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Entrevistas

Em que acreditam eles?

Antonio Monda é correspondente do jornal La Repubblica em Nova Iorque, cidade onde vive há quase 15 anos. Especializado em cultura, com particular destaque para o cinema, este italiano já teve a oportunidade de conversar e privar com uma enorme variedade de autores, actores, artistas, realizadores e intelectuais americanos.

Entre 2002 e 2003 contactou várias destas figuras com uma proposta, para muitos, desconcertante. Uma conversa franca sobre Deus, sobre as suas visões da religião, as suas experiências de fé. Muitos aceitaram, alguns com uma abertura surpreendente.

O resultado é um livro, curto e simples, com os pontos mais interessantes desses diálogos. Paul Auster, Saul Bellow, Jane Fonda, Salman Rushdie, Martin Scorsese e Eli Wiesel são apenas alguns dos autores que partilham connosco um pouco do seu percurso em “Acreditas? Conversas sobre Deus e a Religião”, editado em Portugal pela Lucerna (136 páginas, € 11).

Monda é Católico, e não esconde a importância que a religião tem na sua vida. No meio em que se move, a abertura com que vive a sua fé é pouco comum. Mais do que causar desconfiança, termo que considera demasiado forte, os seus interlocutores tendem a ficar intrigados. Mas não se pense que este é um livro “beato”, com intenções apologéticas. Monda não foi à procura de personalidades crentes e o resultado é que pouco mais que uma mão cheia confessam sê-lo.

Entre estes encontramos algumas surpresas. Jane Fonda, filha do militantemente ateu Henry Fonda, que sempre lhe ensinou que a fé era uma muleta para os fracos.

«Descobri a grandeza do universo cristão muito recentemente e fiquei surpreendida com a dimensão da ignorância que há a respeito dele. Ignorância que, até há alguns anos, era apanágio também de mim própria.» Considera Jesus o primeiro feminista, e revela-se atraída também pelos aspectos menos ortodoxos da tradição cristã.

 

A Fé Ferida do Sobrevivente

De todos os que se afirmam crentes, o que mais tocou o coração de Monda foi o judeu Ellie Wiesel. Curiosamente, as primeiras duas conversas no livro são com judeus (o que é uma coincidência, pois as entrevistas estão organizadas alfabeticamente), Paul Auster e Saul Bellow. Embora o primeiro seja ateu e o segundo diga que acredita em Deus, a leitura das conversas reforça o estereótipo que já existe a respeito dos intelectuais judeus americanos. Homens para quem a cultura e a tradição judaica é muito importante, e omnipresente na sua obra, mas que se mostram ou descrentes ou fortemente cépticos de qualquer crença em Deus. Bellow, por exemplo, diz: «Acredito em Deus, mas não o incomodo». À luz disto a fé de Ellie Wiesel é uma lufada de ar fresco. Ele que sobreviveu ao Holocausto, tendo por isso talvez mais razões do que muitos para duvidar da existência de um Deus benevolente. Quando Monda lhe pede para definir a sua fé, a resposta abala. Lembrando um ditado hassídico: “Nenhum coração é tão inteiro como um coração partido”, Wiesel faz uma paráfrase: a fé dele é uma fé ferida, e nenhuma fé é tão sólida como uma fé ferida.

Wiesel lembra ainda a influência que François Mauriac teve na sua vida, afirma que foi um escritor apaixonado por Cristo que o levou a querer ser também escritor, e lembra uma dedicatória que Mauriac lhe fez numa obra: “A Eli Wiesel, criança judia que foi crucificada”. «Num primeiro momento, levei isto a mal, mas depois compreendi que era a forma que ele tinha de me fazer sentir o seu amor.»

 

Os Descrentes e os Cépticos...

Como seria de esperar, a maioria dos entrevistados cai no campo do agnosticismo. Martin Scorsese, por exemplo, não tem dúvidas em dizer que «O catolicismo assumiu uma importância extraordinária em toda a minha vida, e diria que o meu cinema se tornaria inconcebível sem a presença da religião.» Mas quando Monda lhe pergunta abertamente se acredita ou não em Deus, evita responder, acabando por dizer que o catolicismo faz parte da sua cultura.

Spike Lee também reconhece a importância da sua educação Baptista, mas confessa que nunca sentiu um momento em que tivesse fé, preferindo antes dizer que acredita “numa entidade superior”.

Finalmente, existem os que não acreditam de todo. Destes, o que mais se destaca é Salman Rushdie, que assume a dupla importância de ser também o único elemento entrevistado que se pode enquadrar no universo muçulmano. Tal como Auster, Rushdie não acredita, mas vai mais longe e diz que a única solução para os conflitos no mundo é acabar com a religião. Grace Paley sente-se fascinada pela Bíblia, mas apenas de um ponto de vista historico-literário, e não acredita em Deus. Quando Monda lhe pergunta se acredita na vida depois da morte, responde com firmeza: “Obviamente que não. E quem to diz é uma pessoa de oitenta e três anos, ciente de que não lhe resta muito tempo para viver. No momento em que exalar o último suspiro, acabará tudo.”

 

...e os que ficaram de fora

Uma obra destas marca pelos nomes que contém, mas também pelos que estão ausentes. Monda lamenta as únicas duas rejeições que obteve, Hillary Clinton e Condoleeza Rice. Lamenta ainda não ter conseguido falar com Arthur Miller e com Susan Sontag, que morreram antes de surgir uma oportunidade. Mohammed Ali teria sido interessante, não só pelo percurso de vida mas também pelo facto de reforçar o lote de muçulmanos entrevistados, mas infelizmente o estado de saúde do boxeur não lhe permitia participar. De resto, gostaria de ter falado com Steven Spielberg, um judeu cuja obra está fortemente atravessada por temas cristãos, e com Woody Allen que, sendo ateu, aborda constantemente a ideia que Dostoievsky de que “Sem Deus tudo é permitido”.

Como falar de actores ou realizadores e de religião sem pensar em Mel Gibson? A opinião de Monda é muito interessante a este respeito. Considera que “A Paixão de Cristo” não é um filme bonito, nem pretendia ser. Também não o considera um filme anti-semítico, mas acusa-o de ser um filme herético. «Se a heresia se pode definir como o pegar numa verdade da fé e considerá-la a única verdade, então é um filme herético, porque para Gibson a fé não passa de sofrimento e violência. O sofrimento e a violência fazem parte da fé, mas esta é mais do que isso.»

Num país em que 90% da população se define como crente, um valor astronómico para um país ocidental desenvolvido, Monda nota com curiosidade que, quanto mais se sobe na escala cultural, intelectual e social, mais esses números se invertem. A verificação dessa diferença fá-lo pensar numa das frases mais enigmáticas de Cristo. “Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos.” (Mt. 11, 25).

«Talvez a inteligência e a fama não sejam o mais importante, afinal» comenta, pensativo, Antonio Monda.

Filipe d'Avillez

© SNPC - Publicado em 22.01.2008

 

 

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Capa do livro

Acreditas?
Conversas sobre Deus
e a religião

Autor
Antonio Monda

Editora
Lucerna (Principia)

Páginas
136

Data
2007

Preço
€ 9,90

ISBN
978-972-8835-39-2



Martin Scorcese
Martin Scorsese


Elie Wiesel
Elie Wiesel


Mohammed Ali Mohammed Ali


Paul Auster
Paul Auster


Salman Rushdie
Salman Rushdie


Jane Fonda
Jane Fonda


Spike Lee
Spike Lee

Saul Bellow
Saul Bellow
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