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«Sou um homem de fé»: Ruy de Carvalho fala de Deus, família, palcos e memórias

«Não esperava. É uma surpresa muito grande e honra-me muito [o prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes]. Olharam para a minha vida e acharam que eu era uma árvore de vida. Tive frutos muito bons, tive ramagens muito bonitas, tive primaveras maravilhosas na minha vida, tive momentos com mais tempestades ou menos tempestades, que acontecem muitas vezes na vida às pessoas, mas sempre com muita fé. Sou um homem de fé.»

É com esta declaração que o ator Ruy de Carvalho, 91 anos e 76 de carreira, abre a entrevista concedida à Agência Ecclesia e Renascença, em parceria com o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (ver em baixo), no contexto da 14.ª edição do prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, que vai receber este sábado, em Fátima, em sessão aberta ao público.

«Preocupa-me muito aquilo que preocupou Cristo, que são os seus semelhantes, as pessoas, aqueles a quem é preciso dar amor. E se dermos amor uns aos outros, vivemos em Cristo. Se é por aí que pegam na Árvore da Vida, se é por aí que a Igreja achou que eu merecia este prémio, eu estou muito honrado com isso, afirma.

A distinção, que será atribuída no final da 14.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, dedicada ao tema “Desporto - Virtudes e riscos”, consiste na escultura “Árvore da Vida”, concebida por Alberto Carneiro, e uma dotação financeira de 2500 €, verba oferecida com o patrocínio da Renascença.



A família tem sido «fundamental»: «Tive uma mulher extraordinária [Rute], também uma artista - bailarina - e licenciada em História da Filosofia, uma mulher com uma cultura muito interessante. Tinha uma capacidade de compreensão muito grande. Eu é que era a sombra e ela é que era a pessoa»



Sentado no palco do teatro da Trindade, em Lisboa, onde se estreou, Ruy de Carvalho encontra na representação a expressão da sua cidadania: «O meu serviço aos meus semelhantes é representar o melhor que sei e posso, com algumas dificuldades, porque nem sempre é fácil, nem sempre é fácil encontrar aquilo que nos querem vestir, mas é uma profissão muito bonita».

«Hoje tenho mais respeito pelo público, pelos meus colegas e por mim [do que quando me estreei]. A humildade, que é uma palavra muito bonita, começa connosco: ser humildes com a nossa forma de estar, com os colegas com quem trabalhamos e sobretudo com aqueles que nos veem, a quem nós servimos», observa.

O júri do prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes sublinha, na ata de atribuição da distinção, que Ruy de Carvalho foi «aluno brilhante do Conservatório Nacional», tendo juntado «à paixão pela arte dramática» e «aos talentos naturais um sentido exemplar da seriedade profissional e das implicações culturais da sua presença no espaço público», que continuam a poder ser (re)conhecidas hoje, no Teatro Experimental de Cascais.

«Eu sou franciscano, fiz “A vida de S. Francisco de Assis”, e hoje estou muito feliz porque tenho um papa chamado Francisco, que escolheu exatamente o nome que eu escolheria se um dia tivesse sido papa – já fui, mas como ator», refere, chamando ao pontífice «o pároco do mundo».



«As pessoas têm de saber amar e conseguirem viver 15 anos amando-se, ou 20 ou 53, como eu vivi, com mais nove de namoro. É preciso saber a vida em conjunto, com muito respeito e sobretudo com muito amor. E transmitir isso àqueles que vão sendo produto do nosso amor»



O ator enaltece a proximidade do atual papa: «Ainda não vi ninguém que não o queira beijar, abraçar, ter um aconchego dele – aquilo que os párocos devem fazer aos seus paroquianos, aconchegá-los, ajudá-los a viver melhor; e ele faz isso ao mundo, e há muita gente a fazer as pazes com a Igreja».

Os jurados do prémio realçam que «a consciência dos poderes do teatro, do cinema e da televisão encontrou sempre em Ruy de Carvalho uma resposta indutora da elevação humana – numa carreira sintomaticamente iniciada em 1942 com “O jogo para o Natal de Cristo”e sempre coerente com o humanismo cristão que inspira a sua visão da vida».

A família tem sido «fundamental»: «Tive uma mulher extraordinária [Rute], também uma artista - bailarina - e licenciada em História da Filosofia, uma mulher com uma cultura muito interessante. Tinha uma capacidade de compreensão muito grande. Eu é que era a sombra e ela é que era a pessoa. Abdicou de muita coisa para criar os filhos – podia ser professora –, mas achou que o melhor era ter a sua vida em casa, e como tal deu-me a responsabilidade de a aguentar materialmente».

Ruy de Carvalho passou por momentos «terríveis» no teatro, mas que tratou sempre de ocultar dos filhos e da esposa, mulher de «fé sem limites», catequista: «As pessoas não têm que sofrer o que os outros sofrem. Temos que lhes aliviar a vida. Fazê-las mais felizes».

«Durante um tempo privámo-nos da bênção da Igreja porque vivemos 15 anos casados só pelo civil. Mas eu acho que o casamento pela Igreja é uma bênção, só se deve abençoar o que é bom. Abençoar uma coisa que falha no segundo ou terceiro ano, não vale a pena. As pessoas têm de saber amar e conseguirem viver 15 anos amando-se, ou 20 ou 53, como eu vivi, com mais nove de namoro. É preciso saber a vida em conjunto, com muito respeito e sobretudo com muito amor. E transmitir isso àqueles que vão sendo produto do nosso amor, os filhos, os netos. Eu já tenho bisnetos, sou um homem rico nesse aspeto», afiança.








 

Entrevista: Lígia Silveira/Agência Ecclesia, Maria João Costa/Renascença
Imagem vídeo: Joana Bougard, Armando Merino
Edição: SNPC
Imagem: Ruy de Carvalho | D.R.
Publicado em 11.06.2018

 

 
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