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Leitura: "Reflexões espirituais e pastorais" revela espiritualidade de D. Albino Cleto

Depois da publicação do livro "D. Albino Cleto – Memórias de uma vida plena", organizado pelo jornalista José António Santos (Paulinas, 2016), o autor seleciona textos do antigo bispo de Coimbra, depois de ter sido auxiliar de Lisboa, que reúne na obra "Reflexões espirituais e pastorais", da mesma editora.

A obra resulta de 26 manuscritos do prelado (1935-2012) que «expõem momentos da vida pessoal durante os quais ele se demorou em ambientes de retiro, numa busca incessante de Deus», refere a apresentação.

Os documentos «abarcam as quatro estações da sua vocação consagrada: as responsabilidades de vice-reitor do Seminário de São Paulo, Almada; o ministério paroquial na Basílica da Estrela, Lisboa; e o múnus episcopal – primeiro, como bispo auxiliar do Patriarca de Lisboa, mais tarde, enquanto pastor da Diocese de Coimbra».

No prefácio, D. António Vitalino, bispo emérito de Beja, evoca D. Albino, «pessoa sempre disponível, atento às necessidades dos outros em prejuízo da sua própria saúde. Assim como viveu, assim morreu».

«As anotações feitas por ocasião dos retiros, mesmo daqueles em que se recolhia em oração e reflexão por iniciativa pessoal, são um testemunho de quem procurava aprofundar as raízes da sua vida cristã e do seu ministério como padre e bispo, sabendo que estava sempre em perigo de cair na rotina do dever cumprido», assinala.



Inversão de valores: a administração, a organização, ganharam as preocupações maiores; a Palavra e a Oração passaram a ser a atividade dos sobejos. É ou não verdade que só rezo quando o tempo me dá para isso?!



No posfácio, D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa, salienta a «busca de profundidade» que caracterizava o bispo nascido em Manteigas, «como se fosse um salmo repetidamente rezado».

«Os versículos correspondem a cada etapa da sua vida pastoral, nos sucessivos encargos que teve. O refrão é sempre o mesmo: mais atenção a Deus, mais tempo para a oração, a leitura, a meditação… Para que tudo o mais fosse impregnado e garantido por Deus, e só por Deus, com as prioridades de Deus: vida espiritual, aplicação pastoral, dedicação aos doentes e aos pobres», assinala.

D. Albino foi secretário e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, presidente da Comissão Episcopal dos Bens Culturais da Igreja e vogal da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade.

O excerto que apresentamos foi redigido a 8 de março de 1974, depois de o P. Albino, então responsável no seminário de Almada, se ter recolhido no mosteiro de Santa Maria do Mar, em Sassoeiros.

 

Converte-me Senhor
D. Albino Cleto
In "Reflexões espirituais e pastorais"

Embora refletindo a sós comigo mesmo, que estes momentos e este escrito sejam um encontro contigo, Senhor Jesus. Que a reflexão sobre a minha vida não seja mais um cálculo humano e uma correção meramente psicológica, mas que seja sobretudo uma conversão. E és Tu, ó Cristo, quem me converte. Converte-me, Senhor!

Fala-me agora com a clareza que te é peculiar. Sem rodeios nem enigmas. Mostra-me a verdade da minha vida, para que o meu coração seja humilde e eu possa descobrir o teu amor.

Converte-me com a força do teu Espírito, que de uma pedra fez um filho de Abraão, que dá vida a um esqueleto, que cura um cego.

Vinde, Espírito de Deus; mostrai-me a verdade da minha vida, não para eu fazer mais um dos muitos exercícios mentais que já tenho feito, mas para que, revelando-me a verdade, eu me abra à força da Graça, que me converte.



Não queria que esta dor do coração fosse a pena novamente egoísta de não ter sido eficiente! Queria que fosse a pena de não te ter amado, Senhor. Jesus Cristo, dá-me um arrependimento verdadeiro!



No princípio deste ano letivo, em Castelo de Vide, eu vi como devia ser a minha vida de filho de Deus e de Padre; ordenei bem as minhas tarefas. Mas fiquei por aí, equacioná-las não significa Vida.

A realidade, passados estes meses, é bem outra.

Reconheço com humildade diante de Deus e de mim mesmo, com humildade, mas com esperança, reconheço que inverti os valores e, de Padre, existe sobretudo o exterior, a aparência, não o interior. O meu propósito é de Padre, mas o meu coração não o é.

Vejamos. Embora não se verifique isso no total do tempo que lhes dou, sinto que determinados aspetos – o professor de Literatura e o curso universitário – ganharam primazia. Na ordem das preocupações e no comando das intenções, dos anseios, eles têm lugar importante. E não surgem como apareceram: em ordem ao ministério sacerdotal; em ordem a tornar-me mais apto para contactar com os homens, com os jovens; em ordem a preparar melhores padres para amanhã. Tenho de confessar que a Universidade e as aulas de Literatura (e a perspetiva de ter de os deixar) surgem como realização humana, triunfo pessoal, Vaidade!

Senhor Jesus, perdão! Cura-me! Como o meu egoísmo se infiltrou nisto! E porquê? Porque eu fiquei entregue a mim mesmo e «dispensei-te» da minha vida!



«Esta unidade de vida não pode ser realizada com a ordenação meramente externa dos trabalhos do seu ministério, nem só com a prática dos exercícios de piedade, embora ambas as coisas para isso contribuam, favoravelmente»



Vejamos as atividades ministeriais: Reconheço também duas coisas:

Inversão de valores: a administração, a organização, ganharam as preocupações maiores; a Palavra e a Oração passaram a ser a atividade dos sobejos. É ou não verdade que só rezo quando o tempo me dá para isso?!

Falta de fé no que faço: porque me limito a improvisar, a dizer que sim, sem me preparar pela reflexão, pela oração!

E tudo isto num atabalhoamento diário, onde não existe reflexão, análise à luz de Deus; onde não existe iniciativa e tentativas.

Como é que o Espírito Santo pode suscitar em mim aquela iniciativa que suscitava em São Paulo, se eu não tenho tempo para o ouvir, se eu me basto a mim mesmo!

E que espírito de caridade há nisto tudo que faço? Nenhum! Faço porque tenho de fazer, porque gosto de me deitar com a consciência de que fiz as coisinhas todas!

Não visito os doentes, nem mais liguei aos pobres, nem mesmo dos rapazes que vivem comigo eu cuido já.

E tantos rapazes e grupos que esperam de mim qualquer coisa, a tua Mensagem, Senhor! Deixo-os morrer de fome! Nem seria a continuar que a diocese poderia esperar de mim mais padres para a passagem do século.

Senhor, já chega de ver miséria.



E já que fizeste este favor – o de saber ler o sinal – faz-me um outro favor, ó Jesus: ajuda-me, nesta Quaresma, a ser coerente com o que hoje vi, a centrar a minha vida, contigo, na vontade do Pai



Começo a ver a Tua luz na medida em que com clareza e dor de coração descubro as minhas misérias.

Não queria que esta dor do coração fosse a pena novamente egoísta de não ter sido eficiente! Queria que fosse a pena de não te ter amado, Senhor. Jesus Cristo, dá-me um arrependimento verdadeiro!

Causas? Basta-me uma: Eu dispenso Deus da minha vida! Já não é só a falta de oração, vista como elemento importante do programa. É o não pôr Deus no que projeto e faço; é o bastar-me a mim mesmo.

Morria de sede e não dava por isso! Senhor, dá-me sede, leva-me a beber às Tuas fontes.

Que esperas de mim, Senhor?

– Nova planificação? Não. Se eu a cumprir já é bom. Ajuda-me a cumpri-la, Senhor! Que eu não caia no erro de realizar sempre as obrigações escolares e administrativas, omitindo quase sistematicamente as pastorais. Não quero ser escravo do programa, Senhor, mas quero ser fiel ao dever, que é a minha cruz e a minha oficina de Nazaré, e as minhas estradas da Palestina.

– Mas o principal é centrar a minha vida no Amor. Também vejo hoje que a oração só pela oração, não me basta. Preciso de rezar? Preciso sobretudo de Te encontrar, ó Pai, de Te amar! De me abrir à Tua ação. Por isso é que quero e preciso de rezar.

Centrar a minha vida: são para mim conselho de Deus as palavras do Concílio: «Esta unidade de vida não pode ser realizada com a ordenação meramente externa dos trabalhos do seu ministério, nem só com a prática dos exercícios de piedade, embora ambas as coisas para isso contribuam, favoravelmente. Podem, porém, os sacerdotes realizá-la seguindo (…) o exemplo de Cristo, cujo alimento era fazer a vontade daquele que O enviou para efetuar a sua obra» .

Os sacerdotes alcançarão a unidade unindo-se a Cristo, no conhecimento da vontade do Pai e na doação de si mesmos pelo trabalho que lhes foi confiado.

Senhor, resta-me agradecer o insucesso do Francês. Foi um insucesso, mas foi um sinal. Obrigado por ele, Senhor.

E já que fizeste este favor – o de saber ler o sinal – faz-me um outro favor, ó Jesus: ajuda-me, nesta Quaresma, a ser coerente com o que hoje vi, a centrar a minha vida, contigo, na vontade do Pai.


 

Edição: SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 07.05.2018

 

Título: Reflexões espirituais e pastorais
Autoria: textos: D. Albino Cleto; organização: José António Santos
Editora: Paulinas
Páginas: 152
Preço: 10,00 €
ISBN: 978-989-673-628-6

 

 
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