Vemos, ouvimos e lemos
Coimbra

Órgão de Santa Cruz marca diálogo entre fé e cultura

A Igreja de Santa Cruz esteve no último Domingo (14 de Setembro) repleta de fiéis, mais do que em outros domingos. A ocasião era de festa. Após mais de duas décadas de silêncio foi possível voltar a ouvir, na missa paroquial, a música do histórico órgão de tubos, recentemente restaurado. D. Albino Cleto presidiu à celebração que, em dia da Exaltação da Santa Cruz, assinalou o regresso do órgão à actividade.

O Bispo de Coimbra lembrou “o nome glorioso do Mosteiro de Santa Cruz”, o seu prestígio “nos caminhos do Evangelho e também nos caminhos do conhecimento, da cultura e da arte”. Considerando que devemos “dar a Deus o que temos de melhor”, D. Albino Cleto notou que nem tudo é “inteligência e coração na fé”, há também na humanidade “a riqueza de produzir arte e beleza”.

O órgão de tubos da Igreja de Santa Cruz surge inicialmente no século XVI, é alvo de acrescentos e melhorias e tem o seu apogeu no século XVIII. Nesta altura, conforme referiu ontem D. Albino Cleto, foi ali fundada, com a bênção do Papa, uma academia de liturgia, para que o culto fosse mais belo e a música tivesse nele um lugar de relevo.

Diz-se que a música eleva o espírito e não faltam, nos textos litúrgicos, referências a cânticos ao Senhor: “Louvai ao Senhor ao som de trombetas, com instrumentos de cordas, com flautas e símbolos vibrantes”, recordou o Bispo.

Na missa solene, D. Albino Cleto disse que “o órgão e a música nos ajudam a rezar e a agradecer a Deus, mais do que a pedir, ajudam a pôr a alma a cantar, louvando e dando graças pelas maravilhas que criou”.

Sob a batuta do maestro Fernando Taveira, o coro cantou com mais encanto, tendo como fundo as notas retiradas por Inês Andrade ao renovado órgão de tubos. Anselmo Gaspar, padre da paróquia de Santa Cruz, agradeceu o momento a todos os que se empenharam no restauro daquela obra, desde a Direcção Regional de Cultura à Câmara Municipal de Coimbra e à Junta de Freguesia.

Depois desta primeira “aparição” numa celebração litúrgica – contribuir para que as missas sejam “mais belas e solenes” é o seu principal objectivo – o órgão voltará a ser tocado na sexta-feira, pelas 21h30, num concerto da organista suíça Monika Henking. Será outro momento de «aliança entre a fé a cultura, que não se chocam, não se guerreiam, antes se completam», referiu o Padre Anselmo.

 

Valor patrimonial reforçado

Para o responsável da paróquia de Santa Cruz, este regresso do órgão à igreja significa que não se esqueceu o passado de um mosteiro que marcou a cultura e a liturgia em Coimbra: “os monges empenhavam-se para que as celebrações tivessem mais brilho e significado para as pessoas”.

Por outro lado, o restauro desta peça – que demorou quatro anos e foi efectuado pela Oficina e Escola de Organaria de Pedro Guimarães e Beate von Rodhen - vem reforçar o valor patrimonial e histórico de uma Igreja que é Panteão Nacional, onde estão sepultados os dois primeiros reis de Portugal, D. Afonso Henriques e D. Sancho I, acrescentou.

O restauro do órgão custou algumas centenas de milhares de euros - assumidos pelo Ministério da Cultura - e a sua manutenção estará, nos próximos cinco anos, a cargo do organeiro. “A partir daí, teremos de organizar os nossos parcos recursos”, disse o pároco.

O delegado regional da Cultura, Pedro Pita, sublinhou a devolução do órgão à fruição pública e, particularmente, à paróquia de Santa Cruz. “Foi uma recuperação importante no plano artístico e no plano cultural, a cidade precisa de elementos que a inscrevam em circuitos internacionais. Este órgão pode ser conjugado com outros que foram restaurados e felizmente voltaram a tocar, como é o caso do órgão de Semide”, sustentou.

Também Mário Nunes, vereador da Cultura, se congratulou com o que considera ser um “engrandecimento da Igreja e da cultura em Coimbra”, de onde saíram ilustres mestres musicais ao longo dos séculos.  

Andrea Trindade

in Diário de Coimbra

16.09.2008

 

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

Órgão da Igreja de Santa Cruz



















































Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada