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Fotografia

Do mar veio, ao mar voltará

Duarte Belo foi à ilha do Faial, nos Açores para fotografar a paisagem dos Capelinhos. Uma selecção das imagens do livro Fogo Frio está na Kgaleria, em Lisboa.

O mar de caras e o céu como um espelho. Uma fotografia não é uma imagem sem movimento: ela embate contra nós, com força marcial.

A história dos Capelinhos começa aí, no mar: na madrugada de 27 de Setembro de 1957, a erupção veio do mar, e o Vulcão dos Capelinhos só se extinguiu 13 meses depois. Cinquenta anos mais tarde, em 2007, Duarte Belo (Lisboa, 1968) esteve na ilha do Faial, nos Açores, a convite da Câmara Municipal da Horta, para fotografar a paisagem que o vulcão deixou para trás – uma extensão de poeira preta numa das pontas da ilha.

"Os Capelinhos têm uma coisa muito fascinante, que é o facto de serem um pedaço de paisagem que tem mais ou menos a nossa idade", diz o fotógrafo ao Público. "Uma paisagem nova, formada a partir do mar, e que neste momento está num processo de erosão acelerada. Já perdeu quatro quintos da sua área."


Os Capelinhos vieram do mar e ao mar estão a voltar. Num curto período de tempo, uma paisagem pode aparecer e desaparecer – o que "tem mais a ver com as construções humanas do que com um processo natural", conclui o fotógrafo que veio da arquitectura.


As fotografias dele deram um livro, Fogo Frio - O Vulcão dos Capelinhos, editado em Outubro do ano passado pela Assírio & Alvim. Uma selecção dessas imagens vai estar a partir de hoje na Kgaleria, numa exposição comissariada pelo também fotógrafo Valter Vinagre.


Duarte Belo conhecia os Capelinhos de uma visita prévia, em 2006, no âmbito do projecto Portugal Património, um arquivo visual do território nacional de mais de 800 mil fotografias. Mas em 2007 ficou mais tempo, o que lhe permitiu "incidir mais sobre o detalhe".


Se as suas imagens registam uma paisagem transitória – o declive de areia preta parece mesmo uma ampulheta -, existe nelas uma frontalidade ancestral: uma cratera rochosa parece a barriga da terra, pedaços de madeira descorada pelas águas repousam na areia vulcânica como ossadas de uma escavação arqueológica, pedras a serem pedras (testemunhas da ausência de tempo). Isso e a quase total ausência de figuras humanas deixam a impressão de que nós é que estamos a ser olhados (pela matéria).

“Desde o dia 16 de Setembro de 1957 que se sentiam, com alguma intensidade, tremores de terra na ilha do Faial. Seria o início de mais uma crise sísmica, que nos Açores é um acontecimento regular. Não eram sismos de grande magnitude, mas deixavam as populações da ilha num elevado estado de ansiedade, pois não se adivinhava a evolução dos abalos, estando sempre presente episódios mais ou menos dramáticos na mente das populações. A partir do dia 20 os abalos aumentaram de intensidade, mas não ultrapassaram o grau V da Escala de Mercalli.

Pensou-se, inicialmente, ser uma ou várias baleias em trânsito ao largo da ilha, mas o borbulhar no oceano relativamente próximo dos ilhéus dos Capelinhos, no extremo ocidental da ilha do Faial, local do epicentro dos mais de duzentos sismos entretanto sentidos, observado no dia 27 de Setembro, cerca das 6h45, viria s revelar-se ser algo bem diferente. O fenómeno é prontamente detectado. Nas proximidades existia um posto de observação de baleias, bem como o Farol dos Capelinhos, inaugurado em 1903. Momentos após o movimento estranho das águas ser detectado, começam a ser observados fumos de progressiva intensidade a sair do mar. Ao fim do dia, o vapor de água e as cinzas negras atingiam 4000 metros de altitude e eram visíveis de todas as ilhas do grupo central do arquipélago dos Açores. Eram as primeiras manifestações de um vulcão submarino, que se começava a erguer de uma profundidade de cerca de 70 metros.

A partir de Abril de 1958 a actividade vulcânica sofre alterações consideráveis. Parece dar-se uma progressiva subida de lava na chaminé vulcânica, ainda não visível. Na noite de 12 para 13 de Maio, uma violenta crise sísmica, com cerca de 450 abalos, provoca o pânico generalizado nos habitantes da ilha do Faial. Estes sismos não têm um epicentro comum, deixando mtever a complexidade do fenómeno que esteve na origem do vulcão dos Capelinhos que, seguidamente, entra numa fase de fortes explosões e emissão de lavas que chegam a subir a 500 metros de altitude.

Num aumento progressivo das suas dimensões, o cone vulcânico atinge os 144 metros de altura. Em vários pontos da ilha há fracturas no solo e deslizamentos de terras e derrocadas nas falésias sobre o mar. Toda a metade ocidental da ilha é afectada e as habitações que não ruíram ficaram muito destruídas. O barulho provocado pelas explosões é ouvido na ilha das Flores, a 220 quilómetros de distância. Na Caldeira, no ponto mais elevado da ilha são observadas fumarolas. O grande vulcão, o coração da ilha, parecia estar a despertar de uma dormência muito anterior à presença humana na ilha. Na madrugada do dia 13, toda a população do Faial estava no porto da cidade da Horta, pronta para uma evacuação de emergência para a ilha do Pico, o que acabaria por não acontecer, pois a crise vulcânica começaria a regredir a partir desse momento.

No dia 24 de Outubro são observadas as últimas explosões nos Capelinhos. Até à actualidade não mais foi observada actividade vulcânica na ilha do Faial, sem no entanto, ocasionalmente, se sentirem abalos de terra. O vulcão adormecia, mas uma falha geológica ligeiramente aberta e muito extensa ainda hoje liberta fumo e calor que vem do interior da terra: um movimento lento das placas tectónicas con­tinua sem cessar.

O Vulcão dos Capelinhos é ainda hoje um dos mais bem conhecidos e estudados em todo o mundo. Apresenta particularidades únicas. Foi um vulcão observado desde a fase do seu aparecimento como vulcão submarino, para evoluir, posteriormente, para um vulcão terrestre. Com uma actividade invulgarmente longa, cerca de treze meses, conta-nos a história de como se formaram as ilhas açorianas e também um pouco da história da Terra."

KGaleria: Rua da Vinha, 43-A (Bairro Alto); tel: 21 343 16 76. De 4.ª a sábado, das 15h00 às 20h00.

Kathleen Gomes | in Público, 05.02.2009

Com texto e imagens de Fogo Frio, Duarte Belo (Assírio & Alvim)

09.02.2009

 

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