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A urgência de uma conversão poética

No fim de novembro, o papa, regressando da viagem ao continente asiático, à pergunta sobre o que pode ensinar o Oriente ao Ocidente, responde prontamente: a poesia, é isto que falta ao Ocidente ao mesmo tempo tecnológico e perdido.

Dois meses depois, a 24 de janeiro, publica a mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, e coloca no centro da sua reflexão o tema da narrativa, partindo do facto de que o ser humano é um «animal narrativo»: a linfa que permite a boa circulação de uma pessoa, de uma comunidade, da sociedade, é a linfa das histórias, porque «para não nos perdermos precisamos de respirar a verdade das histórias boas».

Alguns dias a seguir, ao participar num congresso no âmbito do projeto do Pacto Educativo Global por ele fortemente desejado, afirmou que uma boa educação é aquela capaz de criar poetas. E, mais tarde, ao publicar o aguardado texto da exortação pós-sinodal “Querida Amazónia”, cita nada menos do que dezassete poetas, alguns conhecidos, como Pablo Neruda, todos provenientes da América do Sul. Dezassete poetas.

Estamos muito para além do teorema proposto por Agatha Christie, segundo o qual «um indício é um indício, dois indícios são uma coincidência, mas três indícios constituem uma prova»; por isso, talvez seja o caso de pararmos e refletirmos sobre aquilo que o papa nos está a dizer.

No seu trabalho de anúncio do Evangelho e de convite à conversão dirigido aos seres humanos do seu tempo, o papa Francisco está a apontar para uma particular “natureza” da conversão que ele considera urgente, precisamente a natureza poética.



É poeta aquele que serve e não se serve da realidade, que não tem a pretensão de a dominar, de a definir, porque a linguagem poética não explica a realidade, nem muito menos a dobra em função de um fim, mas desdobra-a



Ao lado das conversões que emergiram durante os trabalhos e, depois, no documento final do sínodo para a Amazónia – a pastoral, sinodal, cultural e ecológica –, há também esta outra conversão, para uma dimensão poética da vida.

É evidente, a partir de todos estes “indícios”, que se trata de um tema muito querido pelo papa Francisco, que sente com urgência a crise de um Ocidente dobrado sobre um horizonte exclusivamente produtivo, em que o perfil da eficiência prevalece sobre tudo o resto.

No seu tempo, já João Paulo II o tinha sublinhado na encíclica “O Evangelho da vida”: «O critério próprio da dignidade pessoal — isto é, o do respeito, do altruísmo e do serviço — é substituído pelo critério da eficiência, do funcional e da utilidade: o outro é apreciado não por aquilo que “é”, mas por aquilo que “tem, faz e rende”».

Contra o vírus da eficiência existe um antídoto que, para o papa, é a poesia, ou seja, a capacidade de ter um olhar grato e gratuito, livre e contemplativo para com a realidade, o mundo, os outros que, vistos com os olhos da poesia, se revelam como dons, e não como obstáculos à afirmação do ego.

Poesia é livre abertura à vida, contemplação do mistério da existência e narrativa da experiência que brota do impacto com a própria vida. É poeta aquele que serve e não se serve da realidade, que não tem a pretensão de a dominar, de a definir, porque a linguagem poética não explica a realidade, nem muito menos a dobra em função de um fim, mas desdobra-a, isto é, deixa que a realidade possa desdobrar-se em todas as suas possíveis direções.

Um poeta argentino caro ao papa, J.L.Borges, dizia que se pode definir um polígono, mas não uma dor de dentes, e que a essência da poesia é colher as coisas enquanto estranhas. O olhar poético vence o risco da “familiaridade” com as coisas, que leva a dá-las como adquiridas, e daí ao tédio, à tristeza e ao ressentimento.

A natureza da poesia, pelo contrário, radica-se no sentido da maravilha e conduz à liberdade porque nos recorda que a realidade do mundo e dos seres humanos não é um objeto de que possuamos o manual de instruções, mas é algo que deve suscitar o espanto.

Talvez, então, as únicas “instruções” admitidas no mundo da poesia sejam aquelas proclamadas por Mary Olivier, poetisa americana desaparecida em 2019, na sua breve lírica intitulada “Instruções para viver uma vida”: «Pay attention/ Be astonished/ Tell about it» (presta atenção/ admira-te/ conta-lo).


 

Andrea Monda
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Jorge Luis Borges | D.R.
Publicado em 21.03.2020

 

 
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