primeiro desses artistas foi Mark Wallinger (n.1959), e a obra que ele apresentou foi um inesperado Ecce Homo.

Em cima do monumental plinto, na enorme praça, vemos a fragilidade desconcertante de um pequeno corpo manietado. A desproporção é esmagadora. O plinto ostenta agora uma simples figura humana de tamanho natural. Tão pequeno, comum e sem glória! – uma nada, comparado com os reis e generais que nos outros plintos e na coluna no centro da praça se apresentam em poses heroicas e arrogantes. Nem super-homem, nem herói: um corpo que se oferece desarmado, vulnerável, mas sereno. Em silenciosa dignidade. Enfrenta-nos de olhos fechados. Inteiro, mas impotente. Preso. Figura da vítima inocente que a história continuamente repete. E sobre a sua cabeça, uma coroa. Dourada, como a coroa real deveria ser. Mas esta é de espinhos. Eis um rei e Messias paradoxal: vence ao perder, salva morrendo, reina servindo a todos. O justo que sofre injustamente. O pacífico que veio trazer a espada. Disse que o seu reino, ao contrário dos habitantes dos outros plintos vizinhos, não é deste mundo; mas revelou também que esse reino está já entre nós. Aqui e agora. No centro da cidade. No meio do trânsito imparável, entre os que passam apressados para o trabalho, os que visitam a National Gallery, os que namoram nos bancos da praça, as crianças que brincam atrás dos pombos - entre as nossas alegrias e tristezas, desilusões e esperanças... Olhem! Eis!

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Paulo Pires do Vale
Curador. Professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e da Escola Superior de Educação Maria Ulrich

 

 

Quinta-feira da semana II

Como meditar

Senta-te. Senta-te, tranquilo e direito. Fecha levemente os teus olhos. Senta-te, descontraído mas atento. Começa silenciosamente, intimamente, a dizer uma única palavra. Recomendamos a frase-oração «Maranatha». Recita-a com quatro sílabas de igual extensão. Escuta-a à medida que a dizes, gentilmente, mas de forma contínua. Não penses ou imagines coisa alguma - espiritual ou de outra natureza. Se acorrerem pensamentos e imagens, são distrações no tempo de meditação; persiste, pois, em dizer de novo apenas a palavra. Medita, todas as manhãs e todas as noites, cerca de vinte a trinta minutos. (...)

...

Aprender a meditar não é justamente uma questão de dominar uma técnica. É antes aprender a apreciar e a responder diretamente às profundezas da tua própria natureza, não da natureza humana em geral, mas da tua em particular. Idealmente, deverias encontrar um mestre que ajudasse-a orientar-te na tua peregrinação. Este livrinho poderá inspirar-te a fazer isso.

 

Sermos restituídos a nós próprios

Devemos, antes de mais, compreender o contexto cristão da meditação. Uso o termo «meditação», neste exemplo, à maneira de sinónimo de termos como contemplação, oração contemplativa, oração meditativa, e assim por diante. O contexto essencial da meditação há de encontrar-se na relação fundamental das nossas vidas, na relação que, enquanto criaturas, temos com Deus; nosso Criador. Mas a maioria de nós tem de empreender um passo preliminar, antes de podermos começar a apreciar a maravilha plena e o mistério glorioso desta relação fundamental. A maioria de nós deve, primeiro, entrar em contacto consigo, e ingressar numa relação plena consigo, antes de nos virarmos abertamente para a nossa relação com Deus. Por outras palavras, podemos dizer que:, primeiro, temos de encontrar, expandir e experienciar a nossa própria capacidade de paz,- de serenidade e de harmonia, antes de podermos começar a apreciar o nosso Deus e Criador, que é o autor de toda a harmonia e serenidade.

A meditação é o processo muito simples pelo qual nos preparamos, em primeiro lugar, para estar em paz connosco, a fim de conseguirmos prezar a paz da Divindade dentro de nós. A visão da meditação que muita gente é encorajada a ter como um meio de descontração, de manter a sua quietação interior no meio das pressões da moderna vida urbana, não é em si essencialmente falsa. Mas, se isto é tudo o que ela afigura ser, então a visão é muito limitada porque, à medida que nos aquietamos cada vez mais em nós próprios, e quanto mais meditamos, tanto mais nos damos conta de que a fonte do sossego reencontrado' nas nossas vidas diárias é precisamente a vida de Deus dentro de nós. O grau da paz que possuímos é diretamente proporcional à nossa aperceção deste facto da vida, um facto da consciência humana, comum a todos os homens e mulheres no mundo. Mas para concretizar este facto como uma realidade presente nas nossas vidas, temos de decidir que queremos estar em paz. Eis a razão por que o salmista diz: «Parai! Reconhecei que Eu sou Deus» (Sl 46,11).

Esta profunda quietude interior está-nos hoje, em certo sentido, mais livremente disponível do que acontecia com o poeta hebreu que escreveu este salmo, embora os nossos problemas sejam mais prementes e o nosso ritmo de vida mais rápido do que eram os seus; e tal por causa do grande acontecimento de Jesus.

A grande convicção do Novo Testamento é que Jesus, ao conceder-nos o seu Espírito, transformou dramaticamente a estrutura da consciência humana. A nossa redenção por Jesus Cristo abriu-nos níveis de consciência que podem ser descritos por S. Paulo só em termos de uma criação inteiramente nova. Como resultado de tudo o que Jesus levou a cabo pela humanidade, em cujo ser ele ingressou de forma plena, fomos, num sentido inteiramente literal, recriados. No capítulo 5 da Carta aos Romanos, escreve ele acerca do que Deus realizou na pessoa do Seu Filho, Jesus:

«Portanto, uma vez que fomos justificados pela fé, estamos em paz com Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo. Por Ele tivemos acesso, na fé, a esta graça na qual nos encontramos firmemente e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus... porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.» (Rm 5,1-5)

Reflitamos, por um momento, nesta linguagem e consideremos a assombrosa pretensão que nela se faz. «Foi-nos concedido entrar na esfera da graça de Deus, onde agora nos encontramos». «O amor de Deus inundou o mais íntimo do nosso coração por meio do Espírito Santo, que Ele nos deu». S. Paulo não era um simples teórico; era um arauto apaixonado de um acontecimento real a cuja compreensão intentava levar todos, e as suas palavras eram indicadores urgentes deste acontecimento como uma realidade partilhada por todos. A sua grande convicção é que a realidade central da nossa fé cristã é o envio do Espírito de Jesus; de facto, a nossa fé é uma fé viva, justamente porque o Espírito vivo de Deus habita em nós, dando uma vida nova aos nossos corpos mortais.

O objetivo essencial na meditação cristã é permitir que a presença misteriosa e calada de Deus dentro de nós se tome cada vez mais, não só uma realidade, mas a realidade nas nossas vidas; deixar que ela se tome aquela realidade que confere significado, forma e finalidade a tudo o que fazemos, a tudo o que somos.

A meditação é um processo de aprendizagem. É um processo de aprender a prestar atenção, a concentrar-se, a esperar. W.H. Auden viu muito bem isto, ao dizer que as escolas eram lugares que deveriam ensinar o espírito de oração num contexto secular. Fariam isto, insistia ele, ensinando às pessoas o modo de se concentrarem plena e exclusivamente naquilo que diante delas se encontrava, fosse um poema, um quadro, um problema de matemática ou uma lâmina no microscópio, e a concentrarem-se neles só por mor deles. Por «espírito de oração» entendia ele uma atenção generosa, esquecida de si.

Ao aprendermos a meditar devemos, pois, prestar atenção, antes de mais, a nós mesmos. Devemos tornar-nos plenamente conscientes de quem somos. Se conseguirmos realmente apreender, por um momento, a verdade de que somos criados por Deus, poderemos começar a sentir algo da nossa própria potencialidade. Temos uma origem divina. Deus é o nosso Criador. E, na visão cristã, sabemos que Deus é não só Criador de uma vez por todas, que nos cria e, em seguida, nos confia a nós próprios, mas é também o Pai que nos ama. Eis a verdade acerca de nós mesmos que comemoramos, a que prestamos plena atenção na meditação. Só porque esquecemos esta verdade fundamental é que, quase sempre, nos tratamos de modo tão trivial, as nossas vidas escapam-nos por entre os dedos enquanto estamos ou demasiado ocupados ou demasiado entediados para nos lembrarmos de quem somos. A razão por que podemos tornar-nos tão banais e ternos a nós próprios, e às nossas vidas, por tão aborrecidos, é simplesmente esta: não prestamos atenção suficiente à nossa origem divina, à nossa redenção divina por Jesus, que nos remiu da trivialidade e do tédio. Nem prestamos atenção à nossa santidade como templos do Espírito Santo.

A meditação é o processo em que dispomos de tempo para nos permitirmos a nós mesmos tomar-nos conscientes do nosso potencial infinito, no contexto do acontecimento-Cristo. Como afirma S. Paulo no capítulo 8 da Carta aos Romanos: «E àqueles que predestinou, também os chamou; e àqueles que chamou, também os justificou; e àqueles que justificou, também os glorificou» (Rm 8,30).

Na meditação abrimo-nos a este esplendor. Por outras palavras, isto significa que na meditação descobrimos quem somos e porque existimos. Na meditação não fugimos de nós, achamo-nos; não nos rejeitamos, afirmamo-nos. Santo Agostinho expressou isto de modo muito sucinto e muito belo, ao dizer: «Os seres humanos devem, primeiro, restituir-se a si próprios para que, fazendo de si uma espécie de degrau, possam dali elevar-se e subir a Deus»

A maior parte de nós estará, porventura, familiarizada com tudo o que até aqui escrevi. Sabemos que Deus é o nosso Criador. Sabemos que Jesus é o nosso Redentor. Sabemos igualmente que Jesus enviou o seu Espírito para habitar em nós, e temos alguma ideia acerca do nosso destino eterno. Mas a grande deficiência da maioria dos cristãos é que, embora conheçam estas verdades ao nível da teoria teológica, elas não vivem realmente nos seus corações. Por outras palavras, estas verdades são pensadas, mas não se concretizam. Conhecemo-las como proposições oferecidas pela Igreja, 'pelos' teólogos, pelos pregadores nos púlpitos, ou nas revistas, mas não ganharam corpo enquanto verdades fundamentadoras das nossas vidas, como a base segura que nos inspira convicção e autoridade.

Nada há, pois, de essencialmente novo ou moderno quanto ao contexto cristão da meditação. O seu fito é virar-nos para a nossa própria natureza com uma total concentração, experimentar a nossa própria criação em primeira mão e, acima tudo, orientar-nos e levar-nos a experienciar o Espírito vivo de Deus, que habita nos nossos corações. A vida deste Espírito dentro de nós é indestrutível e eterna e, neste sentido, as verdades que constituem o contexto cristão da meditação são sempre novas e permanentemente atuais.

Na meditação não procuramos ter noções sobre Deus nem tentamos pensar acerca do seu Filho, Jesus, ou a propósito do Espírito Santo. Pretendemos antes fazer algo de imensamente maior. Ao desviar-nos de tudo o que é passageiro, de tudo o que é contingente, não procuramos pensar acerca de Deus, mas estar com Deus, experimentar Deus como o fundamento do nosso ser. Uma coisa é saber que Jesus é a Revelação do. Pai, que Jesus é o nosso Caminho para o Pai; outra de todo diferente é experimentar a presença de Jesus em nós, experimentar em nós o real poder do seu Espírito e, nesta experiência, sermos levados à presença «do meu Pai e vosso Pai».

Muitas pessoas estão, hoje, descobrindo que devem encarar o facto de que existe uma diferença relevante entre pensar acerca das verdades da fé cristã e experimentá-las, entre acreditar nelas por ouvir dizer e acreditar nelas a partir da nossa própria verificação pessoal. Experienciar e verificar estas verdades não é justamente a tarefa de especialistas na oração. As Cartas inspiradoras e jubilosas de S. Paulo não foram escritas a membros de uma ordem religiosa enclausurada, mas aos talhantes e padeiros comuns de Roma, Éfeso e Corinto.

John Main, A Palavra que leva ao silêncio, Pedra Angular, 2011, pp. 19-25
Seleção de Teresa Messias, professora na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Quarta-feira da semana II

A oração do Pai-nosso: os discípulos veem Jesus a rezar e pedem-lhe que os ensine. O que está fundamentalmente em causa não é uma aula mas uma relação que Cristo estabelece com Deus e que os seus seguidores também desejam ter.

A oração do Pai-nosso sintetiza toda a existência humana a partir de uma relação de filhos. Não se trata de um Deus Pai distante ou abstrato, mas que convoca para a confiança, pertença, afeto e intimidade.

No entanto o relacionamento com Deus nem sempre é fácil. Jesus, que por vezes parece não responder, apela a que a oração seja feita com insistência, como meio de atenuar a tendência humana para a autosuficiência.

Persistir na oração mantém a relação e transforma a vida.

 

 

Terça-feira da semana II

Com violetas na boca e falando das andorinhas que fazem ninho nos currais para comerem os mosquitos que voam em torna das vacas, chegámos a uma igrejinha guardada por dois irmãos e uma irmã.
Abriram-nos a porta e vimos que o pavimento estava coberto de velas, pequenas e grandes, pegadas ao chão com gotas de cera. As velas estavam todas com as pontas apagadas viradas para o altar, em devoção, porque lá em cima há um quadro redondo com dois vidros tendo à mostra um fio de palha.
Conta-se que um soldado cristão, há mil anos, tornando a casa após a guerra para libertar Jerusalém, roubara um punhado de palha do estábulo onde nasceu o Menino Jesus. Depois vendeu-a pela Itália fora juntamente com um tipo que tinha o osso de um santo e o fazia tocar às mulheres que queriam ficar grávidas.
Os três irmãos acendem as velas todas uma vez por semana com uma cana comprida que tem uma mecha na ponta. Olham um pouco aquele fio de palha, fazem o sinal da cruz, e depois sopram ao mesmo tempo para apagar tudo. Dentro da igreja fica por dois ou três dias a névoa do fumo.

Tonino Guerra
O livro das igrejas abandonadas
Assírio & Alvim, 1997

Seleção: José Rui Teixeira, poeta, professor na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Porto

 

 

Segunda-feira da semana II

 

 

 

II Domingo da Quaresma

«A redenção da alma de um homem é a sua riqueza (Prov. 13,8). Com razão Deus reprovou aquele rico extremamente fútil, a fim de nos alertar para o facto de não imitarmos tais atitudes.

Tendo-lhe o seu campo produzido abundantes frutos, a abundância perturbou-o mais do que a carência (cf. Lc. 12, 16-21). Pensou então consigo, dizendo: Que hei‑de fazer para ter onde guardar os meus frutos? (Lc. 12,17). Tendo-se perturbado, ao ver-se limitado, pareceu-lhe enfim ter encontrado uma solução. No entanto era uma vã solução. Não foi a prudência, mas sim a avareza que chegou a esta solução. Destruirei – diz ele – os velhos celeiros que são pequenos, construirei outros maiores e enchê-los-ei. Depois direi à minha alma: Ó alma, tens muitos bens, sacia-te e alegra-te. Mas Deus diz-lhe: Estulto (Lc. 12, 18-20), em que é que te achas sábio? Estulto, que é que disseste? “Eu digo à minha alma: Tens muitos bens, saci-‑te”. Nesta noite ser-te-á tirada a tua alma. O que preparaste para quem será? (Lc. 12,20). Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se arruinar a sua alma? (Mt. 16,26).

Por isso é que a redenção da alma de um homem é a sua riqueza (Prov. 13,8). Mas aquele homem fútil e estulto não tinha esta riqueza. Na realidade, ele não redimia a sua alma com esmolas, mas acumulava frutos perecíveis. Repito, o homem perecível acumulava frutos perecíveis, não repartindo nada com o Senhor, para junto de quem ele havia de ir.

Com que cara há-de ele apresentar-se naquele julgamento, quando começar a ouvir: Tive fome e não me deste de comer? Com efeito, ele desejava saciar a sua alma com manjares supérfluos e excessivos e, cheio de soberba, desprezava tantos ventres vazios dos pobres. Não sabia que os ventres dos pobres ofereciam maior segurança que os seus celeiros. Com efeito, aquilo que ele recolhia naqueles celeiros talvez corresse o risco de ser roubado pelos ladrões. Porém, se o recolhesse nos ventres dos pobres, os seus frutos acabariam por ser digeridos na terra, mas no céu seriam guardados de maneira mais segura. Portanto, a redenção da alma de um homem é a sua riqueza.

Portanto sejamos ricos e receemos ser pobres. Procuremos fazer com que o nosso coração se encha das riquezas daquele que é verdadeiramente rico. E, se se der o caso de cada um de vós entrar no seu coração e não encontrar ali estas riquezas, bata à porta do rico, torne-se mendigo diante da porta daquele piedoso rico, a fim de que seja completamente rico graças a Ele. E de verdade, meus irmãos, nós devemos confessar ao Senhor nosso Deus a nossa pobreza e indigência. O publicano, que não se atrevia a levantar os olhos ao céu (cf. Lc. 18,13), confessava-a.

Com efeito, como homem pecador, não se sentia no direito de levantar os seus olhos. Olhava para a sua vacuidade, mas conhecia a plenitude do Senhor. Tinha bem consciência de que vinha como sedento à fonte. Mostrava a garganta seca e piedosamente socava os seios que o haviam de saciar: Senhor – disse ele, batendo no peito e com os olhos no chão – tem piedade de mim que sou um pecador. Eu afirmo que ele já era em parte rico, quando pensava e pedia estas coisas. Com efeito, se ele ainda fosse pobre de todo, donde é que extrairia a pérola desta confissão? Todavia desceu justificado do templo, mais saciado e mais cheio.

Porém, aquele fariseu subiu para a oração e nada pediu. Subiram ao templo para adorar(Lc. 18,10), diz o texto. O publicano pede, o fariseu não pede. Mas como é que era o fariseu? Há os que se consideram ricos e não têm nada (Prov. 13,7). Senhor – dizia ele – dou-te graças, por não ser como os outros homens, que são injustos, ladrões e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes ao sábado e dou o dízimo de tudo o que possuo (Lc. 18, 11-12). Pavoneou-se, mas aquilo é uma inflamação, não é a plenitude. Considerou-se rico, não tendo nada. O outro reconheceu-se pobre, tendo já por isso alguma coisa. Para o dizer numa palavra: o publicano fazia a confissão da piedade. Ambos desceram. Mas o publicano saiu mais justificado que o fariseu (Cf. Lc. 18,14). Porque todo aquele que se exalta será humilhado e o que se humilha será exaltado (Lc 18,14).

Santo Agostinho (354-430)
Sermão 36

Seleção e tradução: Fr. Isidro Lamelas, OFM, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Sábado da semana I

 

 

 

 

Sexta-feira da semana I

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Caminhar. Caminhar demoradamente. Caminhar em direção a um encontro. Caminhar em direção a uma perda. Caminhar para a aceitar. E esse caminho ser uma obra.
Depois de cerca de uma dezena de anos a viver e trabalhar em parceria, realizando algumas das obras performáticas mais importantes e influentes da história da arte, Marina Abramovic e Ulay terminaram a sua relação (profissional e amorosa) com uma obra que relata-atualiza não uma separação, mas um encontro. Um longo e demorado caminho solitário de 90 dias. Sobre esta obra, Abramovic afirmou:

“O Ulay e eu acabámos a nossa relação com este projeto. O conceito era aproximarmo-nos um do outro a partir dos dois finais da Grande Muralha da China. Ele começou no Deserto do Gobi e eu comecei no Mar Amarelo; encontramo-nos a meio caminho. Cada um de nós caminhou 2000 Kilómetros para dizer adeus. Duração: 90 dias.”

Uma experiência de peregrinação em que, no processo de caminhar, na solidão e no silêncio, se dá o confronto com os seus problemas, com as suas memórias e projetos, com a natureza e o próprio corpo, com as múltiplas dificuldades do percurso e o esforço de superação... Para poder caminhar tem que se transportar apenas o essencial, aprender a paciência e a perseverança - e a ascese aí envolvida, a aprendizagem pessoal dos seus limites e capacidades, conduzem a um conhecimento de si e a um reconhecimento mais lúcido da relação com os outros e com o mundo. Nesta obra, aquilo que superficialmente pareceria romântico, é sinal de uma demorada aceitação da perda. A caminhada de um luto. O fim de uma etapa que permitirá uma nova. Um caminho longo foi preciso fazer para se encontrarem, a si e ao outro, antes da separação - que não é resultado de uma zanga ou mal-estar passageiro, mas de uma meditação demorada. Nesta obra, intitulada The Lovers, Marina e Ulay parecem inverter (mas ainda assim confirmarem!) a verdade da frase que, na prisão, Michel sopra ao ouvido de Jeanne, no final do filme “Pickpocket” de Bresson: “O Jeanne, pour aller jusqu´à toi, quel drôle de chemin il m´a fallu prendre”. Para haver autêntico encontro, que estranhos e longos caminhos precisamos.

Paulo Pires do Vale
Curador. Professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e da Escola Superior de Educação Maria Ulrich

 

 

Quinta-feira da semana I

Há cada vez mais pessoas que não estão satisfeitas com o mundo em que vivemos. Raras são, porém, aquelas que fazem alguma coisa para o transformar. Destas, umas procuram torná-lo melhor por meio do seu esforço, individual ou coletivo; outras acham que os defeitos do mundo não estão no próprio mundo, mas no olhar de quem nele vive; por isso procuram transformar-se a si próprias e mudar o olhar com que o veem. As primeiras são partidárias da ação; as segundas confiam nos efeitos da contemplação. Ambas as atitudes são universais. Encontram-se em todas as sociedades civilizadas. Determinam os grandes princípios fundamentais das grandes religiões. O Oriente cultivou mais a contemplação; o Ocidente, sobretudo depois do século XIII, desenvolveu mais a ação. A relação do homem com o mundo deu lugar na opções diferentes. Os programas de intervenção ou de não-intervenção diversificaram-se e evoluíram. Há, portanto, uma história da ação e da contemplação. No Ocidente essa história confunde-se com a história da Igreja, e mais precisamente, com a história das ordens religiosas, ou seja com a história do seu sucesso ou insucesso na tarefa de mudar o mundo para melhor, isto é, para resolver os problemas decorrentes da vida do homem em sociedade.

A minha tese, se assim lhe posso chamar, é que não basta a ação; é preciso também a contemplação. Talvez mais ainda: sem ela de nada vale a ação. Creio que a História da Humanidade mostra isso mesmo. Não a História factológica, superficial, externa, mas a História da realização das potencialidades do género humano. Ou a História da Humanidade em busca da sua plenitude. Ou a história da revelação de Deus presente na realidade concreta do mundo. (…)

Na Igreja do século IV, os monges do Deserto procuravam a solidão para serem o complemento do não-poder numa Igreja que já começava a ser poderosa – a Igreja constantiniana. Na transição do mundo antigo para o medieval, quando se processava a lenta e penosa reconstituição do Estado, os monges, como sinal da relação entre Céu e Terra, mostravam que nenhuma sociedade pode prescindir da ordem e da autoridade. Em plena Idade Média descobriam o papel da consciência e da emoção na comunhão com Jesus Cristo, Deus feito homem. Francisco de Assis veio coroar o progresso da via contemplativa. A sua identificação com Jesus Cristo resulta de uma experiência contemplativa muito pessoal e alimenta-se apenas dela. É ela que o torna arauto da pobreza, jubiloso intérprete do amor às criaturas, terno e misericordioso para com os fracos e doentes. Aparece como a imagem viva e palpável, da bênção de Deus sobre o mundo. É paradoxal que alguns dos seus discípulos tivessem assumido o projeto de evangelização que acabaram por subordinar a contemplação à ação.

Toda a obra humana, mesmo a mais espiritual, perde facilmente a sua pureza e está sujeita à ambiguidade. O projeto de Cristandade imaginado por Inocêncio III, apesar das suas admiráveis realizações – pensemos nas catedrais góticas e na sistematização da Teologia racional – ficou aquém dos seus objetivos. O mesmo se diga do projeto tridentino, inseparável das guerras religiosas e da intolerância inquisitorial. Mas os projetos seculares de uma nova sociedade, propostos pelo iluminismo, o liberalismo, o socialismo e o comunismo, também não cumpriram a promessa de trazer o progresso para toda a humanidade e instaurar a fraternidade e a justiça universais. Eliminaram a própria noção de sagrado, sem darem conta que a sacralidade dos princípios essenciais é o fundamento dos valores de que depende a vida do homem em sociedade. Sem ela não é possível defender eficazmente a dignidade humana e o respeito pela vida. O projeto liberal criou uma sociedade sem religião, sem estrutura e sem convicções. A sociedade agnóstica realiza prodígios tecnológicos, mas não consegue evitar as catástrofes naturais, não reabsorve o lixo que produz, deixa milhões de homens morrerem à fome, recorre à tortura e à violação da consciência com medo de perder a segurança.

Mas é esta a realidade do homem moderno. Nunca o homem teve tanto poder e ao mesmo tempo tanta fragilidade. A globalização trouxe-lhe a consciência da sua incapacidade em resolver todos os problemas quando tudo depende só de si mesmo. As leis da proporção e da quantidade, e o exemplo de iniciativas recentes, mostram-lhe que as cimeiras dos maiores detentores do poder político, financeiro e tecnológico são impotentes para resolver os grandes problemas da humanidade. Se é assim, o homem devia recuperar a consciência da sua finitude. Os poderosos tentarão, assim se espera, resolver os grandes problemas. Mas o cidadão comum, o indivíduo, só pode resolver os problemas em que está envolvido, e tendo em conta a escala daquilo que pode alcançar: o grupo a que pertence, a família que o rodeia, o trabalho de que vive, as associações em que se inscreve, o país da sua cidadania, a ideologia ou a confissão religiosa que professa. É para com eles que deve ser responsável. É a esta escala que a mudança de olhar proposta pela atitude contemplativa lhe pode trazer uma nova esperança.

Com efeito, a contemplação mostra-nos a fantástica variedade, complexidade e coerência dos fenómenos da vida, da constituição da matéria, e da prodigiosa dimensão e regularidade do mundo cósmico. A contemplação intensifica a fruição da arte na música, na pintura, na poesia, no teatro e no cinema. A contemplação torna-nos sensíveis ao riso e à frescura das crianças e de tudo o que começa de novo. A contemplação faz-nos descobrir em toda a parte homens e mulheres inesperadamente inventivos, generosos e honestos. A contemplação inspira-nos o respeito e a admiração por quem é capaz de manter a dignidade face ao sadismo dos torcionários nas prisões e campos de concentração. A contemplação abre os nossos ouvidos ao clamor dos famintos e dos oprimidos em todo o mundo e em toda a História, e faz-nos partilhar com eles a compaixão pela humanidade ferida. A contemplação introduz-nos no mistério do sofrimento que se torna passagem para a ressurreição através da morte aceite e vencida, e mostra-o em Jesus Cristo, Filho de Deus, sinal da invencibilidade da vida. A contemplação associa como num único sujeito todos os homens e mulheres que desde o princípio do mundo perscrutaram o mistério do Uno e do Todo. Assim, o homem contemplativo perde o medo do futuro. Vive no presente e descobre, a cada passo, nas coisas grandes e pequenas, nas coisas boas e más, na doença e na saúde, na prosperidade e na pobreza, na paz e na guerra, a espantosa realidade das coisas.

Mas a contemplação é um exercício exigente. Requer a concentração, o despojamento e a solidão. Exige de quem a busca o descentramento de si mesmo. Por isso não é só um exercício de lucidez; é também uma forma de vida. Por isso há ordens religiosas que se lhe consagram inteiramente. A antiga polémica entre ordens ativas e ordens contemplativas não tem sentido. O olhar abrangente e lúcido sobre o mundo diz-nos que a ação e a contemplação não devem ser exclusivas, e que é inútil estabelecer regras acerca do grau de consagração a uma ou outra. Enquanto houveres seres humanos que a ela se entregam, de alma e coração, podemos olhar sem medo para o futuro.

José Mattoso

 

 

Quarta-feira da semana I

A biblista Luísa Almendra fala sobre a beleza da fé a partir da narrativa da Transfiguração, que pressupõe a cruz, o sofrimento. O amor que salva é a capacidade de assumir a coerência até ao fim. A existência cristã implica a integridade de vida, que é também uma autêntica transfiguração. A Igreja atravessa os séculos como uma comunidade de testemunhas transfiguradas.

 

 

Terça-feira da semana I

Durante dez anos vivi emancipado do sentido de propriedade, da profissão, da família, do domicílio, e viajei pelo mundo com uma mala cheia de livros, uma máquina de escrever e um gira-discos portátil. Mas era vulnerável e cedi a sortilégios tão antigos como a mulher, o lar, o trabalho, os bens. Foi assim que criei raízes, escolhi um lugar, o ocupei e comecei a povoá-lo de objetos e presenças. Primeiro de alguém a quem amar, depois do que este ser desejasse, em seguida dos adereços: uma cama, uma cadeira, um quadro, um filho. Mas tratou-se apenas do princípio, pois todos começamos por ser recolectores, tornamo-nos colecionadores e acabamos como mais um elo da cadeia infinita de consumidores. De modo que, estando já velhos e gastos para o desfrute, vemo-nos circunscritos pelas coisas. Livros que não queremos ler, discos que não temos tempo de ouvir, quadros que não nos apetece contemplar, vinhos que nos fazem mal, cigarros que estamos proibidos de fumar, mulheres que nos falta a força para amar, recordações a que não queremos voltar, amigos para quem não temos perguntas e experiências que não há maneira de aproveitar. O tardio, o supérfluo, o que antes era cobiçado, amontoa-se em torno de nós, organiza-se naquilo a que poderíamos chamar casa, mas tão-só quando já estamos a despedir-nos de tudo, pois esta vida cumulativa acaba por se edificar no umbral da nossa morte.

Julio Ramón Ribeyro
Prosas apátridas
Ahab, 2011
Seleção: José Rui Teixeira, poeta, professor na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Porto

 

 

Segunda-feira da semana I

O compositor João Madureira inicia hoje as propostas de músicas para acompanhar a Quaresma. A primeira proposta é o Requiem de György Ligeti (1923-2006), que nasceu na Roménia, viveu na Hungria e tornou-se cidadão austríaco. A peça tornou-se conhecida ao integrar a banda sonora do filme "2001 - Odisseia no Espaço", do realizador Stanley Kubrick.

 

 

 

I Domingo: Patrística

Como devem jejuar os discípulos de Cristo

«Há realmente um jejum não corporal e uma temperança não material: a abstinência do mal pela alma convertida. Foi justamente em vista desta que nos foi prescrita a abstinência de alimentos. Por isso jejuai do mal; sede fortes contra os desejos incompatíveis; repeli o ganho ilícito; matai de fome a avareza dos dinheiro; nada haja em tua casa fruto de violência ou de roubo. Que te adianta se não dás carne ao corpo, mas mordes o irmão pela maledicência? Ou que vantagem se não comes do que é teu, e tomas injustamente aquilo que é do pobre? Que piedade é esta que só bebe água, mas trama enganos e tem sede de sangue pela perversidade? Sem dúvida alguma Judas jejuou com os onze; mas por não ter antes dominado a avareza, de nada lho serviu a abstinência para a salvação. Também o diabo não come, pois é espírito incorpóreo; mas pelo mal do orgulho caiu até o mais fundo. Da mesma forma nem um dos demónios foi condenado por comer carnes assadas nem por muita bebida ou embriaguez. Por natureza não necessitam de alimentos. Mas noite e dia vagueiam pelos ares, artífices e ministros da maldade, e põem seu esforço nas maquinações contra nós. Inveja e calúnia os corromperam. Tendo eles caído da maior familiaridade com o bem, será bom deles fugir se quisermos ser homens que têm parentesco com Deus.

Seja portanto a sabedoria o educador da vida dos cristãos; e nem queira a alma saber dos danos do mal. Se, apesar de rejeitar o vinho e as carnes, somos culpados pela intenção de pecar, declaro e garanto desde já que nenhuma utilidade tem para nós uma mesa só com água, legumes e sem sangue, porque a manifestação exterior não concorda com a disposição interior. A lei do jejum veio para a pureza da alma. Se a manchamos com maus projetos premeditados e outras ações, de que nos serve beber só água? Para quê tantos sacrifícios? Quem se aproveita do Jejum corporal, se não purifica a mente? Nenhuma vantagem há se a quadriga for de prata resistente e bem ordenada, mas for louco o seu condutor. Que adianta uma nave bem construída, se se embriaga o piloto? O jejum é fundamento da virtude. O fundamento da casa e a quilha do navio serão inúteis e prejudiciais, mesmo postos com muita firmeza, se não forem muito capazes aqueles que depois irão construir. Da mesma forma não há nenhuma vantagem na abstinência se uma outra justificação dela não brotar como consequência. O temor de Deus ensine a língua a proferir aquilo que convém, a não dizer coisas vãs, a conhecer o tempo favorável e não só a medida, mas a palavra necessária e a resposta sensata. Não falar às tontas, não caiam as palavras como granizos violentos sobre os passantes. Pois para isto bem se chama freio aquela débil membrana que liga a mandíbula à língua para não falar sem ordem nem oportunidade. Bendiz, não amaldiçoes. Salmodia, não blasfemes. Felicita, não critiques. Que as mãos precipitadas sejam retidas, como que com cadeias, pela lembrança de Deus. Jejuamos também porque nosso Cordeiro foi vilipendiado com insultos e bofetadas, antes dos cravos. Assim devemos jejuar, nós, os discípulos de Cristo».

Imagem

S. Gregório de Nissa (c. 335-395)
Seleção e tradução: Fr. Isidro Lamelas, OFM, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Sábado depois das Cinzas: cinema

Margarida Ataíde, do Grupo de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, apresenta a primeira proposta cinematográfica para a Quaresma.

"O Príncipe do Egito", animação produzida nos EUA em 1998 disponível em DVD, centra-se na vida de Moisés de acordo com a narrativa do livro bíblico do Êxodo.

A versão dobrada em português conta com as vozes de Diogo Infante, Henrique Feist, Lúcia Moniz e Rita Guerra, entre outros.

 

 

 

 

Sexta-feira depois das Cinzas: espiritualidade

Conversão

Entre a ira e a graça

Chamamos conversão ao momento em que a graça invade alguém pela primeira vez. Dizemos que a pessoa está convertida ou em vias de conversão. Em linguagem corrente, este é um acontecimento muito importante, se bem que transitório, que pode ainda vir a dar-se ou ter-se dado já há muito tempo. Mas parece que ninguém julga necessária a conversão, a não ser em caso de apostasia. E assim, a palavra derivada, convertido, não se costuma aplicar senão a uma categoria muito determinada de crentes: os que receberam a fé numa idade já avançada. Daí resulta que à criança batizada, que recebeu a fé em tenra idade - o que, entre nós, acontece na maioria dos casos - nunca lhe chamarão «convertida». É como se nunca tivesse nada a ver com a conversão.

Parece que só aqueles que vivem à margem da fé ou que não vivem de acordo com a sua fé, mas no pecado, teriam de se preocupar com a conversão, não a pessoa que foi sempre crente, sobretudo o crente praticante.

No entanto, é preciso notar que a Bíblia fala com frequência, e muito explicitamente, de conversão, e da conversão de cada um. A primeira Boa Nova que ouvimos dos lábios de João Batista, resume-se efetivamente neste vigoroso apelo: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos céus» (Mt 3, 1). É esta proximidade que torna a conversão tão necessária. Porque, como diz João aos Fariseus e Saduceus que vêm a ele para serem batizados, a ira e a vingança de Deus estão próximas: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? Fazei coisas que provem que vos convertestes ... O machado já está posto à raiz das árvores. E toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada no fogo. Eu batizo-vos com água para a conversão. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu... Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. Ele terá na mão uma pá: vai limpar a sua eira e recolher o seu trigo no celeiro; mas a palha, Ele vai queimá-la no fogo que não se apaga» (Mt 3, 1-12).

João Batista relaciona a conversão com a presença de Jesus, e também com o Juízo futuro e o fogo repentinamente inflamado da ira de Deus, do qual devemos livrar-nos. Ira e vingança, atribuídas a Deus, não são noções muito fáceis. E ainda menos a imagem do machado que já estaria posto à raiz da árvore. Consciente ou inconscientemente, tínhamo-las relegado para o Antigo Testamento, como se pudessem desaparecer do horizonte e tivessem perdido a sua razão de ser com a vinda de Jesus.

Mas eis que, no limiar do Novo Testamento, a vinda de Jesus é precisamente anunciada por essa antiga imagem: na presença de Jesus, Deus pegou na pá e dispôs-Se a limpar a sua eira. Tal é o batismo instituído por Jesus: um batismo em ordem à conversão, mas igualmente um batismo no fogo e no Espírito Santo. (...)

Sempre em vias de se converter

Aqui surge de novo a questão colocada no princípio deste capítulo: em que sentido temos nós, ainda hoje, necessidade de conversão? Não a recebemos nós no Batismo, de uma vez por todas? A conversão seria coisa já feita e nós, agora, encontrar-nos-íamos a caminho, com altos e baixos certamente, caindo e levantando-nos, rumo à perfeição e à santidade. É esta, de facto, a imagem que temos do caminho por onde avançam todos os cristãos.

Substancialmente, tal caminho estaria dividido em três etapas. Primeiro, a ausência de fé e o pecado; depois, o passo decisivo da conversão; por fim, a procura da perfeição. Nós situamo-nos, então, espontaneamente - e não sem uma certa ingenuidade - em qualquer momento da terceira etapa, num estado mais ou menos avançado.

A realidade nem é assim tão simples nem tão complicada, porque a graça é a própria simplicidade. A dificuldade reside antes no facto de que a vida no Espírito Santo não é fácil de discernir. Cruzam-se constantemente diferentes linhas de força, se bem que a confusão - e também a ilusão - sejam possíveis: nem sempre é fácil distinguir essas linhas umas das outras. De facto, o pecado, a conversão e a graça não são simplesmente três etapas sucessivas. Na vida quotidiana, são por vezes inextricáveis. Crescem juntas, em interdependência: nunca estou totalmente numa ou noutra; estou constantemente nas três ao mesmo tempo. O pecado, a conversão e a graça são o meu pão e a minha herança de cada dia. Mesmo no Reino dos Céus, na medida em que o vivemos neste mundo, não acontece de outra maneira, é o próprio Jesus quem o diz. Também nele não estão ausentes os pecadores. Pelo contrário: publicanos e prostitutas são os primeiros a entrar, precedendo nele todos os outros (Mt 21, 28-32).

Estas três etapas não representam três graus duma escala de valores. Não vamos passando de um ao outro, como se subíssemos os degraus duma escada. Não são três galões que possamos coser na manga, um após outro. Não. Antes de morrermos, não podemos dizer nunca um adeus definitivo a qualquer dos três. Continuamos sempre a ser pecadores, estamos sempre em processo de conversão e, nesta conversão, somos continuamente santificados pelo Espírito de Deus. Porque não podemos, nunca, pertencer a essa categoria de pessoas de quem Jesus afirma «que não têm necessidade de conversão» (Lc 15, 2) porque se creem justas. Nesse caso, não precisaríamos de Jesus. Talvez nos mantivéssemos ainda a caminho rumo a Deus, mas sozinhos, no sentido mais solitário da palavra, irremediavelmente sós, recaindo constantemente sobre nós próprios, sob a aparência duma santidade que em vão tentaríamos realizar. Cada vez nos sentiríamos mais profundamente frustrados, porque nunca encontraríamos o verdadeiro amor.

É sempre uma ilusão julgar-se convertido uma vez por todas. Não, nós não passamos nunca de pecadores, mas pecadores perdoados, pecadores-em-perdão, pecadores-em-conversão. Neste mundo, não pode haver outra santidade, porque a graça não pode atuar de outra maneira, Converter-se é sempre recomeçar essa mudança interior pela qual a nossa pobreza humana - o que Paulo chama a carne - se volta para a graça de Deus. Da lei da letra, passa à lei do Espírito e da liberdade; da ira à graça. Esta mudança nunca está terminada, está sempre a começar. Antão, o Grande, Patriarca e Pai de todos os monges, dizia-o de uma maneira lapidar: «Todas as manhãs digo a mim mesmo: hoje começo». E Abba Poimen, o segundo entre os Padres do deserto, o mais ilustre depois de Antão, a quem felicitavam, no leito de morte, de ter vivido uma vida feliz e virtuosa, e de poder confiadamente apresentar-se perante Deus, respondeu: «Tenho ainda de começar, apenas comecei a converter-me». E chorava com pena.

De facto, a conversão é sempre uma coisa que leva tempo. O homem precisa de tempo, e Deus também quer precisar de tempo connosco. Partiríamos de uma imagem de homem absolutamente errada se pensássemos que as coisas importantes da vida humana podem realizar-se imediatamente e de uma vez para sempre. O homem está feito de tal maneira que precisa de tempo para crescer, amadurecer e pôr em ação todas as suas capacidades. Deus sabe-o melhor do que nós. E, por isso, espera, não desiste. É indulgente, longânime. Espera-nos como um pescador paciente, como escrevia um poeta. To chrêston tou Theou eis metanoian se agei (Rm 2, 4), escreve Paulo: «A bondade de Deus convida-te à conversão». Não a ira, mas antes to chrêston, o seu afeto, bondade, paciência. No prólogo da sua Regra, S. Bento comenta-o de modo impressionante: Deus vai todos os dias à procura do seu operário, diz ele, e o tempo que nos dá é ad inducias, uma trégua, um dom, um tempo de graça que nos é concedido gratuitamente. Um tempo de que podemos servir-nos para encontrar Deus uma vez mais, e encontrá-l'O sempre mais na sua admirável misericórdia. Não é senão mais tarde, após a morte, que vamos poder viver fora do tempo e para sempre. Hoje, o tempo é-nos dado para conhecer a Deus cada vez melhor. É sempre tempo de conversão e de graça, dom da sua misericórdia.

Mesmo o pecador endurecido

É assim que Deus Se ocupa de nós cada dia. Chama-nos à conversão: «Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração» (SI 94). Deus fala-nos de muitas maneiras: pela sua Palavra, através dos homens com quem vivemos e por meio de toda a espécie de circunstâncias, agradáveis ou difíceis. São sobretudo estas últimas as que mais tememos. Sabemos de sobra que Deus tem qualquer coisa a dizer-nos através da provação, da doença, da morte, da contradição. Se este temor habita ainda no nosso coração é porque só temos presente a ira de Deus. Não estamos ainda em condições de discernir, detrás desse sinal aparente da ira, o amor infinito de Deus. Vimo-lo anteriormente: em Jesus, a ira de Deus transformou-se em amor; por outras palavras: tomou-se evidente que a sua ira não é senão uma tentativa provisória de nos fazer compreender o seu amor.

Se ainda temos medo das intervenções de Deus, se as interpretamos espontaneamente como uma expressão da sua ira, isso significa que, de uma maneira ou de outra, ainda estamos agarrados ao provisório. Ainda não experimentamos o amor de Deus, a sua ternura desconcertante.

Dir-se-á, talvez, que esse temor é precisamente o sinal de que somos culpados, a prova das censuras que nos faz a nossa consciência e do castigo de Deus que nós merecemos. Só os pecadores deveriam temer a ira de Deus, e aquele que a teme demonstra com isso que é pecador.

Um tal raciocínio não é tão evidente quanto parece, mesmo que reflita bastante bem a reação comum do crente mediano atual. De facto, para quem percorre o Evangelho, não é evidente que o pecador tenha de temer Jesus. Pelo contrário: não dizia Jesus, a cada passo, que tinha vindo, não para os justos, mas precisamente para os pecadores? (Mt 9, 13).

Além disso, não está absolutamente provado que só os pecadores temem a Deus. Na realidade, encontram-se muitos crentes e muitos justos - para empregar um termo bíblico - que veem com a mesma incerteza e temor o seu eventual encontro com Deus. Fazem tudo quanto podem para se verem livres desse mal-estar, à força de generosidade e de virtude. Quanto mais o conseguem - e uma conquista dessas é sempre relativa - mais possibilidades têm, pensam eles, de evitar a ira de Deus e merecer o seu amor.

Existem, efetivamente, duas categorias de pessoas que devem, para já, temer a ira de Deus. São, por um lado, os pecadores endurecidos; por outro, os justos endurecidos, O pecador endurecido, isto é, aquele que não quer de maneira nenhuma ouvir falar de mudança, vai ter de enfrentar, um dia, a ira de Deus, mesmo que tenha conseguido eludi-la habilmente na vida de cada dia. Mas é lícito pensar que existem, de facto, muito poucos pecadores endurecidos.

Pelo contrário, há, sem dúvida, muitos mais justos endurecidos - se assim podemos exprimir-nos -, pessoas que não conhecem a misericórdia de Deus e que tratam de agir cada vez melhor, simplesmente porque têm medo da ira de Deus. Libertar-se-ão mais ou menos deste medo na medida em que conseguirem realizar o seu ideal na vida diária. Com o tempo, isso pode até tomar-se suportável, se bem que vivam, no fim de contas, com escassa compensação. Por isso é que raramente são convincentes e menos ainda contagiosas. Porque ainda não conhecem o amor, e o pouco que vive nelas procede antes de um certo contentamento de si mesmas, com o qual correm o risco de se isolarem ainda mais dos outros. Já receberam a sua recompensa (Mt 6, 2). E porque nunca ouviram falar da graça, nada mais esperam. A sua vida seria sem perspetiva e sem saída se o termo «endurecido», atribuído igualmente a pecadores e a justos, aludisse a um estatuto definitivo.

Muito pelo contrário. Tudo é provisório na vida de qualquer homem, e ligado ao tempo. Nesse sentido, tanto os pecadores como os justos vivem no tempo, um tempo que é dom de Deus para eles, um tempo de graça e, portanto, um tempo. aberto à conversão. Nem o pecador endurecido nem o justo endurecido serão tais para sempre. Todos estão chamados a ser «pecadores em conversão». É isso o que vamos desenvolver ao longo de todo este livro. Não vai. ser logo evidente, é verdade. E também não vai ser fácil explicá-lo. Não se pode fixar numa definição, mas somente tratar de descrevê-lo, a partir de uma experiência pessoal, forçosamente limitada, e a partir da experiência daqueles com quem pude estar em contacto. Afinal, é mais fácil dizer aquilo que não é, porque é muito mais fácil viver como pecador endurecido ou como justo endurecido do que como pecador em conversão. No entanto, é a esta mudança interior que a graça nos impele dia após dia. Deus toca-nos, de muitíssimas maneiras, a fim de nos cativar para este estado .de conversão. E nós não podemos senão preparar-nos para sermos tocados assim por Deus.

Sim, muitas coisas terão de acontecer, e totalmente fora da nossa boa vontade ou da nossa generosidade natural. Esta mudança não requer unicamente que sejamos interiormente feridos, mas sobretudo que sejamos abalados até às nossas raízes. É possível que haja cacos e destroços. Que alguma coisa em nós tenha de se desmoronar. Como um edifício de. betão em que tivéssemos trabalhado anos a fio com um cuidado excecional, e que, num dado momento, passasse a funcionar como um escudo contra o nosso eu mais profundo e contra os outros, correndo o risco de nos proteger contra a própria graça de Deus.

Este desmoronamento não é senão um Começo, mas já pleno de esperança. É preciso é não tentar reconstruir o que a graça demoliu. É também uma coisa que devemos aprender, porque há sempre a grande tentação de levantar um andaime qualquer diante da fachada oscilante e retomar o trabalho. Temos de aprender a ficar junto das nossas ruínas, a sentar-nos nos escombros, sem amargura, sem nos censurarmos e sem acusar Deus. Será preciso que nos apoiemos nesses muros em ruína, cheios de esperança e de abandono, com a confiança de uma criança que sonha que o seu pai vai remediar tudo. Porque Ele, sim, sabe como tudo pode ser reconstruído de outra maneira, muito melhor do que antes. Exatamente como o filho pródigo, para quem muitas coisas ficaram em farrapos: o dinheiro, a honra, o coração; ele, que tinha perdido tudo quanto ainda podia esperar das criaturas e que, no entanto, cheio de confiança, tomou a resolução de regressar à casa paterna. Sentia instintivamente que, mais do que o criado que ele desejava ser, podia ainda continuar a ser filho. Quem foi filho uma vez, sê-Io-á para sempre. No próprio momento em que o filho perdido se reconcilia com os seus destroços, já está na sua casa, junto de seu pai. Pelo contrário, aquele que luta contra os seus próprios destroços, luta também contra o seu Pai e seu Deus; continua ainda e sempre exposto à ira: ainda não é capaz de reconhecer o amor. Mas aquele que se abandona, ao ponto de se alegrar e de estar contente com a sua miséria, esse já se entregou ao amor libertador.

«Permanecer na conversão» só nos é possível graças a Jesus, postos a caminho e fortalecidos pelo Espírito de Deus. Realiza-se em nós o que aconteceu a Jesus no mistério da sua morte e Ressurreição. A confiança e o abandono de Jesus ao Pai, através da morte, tomaram ineficaz para sempre a ira de Deus. Tomam-nos capazes de reconhecer, com Ele, o amor do Pai para além de cada morte e de cada renúncia, e isso até na nossa fraqueza mais profunda. Porque estar em conversão é passar continuamente ao mistério do pecado e da graça. Atenção: não é passar do pecado à graça, mas sim passar ao mistério do pecado e da graça. Isto significa o abandono de toda a justificação de si mesmo, de toda a justiça pessoal, e o reconhecimento do nosso pecado - para nos abrirmos à graça de Deus.

É isto a maravilha do pecador-em-vias-de-conversão, que o próprio Jesus reconhece como a maior alegria do Pai nos Céus. «Em verdade vos digo, haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de se arrepender» (Lc 15, 7). Esse maravilhoso homem-pascal que morre continuamente em Jesus e ressuscita com Ele toma-se a alegria e o orgulho do Pai. É um prodígio que se renova cada. dia e nunca terminado. De facto, enquanto estamos na vida presente, Deus está continuamente operante. Porque o tempo e a duração da nossa vida representam também um aspeto da graça que se encarnou: o Amor de Deus ilimitado e indefetível. Poderemos, assim, cada dia, firmar-nos na conversão; com o coração repleto de ação de graças. Um passo fora deste estado de conversão significaria um passo fora de Deus e do seu amor. Isto, mesmo que continuemos a pensar em Deus, a falar d'Ele e a anunciá-l'O. Até a oração dirigida a Deus se tomaria impossível, porque não há verdadeira oração fora de uma contínua conversão.

Fora da conversão, estamos fora do Amor. Nesse caso, não restam ao homem senão duas possibilidades: ou a satisfação de si mesmo e a sua justiça pessoal; ou uma profunda insatisfação e o desespero.

Fora da conversão, não podemos manter-nos na presença do Deus verdadeiro, porque não estaríamos junto de Deus, mas junto de um dos nossos inumeráveis ídolos. Além disso, sem Deus, não podemos permanecer na conversão. Porque esta nunca é o fruto de bons propósitos ou de qualquer esforço continuado. Ela é o primeiro passo do amor, do Amor de Deus, muito mais que do nosso. Converter-se é ceder à conquista insistente de Deus, é abandonar-se ao primeiro sinal de amor que percebemos vindo d'Ele. Abandono, portanto, no sentido forte de rendição. Se nos rendermos perante Deus, entregamo-nos a Ele. Porque, nesse momento, todas as nossas resistências desaparecem diante do fogo devorador da sua Palavra e perante o seu olhar, e não nos resta senão a oração do profeta Jeremias: «Converte-nos (literalmente: faz-nos voltar), Senhor, e nos converteremos» (literalmente: voltaremos) (Lm 5, 21; cf. Jr 31, 18).

A. Louf, Ao ritmo do Absoluto, A.O., Braga 1999, 7-8.11-18
Seleção de Teresa Messias, professora na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

 

Quinta-feira depois das Cinzas: arte contemporânea

Fotogramas

Fernando Calhau (1948-2002)
Destruição, 1975,
filme Super 8, cor, sem som, 3´17´

O filme Destruição começa com Fernando Calhau diante da câmara, como num autorretrato do artista. Mas, pacientemente, sem sair do lugar, o movimento do seu braço direito vai destruindo a imagem, deixando traços negros como marcas do que foi arrancado. A cada passagem da sua mão, deixamos de ver o que antes víamos, e passamos a enfrentar o negro. No fim desse processo, a tela fica praticamente preta e a imagem do artista desaparece atrás dessa escuridão criada por si.

Interrogamo-nos sobre o poder da imagem – ou da obra de arte. Aqui, como em tantos dos seus trabalhos, afirma a recusa da figuração, da ilusão. Nega-a. Desde o título ao gesto repetido, percebemos a centralidade do apagamento progressivo. Uma espécie de esvaziamento essencial, uma kenosis. A sua obra não ilumina o mundo com luz ilusória e presa às aparências. Coloca a obscuridade, que é o fundamento do mundo, diante dos nossos olhos. Esta enorme escuridão que a obra de arte nos abre, atira o homem para o exílio, para um lugar inóspito, inabitável, inseguro. Deixa-o no deserto, sem ter onde inclinar a cabeça e descansar. É, como a noite, desorientação, tempo e espaço onde se perdem as referências. Nada para ver. Ou, melhor, dá-nos a ver o nada. Sobre a obra de Calhau, escrevi um dia: “A noite ocupa o seu espaço nesta obra. A noite da destruição do horizonte mas também a da concentração do sentido e da atenção vigilante. A escuridão isola-nos. Coloca-nos diante do medo, da perda, da provação e da ausência. E será ainda o tempo, ou a sua falta, que está em jogo. E o silêncio torna-se denso. Uma pobreza voluntária e incómoda. Por tudo isto, a sua obra não seduz facilmente: resiste-nos, exige atenção, esforço, trabalho. A escuridão que nos apresenta é passagem, mas sem seguranças. A noite é lugar de encontro, as sombras permitem entrever uma luz. “Olha onde não vês” era a proposta do místico Angelus Silésius para a verdadeira visão divina. A renúncia à luz física, a sua suspensão, o luto é caminho: uma via apofática, silenciosa, sem distrações exteriores. A cegueira é o início da visão autêntica: não teríamos o entusiasmo de Paulo sem a consciência da noite cega de Saulo. A escuridão conduz-nos o olhar para dentro, torna a autoconsciência mais afiada e penetrante, uma lâmina dirigida ao coração da vida interior.”

A subversão iconoclasta, a afirmação da necessidade permanente de reforma e combater ilusões, é motor de novos princípios. Uma permanente destruição dos ídolos. É assim na arte, é assim na experiência antropológica e religiosa: uma purificação que permita novos começos. Uma austera passagem pela noite, o encontro com o pó e as cinzas, o confronto com os nossos limites e as contradições das imagens que criamos (de nós, do mundo, dos outros, de Deus...). Uma destruição para não cair no autocomprazimento ou ficar preso a seguranças e certezas ilusórias.

Fernando Calhau nunca quiz seduzir ou facilitar o papel do recetor: o monocromatismo noturno, a escuridão, a noite, a passagem do tempo, tal como a consciência dos limites, foram temas retomados obsessivamente ao longo da sua obra. Morreu, demasiado cedo, em 2002.

Fotogramas

Paulo Pires do Vale
Curador. Professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e da Escola Superior de Educação Maria Ulrich

 

 

Quarta-feira de Cinzas: Bíblia

«Jacob saiu de Bercheba e tomou o caminho de Haran. Chegou a determinado sítio e resolveu ali passar a noite, porque o sol já se tinha posto. Serviu-se de uma das pedras do lugar como travesseiro e deitou-se.
Teve um sonho: viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu; e, ao longo desta escada, subiam e desciam mensageiros de Deus.»

No primeiro dia da Quaresma a Irmã Luísa Almendra, professora da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, comenta a narrativa do sonho de Jacob, no livro do Génesis (28, 10-21).

Deus interessa-se por nós onde estamos, no quotidiano, na humanidade que, tal como Jacob, perde as referências e atravessa o deserto à procura.

Para além do visível está o invisível, que não é menos real. Durante a Quaresma caminhamos na direção de um Deus que vai dar a vida. Mas a visibilidade que vamos encontrar é a de Jesus crucificado. Contudo a realidade não se esgota na cruz.

 


© SNPC | 29.03.13

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