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Memoriais em Lisboa

DIálogo, tolerância e perdão entre a Igreja Católica e a Comunidade Judaica

Escrevo esta crónica no dia em que teve lugar em Lisboa um acontecimento inédito: a inauguração de um memorial conjunto da comunidade judaica e da Igreja Católica, evocativo do trágico massacre de judeus/cristãos novos em 1506.

O que é inédito não é apenas a evocação pública de um dos piores momentos da história judaica em Portugal. Com efeito, e como já aqui [no Público] foi bem documentado pelo jornalista António Marujo, a “Matança de Lisboa”, ou “Matança da Páscoa”, como ficou conhecido este triste episódio, no seguimento das conversões forçadas de 1497, levou ao massacre de alguns milhares de homens, mulheres e crianças, pelo simples facto de serem suspeitos de judaísmo. A violência do massacre foi tal que levou D. Manuel I a retirar a Lisboa durante um ano o título de “mui nobre e sempre leal”.

Mas o que é de facto inédito nesta evocação é ela ser um memorial a duas vozes, precisamente as vozes que há 500 anos representaram perseguidos e perseguidores, e que hoje, ao mesmo tempo que celebram a memória, dão um testemunho simbólico de uma nova relação de convivência fraterna.

Perguntaram-nos: porquê e para quê este memorial? Ao fazer a proposta em 2006 de instalação de um memorial no Largo de São Domingos, local do massacre, a comunidade judaica tinha em mente prestar uma homenagem à memória das vítimas dando ao mesmo tempo a conhecer aos lisboetas este momento da sua própria história. Continua a ser este o significado do memorial judaico. Mas a colaboração imediata da Igreja Católica, propondo, pela voz do padre Peter Stilwell, uma evocação conjunta – com um contributo próprio lembrando as palavras do cardeal patriarca no ano 2000 – confere a este memorial um sentido mais vasto, permitindo, através da voz das pedras, um face-a-face em diálogo permanente. E este diálogo é essencial: para compreendermos a sua dimensão basta lembrarmo-nos das consequências da sua ausência.

A comunidade judaica mundial celebra neste momento a Pessah, a Páscoa judaica – que evoca a fuga dos filhos de Israel da escravidão do Egipto. É pois uma festa religiosa centrada na memória e na sua transmissão: “Em cada geração, todo o judeu deve sentir-se como se ele próprio tivesse saído do Egipto”, ordena a Torá. Mas a comemoração dessa data não se destina a alimentar o ressentimento ou a vitimização, mas sim a lembrar um acontecimento que veio abrir um novo capítulo na história e constituição do povo judeu. Da mesma forma, o memorial hoje inaugurado não visa alimentar o ressentimento histórico, ou a reanrir qualquer controvérsia entre judeus e cristãos, mas sim testemunhar de novo e amigável relacionamento judaico-cristão.

Como afirmou na cerimónia pública de inauguração, Eliezer Shai, o rabino da comunidade israelita, a reconciliação entre judeus e católicos não significa apenas “fazer as pazes”, mas sim trabalhar em conjunto para implementar os valores judaico-cristãos que moldaram a civilização ocidental. Significa também o esforço comum para afirmar “que a religião e as suas instituições são interlocutores legítimos no diálogo sócio-cultural e que Deus pode e deve participar na vida do dia-a-dia”. Numa época em que tantas vezes se confunde laicização do Estado com a laicização da sociedade, em que se confunde o fim da promiscuidade da religião e do poder político, que tanto mal causou e ainda causa em muitas zonas do globo, com o silenciar da religião no espaço e no debate público, não é de mais lembrar que as religiões têm algo a dizer sobre tudo o que diz respeito à humanidade.

É por isso também de salientar o facto deste memorial hoje inaugurado, produto da colaboração de duas entidades religiosas, se encontrar em espaço público e com o apoio e contributo da Câmara Municipal de Lisboa, entidade oficial do Estado laico, que assim entendeu que a Lisboa de hoje, para além da sua diversidade cultural e étnica, é também um espaço de liberdade religiosa onde a livre expressão das confissões religiosas em nada contraria o carácter laico da autarquia. O belo mural camarário exposto no Largo de São Domingos, nomeando Lisboa como “cidade da tolerância”, em trinta e quatro línguas diferentes, representa o compromisso da autoridade municipal para com uma população cada vez mais diversa, do ponto de vista cultural, étnico e religioso.

Bloqueado durante dois anos pela gestão camarária anterior por razões que a razão desconhece – até porque não lhe custaria um tostão – provavelmente bloqueado nalguma gaveta por incúria ou eventualmente pela origem “religiosa” do projecto, a realidade é que foi a actual gestão camarária a entender o significado deste memorial e a mais-valia que representa para Lisboa. Está pois de parabéns o presidente da Câmara de Lisboa e os vereadores que tornaram possível a sua concretização.

Para que as pedras tenham voz é preciso pô-las a falar. E isso só os humanos o podem fazem: porque não levar escolas e grupos de pessoas ao Largo de São Domingos, de modo a que conheçam um pouco mais da sua história e possam assim reflectir em concreto sobre o significado dessa palavra hoje tão banalizada – tolerância?

 

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Ester Mucznik

Investigadora em assuntos judaicos

ín Público, 24.04.2008

05.05.2008

 

 

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