
Terras Sem Sombra: colocar o Alentejo no mapa musical
O Festival Terras Sem Sombra vai na quarta edição e é já um marco fundamental na divulgação da música sacra e antiga em Portugal, de várias origens e expressões. Promovido pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja e pela produtora Arte das Musas, o festival consegue contribuir para a divulgação musical em lugares desertificados. Mérito quase impossível de concretizar num país centralista e centralizado como Portugal.
Diz quem viu que o concerto de 12 de Janeiro, em Almodôvar, foi inolvidável, com o Ensemble Hispânia a cantar um programa intitulado “Oriente e Ocidente: As devoções populares na música judaica, árabe e cristã”.
Quanto a mim, tive oportunidade de assistir, dia 2 de Fevereiro, ao concerto do Ensemble Alpha, grupo dirigido pelo compositor Ivan Moody, que integra ainda Fernando Marques Gomes, João Luís Ferreira e Rui Gonçalo Fernandes. O grupo destaca, no seu repertório, as tradições medievais ortodoxa e ibérica. O concerto foi também memorável.
Em 2005, o Ensemble Alpha gravou e editou “O Divina Virgo” (série “dialogos”, ed. Dargil), que propõe um leque de peças da tradição ibérica católica e da tradição ortodoxa do Monte Athos, da Rússia e outros países do Leste Europeu. A recolha do disco, entre o popular e o litúrgico, é uma bela celebração das festas marianas, tão caras aquelas duas tradições cristãs.
O concerto, que decorreu na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, no Alvito, intitulava-se “Dois Mundos: Oriente/Ocidente na Bacia do Mediterrâneo”. No disco e agora no concerto, o Ensemble Alpha tem/teve algumas interpretações intensas. A conhecida “Santa Maria, strela do dia”, o hino ortodoxo búlgaro “Dostoyno est”, a litania do Cântico de Isaías, o canto russo “Ust tvoikh” e uma magistral interpretação do canto toledano “Pange Língua Gloriosa”.
O festival continuará, no próximo dia 23 de Fevereiro, com um concerto de clavicórdio por Bernard Brauchli. Será na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, em Beja, às 21h00. O recital, comentado, pretende mostrar “o clavicórdio no mundo mediterrâneo”. Brauchli, que se dedica há muito ao estudo e recriação de instrumentos de tecla antigos, gravou já dezena e meia de discos, participou em alguns dos melhores festivais internacionais e tem dirigido diversas instituições ligadas à música antiga e a festivais.
No dia 8 de Março, a Basílica Real de Nossa Senhora da Conceição, em Castro Verde, acolhe o Banchetto Musicale Lusitânia, com um concerto intitulado “O Virgo Splendens: a devoção mediterrânica medieval”. No dia 22, de novo em Beja, Rui Vieira Nery, que tem apoiado o festival, faz uma conferência sobre “A outra Europa: o cruzamento das culturas musicais nas tradições mediterrânicas”. E no dia 29 de Março, o festival encerra a sua quarta edição com um concerto que também promete: o Coro Gulbenkian interpreta “Vésperas: a devoção mariana na música portuguesa do tempo de D. João V”. Será em Santiago do Cacém, na Igreja Matriz.
Vale a pena, portanto, colocar o Alentejo no nosso mapa musical.
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António Marujo
Publicado em 12.02.2008
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