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Entrevista

A fé alimenta-se de poesia

«O que eu não me revejo é num conformismo. É em ser mais um, em ser mais uma voz, nesta mecânica de homogeneização e de repetição, a que uma certa cultura e que um certo sistema dominante nos obrigam. Nisso não me revejo.»

Em entrevista publicada no primeiro número da revista "Estante", editada pela Fnac, o padre José Tolentino Mendonça sublinha que a fé alimenta da «pobreza extrema» que é a poesia.

«No fundo, o estar sempre a começar. Cada poema é um início. Como o estar sempre perante o branco, perante o silêncio, perante o não saber. E recomeçar. A fé alimenta-se muito disso, porque a fé não é o acumulado do ontem, mas é viver no aberto da esperança e do corpo, do nascer e do morrer, do amor e da fragilidade. E no fundo a escrita treina-me para a sucessão de começos que a vida é nas suas várias dimensões.»

Convidado a dizer o que está a ouvir e a ler, o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura nomeia o último disco de Beck ("Morning Phase") e «um conjunto
de discos antológicos de cânticos de habitantes da montanha».

Nos livros, "Crematório", do espanhol Rafael Chirbes, que reflete as várias dimensões da «crise», e «ensaios que têm mais a ver com Estudos Bíblicos, com a figura de Paulo»: «É outra das minhas grandes paixões.»

Sobre "O zelota - A vida e o tempo de Jesus de Nazaré", de Reza Aslan, recentemente publicado pela Quetzal, José Tolentino Mendonça considera que se trata de um volume «mais interessante por aquilo que aponta fora dele do que propriamente pela novidade daquilo que traz».

«Ajuda-nos a pensar, ajuda-nos a enquadrar Jesus historicamente. Estes livros ajudam-nos a perceber que Jesus estava ligado a uma cultura, naquele tempo concreto, com as problemáticas daquele tempo. E Jesus não vivia numa cápsula, vivia em interação com os grupos, recolhia ideias de uns, passou por outros.»

Jesus passou do vitral para os escaparates: «Estar na montra quer dizer chegar a ele por acessos absolutamente imprevistos. Até como este [livro], de um autor de outra tradição religiosa que sente também o fascínio pela personalidade de Jesus e que, à sua maneira, tenta chegar a ele, tenta chegar ao seu mistério, ao seu segredo».

«O que a personagem Jesus tem de atraente é a compreensão de que é inesgotável. Sobre ele, diz-se muito e ainda há muito a dizer, avançamos por hipóteses», aponta o biblista.

 

Entrevista
Jornalista: Ana Cordeiro

É padre na Capela do Rato, em lisboa, professor e vice-reitor na Universidade Católica, e foi nomeado por Bento XVI para consultor do Conselho Pontifício para a Cultura em 2011. A poesia, para si, confunde-se com tudo o que faz?

O Rimbaud dizia “Je suis un autre” [Eu sou um outro]. Há, em todas as vidas, uma dimensão de alteridade em relação a nós próprios. Não somos apenas uma coisa só. Somos um conjunto de componentes, de desejos, de memórias, de caminhos, de projetos. E é interessante sentir esse lado quase laboratorial da vida interior de cada pessoa. É também assim que me sinto, a habitar o ‘entre’: entre projetos, entre caminhos, entre memórias, entre visões. Não sinto uma falta de unidade. Sinto que aquilo que, aos olhos de outros, pode aparecer como uma dispersão, é a resposta ao apelo polifónico da própria vida. A vida não nos chama de uma maneira só, chama-nos com vozes diferentes que são no fundo a única voz. A escrita é uma espécie de ponte, funciona como uma espécie de resíduo, um lugar, por onde tudo passa e algumas coisas ficam.

Em que momentos escreve?
Há momentos mais favoráveis do que outros.

Quais são eles?
As musas visitam-nos e, quando elas nos visitam, têm um caráter de imponderabilidade, de coisa que não se pode adiar. Aí, a escrita e a poesia acontecem de uma forma mais intensa. Nos outros momentos, ou seja, na maior parte do tempo, a poesia é uma atenção ao real, é um pequeno caderno que trago no bolso, onde vou anotando imagens, palavras, frases, todos os dias, a todas as horas.

É frequentemente descrito como uma das vozes “mais originais” ou uma das vozes “mais intensamente radicais” da poesia portuguesa contemporânea. Como reage a essa descrição?
O conceito de originalidade é-me muito caro. No sentido em que acho que cada um de nós é chamado a ser original. Mesmo convivendo e prolongando uma tradição, na escrita, na vida e na crença, a verdade é que temos de ser isso e, ao mesmo tempo, originais. O que me é pedido é que seja um mestre original, um poeta original, um cristão original.

A originalidade vem dessa liberdade da escrita que defende para si?
Vinícius [de Moraes] dizia que beleza é fundamental. Eu acho que liberdade é fundamental, como o é perceber que as perguntas são muito mais preciosas do que as respostas. E que, no fundo, um poeta é uma máquina de fazer perguntas ao mundo, à realidade, a si próprio. É aí que me parece que está o contributo que eu posso dar.

Revê-se nessa ideia de que é “uma das vozes mais intensamente radicais” da poesia portuguesa contemporânea?
O que eu não me revejo é num conformismo. É em ser mais um, em ser mais uma voz, nesta mecânica de homogeneização e de repetição, a que uma certa cultura e que um certo sistema dominante nos obrigam. Nisso não me revejo. Se sou outra coisa, outros o dirão.

Qual é a fonte dessa intensidade?
A intensidade vem de uma confiança que não é autoconfiança e, ao mesmo tempo, de um desprendimento muito grande, de uma liberdade muito grande.

Está relacionada com o sacerdócio?
Esta intensidade sem dúvida que se liga com a fé. Quando eu falo de confiança, estou também a dizer de outro modo o que é a fé, uma convicção fundamental de que há um sentido, de que há uma razão, de que há uma esperança, de que há um caminho, de que há um antes e um depois, e que alguém espera por nós do outro lado da corrente.

A sua poesia é expressão dessa fé?
Para mim, a poesia não é instrumental. Eu não levo um programa de ideias para expressar na poesia. A poesia é que me revela. O poema é que me mostra o que eu ando a dizer. E daí talvez uma intensidade. Porque o poema não se faz de ideias, não se faz só de palavras, faz-se de uma experiência e, nessa experiência, está o que somos.

A poesia e a fé são, para si, indissociáveis? Uma alimenta a outra?
Alimentam muito. A fé alimenta-se muito daquela pobreza extrema, esse modo pobre que é a poesia. No fundo, o estar sempre a começar. Cada poema é um início. Como o estar sempre perante o branco, perante o silêncio, perante o não saber. E recomeçar. A fé alimenta-se muito disso, porque a fé não é o acumulado do ontem, mas é viver no aberto da esperança e do corpo, do nascer e do morrer, do amor e da fragilidade. E no fundo a escrita treina-me para a sucessão de começos que a vida é nas suas várias dimensões.

Esse “viver no aberto” está relacionado com a imensidão do espaço que preencheu a sua infância em Angola [onde viveu entre os 12 meses e os oito anos]?
O professor João dos Santos diz que a infância é o grande segredo do homem e a Flannery O’Connor diz que quem sobrevive à sua infância sobrevive a tudo. (risos)

A sua infância e os lugares por onde passou definiram a sua vocação?
Criaram condições. De Angola, tenho memórias do espaço, um espaço a perder de vista, de todos os caminhos serem caminhos longos, de haver um silêncio da própria paisagem. Como se a paisagem nos pedisse um tempo mais vagaroso, mais paciente, mais demorado para a contemplação. E guardo dentro de mim a memória dessa imensidão. Lembro-me de, às vezes, ir de barco com o meu pai que era pescador. Tinha cinco, seis, sete anos, e lembro-me de olhar para o fundo do mar ou para a costa, e de estar completamente extasiado com a poesia do mundo. Essa contemplação espontânea acabou por me dar uma capacidade de perceber o grande que habita o mínimo, que habita o escasso. E nesse sentido, marcou-me muito.

Os livros também o conduziram à escrita?
Os livros chegaram mais tarde, na adolescência, quando entrei no seminário [na Madeira], e de repente estava a viver numa casa com uma biblioteca absolutamente extraordinária, com livros que cobriam as paredes, livros de géneros muito diferentes. No seminário, por exemplo, estava o embrião de um museu de história natural. Havia os livros de História, de Geologia e depois todos os livros de Filosofia. Era como habitar um mundo admirável. Os livros que li, que leio, têm dado sentido à minha vida.

Entrou no seminário com 11 anos na Madeira. Soube então muito cedo que queria seguir essa via?
Uma disponibilidade existia, embora não se possa pensar que uma criança possa ter já a sua vida decidida. Havia essa disponibilidade para fazer um caminho onde a dimensão espiritual fosse estruturante.

Tinha essa consciência aos 11 anos e disse-o aos seus pais?
Tinha e disse-lhes. Foi uma notícia muito má. Receberam com muita precaução e alguma oposição. Mas houve a verificação, depois no tempo, de uma certa coerência nesta minha disponibilidade. Não era apenas o capricho de um adolescente. Penso que se reconciliaram [com esta escolha] já eu estava na universidade a estudar Teologia aqui em Lisboa e perceberam que era um projeto coerente e que correspondia de fato à minha vontade de forma muito livre e amadurecida.

Os seus leitores podem ser seus amigos no Facebook ou noutra rede social?
Não estou no Facebook, porque não tenho tempo. Os amigos reais já se queixam tanto da minha falta de tempo. Seria só criar mais amigos insatisfeitos, e mais culpabilidade.

Como vê este conceito de amizade virtual?
Acho que pode ser importante. Eu não tenho nada uma visão demonizada das redes sociais. É um caminho. Para muita gente, é uma forma de vencer a solidão, de colocar as pessoas a comunicar, a escrever, a pensar, a partilhar. Tenho uma ideia muito positiva do impacto das redes sociais e do que elas têm significado para muita gente. Vejo isso nos meus contatos. Mais do que ampliar solidões, como às vezes necessariamente acontece, as redes sociais ajudam a criar arquipélagos, a aproximar as pessoas.

Mas também ampliam solidões?
Por vezes, sim. Porque é também um mundo de muita ilusão e fabricação, onde é mais o que as pessoas desejavam ser do que aquilo que são. E, no fundo, também um lugar de muito desencontro, de muita desconfiança.

Nalgumas ocasiões, citou a escritora Flannery O’Connor para evocar a experiência do mal, a ideia de que todo o ser humano é capaz do Mal, nalgum momento da sua vida ou do seu quotidiano. É a ouvir os crentes da capela do Rato, que isso se torna, para si, mais evidente?
Isso torna-se para mim evidente, antes de tudo, em mim. A evidência da fragilidade e do dilema e do mal, antes de tudo, na consciência que tenho de mim. Muitas vezes, posso dizer o que São Paulo diz na Carta aos Romanos – “Não faço o Bem que quero, mas o Mal que odeio”. E depois, de facto, também acompanhando a experiência de vida, a gente percebe como, havendo as condições para que o Bem se multiplique, muitas vezes ele encontra em nós obstáculos, incapacidades, intolerâncias. Isso faz parte do caminho do homem, do caminho do ser humano. O Mal marca a experiência da nossa humanidade. O Mal é o limite, é o poder fazer uma coisa, e não a fazer, escolher outro caminho. Eu estou convencido de que o Mal maior em nós provém da omissão. Às vezes não temos a liberdade interior de avançar para o Bem.

 

In Revista "Estante"
14.04.14

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José Tolentino Mendonça
Foto: David Clifford / Estante

 

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