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Textos apócrifos de São Paulo

Este tipo de escritos deve ser lido no contexto de um cristianismo plural ainda não regularizado e pouco normativo, onde os grupos carismáticos continuam a ocupar um importante lugar e a propagar as suas ideias, nomeadamente através de narrativas populares. Neste contexto, Paulo é apresentado como um profeta-missionário sem pátria e sem família nem bens materiais que anuncia uma mensagem de conversão e adesão ao seu estilo de vida. É na sequência deste modelo e desta mensagem que alguns renunciam ao casamento e outros, já casados, abandonam tudo. Este clima carismático e profético em que Paulo e Tecla emergem e interagem é também participado por outros elementos que aderem á comunidade, nomeadamente por algumas mulheres. Tecla é o protótipo destas mulheres que, como os homens, participam da profecia e podem integrar o grupo dos carismáticos itinerantes.

Nos anos recentes, vários estudos têm dedicado particular atenção ao papel de Tecla e das mulheres em geral nos Actos de Paulo e Tecla, vendo nestas uma prova da liberdade e do protagonismo feminino nas primeiras comunidades cristãs. (...) Já no tempo de Tertuliano, alguns grupos femininos evocavam os Acta Pauli para reivindicar o direito de “ensinar” e de “baptizar”.

É evidente que a abordagem desta questão dependerá de uma outra, prévia: o problema do valor histórico das personagens e do enredo da narrativa Se o papel assumido pelas figuras femininas nos Actos dos Apóstolos apócrifos, em geral, e nos apócrifos redigidos á volta do nome de Paulo, em particular, correspondesse a situações reais ou a tipos de papel verdadeiramente assumidos pela mulher nas comunidades ou nalguns grupos cristãos, estaríamos perante um evidente contraste com o cenário que nos legaram os escritos paulinos canónicos e a tradição eclesiástica. De qualquer modo, há que ter presente que tanto os documentos da tradição eclesiástica como os testemunhos da ficção romanesca em que se inserem os actos apócrifos estão menos preocupados com a realidade histórica do que com determinadas ideias que pretendem veicular a partir da narrativa engendrada. Neste sentido, a personagem feminina de Tecla, tal como a de Paulo, é adaptada como “figura emblemática”, caracterizada de forma a assumir um papel mais simbólico que real, como o objectivo de personificar e veicular as ideias religiosas e ascéticas populares entre alguns grupos cristãos do século II no seio dos quais estes textos foram elaborados. (Da Introdução)

 

O baptismo do leão

Contudo, quando chegou a noite, deixei o ágape oferecido pela viúva Lema e pela sua filha Amia. Enquanto caminhava de noite na intenção de me dirigir a Jericó, na Fenícia, percorremos longas etapas. Quando a aurora chegou, eis que Lema e Amia, que tinham oferecido o ágape, me seguiam por nutrirem grande afecto por mim, ao ponto de nunca se afastarem de mim.

Foi então que um grande leão esfomeado surgiu do vale do campo dos ossos. Nós continuámos, contudo, a rezar, de modos que, pela intensidade da oração, Lema e Amia [...] sobre o animal. Quanto, porém, cessei de rezar, eis que o animal se encontrava deitado a meus pés. Então fiquei cheio do Espírito, e, olhando-o, disse-lhe:

‘Leão, que desejas?’
Ele respondeu-me:
‘Quero ser baptizado!’

Então, eu dei glória a Deus, que tinha dado ao esmo tempo voz ao animal e a sua salvação aos seus servos. havia, porém, um grande rio naquele lugar. Eu desci nele, seguido pelo animal Como pombas ateroorizadas pelas águias que se refugiam em qualquer casa para estarem seguras, assim Lema e Amia [...]; elas não [....] até que eu bendisse Deus e he dei glória. Eu próprio estava cheio de receio e de espanto, enquanto conduzia o leão como se fosse um boi, para o imergir na água. Então, meus irmãos, de pé debaixo da água do rio eu exclamava: ‘Tu que moras no mais alto dos céus, tu que olhas sobre os humildes, tu que cerraste a boca dos leões por Daniel, tu que me enviaste meu Senhor Jesus Cristo, concede-nos escapar ao animal! E assim cumpre o plano fixado!

Uma vez terminada esta oração, conduzi o animal pela juba e depois, em nome do Senhor Jesus Cristo, mergulhei-o por três vezes. Quando saiu da água, o animal sacudiu a juba, dizendo: ‘A graça esteja contigo!’ E eu respondi: ‘E contigo também.’ O leão subiu do rio, correndo para o campo dos ossos, cheio de alegria, o que me foi realmente revelado ao meu coração. Uma leoa veio, porém, ao seu encontro. Mas ele não foi ter com ela, pelo contrário, voltou-se e partiu correndo para a floresta.

De forma que também vós, Áquila e Priscila, tendo acreditado no Deus vivo e tendo sido instruídos na sua palavra, proclamai-a.

Enquanto Paulo assim falava, uma grande multidão aderiu á fé, o que suscitou uma reacção de ciúme, e o governador de toda a Ásia decidiu combater Paulo para o levar à morte. Havia na cidade uma mulher chamada Procla que realizava muitas boas obras em benefício dos habitantes de Éfeso. Paulo baptizou-a a ela e a todos os seus. Deste modo, a fama da graça, acompanhada de muitas bênçãos, prosperou entre [a Páscoa] e o Pentecostes. A coroa de Cristo cresceu ao ponto de suscitar a inveja e um reboliço crescente na cidade: “Este homem [+++] aboliu os deuses dizendo isto: ‘Vê-los-eis arder todos no fogo!’”

 

Isidro Pereira Lamelas
In São Paulo - Textos apócrifos, ed. Tenacitas
06.07.09

Capa

São Paulo
Textos apócrifos
Actos de Paulo e Tecla
Carta aos Laodicenses

Autor
Isidro Pereira Lamelas

Editora
Tenacitas

Ano
2009

Páginas
156

Preço
€ 13,00

ISBN
978-972-8758-62-2



























































 

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