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Religião e Cultura: procurar o Absoluto na contingência do provisório

Sendo a cultura o horizonte no qual devemos tentar compreender e refletir o ofício de ser homem e de ser mulher, torna-se facilmente percetível que a religião não pode ficar excluída desta dimensão. E não o pode, essencialmente por duas ordens de motivos. A primeira, tem a ver com o facto de que no interior e na profundidade de qualquer cultura podemos sempre encontrar algo que tem a ver com o ser humano de um modo incondicional, ou seja, um certo sentido transcendente que não pode ser considerado um acrescento, mas que é como um fundamento último, algo absolutamente sério e por isso mesmo sagrado, mesmo que se expresse mediante palavras profanas. A segunda, porque toda a religião, antiga ou moderna, do norte ou do sul, esta configurada e determinada por um conjunto de condicionamentos sociais, económicos, políticos e emocionais, que num tempo e espaço concretos incidem sobre o ser humano, o que revela como cada religião é inseparável de uma determinada tradição cultural.

Independentemente de qualquer tipo de juízo que façamos acerca da religião há um dado que surge com toda a sua evidência: a religião faz parte da cultura humana. Como diz Lluís Duch: «De todas as maneiras, positiva e negativamente, a história antiga e a atual mostram suficientemente a impossibilidade prática da mútua ignorância, ou da mútua excomunhão sem paliativos. Toda a religião expressa-se culturalmente e toda a cultura tem dimensões religiosas.» No fundo, a religião e a cultura convergem uma na outra uma vez que mutuamente se necessitam e se autoimplicam.

Em certo sentido, toda a religião é, no tempo e no espaço uma formação histórica e limitada, uma construção do espírito humano que constantemente tem de enfrentar-se com as perguntas fundacionais da existência humana. No fundo, não pode haver religião à margem da cultura, porque toda a religião, como expressão humana que é, também participa daquilo que é a sua impossibilidade extracultural. Nenhuma religião pode existir à margem de uma cultura concreta, o que acaba por revelar como absurdo toda e qualquer tentativa de reflexão que ignore o contexto no qual está inserida. A própria conceção da religião é correlativa, permanecendo inseparável da maneira concreta como, em cada tempo e em cada espaço, o ser humano se situa perante o absoluto, perante a realidade e perante si mesmo. Em cada novo ‘estádio cultural’ surge sempre um novo exercício de reconfiguração do seu mundo e da sua identidade, o que acaba inevitavelmente por ter consequências na reflexão que faz acerca da religião e nas práticas religiosas que realiza.

Também a este nível se faz notar a constante tensão entre aquilo que é estrutural e aquilo que é histórico. A dimensão religiosa, constantemente manifestada na pergunta religiosa que todo o ser humano, sempre e em toda a parte, pode fazer, não pode nunca ser simplesmente reduzida às suas manifestações. As religiões não são as suas manifestações históricas, mas não podem ser sem elas. Como diz Lluís Duch, com frequência as religiões afirmam que aquilo que constitui núcleo central de toda a sua reflexão e atividade é a procura e a experiência do Absoluto, onde o ser humano pode encontrar sentido para a vida, alcançando as respostas para aquelas perguntas que sempre o acompanham e que fazem parte da sua maneira de ser. Contudo, esta procura do Absoluto inclui obrigatoriamente uma profunda meditação acerca do relativo, ou seja, sobre os condicionamentos histórico-culturais da presença do ser humano e da própria religião no mundo. É no concreto da história, no meio de todas as potencialidades, fragilidades e condicionalismos de uma cultura que pode irromper a presença, muitas vezes só intuída, da transcendência.

Esta realidade mostra como para o ser humano o transcendente só pode acontecer e tornar-se presente na seu viver como «transcendente encarnado». Trata-se sem dúvida de uma experiência paradoxal. Experimenta-se a transcendência, mas sempre através e no concreto da história; procura-se o Absoluto e o infinito, mas só se pode chegar a ele através de realidades finitas e relativas.

Para Lluís Duch é a própria identidade do Transcendente que ajuda a entender a necessária e obrigatória dimensão cultural de toda a religião: «as realidades transcendentes, ou seja, todas as figuras do outro, são rebeldes à expressão direta. Tão só se dão a conhecer e a provar no jogo das formas finitas, oblíquas, históricas e contingentes produzidas pela relacionalidade humana.» São estas «epifanias parciais», sempre submetidas à ambiguidade da condicionalidade cultural, que ajudam também a compreender como a identidade religiosa é uma tarefa nunca definitivamente acabada, mas sempre necessitada de novas reconfigurações, nos diferentes momentos da história da humanidade e da história individual de cada ser humano.

 

Juan Ambrosio
Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
© SNPC | 20.04.12

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