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Teixeira de Pascoaes: A dança divina da poesia

Teixeira de Pascoaes: A dança divina da poesia

Imagem D.R.

A aproximação de Teixeira de Pascoaes [2.11.1877 - 14.12.1952] ao teólogo de Hipona [Santo Agostinho], a Jerónimo ou a S. Paulo só deve ter surpreendido quem não tivesse notado como Pascoaes transforma qualquer tema, e o comentário é de Fernando Pessoa, num «degrau para a religiosidade». Pascoaes apontara, com a sua obra poética, um tremeluzente norte à poesia portuguesa, que fora, no século anterior, substancialmente clássica e com ele entrou, «com passo decidido, na pura linha romântica do irracional». E o irracional é a paisagem onde o sagrado reflorescerá como categoria necessária.

O conhecimento mítico-poético e o conhecimento religioso que a Modernidade colocou sob suspeita, considerando-os sombras da razão, regressam como uma arte inexplorada. Entre sentimento e mistério, entre nítido e indeterminado alumiam-se afinidades («Deus é, em nós, como uma lembrança» , há-de escrever Pascoaes. «A atitude divina é anti-racional»). Busca-se numa experiência originária aquilo que as estratégias do pensar deixam em silêncio e que vem guardado na linguagem densa dos símbolos. Ganha verdade a declaração de Jung: «O século das luzes nada apagou».

Mas não é exatamente de cristianismo que se trata. Já na receção às biografias que Pascoaes escreveu, criticava-se o facto de ele «tratar os santos com um simples processo poético» . Num artigo dos anos 50, Manuel Antunes classificava tanto Pessoa e Régio como Pascoaes de poetas do sagrado, profundamente religiosos, mas avisando que «nenhum deles conhece o cristianismo (...) existencializado, sensibilizado. Apenas mostraram «através de tenteios, do caminhar nas sombras, do dualismo inquieto, do ansioso interrogar do mistério sentido ou pressentido (...), grande, secreta e inextinguível nostalgia de Deus». De facto, ao pisar o invulgar território que tinha em S. João de Gatão seu centro magnético, estamos longe da elaboração teológica ou mesmo de uma retórica da experiência religiosa. A Pascoaes a santidade interessou enquanto fantasmagoria. Cada uma das biografias aborda, não a história propriamente dita, nem sequer os meandros labirínticos da legenda, mas a representação imaginária de uma prática da alma. Pois é isso que ele repete: «só me interessam as almas».



Quando Teixeira de Pascoaes chama a Paulo por poeta, está a definir a Poesia, e quando anota a sua vida como a «hora em que o mundo foi dado aos poetas», tal corresponde a um discurso intransigentemente próprio acerca da substância da poética



Peguemos em S. Paulo, cuja primeira edição data de abril de 1934, o ano em que Pessoa publica a “Mensagem”. (E pode perceber-se, para lá da específica diversidade, como essas duas obras são contíguas. Pessoa encenou com os heróis pátrios uma história fantasmática, por um percurso que, a ser alguma coisa, é decisivamente «espiritualista e místico», enquanto Pascoaes foi arrancar à recôndita Judeia igual motivo, sem deixar de dizer, contudo, que «a Ibéria é outra Judeia, outro deserto febril»). Teixeira de Pascoaes descreve aí, certamente, factos da vida de Paulo, sonda a cronologia do personagem, abre uma ou outra janela para o enquadramento social e político do tempo. Mas daí a pensar essa obra como uma estrita biografia! É verdade que leu com voraz atenção o “corpus” literário paulino e socorreu-se das importantes notícias que Lucas fornece nos Atos dos Apóstolos. Mas sobre Lucas, Pascoaes declara, que «ele viu o apóstolo e desinteressou-se do homem; desinteressou-se do que era, para nós, mais interessante».

E o mais interessante não era a genialidade do Paulo teólogo, que cruza o profundo mundo da apocalíptica judaica com endereços da gnose helenística na sua apresentação da novidade cristã. O mais interessante não era a reinvenção do género epistolar do Paulo autor, o tom da sua escrita que conjuga uma vivacidade de pregação religiosa popular com essa solidão que, tantas vezes, é a caligrafia mais autêntica do pensamento; nem era o desenho verbal do Paulo esteta, a típica acumulação de sinónimos, o jogo intrincado dos paralelismos, no fundo, aquelas figuras que tornam inesquecível o movimento das suas frases («quando eu era criança/ pensava como criança/ depois que me tornei homem/ desapareceu o que era próprio da criança», 1 Cor 13,11).

O mais interessante para Pascoaes era o «espetro», o «fantasma», o «floco de neve e labareda», o «vulto mal delineado na penumbra», o «animal apaixonado», o «anjo», o «faminto de Deus». Era verificar, ao modo de Jerónimo que não tirava os olhos da caveira, como «o esqueleto emagrecido» de um Homem «é transtornado, de súbito, por íntimas energias imprevistas». Era explorar num indivíduo, suficientemente batido por ventos contraditórios, tombado do cavalo do seu próprio destino, cego pela revelação da Graça depois da cegueira de um crime, as grandes e únicas fronteiras simbólicas do Ser Humano.



«Nesta orgia industrial moderna, paródia em ferro e vapor, da orgia pagã, o homem está morto ou isolado do seu espírito. Existe, mas não vive. Existe a duzentos quilómetros à hora, mas com a vida parada, dentro dele. Vida inerte numa existência delirante»



Não digo que Paulo de Tarso tenha constituído um simples pretexto, ainda que sublime, para este ensaio fulgurante sobre a condição humana. Digo que Pascoaes perseguiu no apóstolo dos gentios aquilo que nele poderia ser universal: retirou-o desse lugar de exclusão onde o mundo moderno fixou o fenómeno religioso, chamou a S. Paulo, não apóstolo, mas poeta («o maior poeta»), mediu-o com Homero e com os sacros poetas da Hélade, colocou-o como «trágico intérprete da Vida», à maneira de Lucrécio ou Virgílio, Dante ou Shakespeare, quis ler tudo, mesmo os seus achaques, como um dispositivo criador que se manifestou também em Dostoievski e, doutra maneira, em Byron. Mas sem que este impulso analógico vise entronizar Paulo numa academia literária. Pascoaes não aborda literariamente nem a sua figura, nem os seus escritos, que avizinhou, primeiro, ao «livro dos que não sabem ler» e, depois, a essa obra escatológica, a obra universal por excelência, que é «o livro da Vida».

Recolhe uma certa unanimidade a observação que mais do que vidas de santos, mais do que a biografia de São Paulo, Pascoaes foi escrevendo a biografia de si mesmo. «Ao fim e ao cabo, o principal personagem é o próprio poeta a debater-se com o conflito real da sua vida», aponta Eugénio de Andrade. E, em recensão crítica da época, já se dizia: «o que francamente mais devemos lamentar é que o poeta, profundamente impressionado com a figura de Paulo, escolhesse para teatro da sua tragédia íntima o cenário variado e imenso que o Apóstolo percorreu e, num lirismo absorvente, se incarnasse fantasticamente em S. Paulo». Mesmo nos desenhos que Pascoaes dedicou ao apóstolo, podem espiar-se, afinal, os traços do seu próprio rosto (aquele rosto magro, de pedra), como se de uma impressão pessoal se tratasse, e não de representação verdadeira.

Só que isso, olhado por um tempo como escolho, deve ser visto como a grandeza maior desta obra: a sua obstinada condição de “speculum”, como se da literatura e da mística se pudessem escrever as mesmas observações, fazer um semelhante relatório da única «doença divina» que é a literatura e a santidade. Pois quando Teixeira de Pascoaes chama a Paulo por poeta, está a definir a Poesia, e quando anota a sua vida como a «hora em que o mundo foi dado aos poetas», tal corresponde a um discurso intransigentemente próprio acerca da substância da poética.



Se Pascoaes descreve o itinerário místico de Paulo é também para perguntar: «O mundo foi da Poesia, nos primeiros séculos da nossa era. Repetir-se-á o milagre? Voltará o deus dos poetas?» . É que ao falar de Deus, Pascoaes nunca deixa de falar dessa «outra coisa enamorada do vento»



A experiência mística é uma experiência da paixão. Ainda que se trate de uma paixão da alma ela expressa-se pelos tormentos das paixões humanas. O indizível aspira desesperadamente pelo dizer. Não há experiência mística que não relate o desconforto da escassez que, de repente, assola o mundo; a impossibilidade da palavra (seriam precisos, como na estrada de Damasco, relâmpagos); a incerteza abrasiva das imagens. É que o processo da vida espiritual só vem resgatado pela união transformante, mas é necessário primeiro provar este caminho purgatório que a teologia negativa designa pelas metáforas da noite, da nuvem, da nuvem do não-saber, da ausência, do silêncio. Só depois, como indica São João da Cruz, «allí nos transformaremos en trasformación».

Descreve assim Pascoaes o seu (o nosso) tempo: «Nesta orgia industrial moderna, paródia em ferro e vapor, da orgia pagã, o homem está morto ou isolado do seu espírito. Existe, mas não vive. Existe a duzentos quilómetros à hora, mas com a vida parada, dentro dele. Vida inerte numa existência delirante. Seduzido pelo ruído e movimento, as duas faces desta civilização americana ou neo-neroniana, integrou-se num sistema mecânico industrial, e é simplesmente uma engrenagem» . Se Pascoaes descreve o itinerário místico de Paulo é também para perguntar: «O mundo foi da Poesia, nos primeiros séculos da nossa era. Repetir-se-á o milagre? Voltará o deus dos poetas?» . É que ao falar de Deus, Pascoaes nunca deixa de falar dessa «outra coisa enamorada do vento».



 

José Tolentino Mendonça
Publicado em 14.12.2017

 

 
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