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«Senhor, abre ainda mais meu lado ardente»: Nos 40 anos da morte de Vitorino Nemésio

Nascido na ilha açoriana da Terceira, em Praia da Vitória, a 19 de dezembro de 1901, o escritor Vitorino Nemésio tornou-se conhecido do grande público com a obra “Mau tempo no canal” (1944) e, décadas mais tarde, através do programa “Se bem me lembro”, que a RTP apresentou semanalmente e, depois quinzenalmente, entre 1969 e 1975.

«Vitorino Nemésio é o caso mais espetacular que conhecemos de absorção na sua obra (poesia e prosa) das linguagens mais variadas (…) desde a da biologia molecular e da física atómica, a par dos falares regionais, da linguagem filosófica, jurídica, da dos negócios, integrando os termos dos emigrantes, dos baleeiros, tal como as sociolinguagens das diversas classes sociais da Ilha Terceira», aponta Maria Vitalina Leal de Matos, professora aposentada a Faculdade de Letras de Lisboa, onde lecionou várias cadeiras de Literatura Portuguesa. 

O poeta «compôs em todos os tipos de métrica, desde o da literatura oral e tradicional, aos consagrados literariamente, até ao verso livre. Dir-se-ia, para quem não conhece bem os textos rigorosamente metrificados, que o domínio do metro lhe era difícil. A desmenti-lo estão os versos lapidares, que se gravam na memória facilmente porque a aliança entre a forma da expressão e a do conteúdo são totais», acrescenta.

Nemésio «escreveu poemas de uma entrega metafísica confiante e aflita, em estilo elevado ou chão, com uma toada popular ou um vocabulário científico, dando corpo à própria noção de Verbo», assinalam por seu lado Pedro Mexia e José Tolentino Mendonça, na obra “Verbo – Deus como interrogação na poesia portuguesa”.

Para assinalar os 40 anos da sua morte, ocorrida a 20 de fevereiro de 1978, a Companhia das Ilhas, em parceria com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, vai publicar desde o primeiro semestre de 2018 até 2021 as “Obras completas de Vitorino Nemésio”, compostas por 16 volumes, num total de mais de 40 textos.

«Trata-se de uma coleção dirigida ao grande público, para divulgar a obra deste vulto maior da literatura açoriana e nacional de todos os tempos», refere a editora, acrescentando que cada volume conterá «uma breve introdução a cargo de especialistas nemesianos, e um texto síntese da vida e da obra de Vitorino Nemésio».

 

[Senhor, nas minhas veias]

Senhor, nas minhas veias
Trago a morte medida.
Sou lâmpada de pobre:
Nem toda a noite a vida.

Já meu sangue estremece;
Veio uma asa ao lago.
Minha mão arrefece
Nestas coisas que afago.

Que maneira de amor
Fui, no menino ido!
Agora, seja o que for
Já no homem cumprido.

Até ao último fio
Poupei o dote divino.
O homem de Deus perdi-o;
Só salvei o menino.

Esse me leva e enche
Como uma onda do mar;
Minhas fraquezas preenche,
Que a grande força é brincar.

Já vai escurecendo;
O sangue para de arder.
Agora, o que digo acendo
Para não me perder.

 

Stabat mater

Estava a Mãe adorada
Ao pé da Cruz assentada,
De manto azul à cabeça.

Santas pérolas, seus olhos!
Pisa os cardos e os abrolhos,
Não se vê que desfaleça.

Alanceada, dorida,
Véu alvo, noiva perdida,
Lírio brando o seu José:

Ali o filho pendente,
Salus hominis doente,
Mas tem quem o chore ao pé.

Ó vergôntea de Davide,
Chora, chora, casta vide,
Sol ao cimo, Lua à face,

Considerando a turquês,
Martelo, pregos que vês,
E ninguém que te adoçasse!

O vos omnes qui transitis!
Cramar, que nos deixas quites
Com a origem do pecado!

Attendite et videte
Quamanha pena que mete
Virgem de peito rasgado!

Dolor sicut dolor meus,
Nenhuma: que em sete véus
Sangue de espadas coalhou.

Sudário de Santa Face
Que minha alma ensanguentasse,
Quem do linho o embainhou?

Os tamarindos secaram,
Os poços extravasaram,
O camelo unhas abriu,
A rede foi-se das malhas,
Quebraram todas as talhas,
A pomba o chumbo engoliu.

Que já sete espadas nuas,
Luas lêvedas, as tuas
Lírios dão ao roxo orvalho.

Ó amara fonte Dulce,
Não haver quem tas expulse
Das carnes que te retalho!

Manto branco de Bernardo,
Abre-te em mim como um cardo
Em flor, contra a tentação!

Espinho do meu Jesus,
Enche de sangue sem pus
Este duro coração!

Ó Maria Dolorosa,
Vela branca, doce rosa,
Tu, meu tato e minha vista,

Prima de Isabel, que a vias
Ao lado de Zacarias,
Cheia do santo Batista,

Dá-me dormir descansado
Como o peregrino chegado
À morte, vida perene,

E, em paga de um triste canto,
Recata-me no teu manto
Para todo o sempre. Ámen.

 

Terra de lume

Rezo, dobrado, aos Anjos da manhã.
O céu é fosco e o coração sonoro
Como a chuva que cai na telha vã
E o verbo com que imploro.

Terra de lume implanta
O meu corpo de velho
Enrolado na manta.
As minhas mãos estão postas ou podadas?
Sou gente ou vide?
O chão, com minhas folhas amontoadas,
Do Inferno me divide.

Mas rezo sempre, como o fio da fonte
Teima na rocha viva ao mar virada
Na esperança de que um cântaro desponte

E o apare ainda – ou a covinha breve
Que, temendo o queimor da água salgada,
Ele próprio em pedra abriu

Como na terra leve,
Ajudado dos álamos, o rio.

 

Pelo sinal de fogo

Da noite em que me fundo abro-me a Cristo
Pelo sinal de fogo da Caridade,
Mas perco-me até onde eu diga – e nisto
Vá eu sendo o que sou na minha idade.

Espero o quê? Meu osso?
Pois peixes! já que é mar o que bem ouço
Daqui, da praia longa e vida breve:
E disto apenas minha pena curta
Remando escreve
O que a água repetida à areia furta.

Oh, alta presunção do baixo querer!
(Me diz o pregador do verso bravo).
Ousadia verbal, jogo de morte!
Homem, do tempo escravo, doeu-te a sorte.

Prelúdio… Fiz apenas o prelúdio:
Toco a palavra como piano louco;
Ovelha tresmalhada, toco-a e toco-me,
E é o som tão oco
Em gado pouco!

Fala induzida pede-me pastor:
Cristo mo seja,
Eu não, que é ser o Amor.
Só perdido de si alguém dá lume
Como uma concha ao sol que não é ela:
Apago-me no rápido perfume
Da onda que me soa pla janela.

E silêncio. Aceitei. Para que torno
No sopro do meu bafo ao vivo arfar?
Entro com Deus no forno
Do meu ser. Oiço o mar.

 

Verbo e equívoco

Chamo verbo ao equívoco falado
Que em tábuas decorei de tempo e modo,
Mas o Verbo é unívoco e sagrado,
Junto a Deus, mesmo Deus, único e todo.

Lá do sempre arrancando e em nunca nado,
O eterno abarca o mundo e a vida a rodo:
É no que foi e no devir, tornado
Por amor novo Adão, limpo de lodo.

Desse Verbo que falo, mal declino
O caso do meu nome, nele divino;
Anónimo, sem ele, vagueio mudo:

Mas, chamem-no os vestígios da parábola,
E brilho como a pérola da fábula,
Homem, menos que nada e mais que tudo.

 

Prece

Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado,
Como quem deixa à porta o saco para o pão.
Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.
O que for, assim seja, à tua mão.
Tua vontade se faça, a minha não.

Senhor, abre ainda mais meu lado ardente,
Do flanco de teu Filho copiado.
Corre água, tempo e pus no sangue quente:
Outro bem não me é dado.
Tudo e sempre assim seja,
E não o que alma tíbia só deseja.

Se te pedir piedade, dá-me lume a comer,
Que com pontas de fogo o podre se adormenta.
O teu perdão de Pai ainda não pode ser,
Mas lembre-te que é fraca a alma que aguenta:
Se é possível, desvia o fel do vaso:
Se não é, beberei. Não faças caso.



 

SNPC
Imagem: D.R.
Publicado em 23.02.2018

 

 
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