Vemos, ouvimos e lemos
Projeto cultural
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosLigaçõesBreves Arquivo

Quaresma

As procissões dos Passos - Sabedoria da cruz

Ao participar na procissão dos Passos no Cartaxo, chamou-me a atenção o grande número de pessoas que seguiu esta devoção tradicional. Uma multidão numerosa estendia-se ao longo das ruas e acompanhava a procissão que se prolongou por mais de duas horas. Muito mais gente, sem dúvida, do que os participantes habituais nas eucaristias no conjunto das paróquias das redondezas. Mostravam-se atentos, silenciosos, admirados. No final, para a missa dominical, a igreja ficou repleta.

Sempre me lembro, nas procissões dos Passos, da presença de muita gente e de uma atmosfera de silêncio e de emoção: quando criança, como padre e depois como bispo. O que cativa as pessoas? Como espetáculo não é atraente. As imagens do Senhor dos Passos e da Senhora das Dores, centro da manifestação de piedade, são chocantes e desconcertantes. A música é dramática. O ambiente é solene, compenetrado, de respeito e meditação. Que tem de atraente esta devoção popular? As pessoas procuram divertimentos, distrações, e a procissão dos Passos fala de sofrimento. Que mensagem procuram e colhem nesta manifestação religiosa?

Encontrei alguma luz para esta questão na leitura de São Paulo aos Coríntios, proclamada na Missa final. Falava da sabedoria de Deus manifestada na cruz. De facto, a cerimónia no seu conjunto, com o ambiente, a decoração, as imagens, a palavra, os cânticos, proclama uma mensagem que não encontramos noutra parte: a sabedoria da cruz. Ou seja, a comunicação de que Cristo e Sua Mãe experimentaram e assumiram o nosso sofrimento por solidariedade connosco. A imagem do Senhor dos Passos é um símbolo forte do sofrimento não só de Jesus mas também do sofrimento humano. Por isso, encontra um eco profundo no coração de todos. E abre uma luz ao fundo do túnel: o caminho da cruz tem a sua realização plena na vida nova da ressurreição. A realidade chocante e difícil do sofrimento não tem a palavra final nem é inútil. Purifica, redime e conduz à vida.

Tenho a impressão de que esta mensagem é apreendida, não de modo conceptual e claro, mas pela intuição e pela emoção. Por isso me parece que o Senhor dos Passos que realça o sofrimento, infunde nos participantes esperança e coragem, pacifica e consola. “Bendito seja Deus que nos consola nas nossas aflições”, exclamava São Paulo e podemos exclamar também nós. Nos momentos dolorosos da cruz não estamos sós, perdidos, esquecidos. Cristo, Sua Mãe, os crentes e amigos acompanham-nos, sofrem connosco, amparam-nos como o cireneu, limpam-nos o rosto como a Verónica, transformam o nosso sofrimento em paz.

Esta minha leitura foi apoiada pela atenção a algumas conversões. De facto, é admirável como alguns descrentes intelectuais descobriram a verdade do cristianismo no encontro com a cruz de Cristo, como sentido e saída para a cruz do sofrimento humano. Dois exemplos muito significativos: Simone Weil e Edite Stein (hoje Santa Benedita da Cruz). Na cruz descobriram a sabedoria de Deus, a única que pode consolar e curar as dores e feridas da humanidade. Entenderam o mesmo que as pessoas simples entendem. De facto, perante o mar de sofrimento que nos esmaga, a cruz é a única esperança. “Ave crux, spes unica”.

Assim a devoção do Senhor dos Passos é um convite à esperança: “Jesus Cristo, o Bom Pastor, conhece também o vale sombrio da morte e do sofrimento porque Ele próprio o atravessou e acompanha-nos, conforta-nos e ampara-nos com a sua força e o seu cajado, na passagem difícil por esse vale que vai dar à vida nova na Sua luz e na Sua paz” (Bento XVI, SS 6).

 

D. Manuel Pelino
Bispo de Santarém
In Diocese de Santarém
01.04.09

Procissão dos Passos
Foto: Rudi Roels






























 

 

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Subscreva

 


 

Mais artigos

Mais vistos

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página