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Cinema

Descobrir Andrei Tarkovsky

O Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, exibe esta quarta-feira, 9 de novembro, o filme “Andrei Rubliov”, de Andrei Tarkovsky (1932-1986), no âmbito do ciclo “Esculpir o tempo”, dedicado ao realizador russo.

«Obra-prima condenada e proibida pelas autoridades russas, o segundo filme de Tarkovsky relata a vida de Andrei Rubliov, pintor do século XV, seguindo-o pelas terras miseráveis e violentas da Rússia medieval», descreve o CCB.

O filme que será exibido às 21h00 no Pequeno Auditório «levanta questões sobre a repressão e a liberdade e é uma reflexão sobre o significado da arte e a natureza da fé».

O ciclo prossegue a 10 de novembro com “Solaris”, continuando no dia 12 com “O espelho”, enquanto que a 13 é apresentado “Stalker” e a 16 é a vez de “Nostalgia”.

As exibições, que respeitam a ordem cronológica dos filmes, decorrem à mesma hora e local, terminando a 17 de novembro, com “O sacrifício”: «Alexander, jornalista e antigo ator e filósofo, reúne a família na sua casa de campo para celebrar o seu aniversário. Entretanto, revela ao seu filho que está preocupado com a falta de espiritualidade do mundo moderno. Nessa mesma noite, começa uma guerra nuclear. Alexander vira-se para Deus e faz a promessa de sacrificar tudo o que tem se a guerra for impedida».


Ciclo Tarkovsky

«Numa entrevista concedida a Ian Christie, durante uma visita a Inglaterra, em 1981, Andrei Tarkovsky disse: “O meu objetivo é criar o meu próprio mundo e estas imagens que criamos não significam nada, para lá das imagens que são.”

Desde a sua morte, em 1986, aos cinquenta e quatro anos de idade, que a obra cinematográfica de Tarkovsky tem vindo a ser reapreciada nesta perspetiva: o seu mundo, o que ele criou em sete filmes incomparáveis, é inconfundível e a sua linguagem (as suas imagens) constituem um constante desafio não tanto à imaginação dos espectadores mas à sua capacidade de verem o que lá está – e o que está para lá do espelho.

O cinema de Tarkovsky seria apenas perturbante, se não se desse o caso de o seu mundo, aquele que ele quis construir, tocar cordas profundas da sensibilidade humana. A relação do espectador com o filme não é, assim, uma interrogação dirigida à superfície do que é mostrado, às puras formas, mas a um sentido mais íntimo que nos situa fora do nosso universo de referências habituais.

Está lá tudo o que nos permitiria, teoricamente, ler uma teia de imagens, sentimentos e ideias que nos é conhecida; mas tudo o que lá está é (e não é) parte de um processo de aprendizagem que nos coloca um desafio maior: o que nos falta para sermos figuras deste universo de sombras e espetros?

A sua obra fotográfica, mais de 300 polaroides tiradas a partir do final dos anos setenta, faz parte dessa construção de um mundo pessoal e intransmissível. A escolha de umas largas dezenas de provas desse espólio fotográfico permite-nos, pela primeira vez em Portugal, abordar uma outra dimensão do seu trabalho de reelaboração do real, que acabará por se reconhecer como instrumento útil de alargamento da nossa visão do que foi o mundo que ele criou.

Ao propor um ciclo sobre o cinema e a obra fotográfica de Andrei Tarkovsky, o CCB pretende evocar, vinte e cinco anos depois da sua morte, um dos mais perturbantes criadores do século XX. À medida que o tempo passa, a obra de Tarkovsky ganha cada vez maior densidade e espessura: é como se as suas imagens se fossem transformando lentamente, quase sem darmos por isso, em esculturas arrancadas a uma matéria sem corpo nem idade – o tempo, precisamente. É do escultor do tempo que foi Tarkovsky que falamos neste ciclo.

 

Exposição “Luz instantânea”

Até 4 de dezembro apresenta-se a exposição “Luz instantânea”, «fotografias, itinerários e saudades de Andrei Tarkovsky».

Foto

«A série de fotografias que começa com enquadramentos feitos a partir da janela transforma-se num percurso em que, numa espécie de travelling, se regista a chegada da luz vinda da paisagem ao interior do quarto.

Acompanha-se a luz, no seu lento movimento, ao longo dos caixilhos e do peitoril da janela, depois pelos ladrilhos do quarto e pelas folhas e objetos abandonados ao acaso; pelo mobiliário, subindo por uma imagem da Madonna de Vladimir antes de pousar sobre a mesa ou no sítio onde Tarkovsky abandonou por um momento o pequeno-almoço para obter mais um instantâneo: a luz percorrendo a jarra de flores, o pão, a água turva, a fruta no prato.

Cartaz

É um travelling mitigado, como aqueles que encontramos nos seus filmes, que depois continua pelas garrafas e as ténues cortinas da casa abandonada, pelo gato que dorme enroscado numa almofada, por Tonino Guerra, que escreve ou medita na igreja de Bagno Vignoni...»

 

 

 

 

Texto: Centro Cultural de Belém
10.11.11

Cartaz

















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