Sociedade
(Re)começar
Portugal vive hoje uma grave crise política e económica que, para além das inquestionáveis responsabilidades – entenda-se, incompetência, insensibilidade e distanciamento – das nossas classes dirigentes, é o corolário de uma ilusão coletiva: que fazemos parte do centro, o do núcleo restrito dos países mais desenvolvidos, e que podemos aspirar às suas ambições e modelos de vida. Nem é preciso conhecer muito sobre as dinâmicas (irracionais, avassaladoras e injustas) do capitalismo global, para perceber que o atual estado das coisas deve-se também (ou sobretudo) a uma persistente incapacidade dos portugueses para definir e discutir as suas condições e prioridades de forma consistente e prospetiva. E o fascínio e atração pelo centro é apenas um modo de reiterar a tendência para imaginarmos aquilo que não somos, em vez de olharmos de forma crítica e produtiva para os problemas e para as necessidades reais de uma vasta maioria da população e do território.
Contudo, nem tudo está perdido. A parte boa é que as crises podem ser refundadoras. Assim, que esta seja uma crise verdadeiramente incisiva e facturante. Que imponha um recomeço, um back to basics. Como disse recentemente o Presidente Lula da Silva, só se deve construir o viaduto depois de estar solucionado o saneamento básico, uma frase simples mas que contem todo um programa.
Relativamente à cultura, as crises são momentos de afirmação da arte, porque como se base as expressões da crise (metafísica, existencial, espiritual, estética, ideológica...) compõem um dos eixos mais fundamentais da natureza da arte. Espera-se, pois, que os artistas saibam interpelar as condições críticas da vida diária; cabe-lhes aferir o real como só eles sabem e podem fazer, através do sensível e do subjetivo. Cabe-lhes também apontar para o zero, o ponto de partida por onde tudo deve (re)começar.
Este texto integra a edição n.º 15 (maio 2011) do "Observatório da Cultura", publicação semestral do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.
Sérgio Mah
Professor na Universidade Nova de Lisboa
© SNPC |
09.05.11







