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«Novo Memorial do Estado Apostólico»: à descoberta de Ordem dos Lóios

Quando estudei História de Portugal, depois da «Crise de 1385», havia Ceuta, o Infante D. Henrique e a «Ínclita Geração», os Descobrimentos, Alfarrobeira, as conquistas africanas de Afonso V, D. João II, Tordesilhas, Bartolomeu Dias, D. Manuel e a descoberta da Índia. Se de história religiosa se tratava, depois da crise das ordens religiosas, só havia Trento, os Jesuítas, a reforma das ordens monásticas e a Inquisição. Portugal era, assim, uma espécie de asteróide que só os Descobrimentos e a Inquisição ligavam ao resto do universo. O seu movimento nos céus dependia unicamente da Coroa. O rei de Portugal, no seu papel de timo­neiro ao serviço de Deus, dirigia a caravela nacional com prudência e sabedoria para desvendar à Igreja e ao mundo o segredo das rotas que conduziam aos novos continentes e assim se cumprir o desígnio da vocação universal da Cristandade.

Nesta visão panorâmica, simples e lógica, tudo era claro e cheio de sentido.

Os pormenores só interessavam na medida em que acrescentavam maior relevo e mais glorioso significado à linha firmemente direccionada do destino nacional. Era preferível estudar só isto do que perder-se nos acidentes de percurso, enumerar os desvios, revelar os ensaios falhados ou as contradições, descobrir os sonhos e veleidades, a não ser como episódicos pormenores que, ao acentuarem os contrastes, sublinhavam a coerência da trajectória. Assim, por exemplo, da produção intelectual do século XV só a literatura de Avis interessava verdadeiramente; o resto eram acidentes menores. Da história das ordens religiosas só merecia a pena proceder à sombria demonstração do descalabro a que tinham chegado as ordens monásticas sob o detestável regime dos comendatários, para depois descrever as fases da implantação da reforma através da edificante luta cuja vitória Roma havia sancionado por meio das bulas que estabeleciam as novas congregações.

Neste contexto, a História da Cultura em Portugal de António José Saraiva vinha abrir novos horizontes, mas foi preciso esperar duas décadas até alguns espíritos menos conformistas começarem a explorá-los. As Correntes do sentimento religioso em Portugal, séculos XVI a XVIII rasgavam ainda mais as nuvens que cobriam o imenso panorama da literatura e da cultura portuguesa do fim da Idade Média, mas também permaneceram como uma espécie de monumento isolado que só de vez em quando inspirava tentativas de exploração restrita, sem verdadeiramente preparar novas sínteses coerentes e completas.

Creio que este panorama resulta, em grande parte, do atraso da historiogra­fia religiosa portuguesa, afectada por século e meio de positivismo e de anti­clericalismo. Para os investigadores da história política, os Descobrimentos nada tinham que ver com a Igreja. Eram o fruto do humanismo renascentista e da coragem de um punhado de marinheiros dispostos a dissipar as trevas do obscurantismo medieval; para outro sector intelectual, variante do anterior, os Descobrimentos revelavam o progresso trazido ao mundo pelos mercadores e burgueses que, por meio do lucro, começavam a levar a melhor na sua luta contra o modo de produção feudal. Para os raros investigadores da história religiosa, só interessava o esplendor alcançado pela Contra-Reforma, e a evidência da vitalidade eclesial manifestada na missionação, que trazia ao rebanho do Povo de Deus os novos fiéis que vinham preencher o lugar dos réprobos seduzidos pela revolta luterana.

Nem uns nem outros pareciam imaginar que por detrás da gesta dos Descobrimentos havia uma complexa teia de correntes económicas, culturais, religiosas e políticas que agiam uma sobre as outras e que tinham, muitas vezes, protagonistas comuns, com trajectórias individuais e de grupo, mas inserindo-se em movimentos com uma coerência própria, alguns dos quais dotados de imensas riquezas intelectuais e espirituais. A compreensão destas correntes obriga a estudos aprofundados que, sem esquecer o contexto global e a evolução de conjunto, expliquem a sua própria coerência e permitam medir o papel que desempenharam na história portuguesa. Não se trata de responder a uma mera curiosidade, nem de satisfazer pruridos de originalidade, estudando o que ninguém até agora ex­plorou. Também não se recomenda a exploração dos vários campos implicados no contexto que invoquei a quem precisa de despachar com custos reduzidos exigências curriculares. Enfim, o objectivo não é juntar mais um artigo à enciclo­pédia. O que é preciso é detectar as linhas de fundo e definir o seu rumo, medir a sua influência, avaliar o que vem de raízes profundas e o que fica à superfície, compreender os grandes fenómenos. Para isso é preciso escolher o que merece a pena estudar, e levar o empreendimento até ao fim, mesmo que as fontes sejam escassas e o investimento erudito pesado.

Assim, o fenómeno da religiosidade portuguesa - dos leigos e do clero; diocesana e regular; institucional e espontânea; supersticiosa, devocional e litúrgica - tem uma importância estrutural para a compreensão da cultura portuguesa nos séculos XIV e XV, seja por causa da sua incidência sobre os conceitos, os valores, os modelos e as expressões literárias, seja da sua relação com a distribuição dos poderes políticos e económicos e sobre a organização da sociedade, seja das reacções que provoca em fenómenos demográficos e na distribuição espacial da população. Tudo isto tem muito que ver, como é óbvio, tanto com o problema da vida da Igreja na época da chamada crise pré-tridentina (religiosa e institucional), como com a génese dos Descobrimentos. Na minha opinião, falta ainda muito para se perceberem devidamente os fenómenos mais importantes desta época.

Deste ponto de vista, entre as questões concretas que considero prioritárias, não posso deixar de apontar a das origens e evolução da ordem dos Cónegos de São João Evangelista, vulgarmente chamados Lóios, até ao concílio de Trento. Era uma ordem religiosa tipicamente portuguesa, embora filiada depois da sua fundação na ordem italiana dos Cónegos de S. Jorge de Alga. O facto de ter desaparecido por completo no século XIX, explica, em parte, a quase completa ausência de estudos históricos sobre ela. Todavia exerceu uma influência enorme no século XV. A formação intelectual de vários dos seus membros, o entusiasmo que suscitou em meios próximos da corte e das estruturas diocesanas, o facto de alguns dos seus cónegos terem desempenhado funções importantes na vida da Igreja, e as próprias controvérsias em que estiveram envolvidos, tomam esta congregação um dos objectos históricos de maior relevância dentro da perspectiva que mencionei.

Parece-me, pois, extremamente bem vinda a publicação da mais importante fonte narrativa hoje existente acerca da origem dos Lóios: a obra de Fr. Paulo de Portalegre intitulada Novo memorial do estado apostólico, de que a Prof.ª Cristina Sobral apresenta agora uma excelente edição crítica, antecedida de um estudo sobre o seu autor e de uma breve história da Congregação até ao fim do século XV, Por esta breve exposição se vê, desde logo, como a ordem dos Lóios é uma verdadeira encruzilhada de correntes, de influências e de iniciativas cuja compreensão, quando a investigação sobre ela estiver suficientemente delineada, virá iluminar muita coisa à sua volta. Espera-se que a dissertação de doutoramento que está a ser preparada por Isabel Castro Pina venha em breve situar em termos de história científica moderna - quer dizer, de um ponto de vista racional e científico - a narrativa que o olhar de um membro quatrocentista da mesma ordem produziu acerca da sua própria família religiosa.

Para terminar, não podemos deixar de salientar o facto de esta edição ser subsidiada pela Fundação Robinson, de Portalegre, e pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, que reconhecem assim o contributo que esta publicação vem dar ao aprofundamento da historiografia religiosa portuguesa de nível académico. O seu interesse foi também, a seu modo, um contributo para o progresso dos nossos conhecimentos científicos sobre o passado do País, caminho seguro para o enriquecimento da consciência cívica local e nacional.

 

A origem dos Lóios

A Congregação de S. João Evangelista (Lóios), de fundação portuguesa, nasceu no século XV animada pelos movimentos de reforma eclesiástica do final da Idade Média. Constituída por Cónegos seculares, que não faziam votos perpétuos, por razões históricas e espirituais filiou-se na Congregação de S. Jorge em Alga de Veneza, partilhou experiências e vocações com o movimento reformador italiano, nomeadamente com a reforma dos beneditinos levada a cabo por Luís Barbo e por D. Gomes Eanes, abade de Florença, e envolveu-se na corrente espiritual da devotio moderna.

Em Roma, os Lóios beneficiaram do favor do papa Eugénio IV. Em Portugal, acharam-se no meio de lutas políticas, entre D. Fernando da Guerra, Arcebispo de Braga, e D. Afonso, primeiro Duque de Bragança. Gozaram da protecção de D. Isabel e de D. Afonso V, foram confessores dos grandes do reino, pregadores famosos, representantes de interesses régios em Roma.

Em 1425 obtiveram a sua primeira casa, o Convento de S. Salvador de Vilar de Frades (Barcelos), e, apesar dos conflitos de poder em que se envolveram, ao terminar o século possuíam já seis conventos, espalhados pelo reino: Vilar de Frades (1425), S. Jorge de Recião (1436), S. Elói de Lisboa (1440), S. João Evangelista (ou S. Bento) de Xabregas (1456), S. João Evangelista de Évora (1491), S. Elói do Porto (1493).

Apesar de a Congregação ter sido objecto de alguns estudos no âmbito da História e da História da Arte, pela sua importância merece investigação mais alargada. Os autores que sobre ela se debruçaram são unânimes em reconhecer a falta de fontes narrativas contemporâneas da fundação quatrocentista que iluminassem as linhas de espiritualidade que orientaram os fundadores. (...)

O texto que agora edito é (...) a fonte quatrocentista da fundação dos Lóios que tem faltado. Relato testemunhal de quem conheceu pessoalmente as figuras biografadas e viveu boa parte dos acontecimentos narrados, o texto de Paulo de Portalegre vem preencher silêncios e questionar leituras (...). Além do interesse da obra para a história da cultura e da espiritualidade, o Memorial oferece interessante matéria de estudo literário pela formalização discursiva hagiográfica que apresenta e pela expressão de um universo em que os factos históricos convivem com visões, milagres e profecias.

 

José Mattoso (Apresentação)
Cristina Sobral («A orgem dos Lóios)
In Novo Memorial do Estado Apostólico, Roma Editora
30.05.09

Capa

Novo Memorial
do Estado Apostólico

Autor
Paulo de Portalegre
Edição crítica: Cristina Sobral

Editora
Roma Editora

Páginas
238

Ano
2007

Preço
€ 15,00

ISBN
978-989-8063-12-0
























































































 

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