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28.7.2010

Sobre o Pai-nosso

Não digas «pai», se a cada dia não te comportas como um filho.
Não digas «nosso», se vives isolado no teu egoísmo.
Não digas «que estais nos céus», se só pensas nas coisas terrenas.
Não digas «santificado seja o vosso nome», se não o honras.
Não digas «venha a nós o vosso Reino», se o confundes com coisas materiais.
Não digas «seja feita a vossa vontade», se não a aceitas quando é dolorosa.
Não digas «o pão nosso de cada dia», se não te preocupas com quem passa fome.
Não digas «perdoai-nos as nossas ofensas», se manténs rancor contra o teu irmão.
Não digas «livrai-nos do mal», se não tomas posição contra o mal.
Não digas «ámen», se não compreendeste nem levaste a sério a palavra do Pai-nosso.

 

 

28.6.2010

O erro nunca se mostra de facto tal qual é, com receio de que, colocado a nu, seja denunciado; antes se disfarça fraudulentamente sob uma veste de verosimilhança, de tal modo que pareça - coisa ridícula esta! - mais verdadeiro que a própria verdade, graças a esta aparência exterior e aos olhos dos ignorantes. Como dizia a propósito um homem superior a mim: 'a pedra preciosa, como a esmeralda, de grande valor aos olhos de alguns, vê-se insultada por um pedaço de vidro habilmente trabalhado, se não se encontra alguém capaz de proceder a um exame capaz de desmascarar a fraude...'"

"Participam da vida os que vêem a Deus, porque é o esplendor de Deus que dá a vida. Por isso, Aquele que é inacessível, incompreensível e invisível, torna-se visível, compreensível e acessível para os homens, a fim de dar vida aos que o alcançam e vêem. Porque é impossível viver sem a vida; e não há vida sem a participação de Deus, participação que consiste em ver a Deus e gozar da sua bondade."

"A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus. Com efeito, se a manifestação de Deus, através da criação, dá a vida a todos os seres da terra, muito mais a manifestação do Pai, por meio do Verbo, dá vida a todos os que vêem a Deus."

Santo Ireneu (c. 130 - c. 200)

 

 

14.6.2010

Já tenho uma certa idade. A natureza das minhas ocupações, nos últimos trinta anos, pôs-me em contacto estreito com o que seria de considerar uma interessante e algo singular classe de homens, sobre a qual, que eu saiba, nada se escreveu ainda - quero dizer, os escrivães, ou copistas do foro. Conheci muitos deles, quer profissional quer particularmente, e, se me apetecesse, podia contar variadas histórias, acerca das quais os cavalheiros de boa índole ririam, ao passo que as almas sensíveis verteriam lágrimas. Mas eu ponho de lado as biografias de todos os outros, em troca de algumas passagens da vida de Bartleby, que era escrivão, o mais estranho que conheci ou de que ouvi falar. Enquanto de outros copistas do foro, eu poderia escrever a vida completa, acerca de Bartleby tal não é possível. Creio não haver material existente de modo a fazer-se a biografia integral e capaz deste homem. É uma perda irreparável para a literatura. Bartleby era um desses seres acerca dos quais nada se pode concluir a não ser a partir de fontes originais, que, no seu caso, são mínimas. O que os meus próprios olhos, atónitos, viram de Bartleby, isso é tudo quanto sei dele, excepto, na verdade, determinado rumor, que aparecerá em devido tempo. (...)

- Vai ou não deixar-me? - perguntei-lhe então num acesso de súbita fúria, avançando para ele.

- Preferia não o deixar - retorquiu, acentuando delicadamente o não.

- Mas que direito tem o senhor neste mundo de permanecer aqui? Paga a minha renda? Paga os meus impostos? Ou isto é propriedade sua?

Nada respondeu.

- Está pronto para prosseguir, e escrever, agora? Já está bom dos olhos? Pode copiar-me um pequeno documento, esta manhã? Ou ajudar a conferir umas linhas? Ou ir ao Correio? Numa palavra, fará alguma coisa que justifique a sua recusa em partir desta casa?

Retirou-se silenciosamente para o interior do seu ermitério.

Eu estava agora num estado tal de excitação nervosa que julguei ser mais prudente abster-me de momento de mais manifestações. Bartleby e eu estávamos sós. (...)

[Foi então que] agarrei nele e lancei-o fora. Como? Pois simplesmente recordando a injunção divina: «Um novo mandamento vos dou, que vos ameis uns aos outros.» Sim, isto foi o que me salvou. À parte mais elevadas considerações, a caridade opera muitas vezes como princípio imensamente sábio e prudente — uma grande salvaguarda para o seu possuidor. Os homens têm cometido assassínios por causa do ciúme, do ódio, do egoísmo, da soberba; mas nenhum homem cometeu jamais, que eu saiba, um crime diabólico por causa da doce caridade. O simples interesse próprio, então, se melhor motivo se não arranjasse, deveria, especialmente nos homens que facilmente se encolerizam, levar todos os seres à caridade e à filantropia. De qualquer maneira, e no momento em questão, esforcei-me por abafar o meu sentimento de exasperação dirigido contra o escrivão, procurando interpretar com benevolência a sua conduta. Coitado! Coitado! - pensei. - Não faz de propósito; e além do mais, tem passado maus bocados, devemos ser indulgentes para com ele.

E tentei de imediato ocupar-me e ao mesmo tempo compensar o meu desalento. Procurei imaginar que no decurso da manhã, em determinada altura que julgasse conveniente, Bartleby, de sua livre vontade, emergiria do seu ermitério e tomaria a direcção da porta com um passo decidido. Mas não. Veio o meio-dia e meia; o rosto de Turkey começou a brilhar, Capaentornou o tinteiro, tornando-se manifestamente turbulento; Nippers fez-se sossegado e cortês; Ginger Nut foi remoendo a sua maçã do meio-dia; Bartleby permanecia de pé diante da sua janela, num dos seus mais profundos devaneios em frente da parede cega. Seria de crer? Deveria eu admitir tal coisa? Nessa tarde abandonei o escritório sem lhe dizer uma palavra mais.

Passaram-se mais uns dias, durante os quais, quando me era possível, eu dava uma olhadela a On the Will, de Edwards, e On Necessity, de Priestley. Nas circunstâncias presentes, estes livros produziram um resultado salutar. Gradualmente fui-me convencendo de que estes problemas, no que concerne ao escrivão, tinham sido já predestinados de toda a eternidade e que Bartleby me havia sido destinado por qualquer oculto desígnio de uma omnipotente Providência, que não estava nas mãos de um simples mortal como eu perscrutar. Sim, Bartleby, fica aí por detrás do teu biombo, pensei eu; não mais te perseguirei; és tão inofensivo e silencioso como qualquer uma destas velhas cadeiras; numa palavra, nunca me sinto tão à minha vontade como quando sei que aí estás. Finalmente vejo-o e sinto-o, penetro o predestinado fim da minha vida. Estou satisfeito. Outros poderão desempenhar papéis mais sublimes; a minha missão neste mundo, Bartleby, é dar-te espaço no meu escritório durante o período que entendas necessário permanecer.

Acredito que esta sábia e abençoada disposição de espírito me teria acompanhado, não tivessem sido os comentários inoportunos e pouco caridosos que me eram lançados pelos colegas que me visitavam. Mas assim frequentemente acontece que a constante fricção com espíritos nada liberais vem a minar inevitavelmente as melhores disposições dos mais generosos. Pensando bem, na verdade, não era realmente de estranhar que as pessoas que entravam no escritório ficassem impressionadas com o singular aspecto do inacreditável Bartleby, e fossem por isso tentadas a lançar qualquer sinistra observação a seu respeito. Em certas alturas, um solicitador, que tinha coisas a tratar comigo, vinha ao meu escritório, e, não encontrando lá ninguém a não ser o escrivão, tentava obter deste alguma informação precisa sobre o local onde eu estaria; mas sem prestar nenhuma atenção a tal palavreado, Bartleby permanecia de pé, imóvel, no meio da sala. E era assim que, depois de o ter observado durante um bocado, o solicitador se ia embora a saber o mesmo.

Igualmente quando havia uma inquirição, o quarto cheio de advogados e testemunhas, e o negócio a todo o vapor, um dos cavalheiros da profissão presentes, muito ocupado, e vendo Bartleby sem fazer nada, instava-o a que fosse ao seu escritório buscar-lhe uns papéis. Logo Bartleby se recusava tranquilamente, permanecendo no entanto tão desocupado como anteriormente. O advogado, então, olhava-o assombrado, e voltava-se para mim. E que podia eu dizer? Por fim apercebi-me de que no círculo das minhas relações profissionais corria um murmúrio de espanto, devido à estranha criatura que eu albergava no meu escritório. Isto muito me aborrecia. E como me ocorresse a possibilidade de ele ser pessoa para viver muitos anos, continuando a ocupar os meus aposentos, negando a minha autoridade; causando perplexidade nos visitantes; difamando a minha reputação profissional; lançando uma soturnidade geral sobre o local de trabalho; mantendo-se firmemente, sem gastar nada que fosse das suas economias (visto que ele não gastava mais de meio cêntimo por dia), e talvez que, por fim, sobrevivendo-me, reivindicasse a posse do meu escritório devido à sua ocupação perpétua dele. Como todas estas sombrias antecipações se acumulassem mais e mais na minha mente, e os meus amigos continuassem a manifestar incansavelmente a sua opinião acerca daquela aparição nos meus aposentos, operou-se em mim uma grande mudança. (...)

Agindo em conformidade, dirigi-me a ele no dia seguinte nestes termos: - Acho este local demasiado longe da Câmara Municipal: os ares aqui são pouco saudáveis. Numa palavra, proponho-me mudar de local na próxima semana, e não precisarei mais dos seus serviços. Digo-lhe isto agora, para que possa procurar outro lugar.

Ele não respondeu, e ficámos por aqui.

No dia determinado contratei carroças e homens, dirigi-me aos meus escritórios e, tendo pouca mobília, a mudança fez-se em poucas horas. Durante todo o tempo, o escrivão permaneceu de pé atrás do biombo, tendo eu dado ordens para que fosse a última coisa a ser retirada. Retiraram-no dobrado como se fosse um enorme fólio, e lá ficou Bartleby, ocupante imóvel de uma sala nua. Fiquei à entrada da porta a observá-lo um momento, enquanto intimamente algo me censurava.

Voltei a entrar, com a mão no bolso - e... e o coração na boca.

- Adeus, Bartleby; vou-me embora. Adeus, e que Deus o guarde; tome lá isto - e passei-lhe sub-repticiamente qualquer coisa para a mão. Mas logo caiu ao chão; e então, por estranho que pareça, foi a custo que me separei dele, de quem eu tanto ansiava desembaraçar-me. (...)

In Bartleby, de Herman Melville, ed. Assírio & Alvim

 

 

13.6.2010

Carta a Santo António

Meu Padre Santo António, meu Padrinho:
Faz que floresçam no papel
Versos meus em louvor do ninho de carinho
Com que me abriga o teu burel.
Sabes bem quem eu sou: nasci no Minho,
Chamo-me António Manuel.

Há setenta e três anos que abençoa
O corpo e alma frágeis do afilhado
A tua mão tão generosa e boa.
E tenho-te traído! E amado
Menos do que mereces! Meu Padrinho, perdoa.
Posso ser perdoado?

Meu coração repeso escreve agora
Os versos em que lembro o coração amigo
Que me tem protegido vida fora,
Que me tem salvo das ciladas e do perigo.
Para dizer-tos (sei que nem sequer demora),
Quero estar , contigo.

Quero estar , frente a frente,
De olhos baixos. Mas tu a vigiar-me o voo.
E ao escutares-me o verbo, arrependido e crente,
Na tua língua, a língua em que me sou.
Afastando uma nuvem, dizes-me sorridente:
- Vem!
E eu vou.

Imagem

António Manuel Couto Viana (1923-2010). Desenho: Juan Soutullo

 

 

24.5.2010

Sei que são palavras fora de moda, mas que possibilidade de vida, de amor, de verdade existe hoje? Estas perguntas, assim como as questões básicas da metafísica, continuam para mim apaixonantes. É claro que podemos vê-las numa caneca ou numa t-shirt, mas continuo a achar que uma das coisas que me permitem afirmar que sou artista é precisamente essa busca, essa procura.

João Tabarra
Ípsilon (Público), 21.5.2010

 

 

9.5.2010

Gabriela Albergaria na Capela do Rato

 

 

5.5.2010

Tudo o que o meu pai me disse quando, aos 15 anos, declarei em família que iria começar a escrever poesia

«Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
essas mãos.»

Luís Filipe Parrado

 

 

23.4.2010

Foto

Enterro de Malcolm McLaren, manager dos Sex Pistols, na antiga Igreja de Santa Maria Madalena, em Londres. Foto: Rex Features

 

 

16.4.2010

 

 

25.3.2010

 

 

24.3.2010

Havia uma grande procissão; à cabeça avançavam as três Semelhanças:
a parábola da ovelha perdida;
a parábola da dracma perdida;
a parábola do filho perdido.

Ora tanto um filho é mais caro que uma ovelha,
E infinitamente mais caro que um dracma,
Tanto um filho é mais caro ao coração do pai,
(Do seu pai que é ao mesmo tempo, que é já, antes, que é primeiramente seu pastor),
Do que mesmo uma ovelha e cara ao coração do (bom) pastor,
Tanto a terceira Semelhança,
Tanto a parábola do filho pródigo
É ainda mais bela se possível e mais cara,
É ainda maior do que as duas Semelhanças antecedentes,
Do que a parábola da ovelha perdida,
E do que a parábola da dracma perdida.

Todas as parábolas são belas, minha filha, todas as parábolas são grandes, todas as parábolas são caras.
Todas as parábolas são a palavra e o Verbo,
A palavra de Deus, a palavra de Jesus.
São todas elas por igual, são todas elas ao mesmo tempo
A palavra de Deus, a palavra de Jesus.
No mesmo pé.
(Deus pôs-se neste caso, minha filha,
Neste caso mau,
De ter necessidade de nós)
Todas elas vêm do coração, por igual, e vão direitas ao coração,
Falam ao coração.
Mas as três parábolas da esperança entre todas
Vão à frente,
E entre todas são grandes e fiéis, entre todas são piedosas e afectuosas, entre todas são belas, entre todas são caras e próximas ao coração.
Entre todas estão próximas do coração do homem, entre todas são caras ao coração do homem.
Têm não se sabe que lugar à parte.
Têm talvez nelas sabe-se lá o quê que não há, que não haverá nas outras.
É talvez porque têm em si como que uma mocidade, como que uma infância ignorada.
Insuspeitada alhures.
Entre todas são jovens, entre todas são frescas, entre todas são crianças, entre todas estão por gastar.
Não envelhecidas.
Não gastas, não envelhecidas.
Desde treze ou catorze séculos que elas servem, e desde há dois mil anos, e pelos séculos dos séculos jovens como no primeiro dia.
Frescas, inocentes, ignorantes,
Crianças como no primeiro dia,
E desde há treze vezes cem anos que há cristãos e catorze vezes cem anos,
Essas três parábolas, (que Deus nos perdoe),
Têm um lugar secreto no coração.
E que Deus nos perdoe enquanto houver cristãos,
Por tanto tempo ou seja eternamente,
Pelos séculos dos séculos haverá para essas três parábolas
Um lugar secreto no coração.

E todas as três são as parábolas da esperança.
Em conjunto.
Jovens por igual, por igual caras.
Entre elas.
Irmãs entre elas como três crianças novinhas.
Por igual caras, por igual secretas.
Secretamente amadas. Igualmente amadas.
E como que mais interiores do que todas as outras.
Dando resposta a uma voz interior mais profunda.
Mas entre todas; entre todas três eis que vem à frente a terceira parábola.
E essa, minha filha, essa terceira parábola da esperança,
Não só está nova como no primeiro dia.
Como as duas outras
Suas irmãs.
E pelos séculos será nova,
Tão nova até ao último dia.
Mas desde há catorze séculos, desde há dois mil anos que ela serve,
E que foi contada a homens inumeráveis,
A menos que tenha um coração de pedra, minha filha, quem a ouvirá sem chorar?
Desde há catorze séculos, desde há dois mil anos tem ela feito chorar homens inumeráveis.
Pelos séculos e pelos séculos.
Cristãos inumeráveis.
Ela tocou no coração do homem um ponto único, um ponto secreto, um ponto misterioso.
(Ela tocou no coração.)
Um ponto inacessível à outras.
Sabe-se lá que ponto como que mais interior e mais profundo.
Homens inumeráveis, desde que ela serve, cristãos inumeráveis têm chorado com ela.
(A menos de terem um coração de pedra.)
Têm chorado por ela.
Chorarão homens pelos séculos fora.
Só de pensar nela, só de a ver quem poderia,
Quem conseguiria reter as lágrimas.
Pelos séculos fora, pela eternidade com ela hão-de chorar homens; por ela,
Fiéis, infiéis.
Na eternidade, até no juízo.
Quando do juízo, no juízo. E
É esta a palavra de Jesus que teve maior alcance, minha filha.
É ela a que teve melhor sorte Temporal. Eterna.
Ela despertou no coração sabe-se lá que ponto de correspondência
Único.
Por isso tem tido uma sorte
Única.
É célebre até entre os ímpios.
Entre eles achou, até aí, um ponto de entrada.
Talvez só ela tenha ficado cravada no coração do ímpio
Como um cravo de ternura.
Ora ele disse: Um homem tinha dois filhos:
E quem a ouve pela primeira vez,
É como se fosse pela primeira vez.
Que a ouvisse.
Um homem tinha dois filhos. É bela em Lucas. É bela em toda a parte.
Não está senão em Lucas, está em toda a parte.
É bela na terra e no céu. É bela em toda a parte.
Só de nela pensar, um soluço nos sobe à garganta.
É a palavra de Jesus que tem tido maior ressonância no mundo.
Que achou a ressonância mais profunda
No mundo e no homem.
No coração do homem.

No coração fiel, no coração infiel.

Que ponto sensível e que ela encontrou
Que nenhuma outra encontrara antes dela,
Que nenhuma encontrou, (tanto), desde então,
Que ponto único,
Ainda insuspeito,
Nunca obtido depois.
Ponto de dor, ponto de aflição, ponto de esperança.
Ponto doloroso, ponto de inquietude,
Ponto de tortura no coração do homem.
Ponto em que não se deve carregar, ponto de cicatriz, ponto de costura e de cicatrização.
Em que não é bom que alguém se apoie.

Ponto único, sorte única, força única de apego.
Aderência única, vínculo do coração fiel.
E do coração infiel.
Todas as parábolas são belas, minha filha, todas as parábolas são grandes.
E designadamente as três parábolas da esperança.
E todas essas três parábolas da esperança além do mais são jovens, minha filha.
Mas com esta centenas e milhares de homens têm chorado.
Centenas de milhares de homens.
Por esta.
batidos pelos mesmos soluços chorado as mesmas lágrimas.
Fiéis, infiéis, Umas revezando-se com as outras. As mesmas.
Desfeitos pelos mesmos soluços.
Numa comunhão de lágrimas.
Deitados, inclinados, soerguidos pelos mesmos soluços chorado as mesmas lágrimas.
Fiéis, infiéis.
Sacudidos dos mesmos soluços.
Chorado como crianças.

Um homem tinha dois filhos. De todas as parábolas de Deus
É a que despertou o eco mais profundo.
O mais antigo.
O mais velho, o mais novo.
O mais recente.
Fiel, infiel.
Conhecido, desconhecido.
Um ponto de eco único.
É a única que o pecador jamais forçou a calar no coração.
Quando alguma vez esta palavra mordeu o coração
O coração infiel e o coração fiel,
Nenhuma volúpia já apagará
A marca dos seus dentes.
Tal é esta palavra. É uma palavra que acompanha.
Segue-nos como um cão
Que se enxota, mas fica.
Como um cão maltratado, que volta sempre.
Fiel fica, volta como um cão fiel.
Por mais que lhe demos com um pé e com um pau.
Fiel ela mesma de uma fidelidade,
Única, Assim ela acompanha o homem nos seus maiores
Excessos.
É ela que ensina que nem tudo está perdido.
Não cabe na vontade de Deus
Que um só destes pequeninos pereça.
É um cão fiel
Que morde e que lambe
E as duas coisas prendem
O coração inconstante.
Quando o pecador se afasta de Deus, minha filha,
À medida que se afasta, à medida que se afunda em regiões perdidas, à medida que se perde,
Vai deitando para a borda do caminho, no mato e nas pedras
Coisas inúteis e embaraçantes e que o atrapalham os bens mais preciosos. Os bens mais sagrados.
A palavra de Deus, os tesouros mais puros.
Mas há uma palavra de Deus que ele nunca rejeitará.
Com a qual qualquer homem tantas vezes chorou.
Com a qual, pela virtude da qual. Pela qual
E ele é como os outros, também ele chorou.
Há um tesouro de Deus, quando o pecador se afasta
Nas trevas em aumento.
Quando as trevas
Crescentes
Lhe velam os olhos há um tesouro de Deus que ele não lançará, não, aos matos da estrada.
Porque é um mistério que acompanha, é uma palavra que acompanha
Nos maiores
Distanciamentos.
Não há necessidade de tratar dela, de a trazer.
É ela.
Que trata de nos e de trazer e de se fazer trazer.
É ela que segue, é uma palavra de sequência, é um tesouro que acompanha.
As outras palavras de Deus não ousam acompanhar o homem.
Nos seus maiores
Excessos.
Mas na verdade esta é uma descarada.
Ela agarra o homem pelo coração, num ponto que ela sabe, e não o larga mais.
Não tem medo. Não tem vergonha.
E por mais longe que vá o homem, esse homem que se perde,
Em qualquer região,
Em qualquer obscuridade.
Longe do lar, longe do coração,
E quaisquer que sejam as trevas em que ele se afunde,
As trevas que lhe velam os olhos,
Sempre o luar vigia, sempre uma chama vigia, uma ponta de chama.
Sempre uma luz vigia que jamais há-de ser posta debaixo do alqueire. Sempre uma lâmpada.
Sempre uma ponta de dor queima. Um homem tinha dois filhos. Um ponto que ele bem conhece.
Na falsa quietação um ponto de inquietação, um ponto de esperança. Todas as outras palavras são pudicas. Não se atrevem a acompanhar o homem nas vergonhas do pecado.
Não são suficientemente avançadas.
No coração, nas vergonhas do coração.
Mas esta em verdade não é envergonhada.
Pode-se dizer que é destemida.
É uma irmãzinha dos pobres que não tem medo de manejar um doente ou um pobre.
Por assim dizer ela
E mesmo realmente ela fez um desafio ao pecador.
Disse-lhe assim: Por toda a parte aonde fores, irei eu.
Havemos de ver.
Comigo não terás paz.
Não te vou deixar em paz.
E é verdade, e ele bem o sabe. E no fundo ele ama o seu perseguidor.
Bem lá no fundo, muito secretamente.
Porque bem lá no fundo, no fundo da sua vergonha e do seu pecado ele gosta (mais) de não ter paz. Isso dá-lhe uma certa garantia.

Permanece um ponto doloroso, um ponto de pensamento, um ponto de inquietação. Um rebentinho de esperança.
Um luar não se extinguirá nunca e vem a ser
a Parábola terceira,
a terceira palavra da esperança. Um homem tinha dois filhos.

Charles Péguy

 

 

23.3.2010

Código de Amor do século XII

I
A alegação do casamento não é desculpa legítima contra o amor.

II
Quem não sabe esconder não sabe amar.

III
Ninguém se pode dar a dois amores.

IV
O amor pode sempre crescer ou diminuir.

V
O que o amante arranca pela força ao outro amante não tem sabor.

VI
O homem não ama, normalmente, senão em plena puberdade.

VII
Prescreve-se a um dos amantes, por morte do outro, um luto de dois anos.

VIII
Ninguém, em amor, deve ser privado do seu direito sem uma razão mais que suficiente.

IX
Ninguém pode amar se não estiver imbuído da persuasão de amor (da esperança de ser amado).

X
O amor, habitualmente, é expulso de casa pela avareza.

XI
Não é conveniente amar aquela a quem se teria vergonha de desejar em casamento.

XII
O amor verdadeiro não tem desejo de carícias, a não ser que venham daquela a quem ama.

XIII
Amor divulgado raramente dura.

XIV
O êxito demasiado fácil não tarda a tirar o seu encanto ao amor; os obstáculos aumentam-lhe o preço.

XV
Toda a pessoa que ama empalidece ao ver quem ama.

XVI
Ao ver-se imprevistamente aquele a quem se ama, estremece-se.

XVII
Novo amor expulsa o antigo.

XVIII
Só o mérito torna digno de amor.

XIX
O amor que se extingue decai rapidamente e raramente se reanima.

XX
O apaixonado está sempre receoso.

XXI
A afeição de amor cresce sempre com os ciúmes verdadeiros.

XXII
A afeição de amor cresce com a suspeita e com os ciúmes que derivam dela.

XXIII
Menor dorme e menos come aquele a quem atormenta um pensar de amor.

XXIV
Todas as acções do amante terminam pensando no que ama.

XXV
O amor verdadeiro não acha bem senão o que sabe que agrada a quem ama.

XXVI
O amor não pode recusar nada ao amor.

XXVII
O amante não pode saciar-se de fruir do que ama.

XXVIII
Uma fraca presunção faz com que o amante suspeite coisas sinistras em quem ama.

XXIX
O excessivo hábito dos prazeres impede o nascimento do amor.

XXX
Uma pessoa que ama está ocupada assídua e ininterruptamente pela imagem de quem ama.

XXXI
Nada impede que uma mulher seja amada por dois homens, e um homem por duas mulheres.

André, capelão francês do séc. XII, citado por Stendhal (Do Amor)

 

 

15.3.2010

Stabat Mater (Marc-Antoine Charpentier)

 

Jordi Savall dirige Le Concert des Nations na Capela Real do Palácio de Versalhes

 

 

12.3.2010

Se eu não tiver amor, não sou nada

"A Missão" (Roland Joffé, 1986)

 

 

9.3.2010

1

Olho a oriente
com os pés no ocidente.
Que palavra leve!

2

Trepa a primavera
pelo perfume lilás
a cobrir o muro.

3

Desperta a noite;
o orvalho enche a manhã.
Um cheiro a saudade.

4

Hera pelo muro
rastejando palmo a palmo –
o verde e o viço.

5

Ao abrir do sol,
se espreguiça o amarelo
pelas maravilhas.

6

Na outra colina,
do lado de lá do ver,
é que os sonhos pastam.

Luísa Freire
In O tempo de perfil, ed. Assírio & Alvim

 

 

8.3.2010

Viver de Amor

Nessa noite de Amor  _  abrindo abertamente teu coração.
Disseste _ Se alguém me quer amar _
Com toda a sua Vida _ Que guarde a Promessa
Eu e meu Pai procurá-lo-emos _ está dito _
E do seu coração faremos uma morada _ a nossa
Onde o amaremos com toda a nossa Vida,
Com a paz que preside à Criação_ queremos _
Que viva no nosso Amor.

Nessa noite, eu soube que viver de Amor _ é_
Guardar-te _ Promessa incriada _ da Mudez Inicial.
Ah!, sabe-lo bem, meu Esposo _ como eu te amo _
O fogo abrasa-me _ Toda eu imersa no seu Espírito,
Amando-te _ a ti e ao Pai que está contigo _ Meu
Amor não libertará _ oh!, não _ da Promessa
A Trindade _ presa e prisioneira _
Do meu coração de Pobre.

Viver de amor? _ Viver-Te a vida
De gloriosa majestade e delícia dos eleitos? _
Por mim _ basta que vivas escondido
Onde eu _ por Ti possa _ escondida, estar contigo
A sós _ como amantes sedentos de solidão _
Um face a face que dure a noite _ que dure o dia.
Um teu olhar _ é quanto basta
Para tornar feliz o amor.

Viver de amor? Não é certamente viver
No alto do Tabor, contemplando-se mutuamente _
Contigo Jesus _ amar é levar-te à cruz,
Ver-me a teu lado _ e sentir-me tesouro _
No teu jardim, poderei _ um dia _ ter-te

Quando a prova _ por inteiro, tiver passado_
No exílio, no entanto _ quero viver a dor
De te amar _ de amor.

Viver de amor? É dar _ e não ter -
Medida que compare o quanto se deu
Sem medir - como calcular o Amor?
Se amor não mede _ a medida que perdeu.
Ao teu coração transbordante de ternura,
Dei todo o divino _ e meu não era _ Corro leve _
Conto apenas com a riqueza que me deste _
O amor que me dá vida.

Viver de amor? É não ter medo _ E o pavor
Do mal que se fez? _ O amor apaga
O rasto das sombras cometidas _ Num ápice,
Faz delas labaredas _ consumidas
Chamas _ ó chama divina, ó doce fornalha _
No teu foco ardente _ coloco a minha vida _
É nesse fogo _ ardente que canto sem temor
«Amar não temo.»

Viver de amor? É ser no tempo _
O cálice mortal de uma bebida rara.
Meu Bem-Amado _ como pode meu cristal
Imperfeito _ igualar o timbre e o sabor angélicos?
Mas se me quebro _ em cada hora que passa _
Tu vens, de novo _ reunir meus estilhaços,
A cada instante _ tornar mais rara
A bebida inebriante de amar.

Viver de amor? É abrir nos corações _
Uma rota certeira e leve _ constantemente _
Piloto amado _ o Amor é um fogo urgente _
Que me chama _ nas almas minhas irmãs _

Sê minha estrela polar _ a única estrela a brilhar
A claridade _ de uma rota que se não perca _
Nem desminta _ a divisa da minha vela
«Viver de amor.»

Viver de amor? É esperar que acordes
Quando dormes _ sobre as vagas alterosas
Do Tiberíades _ Descansa _ Eu não te incomodo _
Espero, confiada, a hora das margens _
A Fé, muito em breve, porá fim à tempestade _
Espero ver-te, face a face _ ao tocar o cais _
O Amor ardente urge e enche as velas, Não te acordarei, Amor.

Viver de amor? Ó meu divino Mestre _
É suplicar-te que incendeies _ as almas
Santas e sagradas de teus Padres _ cristalinas _
Mais ainda _ que as almas celestes de teus anjos.
Glorifica _ peço-te _ a tua Igreja imortal.
Ouve os meus suspiros _ Não te faças surdo _
Eu _ filha dessa Igreja _ imolo-me por ela,
Vivendo de amor.

Viver de amor? É enxugar-te o rosto.
E apagues _ perdoando _ as faltas dos pecadores _
Ó Deus de Amor _ que voltem à tua graça _
Que da sua boca surja _ a bênção do teu Nome.
Quando no meu coração _ no seu âmago _ ressoa
A blasfémia _ eu não canto? _ não tento abafar-lhe o eco?
Não canto teu SacroNome? _ Eu o adoro _ eu o amo _
Para viver de amor.

Viver de amor? É fazer como Maria
A teus pés _ Lembras-te? _ Pegou em lágrimas
E perfumes _ cobriu-os de beijos e perfumes

Apaixonados _ Limpa-te os pés com seus cabelos _
Ergue-se _ quebra o vaso _ derrama-te
Sobre o rosto _ o doce rasto do perfume.
Que farei eu? Perguntas? _ Cubro-te a Face,
Meu amor _ é perfume.

Viver de amor? «Que doença estranha
É essa?!» _ me diz o mundo _ «Não cantes _
Não percas teu perfume _ não dês a vida _
Usa utilmente a vida, a voz e o perfume!»
Eu digo _ não há perca mais profunda _ do que amar-Te
Em tudo _ os meus perfumes que te dei _ são teus _
Não voltes a dar-mos _ E a minha voz? _ Eu a canto
Para Ti _ com o amor da vida.

E morrer de amor? Haverá martírio mais doce?
Se houver _  é esse que quero padecer _
Escutai-me, Querubins _ preparai
Vossos instrumentos _ sinto que vou morrer _
Chama de amor, ouvis-me? _ Consome-me
Sem tréguas _ Vida de um instante _
Como és pesada _ Jesus, ouve o meu pedido,
O sonho de _ morrer de amor.

Morrer de amor é deveras o que espero
Ver  _ quebrarem-se todos os meus laços
Outros bens _ não quero ter _ apenas MeuAmado
A grande recompensa _ de vê-los quebrar-se
Pelo teu Amor _ quero ser incendiada.
Vê-lo face a face _ unir o meu rosto ao dEle
Nas chamas _ de um céu _ na única conjectura
Onde viver e amar são o mesmo laço.

Santa Teresa do Menino Jesus
Trad: Maria Gabriela Llansol

 

 

4.3.2010

Quaresma pode até ser um nome complicado
mas a sua motivação é actual e grandiosa:
favorecer o encontro do Homem
com as raízes profundas do seu ser,
tornar-nos melhores
e lembrados do que é importante.

Os dias trazem nas suas redes
preciosos peixes vermelhos e azuis,
mas também lixo, coisas supérfluas
que só atravancam,
por isso os pescadores perdem tempo a escolher
com cuidado.

Quaresma é voltar a ganhar o espaço das escolhas
neste tempo consumista de falsas imposições.

Quaresma é dizer sim,
com maior entusiasmo ainda,
à liberdade de afirmar o essencial:
fé, justiça, reconciliação, solidariedade e alegria.

É que podemos somar muitos anos
sem nunca ter realmente vivido
e achar que fazemos grandes coisas
sem nos perguntarmos: «para que servem?»

José Tolentino Mendonça

 

 

1.3.2010

 

 

 

25.2.2010

Vivo sem viver em mim

Vivo sem viver em mim,
E tão alta vida espero,
Que morro porque não morro.

Vivo já fora de mim,
Depois que morro de amor;
Porque vivo no Senhor,
Que me quis para Si:
Quando o coração lhe dei
Pus nele este letreiro,
Que morro porque não morro.

Esta divina prisão,
Do amor em que eu vivo,
Fez de Deus meu cativo,
E livre meu coração;
E causa em mim tal paixão
Ver a Deus meu prisioneiro,
Que morro porque não morro.

Ah, que larga é esta vida!
Que duros estes desterros,
Este cárcere, estes ferros
Em que a alma está medita!
Só esperar a saída
Causa-me dor tão fera,
Que morro porque não morro.

Ah, que vida tão amarga
onde se não goza do Senhor!
Porque se é doce o amor,
Não o é a esperança larga:
Tire-me Deus esta carga,
Mais pesada que o metal,
Que porque porque não morro.

Só com a confiança
Vivo do que hei-de morrer,
Porque morrendo o viver
Me a esperança assegurança;
Morte dond’o viver se alcança,
Não te tarde, que te espero,
Que morro porque não morro.

Olha que o amor é forte;
Vida, não me sejas molesta,
Olha que só me resta,
Para ganhar-te, perder-te.
Venha já a doce morte,
O morrer venha ligeira
Que morro porque não morro.

Aquela vida de arriba,
Que é a vida verdadeira,
Até que esta vida morra,
Não se goza estando viva:
Morte, não me sejas esquiva;
Viva morrendo primeiro,
Que morro porque não morro.

Vida, que posso eu dar
Ao meu Deus que vive em mim,
Se não o perder-te a ti,
Para merecer ganhá-l’O?
Quero morrendo alcança-l’O,
Pois tanto a meu Amado quero,
Que morro porque não morro.

Santa Teresa de Jesus

 

 

22.2.2010

Fevereiro
ou
Os meses não se medem aos palmos.

Escarnecem de mim os outros meses:
chamam-me minorca
por ser o mais pequeno.

Mas qual deles é capaz como eu
de se acrescentar um dia
a cada quatro anos?

Está nisto a minha grandeza:
ter assomos, fazer a diferença,
construir anos bissextos.

A.M. Pires Cabral

 

 

19.2.2010

 

 

18.2.2010

Quarta-feira de Cinzas

I
Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto
Não mais me empenho no .empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?
Porque não mais espero conhecer
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma
Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar
E rogo a Deus que de nós se compadeça
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que foi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós
Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.


II
Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro
Ao frescor do dia repousavam, saciados
De meus braços meu coração meu fígado e do que havia
Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:
Viverão tais ossos? Tais ossos
Viverão? E o que pulsara outrora
Nos ossos (secos agora) disse num cicio:
~raças à bondade desta Dama
E à sua beleza, e porque ela
A meditar venera a Virgem,
É que em fulgor resplandecemos. E eu que estou aqui
         dissimulado
Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro meu amor
Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.
Isto é o que preserva
Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas
Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se
De branco vestida, orando, de branco vestida.
Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.
A vida os excluiu. Como esquecido fui
E preferi que o fosse, também quero esquecer
Assim contrito, absorto em devoção. E disse Deus:
Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois somente
O vento escutará. E os ossos cantaram em uníssono
Com o estribilho dos grilos, sussurrando:
Senhora dos silêncios
Serena e aflita
Lacerada e indivisa
Rosa da memória
Rosa do oblívio
Exânime e instigante
Atormentada tranqüila
A única Rosa em que
Consiste agora o jardim
Onde todo amor termina
Extinto o tormento
Do amor insatisfeito
Da aflição maior ainda
Do amor já satisfeito
Fim da infinita
jornada sem termo
Conclusão de tudo
O que não finda
Fala sem palavra
E palavra sem fala
Louvemos a Mãe
Pelo Jardim
Onde todo amor termina.
Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e alvadios,
Alegramo-nos de estar aqui dispersos,
Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,
Sob uma árvore ao frescor do ~a, com a bênção das areias,
Esquecendo uns aos outros e a nós próprios, reunidos
Na quietude do deserto. Eis a terra
Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou comunhão
Não importam. Eis a terra. Nossa herança.

III
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.
Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.
Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.

Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno
                              mas dizei somente uma palavra.

IV
Quem caminhou entre o violeta e o violeta
Quem caminhou por entre
Os vários renques de verdes diferentes
De azul e branco, as cores de Maria,
Falando sobre coisas triviais
Na ignorância e no saber da dor eterna
Quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou
Quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras
Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias
De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,
Sovegna vos
Eis os anos que permeiam, arrebatando
Flautas e violinos, restituindo
Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta
Nas brancas dobras de luz que em torno dela se embainham.
Os novos anos se avizinham, revivendo
Através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os anos,
      resgatando
Com um verso novo antigas rimas. Redimem
O tempo, redimem
A indecifrada visão do sonho mais sublime
Enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro conduzem.
A irmã silenciosa em véus brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma
Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou
Redimem o tempo, redimem o sonho
O indício da palavra inaudita, inexpressa
Até que o vento, sacudindo o teixo,
Acorde um coro de murmúrios
E depois disto nosso exílio

V
Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.
                          Ó meu povo, que te fiz eu.
Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido
Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam
                       Ó meu povo, que te fiz eu.
Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.
                     Ó meu povo.

VI
Conquanto não espere mais voltar
Conquanto não espere
Conquanto não espere voltar
Flutuando entre o lucro e o prejuízo
Neste breve trânsito em que os sonhos se entrecruzam
No crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o nascimento e a
      morte
(Abençoai-me pai) conquanto agora
Já não deseje mais tais coisas desejar
Da janela debruçada sobre a margem de granito
Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao largo
Invioladas asas
E o perdido coração enrija e rejubila-se
No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar
E o quebradiço espírito se anima em rebeldia
Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia
Anima-se a reconquistar
O grito da codorniz e o corrupio da pildra
E o olho cego então concebe
Formas vazias entre as partas de marfim
E a maresia reaviva o odor salgado das areias
Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte
O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam
Entre rochas azuis
Mas quando as vozes do instigado teixo emudecerem
Que outro teixo sacudido seja e possa responder.
Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do jardim,
Não permiti que entre calúnias a nós próprios enganemos
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego
Mesmo entre estas rochas,
Nossa paz em Sua vontade
E mesmo entre estas rochas
Mãe, irmã
E espírito do rio, espírito do mar,
Não permiti que separado eu seja
E que meu grito chegue a Ti. 

T.S.Eliot
Tradução de Ivan Junqueira, do original “Collected Poems 1909-1962”, para a Editora Nova Fronteira em 1981

 

 

17.2.2010

Texto

Texto: José Tolentino Mendonça

 

 

29.1.2010

Música: "Starry Starry Night", interpretada por Don McLean

 

 

28.1.2010

Fernando Pessoa escrevia: «A espantosa realidade das coisas/ é a minha descoberta de todos os dias». É isso que peço, Senhor. Não nos deixes no embaraço baço da superfície; nos olhares e nos juízos que roçam apenas a periferia, que descrevem o exterior, mas nada sabem do gume. Dá-nos o saber de reparar a fundo, de escutar o indizível segredo que torna todos e tudo espelho do Teu assombro. Impele-nos à descoberta de um real que nos é tão próximo, mas afinal desconhecido. Que o nosso coração esteja vigilante para acolher o modo surpreendente como Tu, ó Deus, sempre Te revelas! Hoje. Agora.

José Tolentino Mendonça

 

 

26.1.2010

 

 

 

21.1.2010

 

 

19.1.2010

Não nos podemos acomodar com a divisão dos cristãos, e somos legitimamente impacientes até que chegue finalmente o dia de nossa reconciliação. Contudo, estamos conscientes de que o diálogo ecuménico não é vivido em todos os lugares com o mesmo ritmo. Alguns avançam a grandes passos, outros são mais tímidos. Como Paulo nos exorta, devemos saber ser pacientes para com todos.

...

Por vezes, é para com Deus mesmo que nos mostramos impacientes. Como o povo no deserto, também nós gritamos a Deus: porquê toda esta caminhada penosa? Guardemos, pois, a confiança: Deus responde às nossas orações, à sua maneira, no tempo oportuno. Ele saberá suscitar novas iniciativas para a reconciliação dos cristãos, de acordo com as necessidades do nosso tempo.

Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos

 

 

 

15.1.2010

 

 

 

14.1.2010

 

 

 

13.1.2010

 

 

 

12.1.2010

 

 

 

5.1.2010

 

 

 

1.1.2010

Dias realmente úteis

Às vezes, demasiadas vezes,
a vida assemelha-se a uma repartição cinzenta,
onde os horários se cumprem sem empenho.
Estamos, mas fazemos sem compromisso íntimo.
Falamos e fazemos,
mas sentindo o nosso interesse noutro lado.
Vivemos, claro, mas com o coração distante.

Como é necessário tornar realmente úteis
os dias úteis!

Úteis não apenas por imposição do calendário.
Úteis, porque vividos com generosidade e sentido.
Úteis, porque não os atropelamos
na voragem das solicitações,
na dispersão das coisas,
mas sabemos (ou melhor, ousamos) fazer deles
lugar de criação e descoberta,
tempo de labor e de escuta,
modo de acção e de contemplação.

É preciso acolher o “inútil”
se quisermos chegar ao verdadeiramente útil.

P. José Tolentino Mendonça

 

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