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Evangelho do I Domingo da Quaresma

O nosso combate com Jesus

Ao fim de um jejum com a duração simbólica de quarenta dias – no seguimento de Moisés e de Elias que foram, também eles, ao encontro de Deus – Jesus confronta-se com a fome. Surge então a tentação que, tomando a identidade de “Filho de Deus”, o incita a transgredir as leis naturais para superar a privação. A experiência do jejum reconduz-nos efetivamente às necessidades e medos mais profundos. É nesse momento que se abrem duas direções: tentar preencher esse vazio a todo o custo ou considerá-lo como um espaço onde Deus nos espera. Jesus escolhe este último caminho, denominando por meio da Escritura a sua fome do essencial: a Palavra divina.

Aproveitando esta disposição, o diabo cita o Salmo 91 (90) para, desta vez, fazer de Jesus um herói sem limites, convidando-o a divinizar-se através das suas próprias forças. Com este ardil, o tentador desvia a leitura bíblica da sua verdadeira função: ensinar-nos a procurar Deus, revelando-nos a nós mesmos pelo conhecimento dos nossos dons e das nossas fragilidades. A resposta de Jesus é clara ao afirmar que, contrariamente à pessoa humana, Deus não é tentado, e muito menos pela sua própria criatura.

Três tentações de Cristo

Por fim o diabo oferece a Jesus a possibilidade de possuir “todos os reinos do mundo”, se ele se prostrar diante do tentador. Jesus reage com determinação: “Vai-te Satanás, pois está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto.”. Não será diabólico, com efeito, deixar-se fascinar pelo poder até chegar ao ponto de o divinizar? O seu detentor enche-se de uma ilusória omnipotência que tem por referência última o seu ego ou uma imagem de Deus que não é outra senão a projeção das suas ambições. Jesus, pelo contrário, vem até nós humildemente, passando pelas águas do batismo.

No final da narração os anjos descem, servindo-o. Eles são o sinal do «Deus connosco», em especial nos momentos de prova. A partir daí, Cristo poderá assumir plenamente a sua missão.

Cécile Turiot
Dominicana, biblista

in Prier (Março 2009)

02.03.2009

 

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Três tentações de Cristo
(1481-82) (det.)
Sandro Botticelli
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