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Quaresma

Viagem no deserto

momento penitencial

Deserto

conheço-te
da máscara e do silêncio torturado
com que compões a vida

conheço-te das mãos lavadas que preferes
à canseira de amassar a barro, o pão, a esperança

conheço-te
sentado e protegido
pela solidão do templo e do vestido
conheço-te
por trás da cortina da indiferença
entre o medo e a cólera,
o montão de palavras que carregas sozinho
para armar teu circo de piedade pervertida

conheço-te
como se conhece um muro branco contra o vento,
a cal do tumulo que esconde a corrupção
e a violência antiga

conheço-te
interpondo entre mim e ti o rito, o código, que te prescreve os pensamentos e as acções

e foi para saíres da barra que te chamei pelo nome
e te dei um mapa e remos

se fiz uma aliança contigo e te escolhi
foi para olhares em face os rostos desfigurados
que nenhuma palavra ilumina

ao entrar na aliança dos teus dias
foi para seres enviado da esperança e da ternura
que te escolhi e te sagrei
irmão e irmã de toda a dor do mundo

para saíres dos labirintos da culpa e do farisaísmo
te calcei os pés e te indiquei os caminhos do mar,
o exílio das certezas, o amor do tempo e da eternidade

 

 

dia cinzento

Deserto

guia-nos, Deus,
na viagem através do deserto
até ao lugar da tua crucifixão
e da tua páscoa

guia-nos, Deus,
da via cinzenta dos nossos dias
à. via gloriosa da tua cidade.

seja este o tempo favorável
para a confissão do pecado e do louvor,
nós que vivemos na fragilidade do corpo nómada
o imaginário do oásis
e os lugares de repouso

guia-nos, Deus,
para a inquietação que permanentemente te nomeia,
Deus em Jesus Cristo e no Espírito consolador

 

 

tropeçar

Deserto

tu que conheces as pedras
em que tropeçamos
ou em que fazemos os outros tropeçar
porque  é essa e a lógica do desejo
que nos cega os olhos
e  nos  traz acorrentados à ambição e ao ressentimento,

abre o nosso coração ao acolhimento
que não aliena
e os nossos olhos ao Evangelho
que não se muda em ídolo

pedimos-te, Deus,
que não nos tornemos obstáculos 
uns para os outros,
nem o saber violento da violência
seja a palha no olho do irmão que julgamos sempre,
nós que vivemos debaixo da tua cruz
esperando que se cumpram em nossa vida
os dias da tua criação contínua
e o dom do teu amor no Cristo
que venceu a morte
e no Espírito que nos faz rezar-te
hoje e nos dias todos da nossa esperança

 

 

vigiar

Deserto

desafiai o deserto
a fuga mundi
a desistência

arrancai o caos
o canto livre

deixai a prisão
que pisa aos pés a vida
em nome da pós-vida

entrai no silêncio
que ilumina

esclarecei a distância
entre o poder e as verdades

pensai o acontecimento
a excepção, a mudança

entrai no Aberto
que a palavra tece

querei o não-querer
que faz o pobre

largai a técnica
da autoflagelação
e do cálculo

o claro está no escuro
e na limitação passiva
do que nele fulgura
e leva ao Dia

meditai na vida não na morte

a Páscoa está na dor
que ressuscita

 

 

urgências

Deserto

que a tua Palavra alimente a grande fome,
os caminhos da urgência,
a amargura do corpo habitado pela tristeza

que nos toque a tua Palavra
como mão que cura,
plenamente intolerante ao mundo

que a obra da tua ternura
nos abra os caminhos de iniciação à liberdade,
ao imprevisível, no trabalho, na ecologia,
no sindicato,
como a mudança da tristeza à alegria

que nos tornemos ternura que age
porque só pelo dom que fazemos
conhecemos o dom que somos

que a unção da tua misericórdia
seja a nossa força e a nossa bênção

 

 

Jonas

Deserto

Deus, tu conheces as zonas de silêncio
que nos muram,
o arame farpado da nossa muda contestação;
como Jonas, o nosso silêncio
é a insinuação de que te enganaste
julgando fazer de nós seres que dialogam

Deus, tu interpelas pedras mudas,
cacos insensíveis e inertes,
incapazes de estremecer,
de atirar a Palavra ao vento
e responder ao teu queixume

somos um saco de areia,
uma massa apática que se não mexe do sítio;
não é o combate que os nossos corpos esperam
mas a moleza do vadio
que apenas pede à vida, o sono, o ronco, a letargia

salva-nos, Deus, dos caminhos de fuga,
do silêncio que leva à morte
e orienta a nossa vida
a caminho do teu Nome e da tua Páscoa
e da nossa ressurreição

 

 

rezar

Deserto

Deus, nós devoramos o tempo,
o espaço e o conhecimento
quais vampiros

em nenhum lugar da cidade te encontramos
e rezar-te é ainda reduzir-te
ao pão da nossa saciedade
e à nossa fome

Deus, nós procuramos-te
como se procura a água e o pão:
cultiva os nossos desertos,
a nossa procura e a nossa perda,
as nossas malhas de ilusão

eis-nos diante de ti
e em face uns dos outros:
ficou-nos o resto da partilha,
os caminhos da errância e da solidão

Deus da Palavra e da promessa,
dá ao nosso desejo a graça
de se querer para além da sua imagem
e da clausura que o arme em circo

dá ao nosso desejo a graça  de se tornar fluxo, rio, exílio
ou vaga de palavras
que nenhum Iugar codifique
ou territorialize

Deus, como nós nómada,
que a tua presença se realize de lugar em lugar,
de estação em estação e que a tua palavra se enraíze

tu que és a Palavra e a promessa
realizadas em Jesus e no Espírito
e nos fazes cantar

 

 

libertação

Deserto

foi para a liberdade que o teu dia
nos rasgou os olhos,
para obstinadamente nos irmos
levantando do chão, do medo e da voragem
e querer para todos o trabalho
que não subjugue e sobreviva a vida,
o amor que não se torne uma pedra
atada ao pescoço e sem fragância morre,
a participação que multiplique as linhas,
as frestas, não pelouros

apressa o dia em que cantaremos liberdade
como se canta o fogo
e o tijolo, o mar e o som dos barcos,
o pão e a boca
que nos dá um nome
e dar-te-emos graças na alegria,
Deus das nossas viagens
e da nossa liberdade,
Deus de Jesus Cristo libertador
e do Espírito que renova tudo,
Deus do dia de hoje
e de todos os dias do teu dia

 

 

o anjo e o vitral

Deserto

venha o teu anjo
que nos trespasse a alma
de palavras novas

venha o teu anjo
como raio que atravessa o vitral e não o quebra
e o transfigura

venha o teu anjo
extirpar do corpo
o demónio da surdez e do mutismo
que não guarda a alma
nem o seu jardim canoro

não se tornem as palavras que dizemos
lama ou sapos,
mas evangelho,
alegria do mundo

venha o teu anjo
mostrar o túmulo vazio
de onde o Logos corre
e de onde outros corpos sacramentais
se formam

que do interminável léxico das coisas
a nossa voz te diga
e o nosso corpo te bendiga
pela hora que passa
e o rosto acreditado

 

 

Cléofas

Foto

nós somos o companheiro sem nome de Cléofas
fazendo estrada com o invisível
a quem interrogamos

nós mendigamos palavras
que nos toquem a alma
e nos desentorpeçam do peso
do sofrimento e da cegueira

em nós permanece a necessidade de compreender
quer dizer antes de mais de ver
o estigma, a marca que atravessou
a carne do crucificado

nos brancos do silêncio escutamos
o sopro do ressuscitado
que inscreveu em nós a ordem
da luta contra o mal
e a recusa do processo da vítima
que acaba na Cruz

que o Espírito dos caminhos
solte a nossa língua
com ele quebremos o círculo infernal
da substituição sacrificial
o ídolo visível
a fachada

arrisquemos a palavra alegria
ou a palavra páscoa
e ajoelhemo-nos
às portas do silêncio e da misericórdia

 

 

Penitencial

Foto

vimos lavar os olhos
do excesso de imagens em que nos afoga o mundo

vimos purificar os lábios
de muita palavra de fel e ironia
que não salva

vimos procurar
no poço do mundanal silêncio
o sopro que ordenava o caos

buscamos a verdade
do nosso desejo no intervalo da luz
que vem do alto e transfigura

às portas do silêncio nos ajoelhamos
que a água da misericórdia
cure a nossa memória infiel:
Kyrie eleison

 

 

Kyrie

Foto

tem piedade de nós, Senhor,
que imitamos no velho Adão
a parte inumana em que nos tornámos

tem piedade de nós, ó Cristo,
que falamos a palavra do demónio
e da serpente que promete o fim da morte

tem piedade de nós, Senhor,
que apagamos o relevo do outro, carne da nossa carne
em nome do fantasma de um Povo-um

tem piedade de nós, ó Cristo,
que tão bem conhecemos a lógica da exclusão
e o mal veio da misericórdia e do perdão

tem piedade de nós, Senhor,
da guerra fria de tanto dia sem rosto
e do sorriso angélico
que traz a paz e traz a guerra

tem piedade de nós, ó Cristo,
pós-humanos já, sem carne e sem memória,
que perdemos o sentido da justiça

tem piedade de nós, Senhor,
relógios de horas bentas, regulares
sem razão ardente e sem piedade

 

 

escuta

Foto

recolha-me para me dizer escutando-te,
Deus das minhas pobres dissonâncias

empresta-me as asas do teu anjo
que me transportem ao deserto

derrama a água da tua misericórdia,
não o vinho da tua ira
sobre a minha cabeça
e dar-te-ei em todo o tempo graças,  

Deus que vens do futuro
e para lá convocas os meus olhos

 

 

da Cruz

Foto

Deus, loucura do mundo
dá-nos a coragem da constância
no azul-cinzento
de certos dias cinzentos

não nos paralise o medo
diante do que nasce e cresce
entre ruínas

não nos seduza o anjo da luz enganosa
sob a capa da piedade
ou da verdade nua

salve-nos a loucura da tua cruz
que nos ensine o amor
e a graça de chamar-te
Pai, Filho e Espírito Santo

 

 

estou à porta e bato

Foto

estou à porta e bato, ó Deus
vem abrir aos meus olhos
que secaram para a dor
sem compaixão, sem água

cura as feridas que deixou
o mal que infesta
cura meu coração do mal

venho a ti buscar o pão
venho a ti buscar o sal
dá-me a graça de nascer
e de acompanhar a Voz

dá-me a força p’ra partir
sem saber aonde vou
unge, ó Deus, meu corpo

dá-me a energia do dizer
que deu à terra o seu fulgor
e a janela de onde ver
a alegria, o intenso, a luz

seja a vida páscoa, dom
arrimo e voo largo, dá-me
o teu Sopro, ó Deus

dá-me a voz para dizer
a palavra e não o lodo
dá-me a lã que há no mar
para tecer o anel da paz

dá-me o gosto de viver
o meio-dia, o sol
no Jardim acorde

Texto para uma música islandesa de Sigurbjörnsson

 

 

das coisas peregrinas

Foto

que ousemos o entusiasmo
da luz de cada dia,
a agilidade dos vindimadores
socalco acima

mantém-nos, Deus, ao rés da terra,
e altos, de inquietos, vigilantes voos

não se esgotem as cisternas
da paciência para a vida,
nem os agapantos azuis
nos encharquem de clandestina morte

dá-nos o paladar das coisas peregrinas,
o lugar do vento que não sabe donde,
o sítio dos comboios nos apeadeiros breves

que no rodopio das horas
a tua mão nos mostre o pino do sol
e o cheiro a mosto e a pão de milho
anuncie a ceia, a mesa da justiça, do bem e da beleza

 

 

transfiguração

Foto

entremos mais dentro da espessura,
façamos uma tenda, uma pausa breve
que antecipe a Páscoa
e nos esclareça
acerca do segredo e da glória de Deus inacessível
na face do Cristo, ícone de Deus

vinde, escalemos a montanha do Senhor,
o universo inteiro foi santificado
pela luz que o resgatou da transfiguração:
hoje o Cristo foi transformado na glória do Tabor

que nos ilumine a luz do seu conhecimento
nos carreiros da vida
e nos purifique do que a sombra
em nós escureceu

que a coluna de fogo que revelou a Moisés
o Cristo transfigurado
nos purifique desta sombra e deste escuro

pratiquemos este lugar e esta hora
porque este é o tempo da ficção do rosto,
o tempo de repensar feridas
e refigurar o chão das coisas,
o seu uso e a sua banalidade

vinde, conversai com o Espírito
e a brisa ligeira vos refresque o rosto
vinde, conversai com Maria,
o paraíso místico
ela nos ensine a beleza do canto
e a beleza desta hora

 

 

da dívida

Foto

Deus, tu conheces as armadilhas
que a culpabilidade e o desejo armam
e conheces também as profundidades imemoráveis
do que em nós se tece do teu nome,
dos caminhos da tua cruz e da esperança

clarifica os labirintos por que te procuramos
e perdemos
as vinganças e as des-razões do nosso coração

questiona as raízes obscuras e os sinais luminosos,
as vozes antigas e as visões
para que te reconheçamos
como o apelo daquele que vem
na promessa de uma verdade e de uma presença
e tenhamos parte no tempo do amor e da fruição,
nós que no tempo somos os peregrinos da tua face,
Deus da nossa dívida e do nosso desejo,
Deus de Jesus Cristo nossa alegria
E do Espírito de quem vem a vida

 

 

vem procurar-nos

Foto

Deus que escutas o mundo,
e o barulho dos nossos corpos contra o molhe,
vem procurar-nos ao fundo da nossa noite,
lá onde os fantasmas nos devoram
e as belas palavras nos desmultiplicam
vem procurar-nos, Deus
ao fundo da nossa profissão de descontentamento
e de exportadores de deuses

não nos entregues aos nossos próprios discursos;
dá-nos antes um corpo de escuta e de desejo
para que te reconheçamos ao largo das nossas vidas. 

livra-nos, Senhor,
do medo de sermos encontrados diante de ti
como uma chaga aberta ou fonte
e concede-nos que te digamos
com toda a água e todo o sal da nossa vida

 

 

venha o teu tempo

Foto

Deus, dá à nossa vida
a pobreza do Espírito e da miséria
pois só assim se conhece a esperança
dá-nos o dom da doçura
que acalma a tristeza e reduz o ódio
dá-nos a presença discreta e silenciosa
junto dos que sofrem

que a justiça que não demos
nos pese como a fome ou a sede
e não apenas como uma palavra vazia;
que se abra à miséria o nosso coração
e saibamos perdoar;
dá-nos o conhecimento e o gosto das lágrimas
para melhor acolhermos a vida
e os recomeços

que venha o teu tempo, Deus,
o teu dia,
não amanhã,
mas o hoje
e para um tempo
que não acabará nunca

 

 

o passante

Foto

àqueles que vigiam
desde o despontar do dia
concede a tua luz laranja

que os nossos lábios te louvem
e as portas dos nossos corações
de par em par se abram
e permaneçam assim abertas
aos que passam,

tu o passante
da noite terrível da solidão
e do abandono,
Deus do que sabe o dia
e teme a noite,
e a cada um conhece pelo nome

 

 

momento penitencial

Foto

cura-nos, Senhor, das feridas da malícia
que a vontade abriu, desgovernada

cura-nos, Senhor, das feridas da ignorância que a inteligência consentiu,
tão cega de destino e de prudência

cura-nos, Senhor, das feridas da lassidão
a que o apetite sensível nos expõe,
perdidas as rédeas da razão e da vontade

cura-nos, Senhor, das feridas das concupiscências várias
pois mal sabemos já  distinguir entre as cobiças
as que ao bem conformes, ou combatendo-o

que a hora de Jesus Cristo,
nosso irmão em nossa natureza
enxote a sombra que vestiu Adão
e nos escureceu

que a tua obra nos integre
no arco-íris da graça e da justiça,
abertas as portas ao Espírito,
o nosso corpo alagado, renascido,
para a faina dos dias
e o louvor das horas

 

 

Deus absconditus

Foto

onde estás, Deus libertador
que nos perguntam por ti e não te vemos?
Deus escondido, onde estás?
Devemos procurar-te entre os destroços,
a cinza e as mãos cortadas como canas verdes,
ou à frente das batalhas,
entre os que caminham como o vento
e as folhas das plantas, sensíveis à luz,
entre os que vão de cabeça alta e regressam
da servidão do saco e do tijolo
os que acordados vêm,
os pés recentemente desatados,
a língua solta?
Deus escondido, onde moras?
devemos procurar-te entre as que fizeram o êxodo
e começaram a amar,
os que morrendo a si já ressuscitam
os que rompem as muralhas da pele e pedem água?
devemos procurar-te naqueles que sobem à montanha
para molhar as mãos de luz e transfigurar-se?
(na solidão dos montes apalparei a tua face?
na limpidez dos rios e as palavra
com que fizeste o mundo verei a tua mão correndo?

onde devemos esperar-te, Deus da surpresa
e como nós trânsfuga?
Deus dos que não têm voz nem barcos
para na albufeira olhar a alma
a crescer como a sombra dos pinheiros
anoitece a alma e o rio,
Deus gratuito, onde estás?

devemos procurar-te na poesia e no canto,
no amor e na beleza,
na barraca e no lixo?
onde apareces, Deus amigo dos pobres,
onde te acharemos, Deus libertador?

 

 

intróito

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I

nós pedimos o pão
como o elementar da vida
e pedimos o perdão
como a leveza que transporta o mundo

quando voltamos os olhos para Deus
que não está no céu,
mas no mistério da vida infinita,
inimaginável,
donde Ele vem e se faz próximo,
que dizemos?

que o Misericordioso
alivie a nossa vida do peso do ressentimento
e da angústia do abandono
e nos faça entrar na barca que leva ao paraíso
da vida abençoada

 

II

alguém saudou a escuridão da nossa casa;
alguém acordou e atiçou um sonho
onde ressoam passos de profetas

viemos para reconhecer
e atirar a nossa alma para a eira dessa batida

viemos para trocar os sonhos
que são o lugar de anamnese,
de unidade e de transcendência

antes de nós, Isaías, Acaz, Sofonias,
sonharam com o dia que se aproxima.
a hora é de adivinhar a presença amante
nos sinais do amor,
no perdão,
no devir de nós mesmos,
à luz que vem ungir os olhos
da doçura da misericórdia

 

III

traz a tua cruz e segue-me,
reúne as tuas memórias dolorosas
e o que sufoca a vida, o que te prostra e não compreendes
junta-te ao mal que atola o mundo,
junta o teu grão de dor à dor do mundo e segue-me
neste acto em que me dou a vós, baptizados no meu nome,
junta-te ao meu caminho, que foi de morte e foi de páscoa

estamos reunidos na memória da Páscoa
a fim de aprender a renascer das lágrimas
cada vez em que o tecido da nossa vida comum
irremediavelmente se rasgou,
tornando-se encontro com o Todo-desconhecido

Deus não é estranho a esta festa
em que dizemos, cada um no seu coração os nomes daqueles
que nos precederam na vida e nos afectos
e passaram a morte para se inscreverem
numa nova ordem de comunicação

porque dizer, aqui, é ligar:
a nossa vida está escondida em Deus:
Ele sabe a caminhada secreta para o repouso da sua Face.
só o Deus fiel  pode fazer com que a nossa vida
não se perca na noite:
abandonemo-nos nas suas redes invisíveis

 

IV

infelizes vós os saciados
que viveis na ilusão de serdes a fonte e o mar
de todos os poderes e sentimentos e prazeres

infelizes vós que esqueceis a vossa condição de filhos
e vos julgais criadores de gado quando tratais com os outros

infelizes vós a quem nada vos falta
e vos atribuís o mérito do hiper-poder que é uma embriaguez

infelizes vós que não tendes fome da vida absoluta
e vos bastais com o alimento conhecido da vossa cobiça

infelizes vós que nada dilacera, nada esvazia
e enxutais do sofrimento a vida absoluta que o vela

 

 

embolismo

Foto

livra-nos, Senhor, da violência das palavras
quando não vêem rostos
e semeiam lágrimas

livra-nos da violência surda,
do silêncio mútico, perverso,
das tradições do corpo que inundou a era

livra-nos da violência das coisas
que nos afogam, de excessivas

e liga-nos à diferença harmoniosa,
Deus que nos prometes a paz
e que esperamos na fronteira do fogo e da alegria

 

 

viagem no deserto

Deserto

abre-nos, Deus, a porta
através das águas
para a grande viagem no deserto:
o combate com a morte no campo da vida,
a travessia dos limites, a nebulosa dos olhos

não se ensurdeça o nosso coração
porque a luta noctuma com o teu Nome
nos deixou no corpo marcas

dá-nos a graça de atravessar o riacho da vida
mesmo coxeando;
que caminhemos com a ligeireza
e a elegância do animal
que busca o esplendor do verdadeiro
nas coisas provisórias

e que desse combate com as imagens
nos aproximemos do horizonte da tua casa
donde vejamos as sementes do amor cobrindo a eira,

Deus que ligas o céu e a terra no teu Filho Jesus
e no Espírito

 

Os poemas de O Nome e a Forma acompanham a nossa Quaresma.

 

José Augusto Mourão
In O Nome e a Forma, ed. Pedra Angular
Fotografia: Corbis
03.03.12

 

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