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A força revolucionária do único extremismo do Evangelho

Há um só extremismo eficaz, o único que pode ser admitido, ao mesmo tempo exclusivo e absolutamente incomparável: o extremismo da caridade. O papa Francisco, em Bari, neste domingo, apontou o caminho e pela segunda vez usou uma expressão poderosa que evoca a força revolucionária do Evangelho.

Já o tinha feito há três anos, na missa celebrada no Cairo, mas, evidentemente, não bastou. E agora repete, porque tudo pode mudar se esse extremismo se tornar prática quotidiana e normal não só para os crentes, mas para toda a comunidade internacional, perante a insanidade da guerra, dos conflitos esquecidos, das migrações, da economia que divide e mata.

O extremismo da caridade é capaz de repelir todos os outros: integralistas, identitários, soberanismos diversamente declinados, nacionalismos e, naturalmente, jihadismos.

Há extremistas da caridade que se tornaram testemunhas em todas as latitudes do mundo. Talvez não tenha sido por acaso que, no sábado antes de partir para Bari, Bergoglio autorizou o reconhecimento do martírio do P. Rutilio Grande, jesuíta morto com outros dois companheiros pelos esquadrões da morte em El Salvador. Pagou por ter sido um extremista da caridade.



Francisco repropôs o tema do choque de civilizações, que voltou a fazer prosélitos com a narração falsa da presumida invasão de povos hostis. E demonstrou que «o falhanço ou, em todo o caso, fragilidade da política e o sectarismo» são as primeiras causas de «radicalismos e terrorismo»



O mesmo com o P. Andrea Santoro, morto na Turquia, como o P. Dall’Oglio, desaparecido na Síria, quando exercia o ato supremo de caridade para com um povo que muito amou, como os dois bispos ortodoxos de Aleppo, também eles raptados no vórtice de horror e terror do conflito sírio.

Insensatos, loucos, homens de Deus que teriam podido seguramente salvar-se, e, pelo contrário, ficaram para testemunhar que a caridade não permite abandonar nem deixar para trás quem quer que seja.

No entanto, poucos fizeram como eles. Seguramente não se comportou segundo a lógica da caridade a comunidade internacional que esqueceu Idlib, a última cidade mártir no noroeste da Síria.

Bergoglio é o único líder mundial que fala, define o massacre que Idlib como «imensa tragédia», e esconjura, repetindo o que há mais de 40 anos tinha dito João XXIII, que a guerra é alheia à razão, porque é o resultado de opções más, de hipocrisias políticas, de raciocínios de ódio já escutados nos anos 30, que «a mim», sublinhou Francisco, «metem medo».

Em Bari, o papa resumiu, no discurso aos bispos do Mediterrâneo, na homilia da missa e nas palavras no Angelus, a análise que desenrola desde o início do pontificado, sobre os abismos do poder que arrastam no seu vórtice de interesses e de esquecimento quem pede ajuda, quem bate à porta dos ricos, quem perturba a rochosa autonomia de quem está bem e não quer maçadas.

Francisco repropôs o tema do choque de civilizações, que voltou a fazer prosélitos com a narração falsa da presumida invasão de povos hostis. E demonstrou que «o falhanço ou, em todo o caso, fragilidade da política e o sectarismo» são as primeiras causas de «radicalismos e terrorismo». Raciocínio demasiado claro, que perturba, porque ilumina. O primeiro extremista da caridade é Jorge Mario Bergoglio.


 

Alberto Bobbio
In L’Eco di Bergamo
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Idlib, Síria | D.R.
Publicado em 25.02.2020

 

 
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