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A flor do diálogo

«Falta-me a fé e, portanto, nunca poderei ser um homem feliz, porque um homem feliz não pode ter o receio de que a sua vida seja apenas um caminhar insensato para uma morte certa… Não herdei o furor dissimulado do cético, o gosto do deserto caro ao racionalista ou a ardente candura do ateu. Não me atrevo, por isso, a atirar pedras à mulher que acredita em coisas de que eu duvido.» Tinha apenas 31 anos e estava já no auge do êxito; no entanto, a 4 de novembro de 1954, suicidou-se e, porventura, a chave desta capitulação desastrosa devia buscar-se justamente nas linhas que citámos do seu texto A nossa necessidade de consolação. Estamos a falar de um escritor sueco «culto», Stig Dagerman, que ilumina de modo explícito o sentido de um diálogo entre ateus e crentes.

 

O encontro ao longo da fronteira

Interrogar-se sobre o significado último do existir não envolve, certamente, o cético sardónico e sarcástico que ambiciona apenas ridicularizar os assertos religiosos. Além disso, alguém que percebia de ateísmo, como o filósofo Nietzsche, não hesitava em escrever, no Crepúsculo dos ídolos (1888), que «só um homem com fé robusta se pode dar ao luxo do ceticismo». Nem sequer o racionalista, envolto no manto glorioso da sua autossuficiência cognoscitiva, deseja correr o risco de se entranhar nas sendas altaneiras da sabedoria mística, segundo uma gramática nova que participa da linguagem do amor, que é muito diferente da espada de gelo da todavia importante razão pura. Nem está interessado neste diálogo o ateu confessante que, na esteira do zelo ardente do Marquês de Sade da Nouvelle Justine (1797), apresenta o seu peito só ao duelo: «Quando o ateísmo quiser mártires, que o diga: o meu sangue está pronto!»

O encontro entre crentes e não crentes tem lugar quando se deixam para trás apologéticas ferozes e desmistificações devastadoras e se tira o manto cinzento da superficialidade e da indiferença, que sepulta a ânsia profunda de busca e, ao invés, se revelam as razões profundas da esperança do crente e da expectação do agnóstico. Eis porque se quis pensar, por parte do Pontifício Conselho da Cultura, num «Átrio dos Gentios», na esteira de uma solicitação de Bento XVI, durante um discurso seu à Cúria romana em dezembro de 2009. Deixemos de lado a denominação histórica, que tem apenas uma função simbólica, evocando o átrio que, no templo de Jerusalém, estava reservado aos «gentios», isto é, os não-judeus em visita à cidade santa e ao seu santuário. Detenhamo-nos, pelo contrário, no seu aspeto temático, como o faz brilhar Dagerman. Um dos intelectuais judeus mais abertos do séc. I d.C., Fílon de Alexandria, artífice de um diálogo entre Judaísmo e helenismo - portanto, segundo os cânones de então, entre fiéis javistas e pagãos idólatras -, definia o sábio com o adjetivo methórios, ou seja, o que está na fronteira. Tem os pés assentes na sua região, mas o seu olhar estende-se para lá da raia e o seu ouvido escuta as razões do outro.

Para efetuar este encontro há que armar-se não de espadas dialéticas, como no duelo entre o jesuíta e o jansenista do filme A via láctea (1968) de Buñuel, mas de coerência e respeito: coerência com a visão pessoal do ser e do existir, sem rasgões sincretistas ou irrupções fundamentalistas ou aproximações propagandísticas; respeito pela visão de outrem, para a qual se reservam atenção e verificação. Em contrapartida, é-se incapaz de estar nesse limite entre os dois átrios simbólicos do templo de Sião, o átrio dos gentios e o átrio dos israelitas, quando alguém se acoita apenas em defesa dos seus ídolos. Em O Adolescente (1875), Dostoievsky, embora ainda com a paixão do crente, identificava-os com clareza. Afirmava, de facto, que «o homem não pode existir sem se inclinar… Inclinar-se-á, então, perante um ídolo de madeira ou de ouro ou do pensamento… ou de deuses sem Deus». Mas reconhecia também que há «alguns que existem veramente sem Deus, só que metem mais medo do que os outros, porque andam com o nome de Deus nos lábios». Eis a tipologia comum aos que não irão deter-se a dialogar naquela fronteira: os convencidos de já disporem de todas as respostas e de terem apenas de as impor.

Mas isto não significa que aqui nos apresentemos apenas como mendigos, privados de qualquer verdade ou conceção da vida. Ao postar-me por coerência no terreno do crer a que pertenço, gostaria apenas de evocar a riqueza que esta região revela nos seus vários panoramas ideais. Pensemos no refinado estatuto epistemológico da teologia como disciplina dotada de uma coerência própria, na visão antropológica cristã elaborada ao longo dos séculos, na perscrutação dos temas postremos da vida, da morte e do além, da transcendência e da história, da moral e da verdade, do mal e da dor, da pessoa, do amor e da liberdade; pensemos ainda no contributo decisivo oferecido pela fé às artes, à cultura e ao próprio ethos do Ocidente. Esta enorme bagagem de saber e de história, de fé e de vida, de esperança e de experiência, de beleza e de cultura é posta em cima da mesa perante o «gentio» que, por seu turno, poderá preparar a mesa da sua investigação e dos seus resultados para um confronto.

Nunca saímos indemnes de semelhante encontro, antes reciprocamente enriquecidos e estimulados. Será um pouco paradoxal, mas poderia ser verdade o que Gesualdo Bufalino escrevia no seu Malpensante (1987): «Só nos ateus sobrevive, hoje, a paixão pelo divino.» Uma lição, portanto, e um aviso para o fiel rotineiro, entregue a fórmulas dogmáticas, sem o escavar do compreender inteligente e vital. Na outra vertente poderia imaginar-se a epígrafe de um dos túmulos da Antologia de Spoon River (1915): «Eu, que aqui jazo, era o ateu da aldeia, loquaz, litigioso, versado nos argumentos dos descrentes. Mas, durante uma longa enfermidade, li os Upanishads e o Evangelho, de Jesus. E eles acenderam uma chama de esperança, de intuição e de desejo, que a Sombra, ao guiar-me através das cavernas da negrura, não conseguiu extinguir. Escutai-me, vós que viveis nos sentidos e pensais só através dos sentidos: a imortalidade não é um dom, mas um cumprimento. E só aqueles que muito se esforçam poderão alcançá-la.»

 

A «incredulidade» do crente e a «fé» do ateu

Importa, então, afirmar - sempre nesta linha e na esteira da metáfora da fronteira - que o confim, quando se dialoga, não é uma cortina de ferro intransponível. Não só porque existe uma realidade que é a da conversão -  tomamos aqui o termo no seu significado etimológico geral, e não na aceção religiosa tradicional. Mas ainda por outro motivo. Crentes e não-crentes encontram-se, com frequência, num terreno diferente do bloco de partida: há, de facto, como frequentemente se diz, crentes que julgam acreditar, mas na realidade são incrédulos e, vice-versa, não-crentes que julgam não crer, mas cujo percurso se desenrola naquele momento sob o céu de Deus. Queremos, a este respeito, sugerir dois exemplos paralelos, embora distribuídos por dois campos. Tomemos como ponto de partida o crente e a componente de obscuridade que a fé comporta, sobretudo quando se dilata e estende o sudário do silêncio de Deus.

É fácil pensar em Abraão e nos três dias de marcha pela encosta do monte Moriá, apertando a mão do filho Isaac e conservando no coração a desconcertante ordem divina do sacrifício (Génesis 22); ou, então, podemos recorrer à dilacerante e fluvial interrogação de Job; ou ainda ao grito do próprio Cristo na cruz: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» Ou ainda, para escolher um emblema moderno, entre os muitos possíveis, à «noite escura» de um místico altíssimo como S. João da Cruz e, para nos aproximarmos de nós, no drama do pastor Ericson, em crise de fé, no filme Luz de inverno (1962) de Ingmar Bergman. Escrevia justamente um teólogo francês, Claude Geffré: «Num plano objetivo, é decerto impossível falar de uma não-crença na fé. Mas, no plano existencial, pode chegar-se a discernir uma simultaneidade de fé e de não-crença. Isso apenas realça a própria natureza da fé como dom gratuito de Deus e como experiência comunitária: o verdadeiro sujeito da fé é uma comunidade e não um indivíduo isolado.»

Desloquemo-nos, agora, para a outra vertente, a do ateu e das suas oscilações. O seu próprio anseio, testemunhado por exemplo pelo citado Dagerman, é já um percurso que se entranha no mistério, ao ponto de se configurar em oração, como é atestado por esta invocação de Alexandre Zinoviev, o autor de Cumes abismais (1976): «Peço-te, meu Deus, tenta existir, ao menos um pouco, abre os teus olhos, rogo-te! Terás apenas de fazer isto, seguir o que acontece: é bem pouco! Mas, Senhor, esforça-te por ver, peço-te! Viver sem testemunhas, que inferno! Por isso, forçando a minha voz, grito e brado: meu pai, suplico-te e choro: Existe!» É a mesma súplica de um dos nossos poetas contemporâneos mais originais, Giorgio Caproni (1912-1990): «Deus de vontade, Deus omnipotente, tenta,/ (Esforça-te!), com a fúria de insistir,/ - ao menos - por existir.» É significativo que o Concílio Vaticano II tenha reconhecido que, ao obedecer às injunções da sua consciência, também o não-crente pode participar na ressurreição em Cristo, que «vale não só para os cristãos, mas também para todos os homens de boa vontade, em cujo coração trabalha invisivelmente a graça. Cristo morreu, efetivamente, por todos […] Por isso, devemos pensar que o Espírito Santo concede a todos a possibilidade de serem associados, do modo que Deus conhece, ao mistério pascal» (Gaudium et spes, 22).

Em última análise, o obstáculo que se levanta a este diálogo-encontro talvez seja apenas um só, o da superficialidade que atenua e desbota a fé numa vaga espiritualidade e reduz o ateísmo a uma negação banal ou sarcástica. Para muitos, nos dias de hoje, o Pai-nosso transforma-se na caricatura que dele fez Jacques Prévert: «Pai nosso que estais no céu, ficai por lá!» Ou ainda na retomada irónica que o poeta francês excogitou do Génesis: «Deus, ao surpreender Adão e Eva,/  disse: Continuai, peço-vos,/ não vos perturbeis comigo,/ procedei como se eu não existisse!» Fazer como se Deus não existisse, etsi Deus non daretur, é, em parte, o mote de sociedade da nossa época: enclausurado como está no céu dourado da sua transcendência, Deus (ou a sua ideia) não deve apoquentar as nossas consciências, não deve interferir nos nossos afazeres, não deve arruinar prazeres e êxitos.

Eis o grande risco que cria dificuldades a uma busca recíproca, deixando o crente envolto numa ligeira aura de religiosidade, de devoção, de ritualismo tradicional, e o não-crente imerso no realismo pesado das coisas, do imediato, do interesse. Como já anunciava o profeta Isaías, achamo-nos num estado de atonia: «Procurei, mas não encontrei ninguém entre eles, nenhum conselheiro a quem perguntar para me informar» (41,28). O diálogo é justamente para fazer crescer o caule das perguntas, mas também para abrir a corola das respostas. Pelo menos de algumas respostas autênticas e profundas.

 

O «delator» de Deus

E agora, nesta linha do diálogo entre crentes e agnósticos em torno das questões «últimas», como é justamente a de Deus, apresentamos uma espécie de exemplo emblemático e provocatório contemporâneo, o de um escritor ateu de grande impacto emotivo e teórico. «Sou um estrangeiro para a polícia, para Deus, para mim mesmo.» Talvez seja este o mais lapidar e fulgurante bilhete de identidade de Emil Cioran, nascido a 8 de abril 1911, em Rasinari (na Transilvânia romena). Como se sabe, este inclassificável escritor-pensador, em 1937, aos 26 anos, emigrou para Paris, onde passou o resto da sua vida, até à morte, ocorrida em 1995. Estrangeiro, portanto, para a sua pátria de origem, que riscara do seu registo pessoal, abandonando também a sua língua. Estrangeiro para a nação que o acolhera, por causa do seu constante isolacionismo: «Suprimi do meu vocabu-lário palavra atrás de palavra. Acabado o massacre, uma só permaneceu como excedente: Solidão. Acordei satisfeito.»

Estrangeiro, por último, para Deus, ele que era filho de um sacerdote ortodoxo. De tal forma estrangeiro que se inscreveu na «raça dos ateus», embora com uma insone ânsia de prossecução perante o mistério divino: «Sempre girei à volta de Deus como um delator: incapaz de o invocar, espiei-o.» Cioran, de facto, várias vezes se escondeu para armar emboscadas a Deus, obrigando-o a reagir e, portanto, a desvelar-se. Significativo é o diálogo que, à distância, entabulou com o teólogo Petre Tutea. Este não abandonou a sua pátria, apesar dos treze anos passados nas prisões de Ceaucescu, e ainda menos a sua fé, ao ponto de responder assim a Cioran: «Sem Deus, o homem permanece um pobre animal, racional e falante, que vem de nenhures e vai não se sabe para onde.» Na realidade, o seu interlocutor não era estritamente ateu nem agnóstico; chegou, de facto, ao ponto de sugerir aos teólogos uma via «estética» particular, para demonstrar a existência de Deus. Escrevia, assim, em Lágrimas e santos: «Quando ouvis Bach, vedes nascer Deus… Depois de uma oratória, de uma cantata ou uma “Paixão”, Deus tem de existir… Pensar que muitos teólogos e filósofos desbarataram noites e dias à busca de provas da existência de Deus, esquecendo a única!»

Cioran acusa o Ocidente de um delito extremo, o de ter esgotado e mirrado o poder fecundo do Evangelho: «Consumido até ao osso, o Cristianismo deixou de ser uma fonte de assombro e de escândalo, deixou de desencadear vícios e de fecundar inteligências e amores.» Este Qohelet-Eclesiastes moderno transforma-se, então, numa espécie de «místico do Nada», deixando entrever o tremor e o calafrio das «noites da alma» de certos grandes místicos como João da Cruz ou Angelus Silesius, remontando até ao desconcertante cantor do nexo Deus-Nada, o célebre dominicano medieval Mestre Eckhart. «Era ainda uma criança quando experimentei, pela primeira vez, o sentimento do nada, a seguir a uma iluminação que nunca conseguirei definir.» Uma epifania de luz obscura, poderíamos dizer com um oximoro empregue pelo Job bíblico.

 

Deus e o Nada

«Tem-se sempre alguém acima de si - continuava. - Para lá do próprio Deus, eleva-se o Nada.» Mas eis o paradoxo: «O campo visual do coração é: o mundo, mais Deus, mais o Nada. É tudo.» E é esta, então, a sua conclusão: «E se a existência fosse para nós um exílio e o Nada uma pátria?» O Nada - sempre por oximoro - torna-se o nome de um deus, decerto bem diferente do Deus cristão, embora, como Ele, pronto a acolher o mal de viver da humanidade. Escrevia Cioran, evocando a «psicostasia» do antigo Egito, ou seja, a pesagem das almas dos defuntos para a verificação da gravidade das suas culpas: «No dia do juízo, serão pesadas só as lágrimas.» De facto, no tempo do desespero, certas blasfémias declarava Cioran, na esteira de Job, são «orações negativas», cuja virulência é mais bem acolhida por Deus do que o comedido louvor teológico (a ideia fora já formulada por Lutero).

Cioran é, pois, um ateu-crente sui generis. O seu pessimismo, mais, o seu negacionismo concerne sobretudo à humanidade: «Se Noé tivesse o dom de ler o futuro, não há dúvida de que se teria feito afundar!» E aqui o Nada torna-se o simples nada, um aniquilamento vazio: «Adorar a terra e dizer que ela é o termo e a esperança dos nossos afãs, e que seria inútil buscar algo melhor para repousar e dissolver-se.» O homem faz-te perder toda a fé, é uma espécie de demonstração da não existência de Deus. É a esta luz que se explica o pessimismo radical de Cioran, que brilha já nos títulos das suas obras: O inconveniente de ter nascido, A tentação de existir, Nos cumes do desespero, Dilaceração, Silogismos da amargura e assim por diante. E, por vezes, é difícil não concordar com ele, ao contemplarmos não só a história da humanidade, mas também o vazio de muitos indivíduos que nada tem do trágico Nada transcendente: «De muitas pessoas pode afirmar-se o que se diz de certas pinturas, a saber, que a parte mais preciosa é a moldura.» Mas, felizmente - eis a grande contradição - existe, como se afirmou, também Bach…

 

Este texto, que integra o número 18 do "Observatório da Cultura" (novembro 2012), é uma pré-publicação do livro "Átrio dos Gentios" (ed. Paulinas).

A obra vai ser apresentada este sábado em Braga, no Museu Pio XII, durante o Átrio dos Gentios, plataforma da Igreja Católica para o diálogo entre crentes e não crentes que decorre naquela cidade e em Guimarães a 16 e 17 de novembro.

 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura
13.11.12

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Claude Monet (det.)

 

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