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1810-2010

Cristianismo e secularidade: dois séculos de encontros e desentendimentos

O Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, acaba de publicar “1810-1910-2010 Datas e Desafios” (Assírio e Alvim, 2009), reunindo um conjunto de ensaios de diferentes proveniências, que ganham aqui uma especial coerência, pelo que constituem uma excelente oportunidade para realizarmos uma reflexão sobre o cristianismo e a história portuguesa. Com argúcia e inteligência, o autor parte do seu ofício original de historiador para deambular, com segurança, por um conjunto bastante diversificado de temas, invariavelmente ligados à procura da relação entre o cristianismo e a nossa identidade, como referenciais abertos, ancorados em raízes profundas, que são analisadas de um modo atraente e motivador. Confirmando o que já lhe conhecemos na desenvoltura da palavra e na capacidade de exprimir com clareza e ritmo as ideias, temos nesta obra um exemplo de boa exposição e de boa pedagogia.

 

Três datas

As três datas referenciais que fazem o título do livro são significativos pontos de partida para as reflexões com que D. Manuel Clemente nos brinda. “1810 foi a 3ª Invasão Francesa, derradeiro episódio duma guerra que pôs fim a muito do que Portugal fora até aí, na política, na economia, na sociedade, na cultura e até religiosamente”. Houve a invasão, a devastação, mas também a chegada dos “princípios de 1789”, correspondentes ao ideário e ao sentimento liberais. Abriu-se caminho à que viria a ser a Revolução de 1820, e o ensaísta salienta o que se seguiu no plano religioso, desde a extinção das congregações à reconstituição da Igreja no quadro do constitucionalismo. Mas (lembrando a investigação que fez exaustivamente), salienta, por exemplo, que o movimento católico entre 1840 e 1910 teve personalidades importantes que souberam dialogar com a sociedade liberal, “em cujo espírito em parte participavam”. Lembramo-nos do Conde de Samodães, cujo percurso eclesial e cívico é bem conhecido de D. Manuel Clemente. E é muito curiosa a citação do Duque de Saldanha, segundo a qual “tudo o que há de bom e verdadeiro” nas máximas da Revolução francesa é “cristão e foi proclamado pelo Cristianismo”. “Em 1910, a República, enquanto mudança de regime, não trazia grande problema ao Catolicismo português, que soubera encontrar algum ‘espaço’ próprio, fora das conotações políticas”. E se muitos católicos apreciavam a República como regime para superar os impasses existentes, a verdade é que ocorreu a “questão religiosa” suscitada pelo laicismo da Lei de Separação e pelos excessos radicais penalizadores. Porém, sobretudo depois de 1913, houve tentativas para inverter este estado de coisas. “Os católicos da República procuraram que esta respeitasse a Igreja e contasse com ela para a ‘regeneração’ do país, ideal que igualmente compartilhavam e passaria pela generalização da educação e da participação cívica e política, pelo desenvolvimento económico e pela afirmação de Portugal no mundo”. As celebradas “Cartas a um Abade” de Abúndio da Silva são, aliás, ilustrativas desta atitude. A liberdade civil e religiosa deveria ser adoptada e o “reflorir” da Igreja obrigaria não a um retorno mas a progressos. Já “em 2010, confrontamo-nos, enquanto católicos, com outros desafios, podendo resumi-los assim: individualismo ‘pós-moderno’ na cultura, retraindo as expectativas à compensação imediata de cada qual; e grande frustração social e económica, perante a crise global”. De um lado, a crise das ideologias herdadas, de outro, o peso da indiferença relativamente aos outros e do efémero.

 

Cristandade e secularidade

O grande tema perante o qual nos encontramos, e que está especialmente presente neste livro, tem a ver com a inserção do fenómeno religioso, a partir de relações saudáveis entre o sagrado e o profano, numa sociedade na qual coexistem elementos paradoxais, que envolvem a distância ou a recusa em relação à religião, mas também uma evidente dificuldade em lidar com o vazio que resulta da indiferença reinante. Afinal, a dignidade humana exige a liberdade religiosa, não encarada de forma defensiva, mas como factor positivo de criatividade e de emancipação. E cabe lembrar que a palavra religião conduz-nos à ideia de coesão (re-ligare) mas também à exigência de reflexão (re-legere). Num texto de grande densidade e nitidez, exactamente sobre a cristandade e a secularidade, o autor procede a uma análise da evolução das relações entre Deus e César desde os primórdios do cristianismo, passando pela transição, durante o Império, de religião perseguida ou tolerada a religião imperial, seguindo-se a cristandade medieval, as perspectivas contemporâneas da liberdade religiosa e os caminhos abertos pelo Concílio Vaticano II. “A secularidade, a consistência do mundo é assim e antes de mais objecto do respeito por parte do cristão, que nela aceita a própria realidade e consistência da criação, herança comum e inquestionável de todos os homens, crentes e não-crentes. Mais: é nessa secularidade que o homem se salva, enquanto cumpre o seu destino concriador, começando pelas coisas mais imediatas e comezinhas”. E isto tem de ser entendido no seio de uma sociedade aberta e pluralista. Afinal, se para o cristianismo o mistério da encarnação nos conduz à valorização da vida concreta e do compromisso, a partir da dignidade da pessoa humana, a liberdade religiosa permite a compreensão de que há vários caminhos e várias moradas e que a secularidade permite compreendê-lo e assumi-lo melhor, como fulcro para que Cristo seja “diante de cada pessoa um apelo constante à consciência, despertando-a, formando-a e reformando-a, mas nunca coagindo e ultrapassando”.

 

Espírito e esperança

Interrogando-nos sobre a cultura portuguesa, não podemos deixar de pensar nos “milenarismos” e na importância do Espírito, e importa não esquecer a influência de Joaquim de Flora, do franciscanismo, da ideia judaica de povo escolhido ou das reminiscências que vêm dos mitos do “Desejado” e do “Quinto Império” de Vieira. D. Manuel Clemente situa o tema nos seus justos termos. E encontra um movimento, de Hegel, Schelling a Comte e tutti quanti, em que “o Espírito / espírito se foi desligando de Cristo e da Igreja, para se ligar ao homem e à humanidade, como afirmação própria e progresso geral”. Mas, é indispensável distinguir a ambiguidade que está em causa, pondo de um lado o pensamento enraizado e o compromisso social, e do outro o corpo místico e o sentido profético – e procurando entender as inter-influências entre ambos. Pegando no “aggiornamento” de João XXIII e no “reformismo conciliar”, podemos, aliás, encontrar, citando Etiènne Fouilloux, cinco aspectos, com repercussões para além das fronteiras eclesiais: restauração das fontes da fé cristã (sobretudo a Escritura); recentramento da mensagem em torno de Cristo; modificação da apresentação da Igreja como Povo de Deus, rumo à salvação (em lugar de uma sociedade hierárquica, desigual e perfeita); abertura ao diálogo com cristãos não-católicos, com religiões não cristãs e com não-crentes; e apresentação de várias maneiras de exprimir a fé. E o magistério de João Paulo II (um Papa “na última fronteira”) merece ser referido, até pela importância do encontro de Assis de 27 de Outubro de 1986 (e das suas consequências e aprofundamentos), com elevado conteúdo profético, ainda não plenamente compreendido. Uma bela invocação!

 

História ou profecia?

E Portugal? D. Manuel Clemente tem insistido na necessidade de compreender que a nossa suposta “capacidade de adaptação” não pode fazer-nos esquecer as nossas próprias raízes e especificidades. Uma coisa é a capacidade de nos enriquecermos em contacto com os outros, outra diferente é descaracterizarmo-nos… E recorda que “as leituras providencialistas da história portuguesa são tão antigas como a própria nacionalidade”. Basta percorrermos a nossa cronologia para vermos a ilustração disso: Ourique, Aljubarrota, o compromisso de Vila Viçosa depois de 1640, Fátima…E, sem abusivas intromissões ou confusões, do que se trata é de entender o seguinte: “quando a nossa consciência comunitária venceu em Aljubarrota as leis da sucessão senhorial e se manifestou na geografia da expansão e na arte dos painéis de S. Vicente, também a história de Portugal começou a buscar em Deus a chancela que o nosso primeiro rei procurara mais prosaicamente no reconhecimento papal”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Presidente do Centro Nacional de Cultura
In Centro Nacional de Cultura
15.06.09

Capa







































































































 

 

 

 

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