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Tratados e Sermões de Mestre Eckhart

Nesta obra são apresentados, pela primeira vez em português, os Tratados e alguns Sermões de entre os mais significativos de Mestre Eckhart.

Em Eckhart dá-se a rara e feliz conciliação de uma sólida erudição universitária com a radicalidade da experiência espiritual que rompe e inova as categorias do pensamento da sua época e da sua tradição, fazendo dele um «Mestre de vida», e não só de doutrina, que influiu decisivamente em gerações de discípulos e tem inspirado um significativo e crescente número de pensadores, psicólogos, escritores, poetas, pintores e músicos contemporâneos.

 

O Mestre

O itinerário de Mestre Eckhart revela a sua riquíssima personalidade de frade pregador e de teólogo, ao assumir grandes responsabilidades no governo dos frades e na pregação não só aos seus confrades mas igualmente às monjas e a numerosos leigos. Todo esse intenso labor é acompanhado de muitas viagens por territórios bastante vastos do norte da Europa. De antemão descobrimos um homem plenamente mergulhado nos combates espirituais e na sociedade do seu tempo.

Nascido cerca de 1260, na região alemã da Turíngia, e falecido cerca de 1328, provavelmente em Avinhão, visto que não se conhece o seu túmulo; formado na corrente que tinha visto surgir outro grande dominicano, Santo Alberto Magno, Eckhart faz parte da província dominicana da Teutónia. Vive em pleno período-charneira, entre o «belo século XIII» e o «outono da Idade Média», e as suas graves crises: guerras, fomes e epidemias. Vários países, várias culturas e línguas abrangem o seu território de trabalho. […] Seria assaz longo descrevermos aqui os conflitos do Santo Império Romano-Germânico, em particular o período em que o Império não tem soberano. […] E é neste preciso período que Luís IV da Baviera e o segundo papa de Avinhão, João XXII (1316-1334), vão entrar em conflito. Todo o império será marcado pelo interdito, o que significa a cessação de qualquer vida religiosa, litúrgica e sacramental. Estamos perante uma época complexa, na qual surge como resposta uma efervescência religiosa e espiritual. É neste contexto que entram em cena de forma massiva os leigos, na vida espirtual. Os mosteiros e os conventos são o principal lugar da vida espiritual nessa época. Muitos leigos são imbuídos duma grande sede espiritual e querem ser alimentados de forma mais substancial. Não é só no vestuário, na riqueza e no dinheiro que surge a novidade. É igualmente nesse clima de fervor religioso que se desenvolve um panteísmo popular.

Todos esses questionamentos acompanham o pensamento de Mestre Eckhart, embora o seu carácter, com frequência paradoxal, nos surpreenda. A corrente que ele desenvolveu ou à qual deu origem – os místicos renanos –, trazem-nos à memória os seus principais confrades dominicanos com essa mesma sensibilidade: João Tauler e Henrique Suso. À expressão mais autêntica dessa sede, procuram estes autores responder de forma exigente, como é próprio do carisma de São Domingos, de pregar pela palavra e pelo exemplo.

Mestre Eckhart, devido à sua profunda inteligência espiritual e à sua exigência radical, vem ao encontro, ainda hoje como no passado, dessa procura de Deus que não pode ser silenciada. Com essa finalidade tenta utilizar uma linguagem que convida ao despojamento radical, ao desapego, e que nos conduz a desfazermo-nos de todos os nossos falsos deuses, dos ídolos de toda a espécie, inclusivamente da falsa imagem de Deus em nós, que deve ser purificada até ao seu cerne mais essencial. Daí que a teologia da graça divina esteja no centro da sua obra e de que nela Eckhart exponha a sua visão da nossa filiação divina: «sermos pela graça o que Deus é por natureza.» Eckhart não apresenta a graça divina como um simples socorro auxiliar de ordem eficiente, mas realça, na sua teologia, a felicidade da salvação por e através de Cristo. Mas nada como meditar cuidadosamente os Tratados e os Sermões onde estão explanadas constantemente essas preocupações.

 

A Obra

Consagrado pela posteridade como «o homem de quem Deus nada escondeu», Eckhart assume de facto a sua visão e discurso como «uma verdade não encoberta, que veio diretamente do coração de Deus». «Voz» vinda «da eternidade», mas não compreendida senão nos limites do tempo, como o disse Tauler, seu discípulo, acabou por ser objeto de um processo e de uma Bula papal que condenou vinte e oito afirmações suas como heréticas ou «mal sonantes, ousadas e suspeitas de heresia». Todavia, se Eckhart ousa transgredir o plano teológico-filosófico e doutrinal para falar em nome de uma experiência imediata de Deus, esta fuga à norma da sua própria tradição institucionalizada pode noutro sentido ser vista como fidelidade a uma experiência cristã mais profunda, em que a resposta à questão tradicional – Cur Deus homo (Porque se fez Deus homem?) – é a de que Deus se faz homem para que cada homem «seja engendrado como o próprio Deus», sendo «a abissalidade [Abgründigkeit] do ser divino e da natureza divina» inteiramente gerada «no seu Filho unigénito» para que «nós próprios sejamos o mesmo Filho unigénito».

Se a pregação eckhartiana tem dois temas capitais – o nascimento de Deus na alma e o trespasse do espírito na Divindade –, é neste último que se torna mais sensível a sua inovação e radicalidade. Bernard McGinn usa a expressão «mística do fundo» para designar a nova forma de experiência espiritual iniciada ou redescoberta por Eckhart, seus contemporâneos e seguidores, sintetizada na afirmação: «o fundo de Deus e o fundo da alma são um fundo».

Daí a relação da metáfora do fundo com as do «deserto», do «mar» e do «abismo» [Abgrund], imagens de espaços vastos, uniformes e desobstruídos, sem limites nem entidades. Referindo também o incondicionado que há na alma, esse «algo incriado» que nela reside, o fundo é a mais poderosa metáfora que Eckhart usa – a par de outras, como a «pequena centelha» e a «cidadela» – para indicar a presença em cada ser do absoluto e infinito, isso que transcende e identifica o humano e o divino: «Aqui o fundo de Deus é o meu fundo e o meu fundo, o fundo de Deus».

A questão central de toda a pregação eckhartiana é assim a de reassumir esse incondicionado fundo primordial de toda a experiência, que antecede e transcende não só a constituição do sujeito e do mundo, mas ainda a do próprio Deus enquanto tal, não só na sua determinação trinitária.

Um dos sermões mais elucidativos disso é o «Beati pauperes spiritu...», donde se colhe o título da presente obra, embora nele o autor não recorra explicitamente à metáfora do fundo. Propondo o despojamento radical do sujeito, pelo qual nada queira, saiba ou tenha, libertando-se de tudo e do próprio Deus, enquanto sujeito com atributos pensado pelo homem, Eckhart mostra como isso conduz à reintegração no estado primordial, pré-existencial, onde ele próprio, antes de se determinar como ente humano, vivia numa imanência absoluta, «livre de Deus e de todas as coisas».

Aqui se apresentam ao leitor português alguns textos fundamentais dum autor que muito pode contribuir para dois dos maiores e urgentes desafios da nossa época: o florescimento da nossa consciência espiritual e o diálogo intercultural e inter-religioso, com Eckhart aberto […] a agnósticos e ateus, pois uma Divindade equivalente ao «Nada» [Nichts] pode igualmente experimentar-se no silêncio da união místico-contemplativa, no abster-se de afirmar ou negar a sua existência ou no puro negá-la.

 

Fr. José Luís Monteiro («A Obra» - Da Introdução)
Paulo Borges («O Mestre» - Do Prefácio)
In Tratados e Sermões, Paulinas Editora
21.05.09

Capa

Tratados e Sermões

Autor
Mestre Eckhart

Editora
Paulinas

Páginas
328

Ano
2009

Preço
€ 17,50

ISBN
978-972-751-994-1




































































































 

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