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«Quantas coisas perdemos com a ira?» Papa fala da mansidão e diz que a terra mais bela é o «coração dos outros»

Na catequese de hoje detemo-nos na terceira das oito bem-aventuranças do Evangelho de Mateus: «Felizes os mansos, porque terão em herança a Terra» (Mateus 5,5).

O termo “manso” aqui utilizado quer dizer literalmente doce, brando, gentil, privado de violência. A mansidão manifesta-se nos momentos de conflito, vê-se na reação a uma situação hostil. Cada um poderá parecer manso quando tudo está tranquilo, mas como reage “sob pressão” se é atacado, ofendido, agredido?

Numa passagem, S. Paulo menciona a «doçura e a brandura de Cristo». E S. Pedro, por seu lado, recorda a atitude de Jesus na paixão: não respondia e não ameaçava, porque «se confiava àquele que julga com justiça». A mansidão de Jesus vê-se fortemente na sua paixão.

Na Escritura, a palavra “manso” indica também aquele que não tem propriedades terrenas; e por isso sensibiliza-nos o facto de a terceira bem-aventurança dizer precisamente que os mansos «terão em herança a Terra».

Na realidade, esta bem-aventurança cita o Salmo 37 (…). Também aí se colocam em relação a mansidão e a posse da terra. Estas duas coisas, se virmos bem, parecem incompatíveis. Com efeito, a posse da terra o ambiente típico do conflito: combate-se muitas vezes por um território, para obter a hegemonia sobre determinada região. Nas guerras, o mais forte prevalece e conquista outras terras. Mas observemos bem o verbo usado para indicar a posse dos mansos: eles não conquistam a terra (…), mas «herdam-na». (…) Nas Escrituras, o verbo “herdar” tem um sentido ainda maior.



Um momento de cólera pode destruir muitas coisas; perde-se o controlo e não se valoriza aquilo que verdadeiramente é importante, e pode-se arruinar a relação comum irmão, por vezes irremediavelmente



Essa terra é uma promessa e um dom para o povo de Deus, e torna-se sinal de algo muito maior e mais profundo do que um simples território. Há uma “terra” – permiti-me o jogo de palavras – que é o Céu, isto é, a terra para a qual nós caminhamos: os novos Céus e a nova Terra para a qual nós rumamos.

Então, o manso é aquele que “herda” o mais sublime dos territórios. Não é um cobarde, um “fraco” que se refugia numa moral de remedeio para ficar fora dos problemas. É precisamente o contrário! É uma pessoa que recebeu uma herança e não a quer desperdiçar. O manso não está acomodado, mas é o discípulo de Cristo que aprendeu a defender bem outra terra. Ele defende a sua paz, defende a sua relação com Deus e os seus dons, protegendo a misericórdia, a fraternidade, a confiança, a esperança. (…)

Aqui devemos mencionar o pecado da ira, uma moção violenta de que todos conhecemos o impulso. (…) Devemos revirar as bem-aventuranças e fazer-nos uma pergunta: quantas coisas destruímos com a ira? Quantas coisas perdemos? Um momento de cólera pode destruir muitas coisas; perde-se o controlo e não se valoriza aquilo que verdadeiramente é importante, e pode-se arruinar a relação comum irmão, por vezes irremediavelmente. (…)

A mansidão, pelo contrário, conquista muitas coisas. A mansidão é capaz de vencer o coração, salvar as amizades e muito mais, porque as pessoas enraivecem-se, mas depois acalmam-se, repensam e regressam ao seu caminho, e assim pode reconstruir-se com a mansidão.

A “terra” a conquistar é a salvação do irmão de que fala o próprio Evangelho de Mateus: «Se te escutar, terás ganho o teu irmão». Não há terra mais bela do que o coração dos outros (…), não há território mais belo a ganhar do que a paz reencontrada com um irmão. Essa é a terra a herdar com a mansidão.




 

Papa Francisco
Audiência geral, 19.2.2020 | Vaticano
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: sewcream/Bigstock.com
Publicado em 19.02.2020

 

 
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