Se eu não tiver amor, não sou nada
"A Missão" (Roland Joffé, 1986)
1
Olho a oriente
com os pés no ocidente.
Que palavra leve!
2
Trepa a primavera
pelo perfume lilás
a cobrir o muro.
3
Desperta a noite;
o orvalho enche a manhã.
Um cheiro a saudade.
4
Hera pelo muro
rastejando palmo a palmo –
o verde e o viço.
5
Ao abrir do sol,
se espreguiça o amarelo
pelas maravilhas.
6
Na outra colina,
do lado de lá do ver,
é que os sonhos pastam.
Luísa Freire
In O tempo de perfil, ed. Assírio & Alvim
Viver de Amor
Nessa noite de Amor _ abrindo abertamente teu coração.
Disseste _ Se alguém me quer amar _
Com toda a sua Vida _ Que guarde a Promessa
Eu e meu Pai procurá-lo-emos _ está dito _
E do seu coração faremos uma morada _ a nossa
Onde o amaremos com toda a nossa Vida,
Com a paz que preside à Criação_ queremos _
Que viva no nosso Amor.
Nessa noite, eu soube que viver de Amor _ é_
Guardar-te _ Promessa incriada _ da Mudez Inicial.
Ah!, sabe-lo bem, meu Esposo _ como eu te amo _
O fogo abrasa-me _ Toda eu imersa no seu Espírito,
Amando-te _ a ti e ao Pai que está contigo _ Meu
Amor não libertará _ oh!, não _ da Promessa
A Trindade _ presa e prisioneira _
Do meu coração de Pobre.
Viver de amor? _ Viver-Te a vida
De gloriosa majestade e delícia dos eleitos? _
Por mim _ basta que vivas escondido
Onde eu _ por Ti possa _ escondida, estar contigo
A sós _ como amantes sedentos de solidão _
Um face a face que dure a noite _ que dure o dia.
Um teu olhar _ é quanto basta
Para tornar feliz o amor.
Viver de amor? Não é certamente viver
No alto do Tabor, contemplando-se mutuamente _
Contigo Jesus _ amar é levar-te à cruz,
Ver-me a teu lado _ e sentir-me tesouro _
No teu jardim, poderei _ um dia _ ter-te
Quando a prova _ por inteiro, tiver passado_
No exílio, no entanto _ quero viver a dor
De te amar _ de amor.
Viver de amor? É dar _ e não ter -
Medida que compare o quanto se deu
Sem medir - como calcular o Amor?
Se amor não mede _ a medida que perdeu.
Ao teu coração transbordante de ternura,
Dei todo o divino _ e meu não era _ Corro leve _
Conto apenas com a riqueza que me deste _
O amor que me dá vida.
Viver de amor? É não ter medo _ E o pavor
Do mal que se fez? _ O amor apaga
O rasto das sombras cometidas _ Num ápice,
Faz delas labaredas _ consumidas
Chamas _ ó chama divina, ó doce fornalha _
No teu foco ardente _ coloco a minha vida _
É nesse fogo _ ardente que canto sem temor
«Amar não temo.»
Viver de amor? É ser no tempo _
O cálice mortal de uma bebida rara.
Meu Bem-Amado _ como pode meu cristal
Imperfeito _ igualar o timbre e o sabor angélicos?
Mas se me quebro _ em cada hora que passa _
Tu vens, de novo _ reunir meus estilhaços,
A cada instante _ tornar mais rara
A bebida inebriante de amar.
Viver de amor? É abrir nos corações _
Uma rota certeira e leve _ constantemente _
Piloto amado _ o Amor é um fogo urgente _
Que me chama _ nas almas minhas irmãs _
Sê minha estrela polar _ a única estrela a brilhar
A claridade _ de uma rota que se não perca _
Nem desminta _ a divisa da minha vela
«Viver de amor.»
Viver de amor? É esperar que acordes
Quando dormes _ sobre as vagas alterosas
Do Tiberíades _ Descansa _ Eu não te incomodo _
Espero, confiada, a hora das margens _
A Fé, muito em breve, porá fim à tempestade _
Espero ver-te, face a face _ ao tocar o cais _
O Amor ardente urge e enche as velas, Não te acordarei, Amor.
Viver de amor? Ó meu divino Mestre _
É suplicar-te que incendeies _ as almas
Santas e sagradas de teus Padres _ cristalinas _
Mais ainda _ que as almas celestes de teus anjos.
Glorifica _ peço-te _ a tua Igreja imortal.
Ouve os meus suspiros _ Não te faças surdo _
Eu _ filha dessa Igreja _ imolo-me por ela,
Vivendo de amor.
Viver de amor? É enxugar-te o rosto.
E apagues _ perdoando _ as faltas dos pecadores _
Ó Deus de Amor _ que voltem à tua graça _
Que da sua boca surja _ a bênção do teu Nome.
Quando no meu coração _ no seu âmago _ ressoa
A blasfémia _ eu não canto? _ não tento abafar-lhe o eco?
Não canto teu SacroNome? _ Eu o adoro _ eu o amo _
Para viver de amor.
Viver de amor? É fazer como Maria
A teus pés _ Lembras-te? _ Pegou em lágrimas
E perfumes _ cobriu-os de beijos e perfumes
Apaixonados _ Limpa-te os pés com seus cabelos _
Ergue-se _ quebra o vaso _ derrama-te
Sobre o rosto _ o doce rasto do perfume.
Que farei eu? Perguntas? _ Cubro-te a Face,
Meu amor _ é perfume.
Viver de amor? «Que doença estranha
É essa?!» _ me diz o mundo _ «Não cantes _
Não percas teu perfume _ não dês a vida _
Usa utilmente a vida, a voz e o perfume!»
Eu digo _ não há perca mais profunda _ do que amar-Te
Em tudo _ os meus perfumes que te dei _ são teus _
Não voltes a dar-mos _ E a minha voz? _ Eu a canto
Para Ti _ com o amor da vida.
E morrer de amor? Haverá martírio mais doce?
Se houver _ é esse que quero padecer _
Escutai-me, Querubins _ preparai
Vossos instrumentos _ sinto que vou morrer _
Chama de amor, ouvis-me? _ Consome-me
Sem tréguas _ Vida de um instante _
Como és pesada _ Jesus, ouve o meu pedido,
O sonho de _ morrer de amor.
Morrer de amor é deveras o que espero
Ver _ quebrarem-se todos os meus laços
Outros bens _ não quero ter _ apenas MeuAmado
A grande recompensa _ de vê-los quebrar-se
Pelo teu Amor _ quero ser incendiada.
Vê-lo face a face _ unir o meu rosto ao dEle
Nas chamas _ de um céu _ na única conjectura
Onde viver e amar são o mesmo laço.
Santa Teresa do Menino Jesus
Trad: Maria Gabriela Llansol
Quaresma pode até ser um nome complicado
mas a sua motivação é actual e grandiosa:
favorecer o encontro do Homem
com as raízes profundas do seu ser,
tornar-nos melhores
e lembrados do que é importante.
Os dias trazem nas suas redes
preciosos peixes vermelhos e azuis,
mas também lixo, coisas supérfluas
que só atravancam,
por isso os pescadores perdem tempo a escolher
com cuidado.
Quaresma é voltar a ganhar o espaço das escolhas
neste tempo consumista de falsas imposições.
Quaresma é dizer sim,
com maior entusiasmo ainda,
à liberdade de afirmar o essencial:
fé, justiça, reconciliação, solidariedade e alegria.
É que podemos somar muitos anos
sem nunca ter realmente vivido
e achar que fazemos grandes coisas
sem nos perguntarmos: «para que servem?»
Vivo sem viver em mim
Vivo sem viver em mim,
E tão alta vida espero,
Que morro porque não morro.
Vivo já fora de mim,
Depois que morro de amor;
Porque vivo no Senhor,
Que me quis para Si:
Quando o coração lhe dei
Pus nele este letreiro,
Que morro porque não morro.
Esta divina prisão,
Do amor em que eu vivo,
Fez de Deus meu cativo,
E livre meu coração;
E causa em mim tal paixão
Ver a Deus meu prisioneiro,
Que morro porque não morro.
Ah, que larga é esta vida!
Que duros estes desterros,
Este cárcere, estes ferros
Em que a alma está medita!
Só esperar a saída
Causa-me dor tão fera,
Que morro porque não morro.
Ah, que vida tão amarga
onde se não goza do Senhor!
Porque se é doce o amor,
Não o é a esperança larga:
Tire-me Deus esta carga,
Mais pesada que o metal,
Que porque porque não morro.
Só com a confiança
Vivo do que hei-de morrer,
Porque morrendo o viver
Me a esperança assegurança;
Morte dond’o viver se alcança,
Não te tarde, que te espero,
Que morro porque não morro.
Olha que o amor é forte;
Vida, não me sejas molesta,
Olha que só me resta,
Para ganhar-te, perder-te.
Venha já a doce morte,
O morrer venha ligeira
Que morro porque não morro.
Aquela vida de arriba,
Que é a vida verdadeira,
Até que esta vida morra,
Não se goza estando viva:
Morte, não me sejas esquiva;
Viva morrendo primeiro,
Que morro porque não morro.
Vida, que posso eu dar
Ao meu Deus que vive em mim,
Se não o perder-te a ti,
Para merecer ganhá-l’O?
Quero morrendo alcança-l’O,
Pois tanto a meu Amado quero,
Que morro porque não morro.
Fevereiro
ou
Os meses não se medem aos palmos.
Escarnecem de mim os outros meses:
chamam-me minorca
por ser o mais pequeno.
Mas qual deles é capaz como eu
de se acrescentar um dia
a cada quatro anos?
Está nisto a minha grandeza:
ter assomos, fazer a diferença,
construir anos bissextos.
A.M. Pires Cabral
Quarta-feira de Cinzas
I
Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto
Não mais me empenho no .empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?
Porque não mais espero conhecer
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma
Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar
E rogo a Deus que de nós se compadeça
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que foi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós
Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.
II
Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro
Ao frescor do dia repousavam, saciados
De meus braços meu coração meu fígado e do que havia
Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:
Viverão tais ossos? Tais ossos
Viverão? E o que pulsara outrora
Nos ossos (secos agora) disse num cicio:
~raças à bondade desta Dama
E à sua beleza, e porque ela
A meditar venera a Virgem,
É que em fulgor resplandecemos. E eu que estou aqui
dissimulado
Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro meu amor
Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.
Isto é o que preserva
Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas
Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se
De branco vestida, orando, de branco vestida.
Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.
A vida os excluiu. Como esquecido fui
E preferi que o fosse, também quero esquecer
Assim contrito, absorto em devoção. E disse Deus:
Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois somente
O vento escutará. E os ossos cantaram em uníssono
Com o estribilho dos grilos, sussurrando:
Senhora dos silêncios
Serena e aflita
Lacerada e indivisa
Rosa da memória
Rosa do oblívio
Exânime e instigante
Atormentada tranqüila
A única Rosa em que
Consiste agora o jardim
Onde todo amor termina
Extinto o tormento
Do amor insatisfeito
Da aflição maior ainda
Do amor já satisfeito
Fim da infinita
jornada sem termo
Conclusão de tudo
O que não finda
Fala sem palavra
E palavra sem fala
Louvemos a Mãe
Pelo Jardim
Onde todo amor termina.
Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e alvadios,
Alegramo-nos de estar aqui dispersos,
Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,
Sob uma árvore ao frescor do ~a, com a bênção das areias,
Esquecendo uns aos outros e a nós próprios, reunidos
Na quietude do deserto. Eis a terra
Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou comunhão
Não importam. Eis a terra. Nossa herança.
III
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.
Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.
Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.
Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno
mas dizei somente uma palavra.
IV
Quem caminhou entre o violeta e o violeta
Quem caminhou por entre
Os vários renques de verdes diferentes
De azul e branco, as cores de Maria,
Falando sobre coisas triviais
Na ignorância e no saber da dor eterna
Quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou
Quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras
Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias
De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,
Sovegna vos
Eis os anos que permeiam, arrebatando
Flautas e violinos, restituindo
Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta
Nas brancas dobras de luz que em torno dela se embainham.
Os novos anos se avizinham, revivendo
Através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os anos,
resgatando
Com um verso novo antigas rimas. Redimem
O tempo, redimem
A indecifrada visão do sonho mais sublime
Enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro conduzem.
A irmã silenciosa em véus brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma
Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou
Redimem o tempo, redimem o sonho
O indício da palavra inaudita, inexpressa
Até que o vento, sacudindo o teixo,
Acorde um coro de murmúrios
E depois disto nosso exílio
V
Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.
Ó meu povo, que te fiz eu.
Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido
Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam
Ó meu povo, que te fiz eu.
Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.
Ó meu povo.
VI
Conquanto não espere mais voltar
Conquanto não espere
Conquanto não espere voltar
Flutuando entre o lucro e o prejuízo
Neste breve trânsito em que os sonhos se entrecruzam
No crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o nascimento e a
morte
(Abençoai-me pai) conquanto agora
Já não deseje mais tais coisas desejar
Da janela debruçada sobre a margem de granito
Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao largo
Invioladas asas
E o perdido coração enrija e rejubila-se
No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar
E o quebradiço espírito se anima em rebeldia
Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia
Anima-se a reconquistar
O grito da codorniz e o corrupio da pildra
E o olho cego então concebe
Formas vazias entre as partas de marfim
E a maresia reaviva o odor salgado das areias
Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte
O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam
Entre rochas azuis
Mas quando as vozes do instigado teixo emudecerem
Que outro teixo sacudido seja e possa responder.
Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do jardim,
Não permiti que entre calúnias a nós próprios enganemos
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego
Mesmo entre estas rochas,
Nossa paz em Sua vontade
E mesmo entre estas rochas
Mãe, irmã
E espírito do rio, espírito do mar,
Não permiti que separado eu seja
E que meu grito chegue a Ti.
T.S.Eliot
Tradução de Ivan Junqueira, do original “Collected Poems 1909-1962”, para a Editora Nova Fronteira em 1981

Texto: José Tolentino Mendonça
Música: "Starry Starry Night", interpretada por Don McLean
Fernando Pessoa escrevia: «A espantosa realidade das coisas/ é a minha descoberta de todos os dias». É isso que peço, Senhor. Não nos deixes no embaraço baço da superfície; nos olhares e nos juízos que roçam apenas a periferia, que descrevem o exterior, mas nada sabem do gume. Dá-nos o saber de reparar a fundo, de escutar o indizível segredo que torna todos e tudo espelho do Teu assombro. Impele-nos à descoberta de um real que nos é tão próximo, mas afinal desconhecido. Que o nosso coração esteja vigilante para acolher o modo surpreendente como Tu, ó Deus, sempre Te revelas! Hoje. Agora.
José Tolentino Mendonça
Não nos podemos acomodar com a divisão dos cristãos, e somos legitimamente impacientes até que chegue finalmente o dia de nossa reconciliação. Contudo, estamos conscientes de que o diálogo ecuménico não é vivido em todos os lugares com o mesmo ritmo. Alguns avançam a grandes passos, outros são mais tímidos. Como Paulo nos exorta, devemos saber ser pacientes para com todos.
...
Por vezes, é para com Deus mesmo que nos mostramos impacientes. Como o povo no deserto, também nós gritamos a Deus: porquê toda esta caminhada penosa? Guardemos, pois, a confiança: Deus responde às nossas orações, à sua maneira, no tempo oportuno. Ele saberá suscitar novas iniciativas para a reconciliação dos cristãos, de acordo com as necessidades do nosso tempo.
Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos
Dias realmente úteis
Às vezes, demasiadas vezes,
a vida assemelha-se a uma repartição cinzenta,
onde os horários se cumprem sem empenho.
Estamos, mas fazemos sem compromisso íntimo.
Falamos e fazemos,
mas sentindo o nosso interesse noutro lado.
Vivemos, claro, mas com o coração distante.
Como é necessário tornar realmente úteis
os dias úteis!
Úteis não apenas por imposição do calendário.
Úteis, porque vividos com generosidade e sentido.
Úteis, porque não os atropelamos
na voragem das solicitações,
na dispersão das coisas,
mas sabemos (ou melhor, ousamos) fazer deles
lugar de criação e descoberta,
tempo de labor e de escuta,
modo de acção e de contemplação.
É preciso acolher o “inútil”
se quisermos chegar ao verdadeiramente útil.













