Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
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pastoral da cultura
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Umbrais

  17/9/2016  

Era estrangeiro e acolhestes-me

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«Tragicamente, no mundo há hoje mais de 65 milhões de pessoas que foram obrigadas a abandonar os seus locais de residência. Este número sem precedentes vai além de toda a imaginação. (...)
Se formos além da mera estatística, descobriremos que os refugiados são mulheres e homens, rapazes e raparigas que não são diferentes dos membros das nossas famílias e dos nossos amigos. Cada um deles tem um nome, um rosto e uma história, como o inalienável direito de viver em paz e de aspirar a um futuro melhor para os seus filhos. (...)
Encorajo-vos (...) a dar as boas-vindas aos refugiados nas vossas casas e comunidades, de maneira que a sua primeira experiência da Europa não seja a traumática de dormir ao frio nas estradas, mas a de um acolhimento quente e humano.
Recordai-vos que a autêntica hospitalidade é um profundo valor evangélico, que alimenta o amor e é a nossa maior segurança contra os odiosos atos de terrorismo. (...) Vós sois olhos, boca, mãos e coração de Deus neste mundo. (...)
Recordai-vos igualmente das palavras de Jesus: "Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era estrangeiro e acolhestes-me". Levai estas palavras e os gestos convosco, hoje. Que possam servir de encorajamento e de consolação.»

 

Papa Francisco
17.9.2016
Imagem: D.R.

 

 

  29/4/2016  

Hoje é Dia Mundial da Dança

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«Maria, a profetisa, irmã de Aarão, tomou nas mãos uma pandeireta, e todas as mulheres saíram atrás dela com pandeiretas, a dançar» (Êxodo 15, 20).
«Quando Jefté regressou a sua casa em Mispá, eis que sua filha saiu para o vitoriar, dançando e tocando tamborim» (Juízes 11, 34)
«Ao regressar o exército, depois de David ter morto o filisteu, de todas as cidades de Israel as mulheres saíram ao encontro de Saul, cantando e dançando alegremente, ao som de tambores e címbalos» (1 Samuel 18, 6).
«David e toda a casa de Israel dançavam diante do Senhor, ao som de toda a espécie de instrumentos: harpas, cítaras, tamborins, sistros e címbalos» (2 Samuel 6, 5).
«Hei-de reconstruir-te, e serás restaurada, ó donzela de Israel! Ainda te hás-de adornar dos teus tamborins e participar em alegres danças» (Jeremias 31, 4).
«O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa, como nos dias de festa» (Sofonias 3, 17).
«A quem, pois, compararei os homens desta geração? A quem são semelhantes? Assemelham-se a crianças que, sentadas na praça, se interpelam umas às outras, dizendo: "Tocámos flauta para vós, e não dançastes!"» (Lucas 7, 32).

 

 

 

  27/2/2016  

Dez perguntas para a Quaresma

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Que procurais? (cf. João 1,38).
Porque tendes medo, ainda não tendes fé? (cf. Marcos 4,40).
Vós sois o sal da Terra. Mas se o sal pede sabor, com que se há de salgar? (cf. Mateus 5,13).
E vós, quem dizeis que Eu sou? (cf. Lucas 9,20).
Voltando-se para a mulher, disse a Simão: vês esta mulher? (cf. Lucas 7,44).
Jesus perguntou aos discípulos: quantos pães tendes? (cf. Marcos 6,38).
Então Jesus levantou-se e disse-lhe: mulher, onde estão? Ninguém te condenou? (cf. João 8,10).
Mulher, porque choras? Quem procuras? (cf. João 20,15).
Simão, filho de João, amas-me? (cf. João 21,16).
Maria disse ao anjo: como acontecerá isso? (cf. Lucas 1,34).

 

Perguntas para os Exercícios Espirituais do papa Francisco, 2016
Imagem: Desert rain (det.) | Agnes Martin | 1957 | D.R.

 

 

  9/12/2015  

Iluminando a nossa casa comum: Fotografia e ecologia dão rosto inédito à basílica de S. Pedro

 

"Fiat Lux: Illuminating Our Common Home"
Basílica de S. Pedro, Vaticano, 8.12.2015

 

 

  21/11/2015  

O espiritual no desenho: Turim

 

 

Projeto "O espiritual no desenho": Mário Linhares
Imagem e edição: Patrícia Pedrosa

 

 

  1/11/2015  

felizes

 

felizes os pacíficos, que suspendem a violência
e reparam as redes de logradas fainas
(ai a guerra, mãe da pobreza e irmã da morte)

felizes os que aos olhos do mundo
passam por inútil carga social ou rendimento zero
e que escondidamente participam da alegria
que aligeira a vida
(ai aqueles que a sede de poder afoga)

felizes os pobres de alguma pobreza boa
felizes os que lavam as feridas e vivem com os cegos
honrando neles o fundo de humanidade
que lhes é comum

felizes os que nas situações-limite
decidem da singularidade do fazer, da urgência
felizes os que, excluídos, despojados de qualquer imagem
no documento mortal pregado na cruz
inscrevem os seus corpos

felizes os que, intacta, guardam a sensibilidade
à injustiça, apegados só à força da Palavra que cura

felizes os que não pactuam com os anjos
escuros da morte total
nem desculpam os «erros humanos»
das nossas sociedades sem olhos
(ai os que no inferno climatizado sobrevivem
ai o terror mole do dia a dia sobre os ombros)

felizes os que, à imagem de Deus, perdoam
alargando o coração às dimensões de um mundo abençoado

 

José Augusto Mourão
In "O nome e a forma", ed. Pedra Angular

 

 

  29/9/2015  

"Lamentationes", de João Lourenço Rebelo (1610-1665)

 

Capella Duriensis; Jonathan Ayerst, dir.
Vídeo: Alexandre Cabrita

 

 

  9/1/2015  

Depois de Paris

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Esta noite a angústia

não quis encontrar o sono

Toda a noite perguntei

como

Como levar paz onde há guerra

como levar concórdia

onde há cólera

sete de janeiro em Paris

diz-nos é impossível

para o amor não há lugar

tudo é ódio

Sempre acreditei

que ser muçulmano

é ser bom crente

que ser judeu é um privilégio

que o cristianismo é Cristo que se repete

de geração em geração dizendo

sede irmãos

Sempre acreditei

que quem não tem fé

não é um ateu

mas alguém à espera de testemunho

Sempre acreditei

que a paz é o caminho da vida

Não sou um iludido

nem mesmo hoje quando o mundo

grita vingança

 

Conversão é abertura

se não existe

o mundo é crime

é terrorismo

é lei do mais forte

 

«Onde há ódio, que eu leve o amor»

mas como

se estou paralisado

mudo

Ensina-me Senhor

um caminho novo

para falar de paz

para dizer de coração

somos irmãos

Confio-te Senhor

o meu medo

Tu que os paralíticos

fazes andar

os mudos falar


Ernesto Olivero
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins

 

 

  21/12/2014  

Para dizer junto à manjedoura

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Que teus olhos, Menino, ensinem largueza
e altura aos meus olhos

Que teus olhos curem os meus
da fadiga e dos seus filtros

Que teus olhos desimpeçam a visão
fragmentária, parcial e indecisa

Que teus olhos devolvam aos meus olhos
o vento azul da viagem e a sua alegria
Devolvam o real como anel aberto
em vez dos círculos obsidiantes e fechados
Devolvam o aberto como imagem
e programa

Que teus olhos, Menino, ensinem aos meus
o seu natal


José Tolentino Mendonça
Imagem: Rui Aleixo
Capela do Rato, Lisboa

 

 

  19/12/2014  

O presépio e a árvore de Natal para crentes e não crentes

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«O presépio e a árvore [de Natal] tocam o coração de todos, inclusive daqueles que não acreditam, porque falam de fraternidade, de intimidade e de amizade, chamando os homens do nosso tempo a redescobrir a beleza da simplicidade, da partilha e da solidariedade. São um convite à unidade, à concórdia e à paz; um convite a dar lugar, na nossa vida pessoal e social, a Deus, o qual não vem com arrogância para impor o seu poder, mas oferece-nos o seu amor omnipotente através da frágil figura de uma criança.»


Papa Francisco
19.12.2014
Imagem: D.R.

 

 

  14/12/2014  

Conselhos de José para o nosso Advento

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Volta a olhar o tempo com inocência
como uma tarefa que as crianças
sabem melhor do que tu

Aprende a buscar a sabedoria
como quem constrói uma ponte
quando seria mais fácil a distância

Aprende a elogiar a vida
que é sempre a oportunidade mais bela
em vez de a diminuíres com dedsânimos e lamúrias

Aprende a agradecer o amor
que te esvazia as mãos
e ao mesmo tempo as deixa iluminadas

Acende no centro de ti uma prece
mesmo se o lume que trazes
te parece anmeaçado ou imperfeito


José Tolentino Mendonça
Imagem: Rui Aleixo
Capela do Rato, Lisboa

 

 

  12/12/2014  

Deus connosco

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Deus connosco, a inteira humanidade surpreendes
porque não existes na omnipotência do tirano,
mas na promessa de um nascimento que vem.
Acompanha-nos no nosso caminho para o amor,
e assim tua presença no outro perceberemos.

Deus connosco, Tu ergues a justiça e a paz,
apesar da guerra, da intolerância, do ódio.
Ensina-nos a acolher-te sem te manipular,
a construir contigo um mundo mais fraterno,
e assim nossos desertos em pomares se mudarão.

Deus connosco, Tu respondes à nossa esperança
quando connosco partilhas a tua sede de libertação.
Grava nas nossas almas a fome da tua salvação,
para que, com Maria, saboreemos a alegria
de um dia estarmos todos reunidos no teu Reino.

Deus connosco, todos os dias nos vens salvar
pelo desarmado amor do menino de Belém.
Sê a nossa estrela na noite das nossas inquietudes,
com sinais de perdão manifesta a tua vinda,
Tu, o Emanuel, do presépio ao túmulo vazio.


Jacques Gautier
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Correggio

 

 

  8/12/2014  

Oração de Maria ao longo do seu Advento

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Senhor, por vezes, a nossa oração é apenas a necessidade da tua mão, a absoluta necessidade de sentir a tua mão funda, capaz de nos acolher tal qual somos dentro do seu silêncio; é apenas o desejo de sentir o roçar, mesmo que leve, da tua imensidão no precipitado e no precário das nossas quotidianas rotas; é apenas a necessidade de reconhecer que Tu recebes esta espécie de fome e de desejo, esta espécie de noite e de grito, de mistério e de prece.


José Tolentino Mendonça
Imagem: Rui Aleixo
Capela do Rato, Lisboa

 

 

  7/12/2014  

Venha o teu Anjo

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Venha o teu Anjo tocar o peso da nossa vida
e descobrir neste cerco o que ainda não vemos:
a beleza completamente acesa

Venha o teu Anjo dizer-nos que é possível
uma existência respirar iluminada
por aquilo que espera

Venha o teu Anjo convencer-nos
que é da esperança que nos vem o fogo,
e que em cada um dos nossos instantes
o eterno pode habitar

Venha o teu Anjo aproximar em nós
o barro da estrela
o coração adiado da sua órbita viva
o meu pão do pão de todos
a alegria voltada para fora
da alegria voltada para dentro


José Tolentino Mendonça
Imagem: Rui Aleixo
Capela do Rato, Lisboa

 

 

  2/12/2014  

O espiritual no desenho

 

2.º retiro de Diários Gráficos na "Casa Velha", Ourém, orientado em outubro de 2014 por Mário Linhares


Imagem e edição: Patrícia Pedrosa

 

 

  28/11/2014  

Ó Vida dás-me tudo...

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Ó Vida dás-me tudo
O que não me podes dar!...
Vens com mãos de poesia,
Vens com voz de embalar,
E a dor é alegria
A ponto de chorar!
Ó Vida dás-me tudo
O que me vens tirar!:
Até mesmo a infância
Porque a posso sonhar!
Ó Vida, com que mágia
Trémula e deslumbrada
Te agradeço esta paga!


Cristovam Pavia
Fotografia: © Lucie and Simon

 

 

  19/11/2014  

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Procure a alma inclinar-se não ao que é mais fácil, mas ao mais difícil;
Não ao mais agradável, mas ao mais agreste;
Não ao mais gostoso, mas ao que menos gosto dá;
Não ao que é descanso, mas ao que é trabalhoso;
Não ao que é consolo, mas antes ao desconsolo;
Não ao mais, antes ao menos;
Não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezível;
Não a querer alguma coisa, mas a não querer nada;
Não a andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior;
e, por amor de Cristo, a desejar entrar em toda a nudez e vazio e pobreza que há no mundo.
E estas obras convém que se dê a elas do coração e procure nelas aplainar a vontade.
Quem do coração as pratica, muito em breve, agindo ordenada e discretamente, nelas virá a achar grande alegria e consolação.


S. João da Cruz

 

 

  14/11/2014  

O hino quotidiano

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Neste novo dia
que me concedes, ó Senhor! 
dá-me uma parte de alegria
e faz que possa ser melhor.

Dá-me esse dom que é a saúde,
a fé, o ardor, a intrepidez,
trazidos pela juventude;
e a colheita da verdade,
a reflexão, a sensatez,
consequências da idade.

Feliz serei se ao fim do dia
um ódio a menos conseguir;
se alguma luz meus passos guia
e se algum erro eu extinguir.

E se por aspereza minha
ninguém as lágrimas verteu,
ou se alguém teve uma alegria
que o meu carinho lhe ofereceu.

Que cada tombo na ladeira
me vá fazendo conhecer
cada armadilha traiçoeira
que o meu olhar não soube ver.

E que eu avance mais segura
sem protestar, sem blasfemar.
Que a ilusão doure a aventura
e essa ilusão ma faça amar.

Que eu dê a soma de bondade,
todos os atos e o amor
que a cada ser se manda dar:
soma de essências para a flor
e brancas nuvens para o mar.

E que o meu século enfatuado
numa grandeza material
não me deslumbre nem me faça 
esquecer que sou barro mortal.

Que eu ame os seres deste dia;
que a todo o transe encontre a luz.
Que ame o prazer e a agonia:
que ame o sinal da minha cruz!


Gabriela Mistral
Fotografia: © Pentti Sammallahti

 

 

  13/11/2014  

Cântico

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Ele disse:
«lava a tua casa retira os móveis todos
aí quero dançar»

assim o Senhor dança nos salões vazios:
semelhante a um turíbulo
espalha o seu perfume

não fechei as portas
abri as janelas: os ladrões evitam
a casa iluminada

fiz tapetes de flores
pus grinaldas na entrada
pois é muito grande a festa de Um só convidado

espero nas traseiras e ceio no umbral
o Senhor ocupa-me
e a casa toda é sua

sirvo na bandeja as mais frescas iguarias
os frutos colhidos
nos dias de canseira

o Senhor dorme no leito e eu estou acordado
o Senhor levanta-se
e eu não posso dormitar

a água sai pura
das suas lavagens
lavo-me na água que o Senhor usou

de manhã o Senhor veste-se
com a roupa que lhe trago
come do que tenho – e assim eu empobreço

visto o meu Senhor e eu o alimento
assim fico sem nada
e Ele me sustém

que eu nunca me atrase à chamada do Senhor
não vá Ele mostrar-me
não precisar de mim

que eu não seja dos que perdem
primaveras e outonos
que não seja contado entre os ignorantes

enquanto o Senhor dança o meu coração exulta:
que Deus este que não para
de se mover por mim!


Carlos Poças Falcão
Fotografia: © Seiji Shibuya

 

 

  12/11/2014  

A umas flores amarelas

Flores

 

Encontro-as por acaso numa ilharga
sombria do caminho. São amarelas.
Reluzem como um sol que arda na noite.

Estas flores tão densamente de ouro,
eriçadas de estames que parecem
a pelagem dum gato posto à prova,

a mim, que me comovo com igrejas singelas
de preferência a grandes catedrais,

mostram um esplendor totalmente inesperado
neste chão de pedra que ninguém diria
poder florir assim.

Ó flores cujo nome desconheço,
prolongai esse fulgor humilde em cada dia
de que ainda disponho para ver as flores,

antes de as flores virem ter comigo.


A.M. Pires Cabral
Pintura: Van Gogh/D.R.

 

 

  18/7/2014  

Luís Miguel Cintra lê poemas da antologia "Verbo: Deus como interrogação na poesia portuguesa"

 

 


  2/7/2014  

Sophia de Mello Breyner

 

Senhor, como estás longe e oculto e presente! Oiço apenas o ressoar do teu silêncio que avança para mim e a minha vida apenas toca a franja límpida da tua ausência. Fito em meu redor a solenidade das coisas como quem tenta decifrar uma escrita difícil. Mas és Tu quem me lês e me conheces. Faz que nada do meu ser se esconda. Chama à tua claridade a totalidade do meu ser para que o meu pensamento se torne transparente e possa escutar a palavra que desde sempre me dizes.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Foto: Eduardo Gageiro/D.R.

 

 

  17/6/2014  

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No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.


Herberto Helder
Imagem: Pablo Picasso

 

 

  16/6/2014  

Escolho uma idade à minha medida.
Guia-nos o sul, com remoinhos de pós sobre a estepe;
Renques daninhos, pragas de gafanhotos,
As cintilações faiscantes das ferraduras polidas,
Tudo profetizava – visões
De monge – que eu iria perecer.
Peguei no destino, atei-o à sela;
E agora que estou no futuro, permaneço
Hirto nos estribos como uma criança.

 

Viva, vida!

Não acredito em premonições, não temo superstições,
veneno e calúnia não vigoram sobre mim.
Não existe morte, senão plenitude no mundo.
Somos todos imortais; tudo é imortal.
Não é preciso temer a morte,
seja aos dezessete ou aos setenta.
Nada há além de presente e de luz;
escuridão e morte não existem neste mundo.
Chegados que somos todos à margem, sou um dos escolhidos
para puxar as redes quando o cardume da imortalidade as cumular.

Habitai a casa, e a casa se sustentará.
Invocarei um dos séculos ao acaso: eu o adentrarei
e nele construirei minha morada.
Sento-me portanto à mesma mesa
que vossos filhos, mães e esposas.
Uma só mesa para servir bisavô e neto:
o futuro se consuma aqui agora,
e quando eu erguer a minha mão,
os cinco raios de luz convosco ficarão.
Omoplatas minhas como vigas mestras,
sustentaram por minha vontade a revolução dos dias.
Medi o tempo com vara de agrimensor:
eu o venci como se voasse sobre os Urais.

Talhei as idades à minha medida.
Rumamos para o sul, um rastro de poeira pela estepe.
As altas ervas agitavam-se entre vapores
e o grilo dançarino,
ao perceber com suas antenas as ferraduras faiscantes,
profetizou-me, como monge possuído, a aniquilação.
Atei então, rápido, meu destino à sela,
ergui-me sobre os estribos como um menino
e agora cavalgo os tempos vindouros a meu ritmo.

Basta-me minha imortalidade,
o fluir de meu sangue de uma para outra era,
mas em troca de um canto quente e seguro
daria de bom grado minha vida,
conquanto sua agulha voadora
não me arrastasse, feito linha, mundo afora.


Arseny Tarkovsky
Traduções: Paulo da Costa Domingos (1), Álvaro Machado (2)

 

 

  14/6/2014  

 

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Pelos olhos de uma criança passam
Rápidas as aves em ascensão.

Pelos olhos, as aves deslocadas,
São da criança a ilusão do mundo,
Não mais do que aves repetidamente,
A suceder aos olhos de criança
Que de aves sabe o que o mundo lhe traz.

Aves nos olhos da criança são
Restos a deslocarem-se do mundo,
Aves permanecendo aves, sempre.

 

Que aves são estas, postas à beira
Do caudal do poema, da fadiga
Da escrita e do miolo da memória?

Que aves são e como se deslocam
Por entre as folhas limpas arrancadas
Ao vazio das vozes, ao outono?

Porquê aves e porquê deste modo,
A arriscar a evidência sobre o voo?

E de que claros dedos surgem aves,
Estas que nunca antes existiram?

 

Rui Almeida
Temor único imenso, ed. Labirinto, 2014
Pintura: Pablo Picasso

 

 

  25/3/2014  

 

Anunciação

Não foi por um Anjo ter entrado (faz essa ideia tua)
que ela se sobressaltou. Tão pouco como outras, quando 
um raio de sol ou à noite a lua
nos seus quartos se vão instalando,
se sobressaltam, ela não tinha o hábito de se indignar
à vista da figura que um Anjo assumia;
ela mal sabia que este ali ficar
para os Anjos é laborioso. (Oh, se fosse possível saber
como ela era pura. Não foi uma cerva que, a salvo,
deitada na floresta, dela se apercebeu,
equivocando-se de tal modo que concebeu,
sem sequer ser coberta, o Licorne mais alvo
o animal feito de luz, o mais puro de conceber.)
Não por ele entrar, mas por o Anjo inclinar
para ela, tão de perto, o rosto com que vinha anunciar,
tão jovem; e que de ambos o olhar se entrechocasse
quando um no outro se encontrasse,
como se em volta tudo vazio parecesse
e o que milhões de seres olhavam, faziam, suportavam,
nela se concentrasse: ela e ele apenas ali se encontravam;
Olhar e ser olhado; olhos e deleite para a vista
em mais nenhum lugar senão aquele: repara,
isso sobressalta. E o susto de ambos era coisa prevista.

Então entoou o Anjo a sua melodia clara.

 

Rainer Maria Rilke
A vida de Maria, ed. Portugália
Trad.: Maria Teresa Dias Furtado

 

 

  13/3/2014  

 

Dom José Policarpo

«Hoje (…) é bom tomarmos consciência de que a vivência do sofrimento e da morte têm um sentido ou outro, segundo esperamos ou não esperamos a vida eterna. É que só esta dá sentido ao sofrimento e resolve o enigma da morte, na qual a vida não acaba, apenas se transforma.

Para nós cristãos, esta esperança na vida eterna não é apenas um valor natural de quem admite uma outra vida para além da morte; é uma virtude teologal, é fruto do Espírito de Cristo em nós, que nos uniu a Ele no Batismo e nos deu a intimidade de “filhos de Deus”.

O desejo da vida eterna é, no cristão, expressão espontânea da vida em Cristo, experimentada neste mundo. As alegrias da fé, fruto da intimidade com Deus em Cristo, são já as primícias da plenitude futura. A vivência cristã da vida neste mundo é já da ordem do mundo futuro.

Porque se trata de “primícias”, ela gera espontaneamente o desejo da plenitude definitiva, o que leva, por vezes, os santos a desejarem a própria morte, apenas porque ela é a porta necessária para entrar na plenitude da vida.»

 

D. José Policarpo
Sé Patriarcal de Lisboa, 1.11.2005

 

 

  24/1/2014  

 

Entrega

Descalço venho dos confins da infância
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu
Vê trago as mãos vazias dos poetas.
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas
Menino irmão dos que erram pelas ruas
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Quem te de ignorar ignora os que são tristes
Ó meu irmão Jesus, triste como eu
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!

 

Pedro Homem de Mello

 

 

Ricardo Ribeiro (voz), Pedro Joia
Do cd Largo da Memória

 

 

  5/1/2014  

 

Epifania

Deus, foste tu que nos puseste
nos caminhos do tempo
e disseste à nossa vida que a esperança se cumpre
atravessando a noite sem bagagens

como os Magos à procura do presépio,
assim caminhamos para ti;
que nos guie a estrela
para a prática das mãos, dos olhos e da esperança
e nos revele os perigos tortuosos;
que nos transporte a quadriga da justiça e da fortaleza
e que João Batista, estrela d'alva antes do dia que nasce,
nos indique o roteiro do teu Nome e do teu rosto

dá-nos também a companhia de Maria
que nos ajude a descortinar
as janelas do deserto e da alegria

santifica-nos, Deus, pelo fogo da tua consolação
e pelo fogo que acendeste entre todos nós aqui reunidos
na memória da tua Páscoa,
Deus do nosso berço e do nosso túmulo,
que vens no Pai, no Filho e no Espírito Santo

 

José Augusto Mourão
O nome e a forma, ed. Pedra Angular

 

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