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Justiça social

D. José Saraiva Martins: o escândalo da fome em sociedades opulentas

Vivemos numa "sociedade opulenta" e depois deparamo-nos com "esta realidade triste, vergonhosa, onde morrem milhões de irmãos à fome". É desta forma que o cardeal português, D. José Saraiva Martins, que preside hoje e amanhã às celebrações do 13 de Maio em Fátima, caracteriza o estado actual da sociedade no mundo. Colocando o enfoque nos países ocidentais, onde considera que a situação de pobreza ainda é menos admissível do que nas áreas do globo menos desenvolvidas.

Defende, por isso, que é preciso "proceder a uma distribuição social dos bens que a Terra produz", porque "são de toda a humanidade, não deste ou daquele que se arrogue seu proprietário". O prelado alerta "os responsáveis mundiais" - declarando ao mesmo tempo a incapacidade da Igreja Católica para intervir directamente - para o que considera "o escândalo da fome" na sociedade contemporânea, algo "intolerável e inadmissível". Para si, a actual carência de alimentos para milhões de pessoas "quer dizer que alguma coisa não funciona" e apela aos "responsáveis para que ponham os olhos neste problema e o resolvam porque todos os homens têm direito uma vida digna".

A Igreja "não pode substituir os políticos", sublinhou, ao ser confrontado com perguntas dos jornalistas, num encontro informal ontem à tarde. "Pode levantar a voz e recordar o dever de obediência a certos princípios", diz, mas julga que a separação entre a religião e a política "deve manter-se como até aqui". "A Igreja faz o que pode e não pode ir mais além", justificou. Ressalva, ainda assim, que a Igreja pode e deve manifestar-se dizendo que "estes problemas como a fome" ou a "proibição" do governo da antiga Birmânia de entrar ajuda externa à população constituem "uma violação dos direitos humanos". Aceita que pode entender-se neste contexto a mensagem que pretende deixar aos peregrinos neste 13 Maio em Fátima, no qual inclui o tema da família, negando, embora, qualquer intenção de comentar os assuntos internos do País no que toca às leis que estão no topo da actualidade nacional como a do divórcio.

Jacinta Romão

in Diário de Notícias, 12.05.2008

12.05.2008

 

 

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