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“Teologia de fronteira”: Coleção revela pensamento teológico na base do ensinamento do papa Francisco

“Segundo o Espírito – A teologia espiritual a caminho com a Igreja do papa Francisco”, do padre e artista esloveno Marko Ivan Rupnik, é o livro que inaugura a coleção “Teologia de fronteira”, da Paulinas Editora, que «valendo-se da competência de um corpo de acreditados teólogos», investiga «o pensamento teológico que está na base do ensinamento do papa Francisco».

Publicados originalmente pela Libreria Editrice Vaticana, os volumes foram redigidos autonomamente por cada um dos autores, embora «a leitura de toda a coletânea seja um apoio válido para compreender a teologia que está por detrás do ensinamento de Francisco nos diversos âmbitos do saber teológico e, também, uma introdução aos pontos-chave de todo o seu pensamento e ensinamento».

«No ensinamento de Francisco há um aspeto incontornável, que já foi indicado pela teologia recente e pelo magistério conciliar: a doutrina não é, nem pode ser, uma coisa alheia à chamada pastoral. O Evangelho de Cristo é a verdade que a Igreja é chamada a proteger, e ele deve ser comunicado aos homens e mulheres de todos os tempos e lugares. Por isso, a função do magistério eclesial deve ser também o de facilitar a comunicação do Evangelho. Também por isto, a teologia nunca se pode reduzir a um exercício ascético que se faz à secretária, desgarrado da vida do povo de Deus, desgarrado da sua missão de fazer encontrar, aos homens e mulheres do seu tempo, a perene e inexaurível novidade do Evangelho de Jesus», lê-se na apresentação da coleção.

«Ao longo destes anos, ao ouvir algumas expressões críticas de Francisco, em relação à teologia e aos teólogos, não faltou quem pensasse dever daí deduzir uma desvalorização pessoal e incondicional do Papa quanto a estes. Talvez um estudo mais aprofundado do ensinamento do Papa, como o contido na presente coletânea, seja útil para mostrar que, tal como é necessário ser-se sempre crítico em relação àquela teologia que perdeu a sua ancoragem vital à fé viva da Igreja, é igualmente indispensável uma teologia que assuma com «fidelidade criativa» a missão de pensar criticamente essa mesma fé, para que continue a ser anunciada», sublinha o coordenador da coleção, Roberto Repole.

Oferecemos dois trechos deste primeiro volume da coletânea, que é seguido pelo livro “Caminhar no amor – A teologia moral do papa Francisco”, de Aristide Fumagalli, igualmente já disponível.

 

Fé e religião
Marko Ivan Rupnik
In “Segundo o Espírito”

A fé cristã não é uma religião, mas um ato relacional, o reconhecimento do valor absoluto da existência do Outro, a quem nos confiamos e de quem dependemos para ser e existir. O cristianismo é, portanto, um modo de existir na comunhão. A religião, ao invés, é uma expressão do indivíduo, uma sua necessidade natural, instintiva, tal como o instinto de comer ou de se vestir, para se proteger do frio. O indivíduo dá-se conta de que a sua vida está posta em perigo por muitas realidades e forças ameaçadoras, que não consegue controlar. Procura, então, uma forma de propiciar estas forças a seu favor, recorrendo a alguma proteção sobrenatural para se manter e sobreviver. Isto dá origem a um conjunto de certezas metafísicas bem precisas, uma espécie de credo como ideologia, identificado com a sua formulação, de tal modo que a fidelidade à sua verdade literal garanta a certeza de possuir a verdade; faz brotar um culto em que se oferecem sacrifícios inspirados por uma lógica de troca, segundo a qual, quanto mais preciosa for a oferta, mais Deus estará reconhecido para com o oferente; gera uma ética que disciplina o comportamento quotidiano, oferecendo certezas tranquilizadoras ao eu e garantindo-lhe o mérito da virtude individual pela sua observância. A religião existe, portanto, em função do indivíduo. Mas Cristo inaugurou uma vida nova, não uma nova religião; e mostrou como toda a vida, em todas as suas dimensões, é o «lugar» da comunhão com Deus, do agradecimento, porque a vida é dada ao homem para dela fazer comunhão com Deus. Para isto, o indivíduo é convidado a morrer, para poder gozar desta vida de comunhão que, como vimos antes, é o modo de existir de Deus. E a religião pode ser o último esconderijo em que se abriga o eu individual, para não ter de ceder e morrer.

 

Do eu individual ao eu de comunhão
Marko Ivan Rupnik
In “Segundo o Espírito”

No verdadeiro sentido da palavra, a vida espiritual começa quando há a comunhão na existência humana, quando recebemos a vida – que é comunhão, relação à maneira de Deus – como um presente. A vida espiritual só inicia realmente quando tudo o que é tipicamente humano começa a ser libertado das garras do eu predador, autoafirmativo, e começa a viver como relação, livre. A vida espiritual começa quando se entrega toda a natureza humana a um eu de comunhão. Se «pessoa» significa a unidade de um princípio que ama, que é relação, uma consciência do eu relacional que exprime, na sua natureza humana, a vida como comunhão, então a vida espiritual só é possível a pessoas.

Claro que este é um caminho que terminará no Reino de Deus, porque, se a pessoa emerge da comunhão, ela é, num certo sentido, uma realidade escatológica, pertencente ao Reino dos Céus, onde viveremos plenamente a comunhão; lá, cairão todas as barreiras que nos dividem uns dos outros, e Deus dar-nos-á aquela pedra branca na qual está escrito o nosso nome (cf. Ap 2,17). Deste modo, vi vemos a pessoa a partir do futuro e em direção ao futuro, embora a possamos experimentar desde já, de alguma forma. Só que a vida de agora é a gestação do homem novo, criado segundo Deus, semelhante à vida do embrião na escuridão do ventre materno. Esta preparação realiza-se quando nos amalgamamos com o Corpo de Cristo.

Podemos assim concluir que a vida espiritual é a existência eclesial do homem. Portanto, ela não se articula nem se afirma como um itinerário tipicamente caracterizado pela religião, mas como manifestação de uma nova existência da humanidade que, na história, se realiza como vida eclesial – a Igreja como comunhão.

O sentido da vida espiritual é viver a nossa humanidade como teofania, como manifestação do amor de Deus. Então, como se constata a vida espiritual num ser humano? A prova infalível de uma vida espiritual autêntica é que se manifeste o amor de Deus pelo homem na mentalidade, nos sentimentos, na vontade e nos gestos corpóreos concretos dessa vida. Tal como em Cristo se realizou o amor de Deus para com a humanidade, que vivia uma existência marcada pela morte, assim também, em cada cristão, a vida em Cristo que ele acolhe no Batismo e que se estende sobre ele – o Espírito Santo – leva-o a realizar o mesmo ato constitutivo da sua redenção, isto é, a páscoa. O cristão foi constituído na páscoa de Cristo e vive a sua vida no mesmo mistério pascal. A medida da autenticidade da vida espiritual é viver a vida como dom. Por outras palavras, «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6,36). Se a misericórdia é o gesto pelo  qual Deus cobre a distância existente entre Ele e o homem morto, a vida espiritual faz com que os cristãos continuem a preencher este espaço que existe entre o homem sofredor, pecador, sufocado no indivíduo, da vida de comunhão que é a Igreja. A Igreja não é, em primeiro lugar, uma instituição, mas a epifania da nova criação, deste novo modo de existir redirecionado e oferecido ao amor de Deus, à comunhão com Ele.

Após séculos de estruturação da Igreja, segundo um modelo paraimperial e paraestatal, hoje há um grande empenho da vida espiritual em libertar os cristãos desta visão estéril, de modo a mostrar a Igreja como humanidade que vive na comunhão, que procura cobrir as distâncias da solidão e do sofrimento do homem isolado.

A caridade, a misericórdia, o acolhimento do outro, uma existência livre de qualquer egocentrismo, etnocentrismo, idolatria da sua própria cultura e história, uma mentalidade de pertença a uma comunidade, lugar de expressão da vida como comunhão: são todos sinais evidentes de vida espiritual. Da mesma maneira, ultrapassar as relações ligadas somente à natureza como o sangue, a família, etc., por causa do Batismo, e manifestar a pertença a uma comunhão livre são sinais irrenunciáveis da saúde espiritual dos cristãos.

Ao longo da História, muitas destas realidades – que o Batismo deveria ter mantido afastadas – acabaram por entrar na comunidade eclesial, o que ofuscou a capacidade dos cristãos de serem manifestação e revelação da vida como comunhão. Quanto mais conseguirmos manifestar, realmente, a vida espiritual, superando esta mentalidade de ordem natural, tanto mais a nossa vida será uma contínua revelação do outro. Na medida em que a nossa consciência viver mais profundamente enraízada em Cristo, na mesma medida, o nosso agir e o nosso modo de ser o demonstrarão.


 

Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 26.10.2018

 

Título: Segundo o Espírito - A teologia espiritual a caminho com a Igreja do papa Francisco
Autor: Marko Ivan Rupnik
Editora: Paulinas
Páginas: 180
Preço: 14,00 €
ISBN: 978-989-673-652-1

 

 
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