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Sapatos de domingo em Pedraído: O restauro da igreja tricentenária

Sapatos de domingo em Pedraído: O restauro da igreja tricentenária

Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix

«Entre! Entre! Aproxime-se para contemplar de perto.» « ̶ Não posso entrar com estas botas. Só com sapatos de domingo posso pisar este espaço.» O convite foi endereçado a uma senhora de idade avançada, com véu na cabeça e flores nos braços, que passava em frente da igreja, para as colocar, no cemitério situado ali ao lado, sobre a campa dos seus entes amados, adormecidos na paz do Senhor que ressuscita os mortos. Aproximou-se por instantes da porta principal da igreja para, atentamente, vislumbrar o restauro do interior. Porém, não entrou. Porque, como vincou, não tinha o calçado digno daquela casa. E declinou o convite para o dia seguinte, domingo, dia 17 de dezembro, no qual se faria a dedicação do novo altar e a inauguração das obras realizadas ao longo de quase um ano.



Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix

Viúva avó e profetiza, aquela mulher fez-nos estremecer, na espontaneidade com que se disse e, sobremaneira, pela delicadeza com que se cuidava para entrar na casa de Deus. Isto é, na casa dos encontros mais íntimos, onde se acolhe a Sua palavra e parte para o diálogo, se reparte o banquete por Ele preparado para os seus filhos e filhas, nascidos das águas e do fogo, no Seu enlevo. Vislumbrar era-lhe bastante. Porque, para entrar naquele espaço, diferenciado mas por nada estranho, convinha revestir-se naquela ética das presenças qualificadas, calçar sapatos dominicais. Habitava-a uma dignidade abraâmica (cf. Êx 3,-6), própria das vocações que ocorrem nas teofanias e despertam o reconhecimento até para o chão dos nossos pés, onde assentam as plantas. «Viu Iahweh que ele deu uma volta para ver» (Êx 3,4) a sarça que ardia sem se consumir e chamou-o: «Moisés, Moisés». «Eis-me aqui», respondeu Moisés. Ao que Ele lhe diz: «Não te aproximes daqui; tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa» (Êx 3,5). Aquela anciã aprendeu, também ela, a adorá-Lo na tremeluzente distância desde o limiar das portas, atração e vertigem ao mesmo tempo.

Os habitantes de Pedraído, paróquia de montanha do arciprestado de Fafe, viveram no dia 17 de dezembro um dia especial. Depois de um ano a trabalhar incessantemente, na reunião de tantos esforços e de partilhas generosíssimas - dinamismo só comparável ao da espiritualidade com que se edificaram catedrais -, era possível inaugurar as obras de restauro e conservação da sua igreja. Celebrava-se o tricentenário da igreja paroquial, 1717-2017. A epigrafia sobre o umbral da porta sul tornou-se uma anamnese para cuidar a oblação (há quem lhe chame ‘restauro’) de três séculos volvidos. Povo e pastores, Marc Monteiro e Vítor Sá, não esqueceram os ‘pergaminhos’ do tempo, desde os idos em que a comunidade era da apresentação do Mosteiro de Santa Senhorinha de Basto, cabeça do Couto de Pedraído, no concelho de Monte Longo.



Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix

As condições existentes na igreja não eram de facto as mais apelativas, nem geravam o conforto da presença entre amigos: devido à condensação, a cobertura azulejar nas paredes tornara-se literalmente fonte de escorrimentos; o pavimento cerâmico, escorregadio e desprovido de dignidade, desqualificara o espaço, tornando-o frio como gelo durante o Inverno; as aplicações de cimento, ainda que inseridas com boas intenções, desqualificaram a atmosfera existente, criada pela temperatura, texturas e perfumes da madeira, entretanto substituída; os papéis pintados e colados nos caixotões eram ‘simulacros’ de um estilo passado, sem graça nem beleza; enfim, com tudo isto até os altares barrocos, de assinalada qualidade, em versão tardia e rural, estavam a deteriorar-se. Por tudo isto, era preciso devolver à igreja a dignidade original.

Que poderia fazer-se para tornar esta pequenina igreja um espaço digno, acolhedor e atraente, capaz de proporcionar melhores condições para rezar, de forma individual ou em assembleia celebrante? Este foi o desafio que se colocou, conjuntamente, ao povo de Pedraído e à equipa de trabalho convidada, já experiente na reabilitação de espaços de semelhante natureza como, por exemplo, na capela ‘Imaculada’ do Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga. Tutelada pelo Arq. António Jorge, do Atelier Cerejeira Fontes Arquitetos, trabalharam na igreja de Pedraído, entre outros, o artista norueguês Asbjørn Andresen, que fez os seus estudos nas Academias de Belas Artes de Oslo e de Paris. Para quem desconheça, Asbjørn, homem de oitenta anos de idade, foi Professor e Vice-Reitor da Escola de Arquitetura de Bergen e chefe-editor durante cerca de vinte anos de uma das mais prestigiadas revistas de Filosofia e Artes, na Noruega, e tem peças de grande prestígio internacional, como a ‘Blue Stone’, na avenida central em Bergen. Já recorrente, também nós demos a nossa colaboração, sobretudo no que respeita à disposição do espaço litúrgico e à criação de novas peças de arte para a liturgia. E, por justiça, é importante sublinhar o contributo de excelentes trabalhadores, alguns deles artesãos, experientes em várias artes: construção civil, carpintaria, pintura, serralharia e serração de pedra.



Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix

Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix

A primeira tarefa consistiu na depuração do espaço: retirar os revestimentos cerâmicos e os adornos desnecessários, aplicados há poucos anos, e criar condições para reintroduzir as madeiras, no pavimento, coro alto e teto, como assim se fez. A segunda consistiu em cuidar da luz, segundo a reorganização do espaço litúrgico, cuja atmosfera a gerar-se passou por privilegiar pontos de concentração (altares, ambão, esculturas, pias, etc.), no contexto da penumbra mística, e linhas de derramamento junto às paredes laterais, em alvenaria de pedra. Associada à luminosidade, Asbjørn desenvolveu paisagens de cor, com tintas de elevada qualidade. Para isso, inspirou-se em tradições pictóricas de casas nobres e espaços eclesiais, nomeadamente em cores aplicadas, por exemplo, no Mosteiro de Tibães: pintou a abóbada, em azul celestial; o oratório de Nossa Senhora de Fátima, em bege-rosa; as traves do coro alto, em azul-cobalto e âmbar-ouro brunido.

Em simultâneo, eram preparadas as obras de arte litúrgica e o mobiliário: os bancos da igreja e os armários da sacristia, em freixo da região; tudo segundo desenhos de Asbjørn Andresen, cuja execução ele acompanhava junto de notáveis artesãos. Sem necessidade de multiplicar modelos, adotou-se o mesmo tipo de ambão e respetivo candelabro, por ele anteriormente criados para a capela Imaculada, em Braga, bem como a lamparina, em vidro de sopro, fabricada no modo tradicional com moldes de madeira numa fábrica da Marinha Grande. Por sua vez, a cadeira do celebrante principal foi executada em madeira de faia.



Imagem Arq. António Jorge e Asbjørn Andresen carregando a cadeira do celebrante principal | © Joaquim Félix

O novo altar, totalmente inédito, quarto da série de altares criados por Asbjørn Andresen, exigiu novamente uma peregrinação às pedreiras do Alentejo. Beneficiando de contactos precedentes, partiu-se para o Seminário de S. José em Vila Viçosa, onde o grande hospitaleiro Cón. António Gata Lavajo Simões, sempre soube acolher as solicitações dos amigos de Braga, buscadores de mármores. De facto, jamais podemos esquecer as viagens exploratórias, feitas à profundíssima pedreira da Fonte da Moura, em Pardais, e a outras do Grupo Galrão, em Estremoz (donde veio o mármore para a instalação ‘Corpo da Luz’, na capela Imaculada). E, bem assim, às pedreiras da Solubema, Sociedade Luso-Belga de Mármores, SA., juntamente com o Eng. Barros, geólogo, que nos mostrou, entre outras, a antiga ‘Pedreira do Cabido’, donde saiu muito do mármore para a Sé de Évora. Graças sejam dadas ao sr. Quintino, administrador na Solubema, que, com enorme sensibilidade, compreendeu perfeitamente as características das pedras que Asbjørn Andresen pretendia encontrar para o novo altar da igreja de Pedraído. Gratidão que é, também, devida ao marmorista Fernando Ganga, que cortou as pedras do altar.



Imagem Pedreira de Fonte da Moura: Arq. António Jorge num socalco a cerca de 40 metros de profundidade | © Joaquim Félix

Imagem Paisagem da ‘Pedreira do Cabido’, invadida por água | © Joaquim Félix

Mais uma vez, e para não variar, Asbjørn Andresen foi imensamente feliz na criação do altar de Pedraído. Ele resulta da reunião de quatro pedras escolhidas, três em mármore imaculado e uma em basalto com modulações de cores ferruginosas. Na parte superior, foram sobrepostas em cascata duas pedras de mármore, formando uma espécie de ‘Tau’ estilizado, décima nona letra do alfabeto grego, cujo simbolismo é inesgotável na tradição cristã. Por outro lado, é importante verificar que existe um jogo, no caso de relação inversa, com a cascata do trono do Santíssimo no camarim do altar-mor. A base é formada por uma pedra de mármore, cujas caraterísticas são idênticas às da parte de cima. No meio, assenta sem colas, a pedra basáltica que contrasta, na densidade e na cor, com as outras três. E contudo, na sua patente fragilidade e relação contextual com a talha dourada, esta pedra esconde segredos preciosos, só revelados em algumas bolsas abertas onde se alojam cristais. Na parte frontal, arrancada assim da pedreira, e nas faces Norte e Este, cortadas na serração, podem ver-se constelações de cristais, alguns bem desenvolvidos. Quantos não se ocultarão no seu interior? É neste regime de concomitância do visível com o invisível, a ordem dos sacramentos, que o altar nos projeta para as dimensões infinitas dos mistérios que concentra, mesa das bodas nupciais do Cordeiro, do Sacrifício, da Páscoa, da Nova Aliança, Cristo em presença simbólica e, como tal, real. Atendendo à matéria de que é formado, ele reenvia-nos para o tempo das formações cósmicas antes que fosse possível dizer ‘Deus’, ainda antes de haver humanidade. Nos cristais, condensa-se tanto tempo, milhões de anos. É bom pensar neste horizonte imenso, para além das nossas pressas e racionalizações. Quanto esplendor não existe neste entalhamento d’água, no tempo e em pedra cristalina? Oh, beleza tamanha, que nos fazes estremecer!



Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix

Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix

Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix

Outra criação de grande valor, desenhada também por Asbjørn Andresen, é o oratório de Nossa Senhora de Fátima em forma semicircular, que foi colocado mesmo por baixo das escadas que, do exterior da igreja, dão acesso ao coro alto. Com portadas superiores e inferiores, para abrir e fechar em função dos ritmos e da devoção dos habitantes de Pedraído, Asbjørn propõe-no para ser trabalhado naquela performance ritual que, como noutras peças por ele desenvolvidas, permitem a ‘cerimónia’ (e não apenas a funcionalidade), o tempo das revelações, a lentidão no acesso aos mistérios e às ‘instâncias’ mais dignas. É o mesmo princípio seguido, por exemplo, nos tabernáculos cúbicos de madeira das capelas dos Seminários Arquidiocesanos de Braga, cujas faces abrem ritualmente; na Casa de Maria colocada, no dia 7 de dezembro deste ano, na capela Imaculada, dentro da qual passou a estar, de forma mais visível, a escultura de Nossa Senhora da Conceição.



Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix

Quanto à disposição das instâncias altar, ambão e cadeira do celebrante principal, que articulam o exercício dos ministérios ao serviço da assembleia, sujeito das ações litúrgicas, procurou-se dar-lhes mais ‘respiração’ no espaço, a partir das intercomunicações recíprocas e da otimização das relações de proximidade entre os participantes com a visibilidade possível. De recordar que, antes deste restauro, as três instâncias se encontravam na acanhadíssima capela-mor: o altar ao centro, mas apenas com um metro a separá-lo da tribuna, o ambão colado à parede Norte e a cadeira encaixada entre o altar e a parede Sul. Além da saturação do espaço, tudo se encontrava esmagado, não sendo possível à maior parte da assembleia, por exemplo, ver o ambão e o celebrante presidente na respetiva cadeira.

Para obviar a todas estas e outras contingências, na base da implementação da nova gramática dispositiva, tendo presentes os princípios enunciados no parágrafo precedente, as três instâncias foram distribuídas em forma triangular, desenhada em relação invertida a um outro triângulo formado pelos três altares barrocos, superiormente restaurados pelo Gabinete de Conservação e Restauro da Diocese de Braga (uma das secções do Instituto de História e Arte Cristã - IHAC): o altar-mor e os dois dos ângulos dianteiros da nave. Esta disposição quiástica permite que o ambão e a cadeira do celebrante presidente, implantados em diagonal e à mesma cota do espaço que balança de um e outro lados do arco-cruzeiro, gerem outra atmosfera de participação ativa, frutuosa e consciente em todos os participantes, desde logo naqueles que desempenham funções ministeriais, em especial nos serviços da presidência, da leitura, do canto e do acolitado.

Por sua vez, o novo altar passou a dispor de grande liberdade no ‘santuário’, sem deixar de fazer companhia a pessoas, que podem estar em bancos alinhados junto às paredes laterais. E assim, na interseção dos quiasmos triangulares (um, formado pelas cascatas de mármore no altar e de madeira no trono no camarim; outro, obtido pelas novas instâncias litúrgicas em relação aos altares barrocos), a mesa do altar assume-se como o ponto focal, a partir do qual se articula todo o espaço da igreja de Pedraído.



Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix

Muito mais haveria para escrever, mas suspendemos por aqui. E não nos faltam imagens para abrir-vos ao espanto. Ainda assim, vejam mais umas quantas fotografias, abaixo apresentadas no slideshow, cuja ordem se dá em função da descoberta progressiva de certos detalhes, specie das pedras do altar, e da performance de abertura do oratório de Nossa Senhora de Fátima. Como sabemos, porém, a verdadeira descoberta só pode fazer-se com a visita in loco, o que vos aconselhamos vivamente. Telefonem para o Pe. Vítor Sá, pároco da comunidade, ou perguntem pela Dona Tina, a fim de preparar a visita. Recordem que, não muito longe do largo do coreto, a 100 metros da igreja, existe uma casa deliciosa para outras portas da sensibilidade: referimo-nos à Taberna do Abel, onde a Ti Maria e sua filha Lurdes cozinham um delicioso arroz pica no chão, ou, para quem preferir peixe, um bacalhau assado na brasa. E tudo isto regado com bom vinho verde. Excelente! Telefonem, primeiro. A arquitetura é muito interdisciplinar! Tanto mais esta que vos propomos, que é tão amiga da sustentabilidade, desde logo na escolha dos materiais e na resistência ao tempo, para se tornar autêntica metáfora de eternidade.

Oh! Não esquecemos não! De um ao outro batente, a anciã atravessou a porta, com o olhar bem dentro, a saudar Aquele que a ama tanto, dirigindo-Lhe o rosto aberto num sorriso patente até às suas pupilas negras. Adeus! Até amanhã se Vós quiserdes! No domingo seguinte, na recorrência de um Evangelho celebrado em Páscoa semanal, ela e muitos dos cristãos de Pedraído calçarão os sapatos de domingo para entrar na casa renovada. Que belo presente de Natal! Parabéns aos habitantes de Pedraído, a viver na terra ou na emigração, e a todos aqueles que, como colaboradores, acreditaram ser possível esta prática da esperança.



Imagem Igreja paroquial de Pedraído, Fafe, Braga | © Joaquim Félix





 

Texto e fotografia: Joaquim Félix
Publicado em 23.12.2017

 

 
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