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Leitura: “Transparências – Jovens e a arte de discernir”

Leitura: “Transparências – Jovens e a arte de discernir”

Imagem Capa | D.R.

Vinte entrevistas em contexto de dinamização de processos de discernimento e de opção vocacional: é este o núcleo do novo livro “Transparências – Jovens e a arte de discernir”, lançado esta semana pela Paulinas Editora.

«Trata-se de um contributo de particular relevância para o conhecimento dos jovens do tempo presente, e instrumento de trabalho para identificação dos grandes desafios que a todos responsabiliza», refere Joaquim Félix de Carvalho, coordenador e autor das entrevistas no texto de apresentação do volume, que seguidamente reproduzimos.

Padre da arquidiocese de Braga, professor e membro da Direção da Faculdade de Teologia (Braga), o P. Joaquim Félix é investigador do Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião (CITER) da Faculdade de Teologia da Universidade Católica.

Dinamiza há mais de uma décadaco discernimento vocacional de jovens e adultos no Seminário Conciliar de Braga, onde exerce as funções de Vice-Reitor. Doutorou-se em Liturgia, no Pontifício Instituto Litúrgico Santo Anselmo, em Roma.

Tem aprofundado temas de arquitetura e arte ao serviço da liturgia. Juntamente com arquitetos e artistas, tem colaborado na edificação de espaços litúrgicos em linguagens contemporâneas, com reconhecimento nacional e internacional, entre os quais as Capelas “Árvore da Vida”, “Imaculada” e “Cheia de Graça”, em Braga.

 

Apresentação
Joaquim Félix de Carvalho
In “Transparências”

Este livro, por maior lentidão que se imprima ao ritmo de leitura, lê-se facilmente e com prazer. Há nele uma delicada corrente de escrita que faz mergulhar nela como a vinculação numa genealogia. E, talvez devido à descoberta de situações familiares, por analogia com as nossas biografias «in transcritas», mas presentes no corpo e no espírito, em memórias e pensamentos autorreflexivos, sentimo-nos como que convocados a alargar o imaginário sobre a juventude e a considerá-lo, a partir de referências duma ética e paisagens partilhadas, de sabedorias ancestrais de todo não abandonadas, ainda que sujeitas a profundas e legítimas mutações, e com as quais nos sentimos comprometidos.



É tempo de nos fazermos próximos dos jovens tal como são, com os seus valores, utopias e abismos existenciais. As entrevistas são um exercício de proximidade, com o qual se pretende celebrar, antes de mais e em epifania, a densidade e as singularidades da vida humana



Encontramos nele texturas de vida impolidas e modulações culturais que se afastam do registo de certos discursos e esquemas, mesmo se produzidos no âmbito das ciências humanas, que aprisionam os jovens (ou o que com esta «categoria» se possa ainda compreender) em rígidas tipologias e slogans sensacionalistas. E, ao contrário da prática de “fait-divers”, pitorescos sob vários aspetos surreais, e de simulacros de entretenimento, por vezes emoldurados com denominações ditas «pastorais», que, a par de outras causas, frequentemente levaram à saturação da recetividade dos jovens e ao abandono precoce da sua participação na vida comunitária, pondo inclusive em crise os processos de iniciação à responsabilidade política e espiritual em sociedade.

Nestas longas «narrativas» agora publicadas, podemos encontrar reservas freáticas para alimentar as nascentes do entendimento da vida, a partir do essencial e do fogo que, ao pulsar duma mística da económica rotina e da solenidade, animam os desejos e dessedentam as sedes mais profundas.

É tempo de nos fazermos próximos dos jovens tal como são, com os seus valores, utopias e abismos existenciais. Reunidas nesta obra, intitulada Transparências, as vinte entrevistas, realizadas durante os últimos dois anos, no contexto da dinamização de processos para discernir e fazer opções fundamentais, são um exercício de proximidade, com o qual se pretende celebrar, antes de mais e em epifania, a densidade e as singularidades da vida humana. De per si, são um elogio da vida na sua desmesura, cultivado na persuasão de que aprofundar o seu conhecimento ajuda a decidir e a viver melhor, não só em termos pessoais, mas também comunitários. Transparências são mais do que um convite a situarmo-nos nos horizontes da além-aparência, do lado da luz ou do reflexo. Antes, são um veículo para viajar até ao centro dos mistérios da vida, da liberdade e das decisões fundamentais, imersos nas circunstâncias, onde a luz se concentra e ilumina a existência desde uma fonte especial, a das perguntas, para as quais o exercício de resposta se desenha literariamente num esboço de narrativa extensa, sem jamais esgotar a atenção ou encerrar o seu final. Como numa instalação de arte feita em mármore suspenso, a luminosidade é captada do exterior pelos cristais; o corpo ilumina-se e, mais do que trespassado, do lado da sombra clara, lemos muito para além da luz e do que ela nos possibilita.



Nesta radical arte de perguntar, procurámos sempre aquele delicado equilíbrio que balança entre a salvaguarda da exposição pública de certos dados pessoais, familiares e institucionais, e a força do paradigma testemunhal



As fotografias de rosto dos entrevistados formam uma composição, mil vezes por cada um, mais fiel à sua identidade do que a melhor seleção de palavras. De ordem similar, porque também explorada em algumas das breves apresentações, é a semântica dos nomes, que, por ordem adotada no livro e segundo a familiaridade, aqui se elenca: Filipe Alves, Tiago Varanda, Jorge Miguel, Miguel Neto, Fernando Machado, Tiago Silva, Carlos Leme, Manuel Torre, Fábio Silva, Fernando Carneiro, Paulo Jorge, João Carlos, Abílio Duarte, Pedro Antunes, Vítor Sá, Dayakar Thumma, Moisés Pereira, Fábio Pereira, Rúben Ferreira, Fernando Torres. Trata-se de um grupo de jovens que, juntamente com outros, frequentaram encontros de discernimento vocacional no Seminário Conciliar de Braga, que os promove no Pré-Seminário Jovem/Adulto.

Como mármore que se transforma em corpo de luz, de modo análogo, cada entrevistado ilumina-se e torna-se fonte de luminosidade com as perguntas que recebe e as respostas que dá. Sem qualquer grelha fixa de questões, adotámos sob nossa responsabilidade uma circunscrição a sete grandes áreas de questionamento: biografia, etnografia, cultura e artes, sociedade e política, religião e espiritualidades, juventude, vocações. Parte-se da pessoa, irrepetível e autodiscernida, na consideração das suas relações familiares e noutras contextualidades, e das formas de pensar e integrar-se na sociedade, plural nas suas expressões culturais, políticas e religiosas, para que ela se decida desde a juventude a fazer a sua opção fundamental de vida, seja ela qual for, sempre e por igual respeitada. De notar que só o conhecimento alargado de cada um deles e da respetiva mundividência, na maioria dos casos adquirido ao longo de mais de cinco anos, através da relação pessoal no âmbito dos encontros de discernimento vocacional e da vida em Seminário, de cuja dinamização (em equipa) somos responsáveis, nos permitiu colocar determinadas perguntas. E, nesta radical arte de perguntar, procurámos sempre aquele delicado equilíbrio que balança entre a salvaguarda da exposição pública de certos dados pessoais, familiares e institucionais, e a força do paradigma testemunhal.

Para assinalar campos textuais com maior coesão e, deste modo, criar ritmo temático, adotámos um sistema de subtítulos em cada entrevista, que aglutinam sequências de perguntas e respostas. Todas as entrevistas foram já publicadas on-line no sítio Faz Sentido do Seminário Conciliar de Braga. Contudo, algumas apresentam-se ainda em versões abreviadas e, a maioria, desprovidas desta subtitulação.



A publicação das entrevistas e dos estudos, que irão realizar-se, constituirá um contributo de particular relevância para que, promovendo o conhecimento dos jovens do tempo presente, juntamente com eles se possam identificar os grandes desafios com que se deparam



Como se encontravam dispersas no arquivo digital, desprovidas de índice e misturadas com textos de natureza diversa, portanto, de não fácil acesso, sugeriram-nos que elas fossem reunidas e publicadas em livro. Além desta sugestão, constatámos um outro indicador favorável: em curto espaço de tempo, algumas das entrevistas eram acedidas por mais de seis e sete mil internautas, variando os públicos em função das origens dos entrevistados e suas relações sociais. Sendo agora publicadas, em correspondência com tão manifesto interesse, deve advertir-se que algumas das informações, prestadas na última versão das entrevistas, evoluíram em certos de talhes. Por isso, e de forma complementar, no final do livro, fornecemos um índice onomástico dos entrevistados, com notas sumárias sobre a situação atual de cada um.

Entretanto, esta série de entrevistas despertou o interesse da comunidade científica, no sentido de elas serem estudadas em diferentes e complementares aspetos. De facto, encontra-se já delineado um projeto de investigação, que faz desta publicação a fonte de estudo. Tal projeto será concretizado por um grupo de investigadores integrados do Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião (CITER), da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Fazem parte deste grupo os Professores João Duque, Alfredo Teixeira, Luís Miguel Rodrigues e nós próprios. Colabora neste projeto de investigação a Professora Fabrizia Raguso, do Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos (CEFH) da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (Braga), também da Universidade Católica Portuguesa.

A publicação das entrevistas e dos estudos, que irão realizar-se, constituirá um contributo de particular relevância para que, promovendo o conhecimento dos jovens do tempo presente, juntamente com eles se possam identificar os grandes desafios com que se deparam e, em estreita interação, a todos responsabiliza. Um deles será seguramente o da decisão quanto às opções fundamentais de vida, cujo processo de discernimento vocacional muito importa cuidar. Esta matéria ganha mais pertinência, porquanto sabemos que o tema da próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que se realizará no Vaticano durante o mês de outubro de 2018, será sobre «os jovens, a fé e o discernimento vocacional».

Esta apresentação não poderia terminar sem exprimirmos a nossa gratidão a todos e a cada um dos jovens entrevistados, que, de modo tão dialógico e generoso, estão a dar uma colaboração especial na análise de temas relevantes, tanto para a Igreja quanto para a sociedade, que dizem respeito à juventude, mas não só.






 

SNPC
Publicado em 15.12.2017

 

Título: Transparências - Jovens e a arte de discernir
Coordenador: Joaquim Félix de Carvalho
Editora: Paulinas
Páginas: 296
Preço: 14,50 €
ISBN: 978-989-673-619-4

 

 
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