
Giotto em Pádua: Os frescos da Capela de Arena após o restauro de 2002
De 11 de Novembro a 11 de Fevereiro, a Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa («campus» de Caparica) recebe a exposição fotográfica dos frescos de Giotto da Capela dos Scrovegni de Pádua.
O projecto de construção desta capela surge em 1300, quando o rico mercador Enrico Scrovegni comprou, a Manfredo Delesmanini, as ruínas da antiga arena romana de Pádua, os edifícios anexos, o pomar e as vinhas. Tratava-se de uma pequena parcela de terreno sem qualquer igreja. Por esta razão, Enrico pede ao Bispo Ottobono de Razzi autorização para a sua construção. Em Março de 1303, Enrico Scrovegni inaugura a capela com uma cerimónia de consagração. Giotto foi convidado para pintar frescos no seu interior. A 25 de Março de 1305, os frescos estavam terminados e a capela foi novamente consagrada à Virgem da Anunciação.

O projecto de restauro «Save Giotto» (1985-2002)
Devido ao seu avançado estado de degradação, principalmente em consequência das alterações verificadas na atmosfera e no microclima internos da capela e à poluição, procedeu-se a uma grande operação de restauro entre 1985 e 2002 que ocupou os mais importantes institutos italianos de restauro de bens culturais. Na sequência do levantamento das condições em que se encontrava todo o edifício, foram recuperadas, para além dos frescos, toda a estrutura, janelas, pavimento e mobiliário. Do ponto de vista ambiental, a intervenção de maior impacto consubstanciou-se no fecho da porta principal, uma perigosa fonte de calor, que foi substituída por uma nova entrada lateral que funciona como filtro, evitando desequilíbrios térmicos e impedindo a entrada de substâncias nocivas à boa conservação dos frescos.

O sacrifício de Joaquim (det.)
A exposição
Esta exposição fotográfica pretende dar a conhecer a mais importante obra de Giotto de uma forma que, permite ao visitante ter a mesma emoção que a provocada pela visão dos frescos na própria capela. De todas as obras de Giotto, aquela que perdurou em melhores condições de ser apreciada, é sem dúvida este conjunto de frescos da Capela de Scrovegni em Pádua, considerado como o seu maior trabalho.

O sonho de Joaquim (det.)
A fama de Giotto é ainda reforçada pelo facto de ele ser considerado o introdutor do espaço tridimensional na pintura europeia. A nova concepção de espaço, apesar da profundidade ainda reduzida, ligadas ao equilíbrio da sua composição, conferem às pinturas de Giotto uma grande monumentalidade. Para obter esta profundidade Giotto utiliza figuras recortadas umas sobre as outras e joga com a cor. Giotto renuncia aos fundos dourados bizantinos e substitui-os por um azul profundo que atrai o homem para o infinito.

Adoração dos Magos (det.)
Outra característica importante do seu trabalho, e bem patente nos frescos da Capela de Scrovegni, é a identificação da aparência da figura dos santos como seres humanos de aparência comum. A sua semelhança com o mundo real causou grande assombro entre os seus contemporâneos. Giotto abandonou a rigidez bizantina e dotou as suas figuras de volume e sentimento, expressando assim, por meio da arte, o humanismo que São Francisco de Assis imprimiu à religião no início do século XIII. A cena da morte de Cristo, constante de um dos painéis desta capela, foi estudada por Miguel Ângelo e serviu de inspiração para a pintura da Capela Sistina.

Fuga para o Egipto (det.)
Giotto di Bondone - Biografia
Giotto di Bondone nasceu na localidade de Vespignano, perto de Florença, em 1266, 1267 ou 1276, e foi discípulo de Giovanni Cimabue, o maior pintor da Itália no fim do século XIII. Desenvolveu a sua actividade como pintor e como arquitecto. Apesar de tudo, poucas são as pinturas atribuídas a Giotto. As mais emblemáticas são, sem dúvida, os frescos da Capela de Scrovegni. Apesar de Giotto ter tido vários colaboradores e discípulos, não deixou seguidores à altura da sua obra. Taddeo Gaddi (1300-1366) é talvez quem lhe é mais próximo. A obra de Giotto deixa como marcas essenciais os esquemas de composição, temas e atitudes das personagens.

O massacre dos inocentes (det.)
Programação
No dia de inauguração será apresentada a palestra “Cor, luz e poesia numa obra cinematográfica do século XIV - Giotto em Pádua” pela Professora Doutora Bárbara Aniello (Investigadora do CESEM - Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova).

Bodas de Caná (det.)
Para Janeiro de 2009 está agendada a palestra sobre “Técnicas de pintura de frescos.
A exposição estará patente ao público de 11 de Novembro a 11 de Fevereiro de 2009, podendo ser visitada de 2.ª a 6.ª feira, das 9h00 às 20h00. A entrada é livre.

Pentecostes (det.)
Uma proposta de aproximação a três pinturas

Joaquim refugia-se no ermo
Este fresco talvez se devesse designar mais apropriadamente "Joaquim Desalentado». Joaquim, o futuro pai de Maria, dirigira-se ao Templo, onde o seu sacrifício foi recusado. Magoado e envergonhado (devido à ifnomínia de não ter filhos), não regressa a casa mas sim à solidão dos seus rebanhos. Avança devagar, mergulhado nos seus pensamentos; não vê nem o cão que o saúda alegremente nem os pastores á sua frente, cuja simpatia é manifesta. Os rochedos atrás formam um pano de fundo arquitectónico que completa o grupo e subtilmente parafraseia a composição. É criada uma sensação de espaço tridimensional pela profundidade e o arredondado das figuras e pelo escalonamento dos três homens. De facto, o sentido da profundidade espacial de Giotto é tal que o próprio halo de Joaquim é tratado em termos tridimensionais.

O encontro de Ana e Joaquim na Porta Dourada
Certo dia, enquanto andava pelos campos, Joaquim foi visitado por um anjo que lhe falou do futuro nascimento de sua filha Maria e do papel importante que ela teria na salvação da humanidade. Apareceu também um anjo a Ana, mulher de Joaquim, em Jerusalém. joaquim regressou imediatamente à cidade. Vemos aqui marido e mulher juntos na Porta Dourada, onde se saúdam cheios de alegria.
Em contraste com o fresco anterior, em que Giotto dá expressão à tristeza de Joaquim através de um pequeno número de figuras calmas e isoladas, esta cena é apresentada como uma procissão festiva. O velho Joaquim, caminhando num passo mais vagaroso, detém-se no lado esquerdo da composição, sendo o seu acompanhante cortado pela margem. O espectador é, deste modo, habilmente informado de que ambos foram apanhados em andamento. Ana, por seu turno, já tinha transposto a porta, seguida por quatro mulheres. Giotto transfere este grupo feminino para a vida contemporânea. Para impedir que as suas expressões de alegria se confundam com a melancolia, e para sublinhar a cesura entre Ana e as suas companheiras, introduz uma mulher envolta numa capa negra como que para mostrar que mesmo uma ocasião de celebração contém um elemento de futura tristeza.

Lamentação pela morte de Cristo
As figuras e as narrativas caracterizam-se por um reduzido grau de animação, o que significa que a margem de intensificação da sua expressividade é proporcionalmente grande. As mais vigorosas explosões de sentimentos de todo o ciclo são aqui ilustradas pelas figuras da Lamentação. Não são captadas, porém, numa única vaga de dor; em vez disso, cada personagem transmite um conjunto de emoções distintas. No primeiro plano, vemos duas mulheres sentadas, entorpecidas e hirtas como blocos de pedra. Ao ocultarem parte do corpo de Cristo, concentram a atenção do espectador no grupo central formado pela mãe e o filho. Serena na sua angústia, Maria abraça o corpo de Cristo numa despedida. Maria Madalena, aos pés de Cristo, inclina a cabeça em silenciosa mágoa. A mulher ao meio, num motivo terno e original, levanta o braço de Cristo como que para o ajudar a levantar-se, mas desiste da sua tentativa ao ver as suas chagas. João, numa atitude de desespero, atira os braços para trás, num gesto idêntico ao dos anjos no céu. De acordo com a sua idade mais avançada, josé de Arimateia e Nicodemos, à direita, reagem de maneira mais contida, ainda que personalizada. A própria natureza é representada de luto. A árvore á direita está morta e a paisagem é desolada. De particular eficácia é a decisão de Giotto de situar o principal ponto focal da cena em anixo, no canto esquerdo, e desenhar a paisagem que serve de pano de fundo numa diagonal em relação á cabeça de Cristo.
Análise das pinturas: in Obras-primas da pintura ocidental, Taschen
07.11.2008
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