Encontro de culturas na mesma Igreja
Riqueza cultural católica da Índia ao serviço do Patriarcado de Lisboa
Até o bispo o chamar, Paulo, sacerdote, confessa que nunca tinha pensado sair da sua diocese, em Palai, sul da Índia. E conta que a primeira dúvida que colocou, após o desafio lançado, vir pregar para Lisboa, a milhares de quilómetros de casa, foi mais geográfica do que espiritual: "Isso fica onde?", respondeu ao bispo. Hoje, cinco anos depois, o sacerdote indiano é responsável pela paróquia de São João da Talha. Ele e mais cinco compatriotas ajudam a colmatar a falta de padres em Lisboa.
Uma parceria entre a diocese de Palai, no estado de Querala, e o Patriarcado permitiu que Lisboa recebesse seis padres em cinco anos. Esta proximidade decorre da relação criada, ao longo dos tempos, com padres indianos que estiveram a estudar na capital. O Patriarcado já tinha manifestado as necessidades que existiam na diocese de Lisboa, e o novo bispo indiano decidiu então colaborar com outras dioceses e disponibilizar sacerdotes para desempenharem funções em paróquias.
Os primeiros dois chegaram em 2005, os restantes, em 2006, e os últimos, no final de 2008. Três estão já como párocos - São João da Talha, Monte Abraão e Vilar -, um é coadjutor na paróquia de Linda-a-Velha, e os restantes ainda estão a viver no Seminário dos Olivais e a aprender português, para se entregarem depois ao serviço do Patriarcado.
"Nós pedimos ajuda consoante as nossas necessidades e eles respondem consoante as suas possibilidades", explicou ao «Diário de Notícias» Francisco Tito, o padre que, a pedido de D. José Policarpo, tem acompanhado mais diretamente este processo. "Agora estão cá seis. Mas tudo depende do que for combinado entre o senhor patriarca e o bispo de Palai. Podem vir mais", acrescenta, lembrando que os sacerdotes chegam sem regresso marcado e com total disponibilidade para servir o bispo de Lisboa.
A colaboração com a diocese indiana ajuda a suprir a falta de padres da Igreja de Lisboa, reconhece o sacerdote português. Aliás, um problema que afeta todo o País e se estende a outros países europeus. "Em toda a Europa há falta de padres e de gente com disponibilidade para servir os outros. Na Índia têm muitas vocações porque há um sentimento religioso muito vivo e são educados no sentido do serviço aos outros", diz o padre Tito, que já esteve na Índia com D. José Policarpo, salientando as diferenças na vivência da fé.
Para o padre Paulo, que acabou de celebrar a missa das 18h30 e troca agora algumas palavras com paroquianos, a diferença é simples: "Lá só temos católicos, não temos católicos não praticantes", diz, entre risos. Ou seja, se cá a contabilização das vocações se faz entre o número de católicos (a grande maioria da população, nos quais se incluem os que não praticam), na Índia, como não há muitos católicos e estes são mais fervorosos, o rácio acaba por ser maior.
"O segredo para haver muitas vocações é haver boas famílias", afirma o sacerdote indiano, ainda num português esforçado, referindo-se à forma como a fé integra a vida quotidiana. "Por exemplo, antes de jantar, a família reza sempre meia hora. Costumamos dizer que quem não reza não come", conta no seu gabinete na igreja, o único local de culto da paróquia. Mas "Portugal tem uma Igreja viva", acrescenta o sacerdote, que já passou por Linda-a-Velha, Carregado e, agora, há um ano em São João da Talha. Aqui há grupos de jovens, acólitos, ajuda aos pobres, catequese e missa quase diária.
O maior medo inicial, confessa, foi não ser capaz de substituir o padre que lá fizera um bom trabalho. "Questionava-me: será que este povo vai aceitar-me?" E aceitou? "Se quer saber como sou, tem de perguntar aos meus paroquianos", atira. À porta da igreja, confirma-se a aceitação. "É um sacerdote são, superatencioso. Gostamos muito", admite uma paroquiana.
Rita Carvalho
In Diário de Notícias, 16.04.2009
16.04.09

Sé de Palai

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