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Um amor mais forte que a morte

Um amor mais forte que a morte

Imagem Ressurreição de Lázaro | Van Gogh | 1890 | Rijksmuseum, Amesterdão, Holanda

A Páscoa aproxima-se e a Igreja convida-nos a meditar no grande sinal da ressurreição de Lázaro, profecia da ressurreição de Jesus (João 11, 1-45). Lázaro, precisamente, irmão de Maria e de Marta, estava doente. Jesus gostava muito destes amigos, que frequentava nos períodos de paragem em Jerusalém. Na casa de Betânia podia usufruir do acolhimento cuidadoso de Maria, da escuta atenta de Maria e do afeto fiel de Lázaro.

As irmãs mandam avisá-lo da doença de Lázaro, mas Ele está longe. Como pode Jesus permitir que um seu amigo adoeça, sofra e morra? Que sentido tem? São perguntas que emergem dentro da rede de amizade de Jesus, mas que ainda hoje ressoam quando nas nossas relações surgem a doença e a morte; é a hora em que a nossa fé e o nosso sermos amados por Jesus parecem ser desmentidos pelos sofrimentos da vida...

Jesus, informado, diz: «Essa doença não levará à morte, mas é para a glória de Deus, a fim de que por meio dela o Filho de Deus seja glorificado», ou seja, é uma ocasião para que se manifeste o peso que Deus tem na história e assim se manifeste a glória do Filho, glória do amar até ao fim. As suas palavras parecem contradizer a evidência: na doença a morte destaca-se sempre no horizonte com a sua sombra ameaçadora, mas Jesus revela que a doença daquele que Ele ama não significará a vitória da morte sobre ele.

E assim - detalhe à primeira vista desconcertante - Jesus fica ainda dois dias para lá do Jordão. Só ao terceiro dia (alusão à sua ressurreição) anuncia a sua vontade de ir à Judeia. Os discípulos não compreendem: «Rabi, há pouco tempo os judeus procuravam lapidar-te e tu vais lá de novo?». Em resposta Jesus expõe-lhes uma similitude de significado evidente: Ele está intimamente convencido que deve viver e trabalhar como o Pai lhe pediu, e sabe que o deve fazer no pouco tempo que lhe resta, antes que chegue a hora das trevas, quando não poderá mais agir.



Aqui somos chamados a deter-nos nos humaníssimos sentimentos vividos por Jesus. Antes de tudo Ele comove-se, vibra interiormente. Diante da morte de um amigo, de uma pessoa por Ele amada, a primeira reação é o frémito que nasce do constatar a injustiça da morte: como pode morrer o amor?



«Lázaro, o nosso amigo», continua Jesus, «adormeceu; mas Eu vou despertá-lo». Diante do enésimo mal-entendido da sua comunidade («pensavam que falava do repouso do sono»), Jesus declara abertamente: «Lázaro está morto e eu estou contente por vós de não ter estado lá, a fim de que creiais; mas vamos até ele!». O único a reagir, de maneira impulsiva, talvez até provocatória, é Tomé: «Vamos nós também para morrer com Ele». Para lá das suas próprias intenções, ele afirma uma verdade profunda: seguir Jesus significa estar onde Ele está, e se Ele vai para a morte - como ficará claro no fim do capítulo -, o mesmo tocará aos discípulos.

Jesus chega com os seus discípulos a Betânia quando «Lázaro já está há quatro dias no sepulcro». Sabendo da sua chegada, Marta vai ao seu encontro e dirige-lhe palavras que são ao mesmo tempo uma confissão de fé e uma censura: «Senhor, se tu estivesses estado aqui, o meu irmão não estaria morto». Depois acrescenta: «Mas sei que, mesmo agora, o que queres que peças a Deus, Ele ta concederá». Marta é uma mulher de fé e confessa que onde está Jesus não pode reinar a morte, que a morte de Lazaro aconteceu porque Jesus estava longe. Ela crê em Jesus e, solicitada por Ele, confessa a própria fé na ressurreição final da carne. Mas Jesus convida-a a dar um passo posterior: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá; quem vive e acredita em mim, não morrerá eternamente». E Marta replica prontamente: «Sim, ò Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele vem ao mundo».

Também Maria, chamada pela irmã, corre ao encontro de Jesus e, lançando-se aos seus pés, exclama por seu turno: «Senhor, se Tu estivesses estado aqui, o meu irmão não estaria morto!». O tom torna-se mais afetivo, Maria exprime com as lágrimas a sua dor. Ela ama Jesus e sabe-se por Ele amada, mostra-se pronta a encontrá-lo e ajoelha-se diante dele, mas não dá sinais de uma fé que possa vencer o seu sofrimento: é inteiramente definida pela sua inconsolável dor. As suas lágrimas são contagiosas: choram os judeus presentes e chora o próprio Jesus.



No duelo entre vida e morte, entre amor e morte, vence a vida, vence o amor vivido por Jesus. Jesus é a vida, é o amor que arranca à morte as suas ovelhas, que não se perderão; se Jesus ama e tem como amigo quem acredita nele, não permitirá a ninguém, nem sequer à morte, que o rapte da sua mão!



Aqui somos chamados a deter-nos nos humaníssimos sentimentos vividos por Jesus. Antes de tudo Ele comove-se, vibra interiormente. Diante da morte de um amigo, de uma pessoa por Ele amada, a primeira reação é o frémito que nasce do constatar a injustiça da morte: como pode morrer o amor? Porque é que a morte quebra o amor, a relação? Depois Jesus perturba-se: o frémito de indignação torna-se perturbação, experiência do sentir-se ferido e do sentir dor e angústia. Jesus experimenta esta reação emotiva inclusive perante a perspetiva da sua morte iminente e quando na Última Ceia anuncia aos seus a traição de Judas. À vista do sepulcro, explode em pranto, reação que os presentes leem como o sinal decisivo do seu grande amor por Lázaro.

Chegamos aqui ao verdadeiro vértice da narrativa: o encontro entre Jesus e Lázaro. Jesus, ainda com o espírito fremente, dirige-se à tumba e vê a pedra que encerra o sepulcro: aquele que é a vida começa um duelo, uma luta contra a morte. O texto abre uma passagem para a relação de profunda intimidade entre Jesus e Deus: «Pai, dou-te graças por me teres escutado. Eu sabia que me escutas sempre», assim como o próprio Jesus escuta sempre o Pai. É a única vez que ora antes de realizar um sinal, mas a sua é uma oração de agradecimento ao Pai, a Ele que é o fim da oração: Jesus deseja que os presentes acreditem que Ele é o Enviado de Deus, e portanto um sinal que remete para a realidade última, para a fonte de todo o bem, o Pai.

A resposta de Deus chega imediata, percetível na palavra eficaz de Jesus, que realiza o que diz: «Lázaro, vem para fora!». Jesus tinha anunciado «a hora em que aqueles que estão nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus e deles sairão». Eis uma antecipação: Lázaro, morto e sepultado, sai da tumba ainda envolvido em faixas e com a sua ressurreição profetiza a ressurreição de Jesus. Não só, mas a ressurreição de Lázaro, «aquele que Deus ama», manifesta a razão profunda pela qual o Pai chamará Jesus dos mortos para a vida eterna: no duelo entre vida e morte, entre amor e morte, vence a vida, vence o amor vivido por Jesus. Jesus é a vida, é o amor que arranca à morte as suas ovelhas, que não se perderão; se Jesus ama e tem como amigo quem acredita nele, não permitirá a ninguém, nem sequer à morte, que o rapte da sua mão!



Não só, como se lê no termo do Cântico dos Cânticos, «o amor é forte como a morte», mas o amor vivido e ensinado por Jesus é mais forte do que a morte, é profecia e antecipação para todos os amigos do Senhor, destinados à ressurreição



Realizado o sinal, a sua leitura e interpretação cabe a quantos o viram. «Muitos dos judeus acreditaram nele». A fé não consente escapar à morte física: todos os seres humanos têm de passar através dela, mas em verdade para quem adere a Jesus, a morte já não é a última e definitiva realidade. Quem acredita em Jesus e está envolvido na sua amizade, vive para sempre e traz em si a vitória sobre a doença e sobre a morte. Não só, como se lê no termo do Cântico dos Cânticos, «o amor é forte como a morte», mas o amor vivido e ensinado por Jesus é mais forte do que a morte, é profecia e antecipação para todos os amigos do Senhor, destinados à ressurreição. Esta é a glória de Jesus, glória do amor, ainda que na aparência Ele pareça derrotado: em troca deste gesto, com efeito, recebe uma sentença de morte das autoridades religiosas, pela boca de Caifás. Dar a vida a Lázaro custou a Jesus a própria vida: é o que acontece na verdadeira amizade, aquela vivida por Jesus, que deu a própria vida pelos amigos.

O amor, a amizade de Jesus, por isso, vence a morte. Se somos capazes de colocar a nossa fé-confiança nele, esta página revela-nos que não estamos sós e que mesmo na morte Ele estará junto a nós para nos abraçar na hora em que atravessarmos aquele umbral obscuro e para nos chamar definitivamente à vida com o seu amor. Eis o dom extremo feito por Jesus a quantos se deixam implicar pela sua vida: a morte não tem a última palavra e aquele que adere a Ele, o ama e por Ele se deixa amar, não morrerá eternamente. Canta Gregório de Nazianzo: «Senhor Jesus, na tua Palavra três mortos viram a luz: a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim e Lázaro saído do sepulcro à tua voz. Faz com que eu seja o quarto!».



 

Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose"
Trad.: SNPC
Publicado em 02.04.2017

 

 
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