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A Paixão segundo Fernando Pessoa

Fernando Pessoa escreveu uma série de 14 sonetos, que intitulou Passos da Cruz e que publicou na revista Centauro, em 1916.

Mais tarde, na edição dos Poemas de Fernando Pessoa preparada por A. Casais Monteiro para a editora Ática, esses sonetos foram mantidos como um conjunto com unidade e autonomia, o que lhes vem do título comum, do uso dum mesmo metro, da mesma forma fixa, o soneto, do mesmo estilo, da numeração que vai de I a XIV e que evidencia a sua seriação e a ligação entre todos. (...)

Trata-se, evidentemente, dum texto alusivo à Via Sacra e às suas catorze estações. Mas para além do título e do número de poemas, nenhum outro elemento faz explicitamente referência à paixão de Jesus ou à devoção da Igreja.

O estudo (...) que realizei permite-me contudo dizer que se trata dum texto em que F. Pessoa enuncia a sua própria paixão – no sentido de doença e de sofrimento passivamente vivido – sobre o fundo da paixão de Jesus Cristo. (...)

O único caminho de acesso ao desconhecido e de busca do sentido foi o da poesia: “Há um poeta em mim que Deus me disse”.

É isso que faz nos poemas dos Passos da cruz, poemas que dizem o esquecimento, o sem sentido, a ignorância em que a vida mergulha; mas no meio da qual o poeta percebe cintilações, assomos, fragmentos de luz. Mas trata-se de clarões entrevistos no subterrâneo, na gruta onde está soterrado e acorrentado (como no mito da caverna de Platão, aliás evocada no soneto IV), fulgurações que tanto podem ser indícios da verdade salvadora, como brilhos de jóias artificiais e enganadoras. (...)

Fernando Pessoa interroga a paixão de Cristo como forma de entender a sua própria paixão. Assim, cada «estação» é interpretada em clave pessoana, e estabelece-se uma aproximação entre a paixão de Jesus e situações que o poeta vivencia: desde o desconhecimento a que a vida condena, e da busca – mas às cegas – que através da poesia se faz (poesia que é um destino e uma cruz), passando por “quedas”, enganos, quimeras; e também por indícios, reminiscências, sombras e gritos, o percurso do homem passa pela interrogação sem resposta, pela visão fragmentada e dispersa, pela tomada de consciência de erros e de enganos; e finalmente, pelo despojamento dos sentidos desejados ou imaginados, pela submissão à dor, pela travessia do “fim”.

A determinação da relação entre a Via Sacra e os catorze sonetos – que revela uma espiritualidade cristã, mas de cariz gnóstico – suscitou a possibilidade de uma encenação, que esta obra propõe.

 

Maria Vitalina Leal de Matos
In A Paixão segundo Fernando Pessoa - Guião para um espectáculo, ed. Colibri
29.06.09

Capa

A Paixão segundo
Fernando Pessoa

Autora
Maria Vitalina Leal de Matos

Editora
Edições Colibri

Páginas
58

Preço
€ 9,00

ISBN
978-972-772-897-8

 

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