A Teologia visual da Beleza
John Everett Millais

Cristo em casa dos seus pais

John Everett Millais (1829-1896) foi um pintor e iluminador britânico, nascido em Southampton. O seu talento fora do comum valeu-lhe um lugar nas escolas da Royal Academy com apenas onze anos. Os seus principais modelos são Velázquez e Rembrandt. O quadro aqui reproduzido, exposto na Tate Gallery, Londres, é uma representação realizada em 1849-50 da família.

Logo aquando da apresentação a obra deu origem a grandes polémicas devido ao realismo da cena. O seu título não deixa dúvidas: “Cristo em casa dos seus pais” (86 x 34 cm). Ainda hoje a sua contemplação provoca uma certa perplexidade devido à ruptura com os esquemas tradicionais com que os pintores de outros séculos trataram o tema da estada de Jesus em Nazaré.

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Parece um eco de Caravaggio, que havia sido criticado em Roma por converter os santos em personagens vulgares. Há um forte contraste entre esta família, distante da beleza idealizada durante a plenitude renascentista, e a compreensão amável de Murillo e Zurbarán, entre outros. Nesta oficina não se respira uma atmosfera sobrenatural, mas há muitos traços de originalidade que justificam a nossa contemplação.

Pressente-se um ambiente de austeridade contida, de reflexão melancólica, de um certo mistério por desvelar.

A leitura do quadro oferece alguma dificuldade, ao suscitar um sem-número de sugestões e interpretações. A cena apresenta seis personagens, alguns de identificação duvidosa. Ignoramos se são membros do círculo familiar. Ao centro, Maria, ajoelhada, aproxima-se suavemente da face de um Jesus adolescente, enquanto José lhe toma a mão direita para mostrar os estigmas nela marcados, presságio da futura paixão, ainda longínqua mas já próxima a partir da profecia de Simeão.

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José, a um canto, desbasta ou alisa uma tábua. É um homem de meia-idade, com uma calvície muito pronunciada. Não há nenhuma concessão à estética nem à sua dignidade de patriarca. Na parede, uma série de ferramentas do ofício. Três personagens – uma anciã, um jovem e um adolescente – despertam a nossa curiosidade. Quem são e o que representam? Surge a evocação de Isabel e do seu esposo Zacarias. Creio que não estão presentes na intenção do pintor, dada a diferença de idades.

A anciã, com um vestuário aldeão, ajuda ou tenta ajudar a ajustar a tábua com a colaboração do jovem, frente a José. Um adolescente, da mesma idade de Jesus, transporta um recipiente de água. Será João Baptista, a quem a iconografia renascentista gostava de representar unidos? A água poderia aludir ao baptismo de Jesus no Jordão? Será talvez uma criação pictórica da lei universal do trabalho imposta a toda a humanidade, aqui presente nas três etapas da vida?

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O quadro apresenta alguns símbolos. Uma porta aberta oferece luz e luminosidade à oficina; através dela vislumbra-se um rebanho de ovelhas, alusão ao Bom/Belo Pastor. Entre os arbustos floresce uma papoila, talvez uma alusão ao sangue derramado por Jesus. Na oficina não brincam cães nem gatos, mas observa-se uma pomba – referência ao Espírito Santo? – pousada sobre no degrau de um escadote.

Um crítico de arte dizia que na pintura alguns vêem o que não há, outros não vêem o que há, e não poucos vêem o que querem. Em todo o caso, Millais, sem o procurar, glosou com a magia da sua arte o prólogo de São João – “E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco” – com toda a sua radicalidade e sem acrescentos artificiais.

José Ignacio Rey, OCD
in Estudos Josefinos, Janeiro-Junho 2008 (123)

Trad. e adapt.: Rui Martins

© SNPC (trad.) | 10.07.2008

 

 

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