
"Stabat Mater" por Luigi Boccherini e Eurico Carrapatoso
No ano passado o Centro Cultural de Belém (CCB) colocou em confronto duas visões sobre "As Sete Últimas Palavras do Nosso Senhor na Cruz": a versão clássica de autoria de Joseph Haydn (1787); e a contemporânea, de Sofia Gubaidulina, composta em 1982. Este ano, o CCB criou um desafio ainda maior: o tema escolhido é o "Stabat Mater".
O “Stabat Mater” é um dos mais conhecidos temas da música religiosa, descrevendo o sofrimento da Virgem Maria durante a crucificação de Jesus. A partir de um poema medieval de Jacopone da Todi foram criados ao longo dos séculos vários “Stabat Mater”, destacando-se entre os mais famosos os de Pergolesi, Vivaldi, Rossinni e, também, o de Luigi Boccherini, composto em 1781, no período mais produtivo da obra deste compositor italiano, enquanto músico da corte de Madrid.
Em contraponto ao “Stabat Mater” de Luigi Boccherini, que o Divino Sospiro interpretará sob a direcção de Enriço Onofri e a soprano Alexandrina Pendatchanska, a OrchesrtrUtopica apresenta em primeira audição absoluta um “Stabat Mater” composto por Eurico Carrapatoso, uma encomenda do CCB. Escrito para um contexto diferente da sua função originalmente religiosa, o “Stabat Mater” do compositor português reflecte o olhar contemporâneo sobre o sofrimento da mãe que vê o filho morto e ampara o seu corpo na descida da cruz.
Entrevista a Eurico Carrapatoso
Por Maria Ana Freitas
Como encarou este convite por parte do CCB para a composição de um “Stabat Mater” para ser apresentado em contraponto com a obra de Boccherini?
Encarei este convite do CCB com expectativa. Mas com uma expectativa saudável. Da confrontação airosa entre formas de expressão artística diversas no tempo e no espaço pode resultar uma experiência sugestiva para o criador e para o fruidor. Neste caso a batata quente está na minha mão, já que a obra de Boccherini é um clássico com provas dadas. O risco é meu, tratando-se de uma peça em criação. Devo confessar um certo desassossego. Não é pelo facto de já não ser propriamente um “jovem compositor” (designação castiça pela qual ainda sou referido nalguns meios de comunicação social, para meu gáudio) que deixo de sentir a ressonância desse risco. Com cerca de cem obras já estreadas em público, esperar-se-ia que tivesse ganho um certo calo para digerir estas situações. Mas não. Continuo a estremecer com a iminência das estreias. Ainda não consegui a descontracção olímpica que me permita enfrentar este tipo de ocasiões com aquele sorriso próprio da ataraxia helénica. Mas, por outro lado, o risco é uma doce estamina. E o desassossego é, afinal, o trilho da invenção. Quem compõe, “passa as passas do Algarve”. Compor é uma paixão no sentido etimológico dessa palavra. Logo à partida, paixão como provação da dor. Só mais tarde, com o tempo, é que assumirá, se tudo correr bem, todos os outros sentidos.

Pietá, Michelangelo
De que forma o “Stabat Nater” de Boccherini e outros que marcaram a história da música como o de Pergolesi e, mais tarde, o de Rossini e o de Dvorák determinaram o seu trabalho de composição?
De uma forma natural. Todas estas obras estão sedimentadas na minha memória afectiva. De tal forma sedimentadas que não é possível decompô-las genealogicamente. Fazem parte da minha cultura de matriz ocidental e cristã. Sendo o processo de aculturação um processo paulatino, ancorado no somatório dos minutos, das horas e dos dias, torna-se difícil fugir às nossas grandes referências memoriais. O peso da história exerce uma enorme pressão, como a água dos mares a grandes profundidades. A cultura (ou, como diz Gil Vicente na sua expressão magnífica: “o cabedal de instrução”) serve precisamente para aguentar esse peso e espargi-lo. Herdei a memória daqueles mestres. Compondo, vou espargindo a sua memória através da minha. Citando Camões: “Se forem bons, é o moto de V.M.; se maus são as glosas minhas.”

Divino Sospiro
O “Stabat Mater” de Boccherini é uma peça barroca e nele é clara a forma como a dimensão e a forma do texto determinam a forma da música. Actualmente e tendo em conta as diferentes formas de abordagem do texto que surgiram ao longo do século XX, como encara a abordagem de um texto enquanto compositor? Mais concretamente, como tratou o texto durante o seu trabalho de composição desta obra?
Tomando como exemplo o tratamento que Luigi Nono faz do texto na sua obra “Il canto sospeso”, com tendência a fragmentá-lo num gesto pontilhista, ou, para não ir mais longe, o tratamento que Emmanuel Nunes faz do poema “Vislumbre” de Mário de Sá Carneiro, decompondo-o serialmente nas suas várias dimensões, da gramatical à fonética, devo dizer que, interessando-me estas abordagens na qualidade de professor de análise, não me interessam minimamente, contudo, na qualidade de compositor. As várias obras de minha autoria, principalmente as que contêm textos sagrados, ancoram-se em três grandes esteios: primado do texto; primado da melodia; e primado da tonalidade. Por isso, o meu tratamento do texto “Stabat Mater” é fundamentalmente silábico e homofónico, para que não se perca uma única gota que seja da sua essência, e para que a sua mensagem não sofra qualquer distúrbio no seu percurso entre o intérprete e o ouvinte. Mais a mais, quando este texto plangente assume tamanha actualidade na época que vivemos. Lembremo-nos, por exemplo, das mães dolorosas das milhares de crianças iraquianas mortas desde o início da bárbara ocupação militar em Março de dois mil e três: os infames “danos colaterais”. O Ocidente globalizado digere bem os seus crimes com estes doces epítetos: “danos colaterais”. Mas a verdade é que os “danos colaterais” são, no fundo, uma matança dos inocentes que faz corar Herodes. E é a estas mães dolorosas do país onde nasceu a civilização ocidental que eu dedico o meu “Stabat Mater”, sempre com o timbre de Messiaen em pano de fundo: “Tout ceci reste essai e balbutiement, si l’on songe à la grandeur écrasante du sujet.”

OrchestrUtopica
Há momentos na obra com significados extramusicais ou simbolismos que possam enriquecer a sua escuta?
Talvez haja um facto com esse significado: o tratamento de um texto de Camões, qual tropo, estranho à sequência Stabat Mater: “Deus benino” É um soneto natalício de uma beleza solar que dedico metaforicamente àquelas crianças mortas. Esses inocentes são anjos. Perderam a vida, mas ganharam a agilidade dos corpos celestes.
Eis o soneto:
– Dece do Ceo imenso Deus benino
Para encarnar na Virgem soberana.
– Por que dece Divino em cousa humana?
– Para subir o humano a ser divino.
– Poos como vem tão pobre e tão minino,
Rendendo-se ao poder de mão tirana?
– Porque vem receber morte inumana,
Para pagar de Adão o desatino.
– Pois como? Adão e Eva o fruto comem,
Que por seu próprio Deus lhe foi vedado?
– Si, porque o próprio ser de Deoses tomem.
– E por essa razão foi humanado?
– Si, porque foi com causa decretado:
Se o homem quis ser Deus, que Deus seja homem.
É o eixo de simetria da obra. A partir daqui a peça reflecte-se numa série de correspondências.
Descida do divino em coisa humana e a ascese do humano a divino! Esta coisa imaterial que é a ascese, depois da dor, é a transcendência das transcendências. Se acreditamos, ressoamos na primeira pessoa. Se não acreditamos, ressoamos na terceira pessoa. Mas ressoamos.
Programa
1.ª Parte
Divino Sospiro - Enrico Onofri, Direcção
Alexandrina Pendatchanska, Soprano
interpretam
Luigi Boccherini (1743-1805)
Stabat Mater para soprano e cordas, G 532 (Versão de 1781)
2.ª Parte
Orchestrutopica - Cesário Costa, Direcção
Armando Possante, Barítono
Grupo Vocal Olisipo - Armando Possante, Direcção
interpretam
Eurico Carrapatoso (n. 1962)
Stabat Mater(Encomenda CCB)
O espectáculo realiza-se no dia 18 de Março, às 21h00, no Grande Auditório do CCB. Os bilhetes custam € 15,00.
03.03.2008
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Eurico Carrapatoso