
A culpa é nossa, dos crentes
A culpa deve ser nossa. Dos crentes. Só pode! Não fosse o nosso ar acabrunhado e o nosso andar absorto e circunspecto, arrastando-nos, por aí, macambúzios, em passo e subida ao calvário e aquele slogan já não seria possível. Fôssemos todos nós mais Agostinianos e conseguiríamos, como ainda hoje conseguem as geniais confissões do grande Santo, não apenas converter um ou outro intelectual ou político influente, aberto à reflexão e descoberta como Barack Obama, por mais agnóstica que tivesse sido a respectiva educação, mais a conversão de muito mais Baracks e outros tantos Obamas. Fosse maior e mais operacional a nossa fé e ver-se-iam aflitos os que quisessem derrubar a nossa esperança. O "Ama e faz o que quiseres!” de Santo Agostinho continua a ter uma força mobilizadora bem mais forte do que o débil apelo da propaganda ateísta dos autocarros de Londres ou Barcelona quando propõem: “PROVAVELMENTE, DEUS NÃO EXISTE. Deixa de preocupar-te e desfruta a vida!”!
Este apelo, sem horizontes, à mediania, à desresponsabilização, ao individualismo, ao carpe diem mais conjuntural, serve que nem luva à contestação de uma ideia de Deus infantil, ridícula e caricatural. Um Deus que nos pesa e preocupa, e não um Deus que nos liberta exactamente das cargas arrastadas dia-a-dia numa vida sem dimensão nem sentido. Reduzida ao detestável metro-boulot-dodo, contra o qual se rebelavam, nos idos de 68, estudantes e intelectuais sedentos, pelo menos, de um make love, not war mais criativo.
Fôssemos nós capazes de mostrar que o desafio dos crentes é tão total que passa por Amar sem limites o próprio Amor, vendo não apenas em nós, mas em cada um dos outros, a Sua própria imagem e estaríamos conversados. Não há proposta de felicidade mais avassaladora.
Devíamos envergonhar-nos da ideia que damos d’Ele e de nós, em vez de nos queixarmos da ignorância e da má-fé à nossa volta: Do preconceito que deixamos crescer em torno daquilo em que cremos. Como é possível que a ausência de Deus possa ser vista como motivo de despreocupação?
Logo nós, que devíamos ser vistos como os menos preocupados dos viventes por maior que seja a crise. Nós que acreditamos na promessa de Deus (Mt. 6): “Olhai os pássaros do céu: eles não semeiam, não colhem, nem juntam em armazéns. No entanto, o Pai que está no céu alimenta-os. Será que não valeis mais do que os pássaros? (...) Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Porém, eu digo-vos: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Ora se Deus assim veste a erva do campo, (...), muito mais ele fará por vós, gente de pouca fé!”
Pouquíssima. Senão nem precisaríamos de continuar: “Não fiqueis preocupados dizendo: Que vamos comer? Que vamos beber? Que vamos vestir? Os pagãos é que procuram essas coisas (...) não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá as suas preocupações. Basta a cada dia a própria dificuldade”. Ou seja, não se propõem facilidades, apenas se garante a superação das dificuldades, dia-a-dia, sem excessos de preocupação. Querem garantia mais “destressante”?
Pior ainda é o passarmos a ideia de que tudo o que fazemos é fruto de uma preocupação constante em torno da conquista do prémio ou do temor do castigo. Que ideia caricatural da fé têm esses activistas ateus ao considerarem que à certeza de uma felicidade eterna se pode contrapor, com vantagem, um banquete permanente em torno de um magnifico prato de lentilhas?
Se “PROVAVELMENTE DEUS NÃO EXISTE” (em maiúsculas para evitar a referência ao Deus das religiões monoteístas), importam-se de nos dizer qual a margem de certeza que sustenta a conclusão? Concluíram que há 50% de hipóteses da sua não existência? Ligeiramente mais...? Um pouco menos...? A base de certeza é a mesma que levou uma série de génios, a anunciar, com pompa e circunstância, a morte de Deus? Os tais que se foram finando antes mesmo de chegarem a tempo ao enterro divino.
Sobre as cheias de Santa Catarina teria dito o presidente Lula que, antes de tudo, era preciso “rezar” para que parasse de chover. Comentava sobranceiro o diário onde li a notícia (cito de memória): em frases como esta Lula revela, uma vez mais, a sua origem humilde. Haverá coisa mais lúcida do que um governante reconhecer a impotência face à avassaladora fúria da natureza impossível de controlar? Mas essa lucidez parece ao comentarista simples reflexo da “ignorância” bebida da cultura popular das favelas pobres.
Como se culto e desenvolvido desembocasse fatalmente em céptico e descrente. O mesmo estereotipo a que não fogem aqueles que não conseguem ver na fé na Eucaristia outra coisa que não seja um resquício de uma repugnante cultura canibal. Um Deus que se faz homem já escandaliza. Um que se faz coisa inerte para ficar à nossa mercê torna-se intolerável. Assim reagiam às propostas do próprio Cristo os muito religiosos do seu tempo que até aí fielmente o seguiam. Foi essa, já então, a pedra de escândalo. Estamos habituados.
Pior do que existirmos seria ver-nos felizes. Porque esse espectáculo de felicidade tornaria a própria crença uma ameaça. Porque a felicidade arrasta, converte, cria no descrente uma espécie de inveja que leva à reflexão, à interrogação criativa sobre o destino do Homem e do Universo. Trazemos impresso no nosso ADN a busca incessante da felicidade. Até no Mal mais absoluto é o Bem que buscamos. Percebe-se, assim, que combater a ideia de Deus passe por aí. Por conotá-la com o peso de uma preocupação que nos impede de desfrutar a Vida que lhe devemos. Senão, corre-se o risco de levar a pensar: “Provavelmente Deus existe e vale a pena agradecer-lhe estar vivo e desfrutar desta Vida, não apenas aqui (que é coisa breve) mas eternamente.”
Graça Franco
in Público, 16.01.2009
30.01.2009
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