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Ruy Belo: Aventura espiritual intensa como poucas, ponte estendida no território de chamas

Importa tomar Ruy Belo (27.2.1933-8.8.1978) como um dos escritores espirituais do séc. XX português. E sem pretender contornar as veementes e sucessivas afirmações do poeta, que nos orientariam num sentido diferente.

Por exemplo, em 1970, no prefácio a “Homem de palavra(s)”: «O clima do livro já não é o da fé, aliás perdida» ou, em 1972, na reedição de “Aquele grande rio Eufrates”: «todo este livro foi escrito num clima a que não só já não tenho acesso hoje em dia como espero não o voltar a ter».

Só que o novo “clima” em que o poeta se move, no começo da década de setenta, é de resistência àquilo que o catolicismo, na sua opinião, simbolizava enquanto servidor do ordenamento político e cultural vigente. Talvez fosse agora tempo de começar a olhar esta poética naquilo que ela também é: aventura espiritual intensa como poucas, colóquio interior, despojado mesmo quando a voz tinha a energia sagrada das falas ininterruptas, ponte estendida no território de chamas que é essa quase circularidade entre presença e silêncio, entre dúvida e crença, dialética que aproxima a aridez trágica da passagem do tempo desse «no sé qué», de que João da Cruz falava e que nos romances de Bernanos e Graham Green, que Ruy Belo leu, recebia o nome de Graça.

Um dos seus poemas, “Nós os vencidos do catolicismo”, deu o nome a uma geração que, tendo-se distinguido por um grande empenhamento eclesial, se afastou em desilusão e rutura. Vale a pena, à distância de alguns anos, tornar a esse poema surpreendente: 

«Nós os vencidos do catolicismo 
que não sabemos já donde a luz mana 
haurimos o perdido misticismo 
nos acordes dos carmina burana
Nós que perdemos na luta da fé 
não é que no mais fundo não creiamos 
mas não lutamos já firmes e a pé 
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora 
depois de ouvir como a samaritana 
que em espírito e verdade é que se adora 
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos 
e no homem que dizem que criaste 
se temos o que temos o jogamos 
”Meu deus meu deus porque me abandonaste?”» 

O primeiro verso retoma a formulação, também ela geracional, «vencidos da vida», numa equivalência que sublinha a importância da experiência aqui em jogo. Experiência descrita como derrota e perda. De um saber («não sabemos já»); de uma condição («o perdido misticismo», «perdemos na luta da fé»); de uma estruturante certeza («não lutamos já firmes», «duvidamos»). Como se diz, a crença não deixou de existir, mas recuou para o território íntimo, «mais fundo», pois «nenhum garizim nos chega agora».

Pelo poema irrompe, inesperado, o capítulo quarto do Evangelho segundo João. Aí Jesus, na ausência dos discípulos, dialoga com uma mulher samaritana, transgredindo o código judeu de conduta. À samaritana, Jesus anuncia que não é no Templo de Jerusalém ou no Santuário samaritano do Monte Garizim que se deve adorar a Deus: «os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade». Ora, esta irrupção evangélica, é tanto mais espantosa quanto ela conta a construção da fé, em Jesus, não a sua perda, por parte de um sujeito social e religiosamente incorreto (a mulher samaritana).

Outra referência são os «carmina burana», a monumental coleção de líricas e cantos medievais, de origem vária, que deve o seu nome à Abadia Beneditina de Beuron (Alemanha). Este repositório responde ao gosto do “vagare”, próprio dos estudantes, laicos ou eclesiásticos, dos “studia” conventuais. É uma mistura fascinante de cristianismo e paganismo, de espírito e matéria, de finura e vulgaridade, de filosofia e puro passional. Lado a lado, convivem o canto gregoriano, a melodia trovadoresca e a sátira popular.

Alvo do burlesco, porém, não é a experiência espiritual autêntica, mas os fingimentos, as falsas contrições, a mera representação da devoção ou da virtude. Os “carmina burana” não são, afinal, figuras de substituição do «perdido misticismo», mas de purificação pelo abalo que o seu riso traz a uma religiosidade institucional, socialmente instalada, donde a aventura interior está ausente. Estamos, de novo, à procura do espírito e da verdade.

E a parte final do poema, guarda-nos a maior surpresa. O poema que até aqui parecia apenas uma declaração, revela ter um destinatário. O mesmo do Salmo 22, que Jesus grita na hora da cruz: o próprio Deus, aqui invocado repetidamente, «meu deus, meu deus». E aludindo ao «abandono» de Deus, o poeta faz a composição transfigurar-se, pois o que parecia ser uma perda do sujeito é agora atribuído a esse escândalo teológico, por excelência, que é o silêncio de Deus.

Esta não é a única oração que Ruy Belo poeticamente teceu (lembremos essa outra, comovente, que começa «nem palavras nem coisas tenho para o teu altar»), mas é aquela que no seu imprecar doloroso, no seu falimento, no seu avanço sem defesas melhor ilumina, isso que Bernanos chamou, a medonha solidão dos filhos de Deus.

Com «Nós os vencidos do catolicismo» estamos, é verdade, perante um texto de crise. Mas esta é a crise de uma fé que se transmuda simplesmente em descrença ou é, pelo contrário, uma fé que se descobre como experiência inevitável de crise diante das suas próprias formulações e saberes? É o ponto final de um caminho ou, como no Cântico Espiritual de João da Cruz, a ocultação de Deus e os soluços da alma são, antes, o princípio de um nomadismo espiritual admirável? E suportará a fé a condição de vencedores ou os crentes, como nas confissões bíblicas de Jeremias, são os inapelavelmente derrotados («Ó Deus tornaste-te forte demais para mim/ tu me dominaste»)?

 

Homem para Deus

Ele vai só ele não tem ninguém 
onde morrer um pouco toda a morte que o espera 
Se é ele o portador do grande coração 
e sabe abrir o seio como a terra 
temei não partam dele as grandes negações 
Que há de comum entre ele e quem na juventude foi 
que mão estendem eles um ao outro 
por sobre tanta morte que nos dias veio? 
É no seu coração que todo o homem ri e sofre 
é lá que as estações recolhem findo o fogo 
onde aquecer as mãos durante a tentação 
é lá que no seu tempo tudo nasce ou morre 
Não leva mais de seu que esse pequeno orgulho 
de saber que decerto qualquer coisa acabará 
quando partir um dia para não voltar 
e que então finalmente uma atitude sua há de implicar 
embora diminuta uma qualquer consequência 
O que deus terá visto nele para morrer por ele? 
Oh que responsabilidade a sua 
Que não dê como a árvore sobre a vida simples sombra 
que faça mais do que crescer e ir perdendo vestes 

Oh que difícil não é criar um homem para deus 

 

Vestigia Dei

És tu quem perseguimos pelos lábios
e tens em equilíbrio os seres e o tempo
És tu quem está nos começos do mar
e as nossas palavras vão molhar-te os pés
Tu tens na tua mão as rédeas dos caminhos
descem do teu olhar as mais nobres cidades
onde nasceram os primeiros homens
e onde os últimos desejarão talvez morrer

Tu és maior que esta alegria de haver rios
e árvores ou ruas donde serem vistos
Por ti é que aceitamos a manhã
sacrificada aos vidros das janelas
aceitamos por ti o sol ou a neblina
que faz dos candeeiros sentinelas
É para ti que os pensamentos se orientam
e se dirigem os passos transviados
e o vento que nos veste nas esquinas

És sempre como aquele que encontramos
diariamente pela rua fora
e a pouco e pouco vemos onde mora
Só tu é que nos faltas quando reparamos
que os papéis nos vão envelhecendo
e os dias um por um morrendo em nossas mãos
És tu que vens com todos os versos
És tu quem pressentimos na chuva adivinhada
quando os olhos ainda se nos fecham
embora o sono nunca mais seja possível
É tua a face oposta a todas as manhãs
onde o tempo levanta ombros de espuma
que deixam fundas rugas pelas faces

Os céus contam contigo é para teu repouso
a terra combalida e sem caminhos
Ser indecomponível teu corpo foi maior
que vítimas e oblações. Quando tu vens
a solidão cai leve como a flor do lírio
e as aves nos pauis levantam voo
e há orvalho em teus primeiros pés

Não assistisses tu a esta nossa vida
caíssem-nos os gestos ou quebrados ou dispersos
e nenhum rosto decisivo um dia fecharia
todas as palavras com que dissemos os versos

 

Escatologia

Grande diálogo será esse contigo 
quando de todo recolheres 
a linha dos meus dias 
e eu for varar na tua face 
com o meu cumprido olho de peixe 
Aceita eu ser uma só palavra 
e nela todo dizer-me 
Talvez então eu sinta 
no compromisso do olhar 
que já te conhecia c nenhuma outra praia 
para o meu coração via 
Mas eras ou não eras pescador 
grande demais para dois olhos 
que só a tua ausência enchia? 
Recebe no teu mar senhor 
meu íntimo destino de algas e de escamas

 

Grandeza do homem

Somos a grande ilha do silêncio de deus 
Chovam as estações soprem os ventos 
jamais hão de passar das margens 
Caia mesmo uma bota cardada 
no grande reduto de deus e não conseguirá 
desvanecer a primitiva pegada 
É esta a grande humildade a pequena 
e pobre grandeza do homem 

 

Teoria da presença de Deus

Somos seres olhados 
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto 
fora do dia-a-dia ou não seguirem 
a marca deixada pelas rodas dos carros 
ao longo da vereda marginada de choupos 
na manhã inocente ou na complexa tarde 
repetiremos para nós próprios 
que somos seres olhados 

E haverá nos gestos que nos representam 
a unidade de uma nota de violoncelo 
E onde quer que estejamos será sempre um terraço a meia altura 
com os ao longe por muito tempo estudados 
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte 
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida 

 

Poema vindo dos dias

A tua cruz senhor é pouco funcional
Não fica bem em nenhum jardim da cidade
dizem os vereadores e é verdade
E além disso os nossos olhos cívicos
ficam-se nos corpos de que nos cercaste
Saudamo-nos por fora como bons cidadãos
Submetemos os ombros ao teu peso
mas há tantos outros pesos pelo dia
E quando tu por um acaso passas
retocado pelas nossas tristes mãos
através dos pobres hábitos diários
só desfraldamos colchas e pegamos
em pétalas para te saudar
Queríamos ver-te romper na tarde
e morrem-nos as pálpebras de sono

 

Versos do pobre católico

Nem palavras nem coisas tenho para o teu altar
e é hoje a tua festa, agora é que me lembra, ó Senhora da Assunção
Estás muito bonita; estiveram a teus pés alguns momentos
brilhantes de fervor as presidentes de importantes movimentos
Mas tens a fronte fria e dois olhos brilhantes
Estava distraído. Não te sentes feliz
se o povo reza livremente o terço no país
e são muito cristãos os nossos governantes?

Nem palavras nem coisas nem a própria distração será bastante
para fazer passar por cima dos mais próximos devotos esse olhar
que há de envolver o grande corpo mudo justo mas distante

Nem palavras nem coisas tenho para o teu altar
e é hoje a tua festa, agora é que me lembra, ó Senhora da Assunção
Venho como um gatuno – o que rouba de frente, arrisca e puxa a faca
- depositar à superfície desse teu imenso olhar
poisado sobre os dias e os gestos e as águas na ressaca
entre aromas e fumos esta enorme incorrigível distração
que me enche a vida o passo e o regaço e deixo finalmente transbordar

Era tudo o que tinha, era mais esta grande mágoa
de ter medo de vir, talvez por não saber nadar
no mar de piedade em que outros se comprazem

 

O maná do deserto

Aves tão numerosas como as areias do mar
vieram até nós sobre as dunas a voar
traziam pendurado o grande véu da sombra
que cobriria os nossos ínfimos cuidados
e aboliria até os reais problemas quotidianos
que ainda não há muito a grande arte desconhecia
Foi há tantos anos como as areias do mar
foi no tempo dos nossos pais talvez mesmo no dos avós
O sol escureceu e não se ouvia a voz
de nenhum de nós mais de um metro em redor
Invadia-nos um íntimo torpor
que ao contrário da voz a todos se comunicava
E cada um em volta a medo perguntava:
que aves serão estas que decepam quase as árvores
e nós vemos passar e ficar só nos versos dos poetas?
Um leitor da bíblia falou de codornizes
um cinéfilo dos pássaros de hitchcock
um outro garantiu que havia de saber no freixial
Todos tinham razão porque foi há muitos anos
Lembro-me agora que foi no tempo dos hebreus
e ainda era vivo não apenas deus
como também o homem que escapou de tanta guerra
para morrer às mãos dos literatos
Aves tão numerosas como as areias do mar
vieram até nós sobre as dunas a voar
E à beira-mar à sombra dos pinheiros longe ou perto
todos nós comemos do maná do deserto

 

Palavras de Jacob depois do sonho

Amei a mulher amei a terra amei o mar
amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar
De muitas delas de resto falei
Não sei talvez eu me possa enganar
foram tantas as vezes que me enganei
mas por trás da mulher da terra e do mar
pareceu-me ver sempre outra coisa talvez o senhor
É esse o seu nome e nele não cabe temor
Mas depois deste sonho sou obrigado a cantar:
Eis que o senhor está neste lugar
Porquê não sei talvez uma haste balance
talvez sorria alguma criança
Terrível não é o homem sozinho na tarde
como noutro tempo de esplendor cantei
Terrível é este lugar
Terrível porquê? Não sei bem
Talvez porque o senhor pisa esta terra com os seus pés
(lembro-me até de que mandou tirar as sandálias a moisés)
Levanto os dois braços aos céus
Aqui - mulher terra mar -
Aqui só pode ser a casa de deus

 

Lot fala com o anjo

Se a teus olhos alcancei a graça da vida
e como que de novo vou nascer
não me exijas que fuja para os montes
Eu nada sei dos montes nem dos campos
dos próprios campos onde nasci
nem mesmo já me lembro como se semeia
nem conheço nenhuma das mulheres que ceifam
nem reconheço aquelas que mondam as courelas
- e o poeta diz que são duzentas pelo menos –
Se é teu desejo que me salve não me mandes para os montes
Gosto da solidão e é entre as pessoas que me posso sentir só
Conheço uma cidade é uma cidade pequena
tem um plátano grande que pode dar-me sombra
e anunciar-me a sucessão das estações
Tem água tem crianças raparigas sempre jovens
talvez eu lá aprenda finalmente a ser feliz
por exemplo fazendo amanhã o que podia fazer hoje
É uma cidade pequena todas as cidades são pequenas
basta uma cidade ser uma cidade para ser pequena
E se quiseres saber onde fica
posso dizer-te que esteja eu onde estiver
segor é a cidade em frente

 

Senhor da palavra

Mas tu não podias saber
Tu andas nesta sala como um homem
o que para um deus é muito pouco
ainda que por louco alguns o tomem
Tu podias chegar às árvores mais altas
Cuspi e apunhalei-te
com o punhal de gestos que me deste
e então depois acreditei em ti
que és a única possível companhia
Gostava que viesses ter comigo
- mais um filólogo de longa vida –
com os teus pés descalços sobre a areia
Prestidigitador do meu prestígio
ao menos fosses tu a sustentar-me o ser
Fui agora infeliz pela primeira vez
mas tu não podias saber
Saio de casa e levo sempre dois ou três cuidados
compro as noites de sono uma por uma
dou caça um por um aos meus fantasmas
e passo com a mesma perna coxa à mesma hora
sem suspeitar que tu anotas quando passo
Reparo agora que já sou casado
e tenho um número não a síntese pura do diverso
mas um número muito simplesmente
Ando de mês em mês num vasto ócio
custa-me a levantar
chego a beber longos oblívios
Compro um bilhete de comboio para ver quantos são hoje
reconheço o meu lixo num caixote
deixo cair os braços o esquerdo e o direito
Bem posso eu fugir se o meu rosto permanece
embora reze ao meio-dia nos terraços de roma
não me esqueça pedir a leitura explicativa
e afinal não seja perigordiano
Ao menos fosse tu a sustentar-me o ser
mas tu não podias saber

 

Lembra-te ó homem

Lembra-te ó homem daquele tempo antigo
considera os anos da geração passada
quando a cidade das palmeiras era olhada
por cristo que passava entre o trigo

ou anos antes pelo inimigo
que falava a Moisés do mais alto do fasga
Da hortelã da arruda de qualquer erva plantada
pagaste o dízimo ó meu triste amigo

quando o amor é que exigia rapidez
Tens de deixar casa vergéis e jardins
coisas modestas como as unhas e os amendoins

E o que vai ser de ti? Serás talvez
não o que deus não foi para ti: rins
cingidos mas um nome para a tua timidez



 

José Tolentino Mendonça
Imagem: D.R.
Publicado em 27.02.2018

 

 
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