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Paulo, de Jerusalém a Roma

«Está Cristo dividido»

Paulo aparece na história da primitiva Igreja como personalidade forte de pensador, missionário e evangelizador, de forma que alguns o consideraram o fundador da Igreja e outros, um perigoso inovador de matérias religiosas, oposto ao Judaísmo. No fim do primeiro século, alguns escritores procuraram reler e atualizar a doutrina de Paulo em relação com as novas realidades.

O padre Marcião, natural do Ponto, na Ásia Menor, que viveu algum tempo em Roma até à sua expulsão da Igreja, considerava Paulo como a única fonte da verdade. Ele serviu-se do Apóstolo para fundamentar a sua autoridade.

Alguns hereges, como os gnósticos, principalmente Valentino – um dos mais influentes líderes gnósticos – adaptaram palavras e temas paulinos para dar autoridade às suas heresias. Apareceram também livros apócrifos que ampliaram fantasiosamente a figura e atividade do Apóstolo, reproduzindo as suas cartas e livros apócrifos. Entre estes, o mais conhecido é o livro dos Atos de Paulo e Tecla, a jovem rica de Icónio que ficou fascinada pela doutrina de Paulo, e, tendo deixado o noivo, converteu-se à fé cristã e, por fim, foi martirizada, gozando de grande popularidade no Oriente.

Do lado oposto, estavam os grupos sectários de origem judeocristã, como os ebionistas, nazarenos etc., que apresentaram Paulo em oposição a Pedro, como falso apóstolo que não conheceu Jesus e perseguiu os cristãos. Ainda hoje permanecem ecos deste «antipaulinismo» ingénuo, mas, de uma forma geral, o Apóstolo é estudado em bases históricas e sem polémicas. Santo Ireneu, bispo de Lião, teve o mérito de retirar Paulo da esfera dos hereges e grupos sectários, colocando-o na tradição viva da mãe Igreja.

ImagemRembrandt

O que sempre surpreende na vida de Paulo é a sua capacidade de estabelecer relações amigáveis com pagãos e com as pessoas que encontra a seu lado, amigos ou adversários: o procônsul romano de Chipre, os magistrados gregos de Éfeso, o carcereiro de Filipos, o centurião Júlio, os soldados que o guardavam em Roma. A todos fala de Cristo morto e ressuscitado, não retrocede na sua vocação, nem coloca reticências em relação à verdade. Paulo é o modelo, defronte dos outros, do diálogo e, sem medo, de mostrar as suas divergências para obter uma aceitação ou uma recusa.

 

«Cristo força de Deus e sabedoria de Deus» (1Cor 1,24)

Entre os sécs. III e V, aparecem comentários das epístolas paulinas e Atos dos Apóstolos. O grande Orígenes comentou a carta aos Romanos e Teodoro de Mopsuéstia dez cartas paulinas. No original grego, conservaram-se 250 homilias de São João Crisóstomo, tendo o Santo Patriarca de Constantinopla comentado todas as cartas de Paulo. Nenhum outro Padre da Igreja o superou em escritos sobre o Apóstolo dos Gentios.

ImagemCatarino

Em língua latina, o primeiro grande comentário veio de um escritor desconhecido, apelidado de «Ambrosiaster». São Jerónimo comentou as cartas aos Filipenses, Gálatas, Efésios e a Tito, e o genial Santo Agostinho deixou um comentário da carta aos Gálatas e tentou penetrar na carta aos Romanos, mas não passou dos primeiros sete versículos. A reflexão sobre as cartas paulinas permite responder às exigências culturais dos novos convertidos ao
Cristianismo.

Nos mosteiros da Idade Média estudou-se o Apóstolo, porque respondia às exigências de uma espiritualidade mais profunda. Os mestres das escolas capitulares preanunciam, com os seus estudos, os centros universitários das cidades europeias. São Beda, monge beneditino, recolheu e expôs os comentários dos Padres da Igreja sobre São Paulo.

ImagemConversão de S. Paulo (Parmigianino)

Na Idade Média, distinguiu-se São Tomás de Aquino, no comentário às cartas paulinas. Para o santo doutor, as cartas de Paulo contêm principalmente uma mensagem de misericórdia e esperança, motivo porque a Igreja as lê tantas vezes na liturgia.

Na Reforma protestante, Martinho Lutero comentou a carta aos Romanos e, mais tarde, a carta aos Gálatas. São Paulo foi escolhido como protetor da faculdade teológica de Wittenberg.

A teologia atual coloca o Apóstolo no contexto histórico e cultural do seu tempo e do Cristianismo primitivo. Dois teólogos contemporâneos ofereceram um contribuo original à interpretação da mensagem paulina: K. Barth e R. Bultmann.

ImagemApóstolos Marcos e Paulo (dir.) (Dürer)

 

«Sou devedor aos sábios e aos ignorantes» (Rm 1,14)

A literatura e a arte mostram uma reflexão importante na interpretação de Paulo. Na Idade Média, algumas das sagradas representações ou teatro religioso inspiraram-se no Apóstolo e nos livros apócrifos. A sua intenção era celebrativa e edificante, a imagem dominante de Paulo é a do perseguidor dos cristãos e do convertido às portas de Damasco. F. Werfel escreveu o romance Paulo e os Judeus, que depois foi musicado. F. Mendelssohn, inspirado na conversão de Paulo e missão entre os pagãos, compôs um oratório musical, intitulado Paulus.

Na pintura romana, Paulo é apresentado calvo, de fronte alta, nariz aquilino e com barba; os bizantinos, por seu lado, preferiram representá-lo de cabeça coberta de cabelos e com barba curta.

ImagemPregação de S. Paulo em Éfeso (Le Sueur)

Na alta Idade Média, Paulo é reproduzido como mestre, tendo na mão um livro ou um rolo, ou então, sentado num escritório. A partir do século XIII, aparece com a espada, sinal do seu martírio.

Os pintores modernos dão-nos imagens mais atualizadas do Apóstolo. A. Dürer, nas tábuas dos quatro Apóstolos, apresenta-o imponente; os pintores italianos dos sécs. XVI e XVII, Bellini, Pesaro, Miguel Ângelo na Capela Sistina, e Caravaggio na Igreja de Santa Maria do Povo, apresentam a sua conversão a cair do cavalo. Rubens segue a mesma tradição.

Na época barroca, Paulo aparece como pregador e prisioneiro. Rembrandt retrata-o admiravelmente como um ancião, solitário e cansado. Na pintura contemporânea, prevalece a figura de Paulo asceta e visionário.

ImagemMartírio de S. Paulo (Tintoretto)

Na diocese do Funchal, o volante esquerdo do magnífico tríptico de São Pedro representa Paulo majestoso, reflexivo, de uma qualidade artística surpreendente. Duas tábuas provenientes da sacristia em ruínas da Capela de São Paulo, conservadas provisoriamente na Cúria Diocesana, representam a conversão de Paulo e o seu martírio. Na Catedral, no altar do crucifixo, encontra-se uma grande pintura de São Paulo. Algumas raras e pequenas imagens em madeira policromada, de antigas capelas e igrejas, mostram que Paulo não é um santo popular como São João ou São Pedro. A liturgia, por seu lado, utiliza, com abundância, textos das suas cartas e dos Atos dos Apóstolos.

O Ano Paulino, feliz intuição de Bento XVI, veio colocar Paulo no lugar que lhe compete na vida do cristão e missão da Igreja, como Apóstolo agarrado por Cristo, missionário insuperável, primeiro teólogo da Igreja, que «não rejeita a graça de Deus» (Gl 2,21).

 

 

 

D. Teodoro de Faria
Bispo emérito do Funchal
In Paulo, de Jerusalém a Roma, ed. Paulinas
27.07.10

Capa

Paulo, de Jerusalém a Roma

Autor
D. Teodoro de Faria

Editora
Paulinas

Ano
2010

Páginas
256

Preço
19,00 €

ISBN
978-989-673-105-2

 

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